[Relato de Parto #3] Susana Parreira Mães D'Água / Relatos

Sou Mãe D’Água e quero relatar o meu primeiro parto comparando com o segundo, pelo fato do primeiro ter sido um “cocktail de intervenções” (provavelmente sem real necessidade), e o segundo ter decorrido pacificamente dentro d´água.

Como começar? Assim como desde cedo sabia que queria casar-me e ter filhos, também sabia que gostaria de ter um parto natural, preferencialmente dentro d’água.

Aos 24 anos engravidei da minha primeira filha. Na época, 2012, ao pesquisar descobri que não havia nenhum local na Ilha da Madeira onde fizessem um parto na água. Hoje sei que seria possível tê-la em casa mas tal hipótese não se colocou para mim.

Durante a gravidez devo ter feito mais perguntas do que estão habituados os médicos e enfermeiros porque me lembro de uma vez em que, após tantas respostas evasivas do meu médico, levei um “raspanete” do meu pai e marido porque supostamente fui “demasiado insistente, beirando a teimosia!”, diziam. Mas eu penso assim: afinal quem é que vai parir, aqui? Sou eu ou o médico? Tenho todo o direito de saber sobre os procedimentos e protocolos do local para onde vou, certo? E se não me respondem com clareza é óbvio que não fico satisfeita!

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Apesar da escolha de um parto na água não ter sido possível a água esteve presente durante a gravidez com aulas de preparação aquática. Penso que não há nada melhor para trabalhar os músculos e ao mesmo tempo relaxar como numa água quentinha! Entretanto o dia do parto chegou, com contrações irregulares. Cheguei ao hospital: toque e CTG…1cm de dilatação, várias contrações. Disseram-me para ficar por lá. Sabendo que a água aliviaria as dores – que já sentia fortes – pedi para usar o duche e bola de pilates, o que me foi concedido. Penso que por lá fiquei durante uma hora ou mais e nesse meio tempo perdi a conta das vezes que uma enfermeira veio perguntar-me se iria querer epidural, ao qual eu respondia sempre que não sabia. Como poderia saber? Iria depender de tantas variáveis… Até ali, com a água quente a escorrer pelas minhas costas, eu estava muito bem, obrigada.

Entretanto novo toque, sem evolução. O obstetra decidiu acelerar o processo com oxitocina, mesmo contra o meu pedido de o evitar. Com isso veio o CTG continuo e a impossibilidade de me movimentar como bem entendia. As contrações que tinham estado mais ou menos de 5 em 5 minutos evoluíram rapidamente para de 1 em 1, com apenas 10 segundos de separação entre elas. Ao fim de meia hora eu mesma pedi um toque, precisava saber como estava. A enfermeira, apesar de um tanto relutante porque segundo ela deveria ainda estar atrasado (ainda há meia hora atrás eu só tinha 1cm) constatou surpresa que já tinha 4cm e fui conduzida a sala de partos. Como teria que ficar deitada, com oxitocina e soro, decidi epidural. Devo dizer que a anestesista deveria ser uma “verdadeira profissional” porque conseguiu dar a epidural a alguém que tremia como varas verdes – tenho pavor a agulhas! – e sem eu sentir absolutamente nada.

De fato, daí a nada não sentia mesmo nada… até as pernas ficaram dormentes. No entanto não me sentia feliz… sentia que estava ali a fazer tempo, que não tinha real papel naquilo tudo. Após quatro horas  – com intervenções pelo meio como o rompimento da bolsa – comecei a sentir uma leve necessidade de fazer força mas na realidade não conseguia bem saber como fazer ou conduzir essa força. As minhas pernas continuavam dormentes. Uma hora se passou até que a enfermeira decidiu chamar o obstetra para realizar um parto por ventosa. O meu marido teve que sair e vi-me de repente totalmente sozinha, com pessoas que eu nunca tinha visto na vida. Um desespero tomou conta de mim e, apesar de fisicamente não estar a sofrer, só queria que tudo terminasse.

Quando a minha filha nasceu, nem senti. Não falo só fisicamente, mas também emocionalmente… parecia que toda eu estava anestesiada. Um momento que eu pensei que iria ser mágico foi simplesmente um punhado de procedimentos, um parto presenciado por pessoas que eu não havia escolhido. Sentia-me tensa, nervosa, quase traída, tanto que ao longo dos 30 minutos de sutura da episiotomia deixaram a minha filha sobre mim, na tentativa talvez de que isso me acalmasse…

Já no recobro só queria que me deixassem em paz para conseguir dormir e esquecer o dia. No entanto precisei de um comprimido para relaxar, a cada momento que estava quase a cair no sono acordava sobressaltada, com o coração acelerado e uma leve falta de ar. No dia seguinte estava com um ar péssimo, segundo o meu marido “parecia que eu tinha sido atropelada por um camião” (ele teve o bom senso de me dizer isso apenas tres anos após o parto, o que provavelmente lhe valeu a vida!). Mas não, não senti dores terríveis nem o parto foi um pesadelo, nem muito menos fui maltratada, apenas achei que poderia ter sido muito melhor se eu tivesse tido o apoio certo. O pós-parto também não foi fácil, cheguei mesmo a ter início de depressão.

