Entrevista com Inês Anjo Entrevista / Mães D'Água

 

 Foi em Janeiro de 2012 que a vida de Inês mudou como nunca imaginaria. Acordou de manhã e foi para uma aula de preparação para o parto no seu Centro de Saúde. Nesse dia ficou a saber da opção do parto na água no Hospital S. Bernardo em Setúbal. O tema “mexeu” com ela e foi à procura de mais informações sobre esta hipótese. A gravidez já ia avançada (8 meses) mas ficou tão agradada com as referências que encontrou, quer as evidências científicas, quer o carácter de excelência com que a equipa de ginecologia/ obstetrícia de Setúbal era referida, que não hesitou em tentar. Marcou um encontro com o Enfermeiro Vítor Varela e logo demonstrou que sabia o que era o parto na água e que o queria para o nascimento da sua Carolina.

Conta a Inês que a experiência foi tão avassaladora, positivamente avassaladora, que no dia a seguir ao parto já estava a escrever uma carta de agradecimento ao Hospital e às equipas de saúde que a receberam, oferecendo também o vídeo do parto para que fosse usado nas circunstâncias profissionais que fizessem mais sentido. Na visão dela esta informação tinha que chegar a mais mulheres, esta opção tinha que ser divulgada o mais possível.

Marina – Inês, a opção do parto na água surge através do curso de preparação para o parto, certo? Mas como é que essa informação chega ao Centro de Saúde, sabes?

Inês – Inicialmente, vários centros de saúde da região foram abordados para apoiar o projecto de parto na água e felizmente, nessa altura, o Centro de Saúde de Palmela tinha aulas de preparação aquáticas gratuitas para grávidas. É pena ser possível apenas em Palmela, pois o grande objectivo do serviço era ser apoiado pelos Centros de Saúde locais. Na aula onde se falou dos vários tipos de parto, ouvi falar pela primeira vez em parto na água.

 

– Descobriste o parto na água já tarde… mas achas que influencia a gravidez, achas que pode influenciar uma segunda gravidez que venhas a ter por teres a certeza que o queres na água?

– Eu acho que não aproveitei a minha gravidez em pleno. Trabalhei até aos oito meses e tive um trabalho sempre muito exigente. Deixei de fazer o turno da noite a partir dos três meses mas não foi fácil. Há leis que protegem estas situações, mas não… foi uma guerra, não penses que foi fácil… a lei é uma coisa e a sua aplicação é outra. Até para marcar as ecografias tinha de ter em conta as conveniências do serviço. Senti falta de consciencialização por parte das minhas chefias directas… e provavelmente a experiência que tive de parto  influenciou, sem dúvida, a forma como passei a ver a gravidez. Num segundo filho, de certeza que vou viver uma gravidez completamente diferente, porque acho que podia ter aproveitado muito mais. Houve ali aquele último mês em que descobri o parto na água e fiquei muito contente… não era por ser “novidade”, não era por nada disso, era mesmo porque a água ia ao encontro de um benefício que eu já conhecia noutro contexto.

 

Inês tinha fortes dores durante a sua menstruação devido a endometrioses. A água já era sua aliada nesses momentos. A endometriose é uma doença feminina caracterizada pelo crescimento de tecido endometrial fora do útero e os seus principais sintomas são dor pélvica. As dores podem ser muito intensas. 

 

– Cheguei a ser internada no hospital. Só a água quente é que me aliviava. São dores tão fortes como as contracções (da segunda fase de trabalho de parto)… Houve até uma vez que entrei nas urgências e estava a controlar as dores com respiração, ao que a enfermeira me diz “Você quando tiver um filho, vai ser canja”, porque a intensidade da dor que eu sentia era tão grande – pareciam espadas a enfiar lateralmente – e a única coisa que me aliviava era a água quente…

– …como as cólicas renais. A água quente acalma.

I – Daí que, quando descobri que havia a possibilidade de parto na água fez logo muito sentido. Eu já queria ter um parto natural. A minha Mãe teve quatro partos naturais e eu… queria tentar. Nunca tive medo, assim à partida do parto mas, com a possibilidade de ser dentro de água fez muito mais sentido para mim. E, como tal, fui à procura das respostas que eu precisava.

