Bárbara Harper – “Tirem as camas das salas de parto” Artigos

Reconhecida ativista do parto na água, Barbara Harper defende sobretudo os partos “imperturbados”, expressão que usa para chamar aos partos sem intervenções desnecessárias. Em entrevista à Pais&filhos, explica como o nascimento pode mudar a humanidade.




Todos os bebés devem nascer na água?
Não. A água deve ser uma escolha, uma opção. E, mesmo que alguém planeie um parto na água durante dez anos, pode acontecer-lhe entrar na água e não gostar. Os estudos mostram que cerca de 60 por cento das mulheres que têm o seu primeiro bebé vão sair da água antes da fase de expulsão e o mesmo acontece em cerca de 20 ou 25 por cento dos partos de segundo filho.

Saem da água porque há algum problema?
Por surgir algum problema ou apenas por opção. Algumas mulheres sentem que têm de ter os pés no chão para dar à luz ou a parteira pode pedir à mulher para sair da água para monitorizar o batimento cardíaco do bebé. Existem CTG à prova de água, mas a maior parte das vezes a parteira ouve o batimento cardíaco do bebé de forma intermitente. À mínima dúvida pedimos à mãe para sair da água. Não corremos riscos para lá do parto fisiológico. Se o parto permanecer fisiológico, a mulher pode ficar na água, pode ter o bebé na água, pode parir a placenta na água e o bebé pode começar a mamar dentro de água. Depois, podem ir para a cama. Quando fundámos a Waterbirth Internacional, em 1988, a nossa missão ficou designada como: “Nós asseguramos que o parto na água é uma opção válida para todas as mulheres em todos os lugares”. Como atingimos esse objetivo? Através da educação.

Das mulheres ou dos profissionais de saúde?
De toda a gente. Mas maioritariamente dos profissionais de saúde. Se as mulheres pedem um parto na água como vão eles fazer se não sabem fazê-lo? E eu já vi partos na água horríveis no Youtube porque os profissionais de saúde não sabiam o que estavam a fazer.

O que faziam de errado?
Muitas intervenções. Conduziam o parto na água como se fosse na cama. A vantagem da água é que não é preciso usar as mãos. A água é as mãos. A água suporta o períneo e segura o bebé quando sai do útero. Quando o bebé está com a cabeça de fora não é preciso puxá-lo para fora.

Na água ou em qualquer parto?
Em lado nenhum. Ninguém precisa de puxar os bebés para fora da vagina. Então porque existe esta prática de os obstetras e enfermeiros puxarem os bebés?
Porque os médicos e enfermeiros estão treinados para fazer alguma coisa. Mas tudo o que temos de fazer é apoiar a mulher para que ela deixe o bebé sair. O bebé está programado biologicamente e neurologicamente para nascer. Ele sabe a melhor forma de sair. Se esperarmos que o bebé faça a rotação e a expulsão, ele sai sozinho.

Há sempre o medo de o bebé ficar muito tempo com a cabeça de fora e isso gerar problemas. Quanto tempo pode o bebé estar assim?
Na água, quase indefinidamente. No ar, a iniciação da respiração começa quando o rosto é exposto à gravidade. Mas a placenta continua a suportar o bebé com oxigénio e nutrientes, por isso não há qualquer problema. Um parto fisiológico inclui a placenta manter-se ligada ao bebé até sair. Neurologistas, cardiologistas, fisiologistas confirmam os benefícios de deixar a placenta nascer antes de ser separada do bebé.

E quando se corta o cordão?
Uma hora depois. Não há pressa. Não é preciso cortar o cordão. Enquanto estiver ligada ao bebé, a placenta é um backup de oxigénio. É como estar debaixo de água e ter uma garrafa de oxigénio nas costas. A placenta contém mais de 40 por cento da irrigação sanguínea do recém-nascido e, assim, o sangue volta da placenta para o bebé, tornando-o muito mais saudável.

E não chega esperar três ou cinco minutos?
Não há uma razão fisiológica para cortar o cordão antes de a placenta sair. E a melhor razão para não cortar o cordão é porque assim o bebé não pode ir a lado nenhum. Ninguém o pode levar. Demora cerca de 40 minutos até a placenta sair e, nesse período, a mãe pode estar com o seu filho ao colo. É assim que a natureza funciona. Pode cortar-se o cordão aos cinco minutos e já é bom, mas quando a placenta passa na vagina é espremida e transfere ainda uma última dose de sangue para o bebé.

E nessa altura podemos cortar o cordão?
Mas não é um ato importante. Não tem qualquer benefício para o bebé cortar o cordão.