Por isso quando em 2015 escolhi ter um segundo filho estava decidida a ter um parto totalmente diferente, onde pudesse estar acompanhada pelas pessoas certas e tivesse uma parte ativa no processo. E o melhor de tudo é que já faziam partos na água na cidade onde moro!

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No entanto confesso que a minha confiança ficou abalada… se antes de ter a primeira filha tinha a certeza que conseguiria um parto natural, do segundo parto fiquei com receio… medo da dor, medo de tudo correr ao contrário do que eu queria, medo de que “não conseguisse fazer a dilatação”, medo que não conseguisse fazer “a força certa” novamente… Durante alguns meses da minha segunda gravidez fiquei num limbo, sem saber ao certo se ia para a clinica onde era possível um parto na água ou simplesmente ficava em casa até iniciar o trabalho de parto e seguia depois para o hospital. O meu sonho era o parto na água, claro! Mas o receio de falhar, de estar a pagar (não tenho seguro de saúde) por algo para acabar de novo num parto instrumentalizado, era forte em mim. Entretanto fui convencida a fazer um curso de hypnobirthing. Ajudou-me a relaxar sobre o assunto e acabei por decidir que ia tentar, não ia deixar que os meus receios me impedissem de tentar algo com que sempre tinha sonhado.

Os meus filhos são muito “pontuais”, e tal como aconteceu com a primeira filha, chegou a data prevista do parto e com ela as contrações. Durante 7h foram irregulares e leves até que começaram a suceder-se de 5 em 5 minutos e depois de 2 em 2 minutos, mais intensas e longas. Quando cada uma já durava mais de 60 segundos decidi acordar o marido e ligar para a enfermeira-parteira. No entanto algo me dizia que ainda não estava na hora e apesar da parteira ter dito para ir o quanto antes para a clinica, decidi tomar um demorado duche com agua bem quente. Ai a água! Simplesmente fantástica sobre o ventre contraído!

Pelas 10h da manhã chegamos à clinica. CTG e toque. 1cm de dilatação… foi como se tivessem jogado um balde de agua fria em mim e sim, eu sabia que tudo poderia mudar de um momento para o outro, mas lá vieram, em avalanche, todos os meus receios… E como podia eu só ter 1cm quando as ondas já eram tão fortes? Senti-me à beira das lágrimas. Só pensava que tudo se iria repetir como da primeira vez. Neste momento o apoio da parteira e do meu marido, a confiança que mostraram que tudo iria correr bem, foi o que me valeu. De qualquer forma eu precisava de sentir que tinha o controle da situação e por isso assegurei-me de que caso eu quisesse o anestesista estava por perto. Não é que na realidade eu pretendesse a epidural mas sentia a necessidade de saber que poderia escolhe-la a qualquer momento. Isso confortava-me.

Decidi ficar na clinica e fui levada para o quarto onde já preparavam a piscina para o parto. Lembro-me de pensar  – ou será que disse em voz alta? – que aquilo era tudo uma perda de tempo, que se calhar ia mesmo pedir epidural e pronto. Sim, fui apanhada por uma onda de negativismo. Entretanto sentia meu estômago a revirar e conclui que era… fome. Sabem aquela frase cómica que diz “quando sentir um enorme vazio dentro de você vá comer que é fome?”, pois bem, foi mais ou menos isso. Serviram-me chá com bolachinhas e entre uma contração e outra lá fui comendo enquanto rebolava na bola de pilates. Ao fim de um tempo já não sabia bem em que posição colocar-me para sentir maior alívio e decidi então ir para o duche novamente… antes de lá chegar deitei cá para fora o que tinha comido. E não diz o velho ditado que “parto vomitado, parto acelerado”? Pois é. Entrei no duche na mesma, saboreando novamente a agua sob o ventre e costas. Entretanto o obstetra chegou, segundo toque, apenas 1h após o 1º, 5cm de dilatação. Eu não queria acreditar! Fiquei tão feliz, quase em lagrimas (desta vez de alívio). Colocaram a música que eu tinha escolhido e acenderam algumas velas no ambiente escurecido. Lamento não ter levado pétalas de rosa, acredito que teriam ajudado a relaxar ainda mais. A piscina estava agora cheia e eu só queria ir lá para dentro. Confesso que talvez estivesse a espera de algo mais “potente” contra as dores, por isso comentei um tanto irritada “olhem que isto não ajuda assim tanto!!”. Mas na realidade ajuda sim, a relaxar e a movimentar-nos com mais leveza. O marido entrou junto, afinal precisava do meu “massagista” por perto (a cada contração pedia – ou talvez, com o meu temperamentozinho, exigia – que fizesse movimentos rápidos sobre a zona lombar… agora imaginem fazer isso quase sem interrupção? Haja braços!).