 

M – E como é que a tua Mãe, e restante família, recebeu esta notícia?

I – Não foi por mal, mas eu não andei a espalhar aos sete ventos que ia ter um parto na água. No entanto… a minha Mãe aceitou. A minha Mãe respeita sempre as minhas decisões e sabe que, à partida, eu já estudei bem todas as questões, porque tem que ver com a minha personalidade. Aliás, foi a minha Mãe que foi comigo à reunião com o Enfermeiro Vítor Varela. Como foi de um dia para o outro, o Ricardo estava a trabalhar, perguntei-lhe se ela queria ir comigo. Ela ainda questionou que reunião era, foi quando lhe disse que ia tentar ter parto na água…

 

M – E não te fez mil e uma perguntas?

I – Não, não… não. Já a minha sogra e o meu sogro, tiveram algumas reservas, mas nunca tiveram coragem de me dizer nada.

M – Mas tu sentias essas reservas?

I – Sim, porque diziam coisas como “Opah, tu chegas lá na altura, levas uma injecção e está a andar. É um instante enquanto ela nasce”. Isto também tem a ver com a experiência que a minha sogra teve com o nascimento dos filhos. Mas nunca senti de forma directa alguma oposição. Foi um assunto que não foi abordado. No entanto, depois do parto, já falava orgulhosa “A minha neta nasceu na água!” Viram o filme do parto e se calhar até aprenderam um pouco com a nossa decisão, pois tinham uma visão um pouco… antiga, tradicional… de “chegas lá e fazes aquilo que eles querem e pronto! ela há-de nascer”. E com isto tudo perceberam que há várias maneiras certas de parir e que aquela era a nossa. Mas, isso nunca perturbou muito a minha opinião, porque o que me interessava era ter o Ricardo confortável. Nós os dois é que tínhamos de estar confortáveis com a nossa decisão. Ele até nem pesquisou muito, confiou no que lhe transmiti… Na altura fiz uns resumos à mão (encontrei-os há dias) onde reuni informação sobre o assunto e, depois, a preparação aquática fez o resto. Porque aí percebemos realmente como é que ele me poderia ajudar. E correu muito bem…

 

M – Pois… porque nesse aspecto, o parto na água é muito inclusivo em relação ao Pai. Disseste-o agora… “como é que ele me iria ajudar”. Porque num curso “normal” do Centro de Saúde não se dá foco a isso.

I – Sim, é verdade. Tens a aula cujo tema é o Pai (que ele não foi), que é praticamente direccionada para o parto em que a mulher está deitada e, na altura de fazer força, o Pai levanta as costas. Aquilo não fez sentido nenhum para mim e eu disse-lhe que não valia a pena ele ir, até porque íamos ter a preparação dentro de água e aí sim. Eu até acho que, mesmo os casais que não procuram a opção da água, deveriam ter aulas dentro de água porque ajuda…

 

Interrupção urgente para atender ao pedido da Carolina para regar plantas.

 

– Estava a dizer que acho que faz muito sentido os casais terem aulas dentro de água porque é um momento em que, do princípio ao fim, eu precisava dele para me sentir confortável. Fizemos exercícios e muitos até nem se conseguem fazer no dia. Porque estás numa “banheira”, é uma piscina mais pequena, tens menos espaço mas há muita coisa que se aprende naquelas aulas, que faz sentido qualquer casal poder ter.

– Há uma ligação que se cria através dessas aulas.

I – Sim, a nossa simbiose começou nas aulas. A primeira experiência que tivemos dentro de água, a dois, apesar de ter apanhado o Verão e irmos à praia, foi na aula que eu senti que estávamos mais focados, os dois, no mesmo objectivo.

 

M – E o Ricardo foi para dentro de água porquê? Foi por causa dessa ligação que tu dizes que se foi criando?

