Hugo Lima [O parto pelos olhos do Pai #1] Na Voz do Pai / Relatos




A ideia de a Jasmim nascer de parto natural no conforto do seu lar surgiu naturalmente e foi desde o início a nossa opção, ambos concordando que seria uma experiência mais positiva para todos.

Naturalmente que durante os nove meses houve dúvidas e inseguranças. Um dos nossos medos era o parto (por eventuais complicações) ter de ser encaminhado para o hospital. Perderíamos a intimidade, tão desejada, e um lugar estranho, rodeado de pessoas estranhas, estava longe do que idealizámos.

O parto é um evento natural e se a mulher e o bebé estão bem, numa gravidez de baixo risco, o processo segue o seu curso, naturalmente. Foi sempre nisto que acreditamos e que nos deu confiança. A medicina e os instrumentos evoluíram e de tais tiramos partido até ao momento do parto. Fizemos os exames e as análises, procedimentos não invasivos que consideramos úteis para nos proporcionar segurança nesta opção.

Participamos nas aulas habituais de preparação para o parto. Frequentamos também o curso da Marta Lima sobre o nascimento consciente e hipnonascimento. Um curso que recomendo pois consciencializa o casal sobre o trabalho de parto, todos os procedimentos habituais e os seus direitos. Um curso que Informa e dá uma enorme confiança e orienta para as melhores opções, mais humanizadas, seja em parto domiciliar ou hospitalar.

 

Pesamos muitas vezes os prós e contras da nossa escolha… receávamos a falta de privacidade, os procedimentos hospitares a que a mulher e o bebé são habitualmente submetidos (onde, em alguns casos, se atinge um elevado grau de violência física e psicológica). A falta de conhecimento, ou a vulnerabilidade do momento, fazem com que a mulher assuma tais procedimentos como parte do processo e de que “tem que ser”. Mas nem sempre tem!

Para além de maiores riscos de infecção e exposição a todas as matérias próprias destes ambientes, carregados de doenças e medos. O parto não é patológico, mas sim fisiológico, a gestante não é um doente e sim alguém pleno de saúde, preparada para gerar e trazer mais um ser humano ao mundo. E não há um tempo de parto estipulado, não há prazos a cumprir, cada parto é um parto dure ele minutos ou dias.
Felizmente esta falta de humanização não acontece em todos os hospitais e como em tudo, existem bons e maus profissionais. Tínhamos algumas boas referências caso nos fosse indicada uma gravidez de risco.

Mas por muito humanizado que o hospital pudesse ser, nenhum nos proporcionaria o mesmo conforto e intimidade que o nosso lar. Onde o tempo não é contado, mas sim vivido. Vemos o nascimento do bebé como um momento delicado. Esteve meses naquela condição e será de um momento para o outro exposto a uma série de factores: luz, temperatura, ruído, espaço… queríamos que esta passagem fosse suave, sem pressas para que a adaptação do bebé não fosse um choque.

A “expulsão” em si durou somente segundos mas desde o primeiro contacto com o bebé até cortar o cordão umbilical terão passado algumas horas. Um longo momento, ao qual não retiraríamos um segundo.

Parto-Jasmim-hugo-lima

“Jasmim – parto domiciliar” por Hugo Lima

Escolhemos a Razãodser e as enfermeiras parteiras Sónia Barbosa e Isabel Ferreira para nos acompanharem neste momento. Ao final do dia, numa altura em que as contrações estavam espaçadas por apenas 3 minutos, saí com a Letícia para um passeio, algo que acreditamos ter sido importante para o que se seguiu.

As contracções intensificaram, surgiram sensações intensas que se prolongaram talvez por quatro horas tendo-se, então, iniciado o processo de expulsão. Do momento em que vimos a cabeça surgir até o bebé sair foram segundos. Um alívio para a mãe e um momento de muito medo para mim que, apesar de estar bem informado, parecia ter esquecido tudo o que havia aprendido.

A Jasmim antecipou-se e surpreendeu-nos nascendo mais cedo do que o previsto. Foi assim um parto a dois ao comando da Jasmim que ansiava por sair. As parteiras chegaram uns dois minutos depois e apoiaram a partir dali, estávamos exaustos e foi muito importante a ajuda extra para desfrutarmos tranquilamente e com segurança o momento.

Nasceu pelas 4h e a madrugada prolongou-se até de manhã. Sem pressas, observamos cada gesto e necessidade da bebé. Logo após nascer percorreu o corpo da mãe em busca do mamilo, demos-lhe tempo para o encontrar e aprender a mamar. Aguardamos pela placenta que terá saído uma hora depois e deixamos o bebé conectado pelo cordão umbilical por mais algumas horas para recuperar o seu sangue e para uma suave despedida do lugar onde se gerou.

Já pela manhã foi medida e pesada, o suficiente em procedimentos, com suavidade e respeito. Sem aspirações, lavagens, injecções e outros procedimentos agressivos para um recém nascido.

Finalmente adormecemos os 3 na cama, pele com pele.

Ao despertar estávamos os 3 juntos, na nossa cama, no nosso lar e esta foi uma das razões que nos levou a esta opção. A Letícia já caminhava tranquilamente pela casa, mãe e bebé estavam de óptima saúde. A Jasmim vai ter uma irmã ou um irmão em Setembro e só desejamos que tudo decorra como com ela decorreu e que seja tão saudável quanto ela.

Palavras que me enviaram e que resumem aquilo em que acredito:

“O parto é um acto natural e não um acto médico. Cada vez mais o parto vive de procedimentos, aparelhos, cortes e toques. Não se espera pelo momento certo, não há tempo. Não se abrem barrigas sem ser um caso de vida ou morte. Não se cortam mulheres sem esperar o que tiver de ser. Não se tiram bebés do peito da mãe para lavar, medir, pesar… Não se corta o cordão umbilical antes deste parar de latejar. Tudo tem um tempo e a natureza é perfeita.”

 

Hugo Lima, pai e fotógrafo

podes ver mais sobre o trabalho do Hugo AQUI.



Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.