As contrações tornaram-se mais fortes, de fato de repente fiquei sem intervalo entre elas… ora vinha uma mais forte e logo a seguir uma mais fraca, mas sempre continuas. Tive novamente a necessidade de confirmar que o anestesista estava por perto, não fosse aquilo demorar horas. Na minha cabeça pensava “se eu já sinto tudo isto antes da fase de transição, o que sera na dita cuja?” Pensando nisso, ao fim de meia hora, eu mesma pedi um toque… não queriam fazer, diziam não ser necessário, mas chamem-me de doida, EU precisava saber em que ponto estava! 7cm. Início da fase de transição. Estranhamente, ao contrário do suposto (afinal dizem que é aqui que as mulheres costumam ficar com duvidas) foi aí que deixei de as ter. Sim, eu iria conseguir! Mais meia hora passou-se e ainda reclamei por não haver um comprimido mágico que pudesse atenuar as ondas constantes, mencionando “nem que fosse só por uns minutos”. Não sei se alguém ouviu as minhas preces, mas subitamente, entre uma contração e outra passaram-se 4 minutos. Nesse meio tempo percebi o quão cansada estava, tinha ficado acordada quase a noite toda, o sono era grande. Foi extremamente relaxante encostar a cabeça à borda da piscina e fechar os olhos. Não dormi, nem cochilei sequer, porque havia muita adrenalina em mim para isso (e nesta hora admito que nem as visualizações do hypnobirthing me valeram). Em nenhum momento senti-me “noutro mundo” como algumas mulheres costumam referir, estava bem consciente do que se passava a minha volta e ainda tive a presença de espirito de relembrar a alguém para tirar fotos e filmar alguma coisa.

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De um momento para o outro os sons mais guturais tornaram-se mais num grito. Uma vontade enorme de fazer força acentuada pelo meu medo de não conseguir faze-la corretamente, como sentia que não tinha feito no 1º parto. Lembro-me de me dizerem para ir com calma, mas eu não queria ter calma, queria ter o meu bebé cá fora, queria ter a certeza que conseguia faze-lo e por isso não queria parar. O meu receio de não conseguir levou-me a fazer uma força quase ininterrupta, acompanhada pelo que espero ter sido gritos de guerra. Não deve ter demorado mais que cinco minutos e lá estava finalmente o meu bebé, nas minhas mãos, tão sereno debaixo d´agua…Deixamo-lo assim por uns 30 ou 40 segundos até eu traze-lo a tona diretamente para o meu colo. Eu só conseguia pensar: “consegui!!” Consegui ter o parto que eu tinha visualizado – bom, digamos que com mais gritos no final do que eu teria idealizado. Mas sentia-me tão bem, tão realizada! Ao contrário do primeiro parto, senti as emoções à flor da pele, estava tão feliz! Senti-me plena.

Sinto que fiz a escolha certa e decididamente tive o acompanhamento certo. Creio que até poderia, por algum motivo, não ter conseguido tê-lo na água mas só o fato de ter tido tanto apoio, pessoas carinhosas a meu redor que eu mesma havia escolhido, teriam feito tudo valer a pena também. Por isso acho que o mais importante são as pessoas que nos acompanham nesse processo tão intenso. É um momento tão especial e maravilhoso que deveria ser do direito de todas as mulheres puderem escolher as pessoas com quem desejam compartilhar essa magia e como e onde desejam parir suas crias. E é verdade o que dizem… dor não é sinónimo de sofrimento e por vezes sofremos sem sentirmos dor. Os meus dois partos são o real exemplo disso… do primeiro parto senti muito menos dor física mas sofri por não ter conseguido fazer “parte” dele… do segundo a dor foi muito mais intensa mas não sofri, antes vivi-o!

A propósito, e a critério de curiosidade, supostamente no dia seguinte aparentava muito bem, sem sinais de “atropelamento por um camião” como da primeira vez!

PS: Aproveito para publicamente agradecer à minha enfermeira-parteira, Cristina Valentim, por ter sempre acreditado em mim ao longo do processo, ao meu marido por ter estado sempre presente e muito focado, à minha querida amiga Maria Faria pela ajuda durante a gravidez e no pós-parto e ao obstetra José Carlos Exposto por ter permitido que tudo decorresse como eu queria. O parto foi realizado na Clinica de Santa Catarina, Funchal.

 

~ Susana Parreira 





Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.