– Não foi nada combinado. Foi uma decisão que partiu dele, logo desde o início. Eu não tive que o convencer a nada. Foi algo muito natural. O que eu lhe disse foi que se ele não quisesse assistir, não seria menos Pai por isso. Sempre tive esta atitude com ele. Mas, parecia que já estava pré-definido, por ele, que se fosse parto na água iria para dentro de água comigo. Sempre me acompanhou em todos os momentos, mas eu não sabia – e ele também não – como iria reagir no momento. E isso ele disse-me sempre.

Ele surpreendeu-me mesmo, por tudo: ele não ficou à espera que alguém lhe dissesse o que tinha que fazer; ele simplesmente fez! E há momentos em que a mulher deixa de conseguir comunicar, pelo menos no parto natural, seja com quem for e ele percebia aquilo que eu precisava. Tenho bem presente um momento que me fez muito bem: ele tinha um copo para beber água que o enfermeiro Vítor lhe deu e ele não o entregou; usou-o para me derramar água nas costas. Surpreendi-me pela forma como ele foi importante e como ele participou, sem eu ou alguém lhe dizer o que quer que seja. Isso marcou-me imenso e para ele foi um crescimento enorme. Ele também se surpreendeu a si próprio, porque nunca esperou conseguir assistir, de uma forma tão calma, a todo o processo.

 

M– Então e explica lá… estás cá fora, à espera que a dilatação chegue aos cinco cm para poderes entrar na Piscina. De repente dizem-te que vão encher a piscina, para poderes entrar. O que é que se sente quando se entra dentro de água?

– A primeira memória que eu tenho é a de olhar para o Ricardo e dizer “Conseguimos!”. Porque a pressão que eu inicialmente senti, por querer um parto na água, fez-me duvidar sempre um pouco se ia, verdadeiramente, acontecer, se iriam encher a piscina e deixar-me entrar lá para dentro.

M – Estás a referir-te a que pressão?

I – À pressão dos médicos, durante o trabalho de parto, no internamento, antes de passarmos para as boxes.

 

Quando uma mulher chega ao hospital em início de trabalho de parto, é comum começar por estar numa sala designada “sala de indução”, onde existem três ou quatro camas. Passa depois para uma sala individual – box – quando o trabalho de parto já está mais adiantado, com 3 cm de dilatação.

 

– Por isso, ouvir dizer que vão encher a piscina para podermos entrar… provocou uma explosão de… sei lá… alegria, uma coisa por demais. E depois, entrar dentro de água, foi sentir-me rodeada de paz, senti que estava noutro hospital, noutro ambiente, muito mais protegida, muito mais eu. Percebes?

– Respeitada?

– Respeitada. Não, porque não o tivesse sido… fui sempre respeitada.

– Mas estavas em dúvida…

I – Sim! Tanto que, eu demorei imenso tempo a chegar aos 5 cm de dilatação. E depois, em pouco tempo, dentro de água, atingi a dilatação completa.

– É uma das evidências científicas. Um trabalho de parto dentro de água reduz em 1 hora e 40 minutos, quando comparado com um parto fora de água.

I – Sim! Senti… um enorme cuidado. O baixarem as luzes, colocarem as músicas que levámos… a nossa banda sonora.

 

M – Já agora, um pequeno parêntesis… já que há essa abertura, sabes se é/ era permitido a outros casais, mesmo sem a opção de parto na água, levar o seu CD com músicas à sua escolha?

I – Sim! Isso foi-nos dito nas aulas de preparação para o parto no Centro de Saúde. O que possivelmente não sabem é que, ouve-se em todos os quartos… ou seja, quando o Ricardo pediu para colocarem, a Enfermeira Susana disse que isso ia acontecer. Mas depois gostaram tanto que até o lá deixámos o CD. A música que estava anteriormente era boa mas era uma música clássica. Também era bonita mas tinha um violino que me estava a fazer confusão aos ouvidos e por isso pedi mesmo para mudar.

 

Outras mulheres há que preparam tudo, CD, câmara fotográfica e de filmar, mas depois não usam nada! Uma história para explorar numa outra entrevista com outra Mãe d’Água de seu nome Bárbara Rocha.