Quais são os maiores benefícios de um parto na água?
Para a mãe é uma total liberdade de movimentos e controlo sobre o parto. Ela pode seguir as indicações do seu corpo. Enquanto o bebé se vai movendo através da pélvis da mãe está a dizer-lhe as diferentes posições que a mãe precisa de adotar para ele descer. Reduz a quantidade de hormonas relacionadas com o medo, tais como adrenalina e outras catecolaminas. Por outro lado, aumenta o nível de ocitocina e endorfinas. É por isso que algumas pessoas chamam ao parto na água aquadural. Aumenta o conforto, faz a mulher sentir-se segura e dá-lhe a possibilidade de seguir as indicações do corpo.

E quais são as vantagens para o bebé?
Para o bebé, lá dentro está num ambiente aquático e quando passa da vagina para o ambiente aquático da piscina é uma transição mais fácil. O bebé pode flutuar, começa a mexer os seus membros lentamente, abre os olhos e não há possibilidade de o bebé respirar enquanto está na água. É uma impossibilidade fisiológica. É um parto muito suave. Os estudos mostram que os bebés que nascem na água têm um Apgar melhor, uma transição mais suave do útero para o mundo e uma vinculação mais forte com a mãe. Estudos mostram também que os bebés têm menos infeções à nascença porque a água protege o bebé de infeções.

Ainda há muita preocupação em esterilizar o ambiente no parto…
O parto não é um evento esterilizado. A vagina não é um ambiente estéril. O bebé precisa de ser exposto aos germes e bactérias da vagina da mãe para poder ter um sistema imunitário saudável. Quando o bebé sai do útero para a água mantém-se no ambiente da mãe. Os bebés têm mais probabilidades de contraírem infeções se nascerem numa cama porque estão expostos às bactérias de toda a gente.

O que pode correr mal no parto na água?
A pior coisa que pode acontecer é a mãe estar numa má posição. Se ela estiver deitada dificulta a descida do bebé. Outra coisa que pode correr mal são as intervenções a que os profissionais de saúde sujeitam as mulheres. Fazem-nas para prevenir problemas, mas acabam por causar outros problemas. Dar drogas, epidural ou outros narcóticos, e ocitocina artificial é mau para os bebés. E estamos a usá-las em todas as mulheres sem que tivessem sido feitos estudos sobre os seus efeitos a longo prazo. Pelo menos, com o parto na água fazemos estatísticas. E as estatísticas são maravilhosas. Hoje em dia, temos parto na água em meio hospitalar em 93 países de todo o mundo. Posso falar das estatísticas da Islândia, Argentina, Brasil, França, Alemanha… Todos os países da União Europeia já têm parto na água.

Mas Portugal… Portugal tem um hospital [Hospital de São Bernardo, em Setúbal] com parto na água. Mas estão em risco de acabar. Como acha que vai ser o futuro do parto na água em Portugal?
Acho que cada vez mais mulheres – e artigos como esta entrevista ajudam – vão querer, pelo menos, investigar, sobre o parto na água. Primeiro as mulheres têm de pedir partos na água e depois os profissionais de saúde têm de ter formação sobre parto na água.

Qual é o maior inimigo de um bom parto?
A atitude. Da mulher e do profissional de saúde. O parto acontece entre as orelhas. Está tudo na cabeça. Se a mulher pede para atrasar o corte do cordão umbilical, se pede para ter o seu bebé no colo, para ter o marido ao lado, para ter uma doula, etc. o profissional de saúde não pode dizer “esta é a forma como sempre fizemos” ou “foi assim que me ensinaram e não vou mudar”. As salas de parto estão desenhadas a pensar apenas na conveniência dos profissionais de saúde. Estive recentemente num hospital na China, onde me pediram para ajudar a desenhar salas de parto e tirámos a cama dos quartos. Depois de terem o bebé, as mulheres vão para a enfermaria e lá têm camas. Durante o trabalho de parto, as mulheres podem estar de gatas, de joelhos, como quiserem. Os profissionais deste hospital constataram que o tempo do trabalho de parto foi reduzido para metade. De uma média de 12 horas passou para uma média de seis horas só por se ter tirado a cama do quarto. Tirem as camas das salas de parto!

O parto na água é melhor no hospital ou em casa?
Nos dois sítios. Se os profissionais de saúde do hospital estiverem treinados para serem os guardiões. Guardiões da mãe, guardiões do bebé, guardiões do processo… Assim, as possibilidades para a mulher são infinitas. Ela pode dar à luz da forma que o seu corpo, as suas emoções e o seu bebé indicarem. Os guardiões, que devem ser o obstetra, a parteira, enfermeira, estão lá para intervir apenas quando necessário. É o melhor trabalho do mundo, somo pagos para não fazer nada (risos). O parto na água no hospital pode ser uma experiência muito sagrada. Desde que seja um parto imperturbado. Não lhe chamo parto natural ou normal. Prefiro chamar-lhe parto imperturbado. A água favorece isso, porque a água é, ela própria, uma guardiã. Eu não vou entrar na água com a grávida. A água fica assim a ser o seu espaço sagrado.

