[Relato de Parto #2] Rita Matos Mães D'Água / Relatos




A decisão de ter a Julieta na água não foi tomada de ânimo leve, foi ponderada. Tão ponderada que decidi que só na hora seguiria o que o meu corpo e o instinto me pedissem.

Sabia o que queria, preparei-me, preparei o meu companheiro, preparei a minha mente, o meu corpo e o meu coração para receber o bebé mais desejado do mundo dentro d’água. A água, aliás, sempre foi o meu elemento, o elemento do meu signo. Sempre foi onde me senti bem, o que me alivia nas dores menstruais, que me ajuda a pensar, a reflectir, a relaxar. Onde me sinto plena.

E… uma vez que queria saber o que as minhas ancestrais passaram para dar origem à minha própria existência eu queria esse “parto com dor”. Queria sentir tudo em pleno, ter a força que elas tiveram! E principalmente queria que a minha bebé e eu não sofrêssemos as consequência da epidural.

Tive medo, sim.

Duvidava das minhas capacidades e o desconhecido assombrava-me, mas no fundo tinha a certeza que tinha uma guerreira dentro de mim (ou não teria eu “Guerreiro” no nome!). Tive uma gravidez tranquila, algo me soprava ao ouvido que iria correr tudo bem e foi esse sopro que me guiou naquela noite, e que me relaxou e me fez entregar ao momento maravilhoso que estava a viver.

IMG_1500O primeiro sinal que tive foi um sangramento, que me assustou pois estava apenas de 38 semanas e nunca pensei que pudesse ser já um sinal de parto. O “rolhão mucoso”começava a dar os primeiros sinais e como o sangue começava a ser cada ver mais abundante e acompanhado de algumas contracções irregulares, liguei para a saúde 24 e aconselharam-me a ser observada. Lá fomos nós rumo ao Hospital de São Bernardo. Fiz CTG, fizeram-me “o toque”, embora eu não estivesse muito de acordo com isso, estava assustada mas confiei no meu instinto, permiti.
O “Toque” não doeu e o médico que me observou foi bastante gentil, disse que estava tudo bem com a bebé e que ainda não era altura de ficar, visto que o sangramento era o “rolhão mucoso” e que o parto poderia demorar ainda dias ou mesmo uma ou duas semanas.

Voltámos para casa. Eu estava preocupada, perdi mais sangue e as contracções eram mais próximas, mas sempre irregulares e indolores. Tomei banho, repousei bastante e nesse dia mal sai do sofá. Fiz jantar, fui descansar, e por precaução, uma vez que o André (meu companheiro) saía para trabalhar, a minha irmã passou comigo essa noite.

Consegui descansar um pouco mas as contracções com dor começaram perto das 00h e eram cada mais próximas. Às 3h da manhã, ouvi um “TLOC” e senti algo quente dentro de mim. Acendi a luz e vi que estava toda molhada, o momento tinha chegado! Quase pulei de alegria, senti um grande alívio pois sabia agora que devia ir para a maternidade (estava já confusa com os tempos das contrações e sem saber o que fazer). As abençoadas águas foram para mim um sinal do Universo e sorri, senti-me sem medo e com coragem. A Ocitocina começava a tomar conta de mim e senti-me embalar (e que bom que era o embalo que sentia).

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Liguei ao André e ele voltou para casa, nervoso mas feliz. Escolhi uma roupa, tomei um banho… preparámos umas sandes juntos, uma pequena mochila com os pertences e seguimos para a maternidade. As contracções começaram por ser de 5 em 5 minutos e quando chegámos ao HSB já estavam de 3 em 3 m. Chegámos perto das 5h, fiz a triagem e subi para a maternidade, despedi-me do André com um “até já”, mas de lágrima no olho pois queria tê-lo comigo sempre, sentia-me desprotegida sem ele.

Assim que cheguei fui recebida com sorrisos, estavam mais mães a fazerem CTG na sala e encontrei uma rapariga que tinha conhecido quando fiz a visita à maternidade. Estava calma, senti-me integrada, sem medo e pensava: “vou-me deixar levar e será como tiver de ser”, sem grandes planos e expectativas mas sempre com a minha intenção de receber a Julieta NA ÁGUA presente na minha mente, e no meu coração.

Pensei muito na minha avó nessa noite e pedi-lhe que nos guiasse (ela era a estrelinha mais brilhante do céu naquela altura… tinha falecido há pouco tempo). Depois de observada e de me terem feito o CTG fiquei internada, estava já com 3 dedos de dilatação. Fui levada para um quarto, entreguei o meu plano de parto à enfermeira Cristina Madruga (que foi o meu anjo da guarda nessa madrugada).