 

I – Este cuidado todo… a equipa teve que me monitorizar, saber a temperatura da água, aspectos técnicos necessários, mas foram feitos com tanto cuidado e delicadeza que eu senti que estava noutro sítio. Nem parecia que estava num hospital. Eu ia ter a minha filha, tinha o Ricardo atrás de mim e era o que bastava. Nunca senti que eles tivessem uma acção de… invasão. Senti que nunca passaram a linha, que eles próprios devem ter definido, para haver intimidade, para o casal.

 

M – Falaste em aspectos técnicos, o que me leva a outra pergunta… Como é que geriram essa (in)segurança, relacionada, por exemplo, com a monitorização? Sabe-se que a uma mulher em trabalho de parto não tem de estar em monitorização permanente, no entanto, é prática comum nos hospitais. Mas na opção parto na água isso não acontece. Há um CTG portátil que só é utilizado algumas vezes. Mas provavelmente, através da tua pesquisa, percebeste que não era necessário estares permanentemente ligada ao CTG.

I – Eu nunca tive receio… ou seja, senti-me sempre muito ligada à Carolina e sempre a senti muito bem, até durante o trabalho de parto, sentia que ela estava bem e a equipa é que me tinha de lembrar que era necessário fazer, “espreitar” como é que estava a Carolina. E dentro de água, achei muito interessante… eu estava a ser monitorizada com o aparelho portátil… eles perceberam que, o Ricardo depois é que me explicou porque eu não “apanhei”, não estava minimamente preocupada com isso… mas eles sentiram que o Ricardo estava muito focado no CTG, devido ao som, e então retiraram o som do CTG para ele se centrar mais em mim, porque seria uma ajuda mais valiosa. E ele disse que a partir desse momento relaxou e foi melhor. Ou seja, até nisso a equipa tinha atenção. Eles perceberam que aquilo estava a bloqueá-lo um bocadinho, porque ele olhava muito para trás, para tentar perceber.

 

– Um Enfermeiro parteiro é/deve ser um Mestre na Arte de observar, não achas? Observar e esperar. Deve saber conduzir estes pormenores… o Pai está desviado do foco, que é a Mãe, então há que fazer alguma coisa para mudar isso.

– Sinceramente, desde o início, desde o internamento, pelo menos comigo, eles ouviram sempre aquilo que eu tinha para dizer. A primeira coisa que eu disse, voltando um pouco atrás, depois de um médico me ter dito que eu era mais uma que queria o parto na água…

M – E disse-te que não sabias os riscos, não foi assim? Que havia mulheres a morrer com esta opção…

I – Sim, sim… o facto dele ter dito isso e de ter dito à enfermeira “Esta menina não quer tomar nada mas também não sai daqui”, e depois ter desaparecido, a minha preocupação foi… “Então e agora? Ele saiu daqui, não me assinou o plano de parto, nem sequer olhou para ele, então e agora como é que vai ser? Eu não quero tomar nada”. E a primeira coisa que fiz foi ir dizer à enfermeira que, apesar do que o médico achava, eu não queria tomar nada e ela reforçou que, se assim era, assim aconteceria. Isto na Sala de Indução. Depois fui entregue à Enfermeira Boleta que, fiquei a saber, nem é muito “fã” do parto na água, mas foi tão respeitadora da minha opção que eu nem dei conta. Falou comigo, deu-me a bola, mostrou-me onde era o chuveiro e disse que podia ir ao duche as vezes que quisesse. E pronto! Naquele momento fiquei sozinha mas sei que elas perceberam que eu estava segura daquilo que queria. A forma como falavam era sempre no sentido de perceberem o que queria eu. E nunca foi preciso empunhar o meu plano de parto para justificar vontades lá expressas. Porque, de uma forma muito natural, fui respeitada.

 

Fomos interrompidas docemente pela Carolina que nos quis oferecer uma bolachinha feita com muito amor na sua escola. Estava deliciosa!

 

M – Quer dizer que, em relação a obstáculos sentidos, em levar avante esta opção… Quais foram, podes apontar?