E em casa? Também é seguro?
Sim. A segurança está na confiança da mãe, na confiança do pai e na capacidade do profissional de saúde em perceber quanto intervir e quando não intervir.

Existe muito medo à volta do parto…
Eu sei porquê. Porque todos nascemos e lembramo-nos. A memória está na estrutura das nossas células. Existe como uma película à volta de todo o nosso corpo. E às vezes essa memória vem ao de cima. Com respirações, massagens, reiki, etc. E toda esta geração, a partir dos anos 50, nasceu e foi separada da mãe. A nossa biologia foi violada e isso cria medos. Temos essa memória nas células. Quando o parto avança, a respiração lenta e profunda, muitas vezes, traz-nos estas memórias e é quando entramos em pânico, porque foi esse o sentimento que tivemos quando nascemos e fomos separados das nossas mães. O parto pode ser horrível, porque perpetuamos este mito de que as mulheres são incapazes e que os recém-nascidos são seres inanimados que temos de reanimar. Não! Não! Quando o bebé começa a respirar sozinho, devemos pô-lo onde é suposto estar: em contacto com a mãe. O bebé tem um programa neurológico no cérebro que lhe diz: “Eu tenho de nascer, sei como fazê-lo e é assim que vou fazer. Depois de nascer tenho de juntar-me à minha mãe e aí sei como comportar-me”. Não tem nenhum programa que lhe diga como proceder num berço, numa cama ou numa cadeira-auto. Não há nenhuma razão fisiológica, mesmo no caso de um bebé doente, para separar mãe e filho à nascença.

E o que pode acontecer se o recém-nascido for separado da mãe?
Essa separação causa um trauma que produz suscetibilidades cerebrais. São sementes de doenças crónicas como hipertensão, diabetes, doenças cardíacas, adição. Eu sei que isto é um conceito muito difícil de compreender para várias pessoas, mas está tudo estudado. Durante nascimento, o cérebro cria uma mensagem que se mantém para a vida. Se o bebé nasce e vai para o berço, as suas emoções vão dizer-lhe: “Eu não mereço; Eu não sou bom o suficiente; Não tenho valor”. Mas se o bebé for para o colo da mãe, o seu programa natural vai funcionar e os seus pensamentos serão: “Eu consigo; Sou maravilhoso; Sou totalmente aceite e amado”.

É uma diferença para vida?
Sim. Isto é confirmado por psicólogos e neurologistas. A programação do cérebro evolui de forma diferente consoante o bebé vai ou não para o colo da mãe assim que nasce. Temos imagens de ressonância magnética que mostram que quando o bebé nasce e é posto no colo da mãe a amígdala, que faz parte do sistema límbico, acende. Não gosto que tenham posto os recém-nascidos em exames, mas… Nos bebés que não estão no colo da mãe, a amígdala não é ativada. A amígdala é a semente da inteligência emocional. Se não funciona não há empatia, nem compaixão, a criança pode tornar-se num bully, num agressor. Porque o mundo está a acontecer-te, não te sentes parte do mundo.

Não é assustador dizer a uma mãe que se o seu bebé for para o berçário vai ser uma pessoa má?
Pode dizer-lhe que assim que recebe o seu bebé, fique com ele, nu, pele com pele. E deixe o bebé vincular-se. Nunca é tarde para mudar o padrão. Não é a mesma coisa, mas nunca é tarde. É por isso que eu faço terapia com os bebés que nascem por cesariana e com as suas mães. Recrio o parto sem que o bebé seja separado da mãe. Já vi bebés de oito meses encontrarem o peito sozinhos e revincularem-se. Já vi crianças mais velhas a fazerem isso. Nunca é tarde demais para reprogramar o cérebro. Mas é mais fácil criar uma criança da forma correta do que fazer terapia mais tarde.

Que conselho pode dar às mães que vão ter um bebé em breve?
Se só puderem mudar uma coisa no parto, insistam para que o seu bebé não saia do seu colo pelo menos nas três primeiras horas a seguir ao nascimento. Se o bebé precisar de vacinas pode levá-las no seu colo, se for preciso tirar a temperatura também pode ser no colo, é possível ouvir o coração do bebé no colo da mãe. Se o bebé estiver no colo da mãe não vai chorar, porque é para isso que ele está programado. Este gesto vai mudar a humanidade para sempre. E não custa nada, não é preciso equipamento extra, nem formação especial.





Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.