Era minha intenção ir para o chuveiro com a bola de pilates e assim se concretizou o meu desejo. As contracções começavam a apertar e a incomodar cada vez mais mas assim que senti a água do chuveiro entrei num estado meditativo, perdi a noção do tempo e do espaço, e consegui concentrar- me apenas em nós as duas, em mim e na minha bebe. Falei muito com a Julieta e dizia-lhe que ia correr tudo bem, que íamos ser uma só neste processo.

Passado algum booooom tempo no chuveiro, lembro-me da enfermeira dizer “ai como ela já está”, com um tom encorajador e brincalhão. Entreguei-me nas mãos deste “anjo loiro” e sorridente que me disse “uau passámos de três dedos para oito, vou já preparar a piscina”. Eu vacilei, o medo do desconhecido apoderou-se de mim e por instantes hesitei. Aqui o papel da condutora deste processo foi fulcral quando disse “mas com oito dedos em meia hora a moça está cá, vamos lá ver se temos tempo de encher a piscina!”. Depois destas palavras senti “um bicho” dentro de mim e uma força que nunca pensei ter, deixei-me levar pelo meu instinto nas mãos daquele “anjo loiro”.

Comecei a sentir cada vez mais vontade de fazer força, tentei repousar na marquesa mas fui para o chão e fiz força de cócoras. O André chega e abraçamo-nos como se não nos víssemos há semanas! Se me sentia corajosa, mais fiquei! E lá seguimos rumo às “águas”.

A piscina estava pronta e a sensação ao entrar dentro dela foi tão boa que chorei de alívio e de prazer. Nunca pensei que as dores se dissipassem e me sentisse tão bem dentro de água naquele momento. Fiz força vários vezes, comi gelatina, bebi chá, sai da piscina, fui ao wc, voltei a entrar… entretanto as duas horas do protocolo estavam no fim (este é o tempo que o HSB determinou ser o limite para o uso da piscina no parto) e as contracções estavam a espaçar… Foi-me feito um novo “toque” e vimos que a Julieta não estava a descer devido a uma fractura que tenho no cóccix e que provavelmente estava a fazer efeito “iô-iô”, descia, batia no cóccix e subia novamente.

Tive de sair da água.Chorei. Desanimei, senti que o meu plano não resultava.

Estava com frio, as dores voltaram em força e fui assaltada mais uma vez por esse medo do desconhecido e por um grande cansaço.
O André tentava animar-me, dizia-me que a Julieta ia ter o meu nome (Guerreiro) por a mãe dela ser uma mulher bélica. Estas palavras ajudaram, fomos juntos para a sala de partos.

Voltei para a marquesa, fui vista e tocada por uma obstetra que deu indicação para me administrarem ocitocina sintética para acelerar as contracções. A Julieta tinha de nascer nem que fosse com a ajuda de ventosas… Depois de algum desespero e de me sentir a desistir e a perder as forças, comi alguma coisa, bebi água e comecei a sentir novamente muita vontade de fazer força.

A ocitocina começava a fazer efeito e ao fim de umas três “forças valentes” nasceu o maior tesouros das nossas vidas. Assim que ela nasceu, senti-me “apagar”, ouvia a voz do André lá ao longe dizer “ela é tão linda, olha a nossa filha” mas só “acordei” quando senti o seu corpinho quente e macio em cima do meu peito. Aí chorei, ri, beijei-a, senti o seu cheirinho! Contemplei a minha filha linda, com umas bochechas gorduchas e os olhos rasgados e inchados. Nem sabia como falar do que estava a sentir, era um misto de emoções, mas todo o cansaço desapareceu e senti-me Guerreira, uma Deusa! Muitas coisas me passaram pela cabeça naquele instante, ela não tinha nascido como queria… mas no fundo já nada interessava, senti grande alívio.

Eu e a Julieta somos Guerreiras! E ela recebeu o “Guerreiro” no seu nome tal como o pai prometeu, como uma homenagem à nossa força e coragem.

Rita Matos | Mais uma Mãe D’Água
Parto hospitalar, HSB com a assistência da Enfermeira Parteira Cristina Madruga, Setubal, 2014.





Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.

  • Diana

    Adorei…até chorei…que todas as mulheres possam ser respeitadas, deusas, guerreiras nestas horas. Que todas tenham o direito de escolher e de sentirem poderosas. Grande mãe, pai, e profissionais de saúde.

    🙂 Di

  • <3 muito, muito gratas Di pela mensagem de apoio!
    Carinho das mães d'água!