I – Foi esta parte do médico… de não me sentir ouvida e encaminhada. Coisas que só depois questionei. Querendo eu ter um parto normal, tendo eu uma gravidez de baixo risco, por que razão teria eu de ser vista por um médico… Isto foi tudo depois! Porque, a abertura que eu senti foi tão pouca, uma enorme falta de sensibilidade e de profissionalismo que, eu olhei aquele senhor nos olhos e só pensava, que estava ele ali a fazer a lidar com mulheres no seu dia-a-dia. Ele ainda está no Hospital e seria bom que mudasse a sua postura. Convém ressalvar que do meu lado, eu também estava aberta a possíveis mudanças, não ia com uma atitude fundamentalista. Mas nunca tive a noção que seria necessário defender tanto a minha opção, a ponto de empunhar o meu plano de parto. E não cheguei a fazê-lo. Contornei. Mas o facto de aquela pessoa me avaliar e a primeira opção que me deu foi uma indução, à partida, porque eu, com efeito, já estava com muitas contracções mas ainda não tinha dilatação, aquilo fez-me um bocadinho de confusão. Eu estava bem.

– Lá está… a Arte de saber esperar.

– Eu fui para o hospital porque já estava com contracções de 5 em 5 minutos mas era o primeiro filho, eu não sabia como era o meu corpo… não me conhecia nessa situação. E, por isso, achei por bem ir para o hospital. Não tinha dilatação nenhuma, é certo… mas podia ter havido outra abertura. Podia-me ter dito…

– Vá andar!

– Ou… “São 4h da manhã, vá para casa. Mesmo que não durma, vá fazer uns exercícios, vá andar um bocadinho. Não sei se mora longe, se mora perto…” Não houve nada disto, simplesmente queria “despachar” a situação.

– Queria ser eficiente e rápido!

– E eu disse-lhe que queria ter um parto natural, apesar de ele não me ter deixado falar inicialmente. Ao que ele responde “Não me diga que é “daquelas” que quer ter parto na água”. E eu fiz questão de olhar bem para ele e dizer que sim, era uma dessas mulheres mas para não se preocupar, que não era fundamentalista. E ele teve o atrevimento de me dizer “Sabe que há muitas mulheres que morrem na água?” E eu reforcei que não fazia mal, e como já tinha dito anteriormente, não era fundamentalista, se tivesse sair de dentro de água, sairia e como estava num hospital, com certeza que não deveria morrer. E a minha resposta, a olhar para ele, fez-lhe tanta impressão, tanta confusão, que ele levantou-se e disse à enfermeira que eu não queria tomar nada, que eu não tomava nada mas então também não saía dali. Ou seja, quase que me penalizou, aliás penalizou mesmo, descriminou-me completamente, porque possivelmente eu tinha todas as condições para ir para casa.

– Eram 4 da manhã. A Carolina nasceu a que horas?

– A Carolina nasceu às 20:45.

 

M – Mudando um bocadinho de assunto. Como foi o teu pós-parto? Como era/é a Carolina. Fala-me dela enquanto bebé. É um mito que os bebés que nascem na água são calmos? (o meu é!)

I – A Carolina foi uma bebé super calma. Tirando a parte das cólicas, em que ela passou um mau bocado, foi uma bebé que nunca me deu qualquer tipo de problema ao nível de bronquiolites, constipações… nada! Nestes quatro anos, foi única e exclusivamente, na vida dela toda, uma vez às Urgências porque vomitou e não conseguíamos controlar o vómito, por isso levei-a com medo que entrasse em desidratação. De resto, tem sido só consultas de rotina, coisas menores… tem uma ranhoca, levo só para ser auscultada mas nada que vá mais interior.

 

M – E o teu pós-parto?

I – Foi fantástico! Sentia-me… enfim, claro que tinha a memória corporal de ter passado por um parto, sentia a barriga muito mole, por exemplo, mas em termos de mobilidade e me sentir bem, feliz… só para teres uma ideia, o meu relato de parto começou a ser escrito no dia seguinte ao nascimento. Enquanto o Ricardo estava a dar o primeiro banhinho à Carolina, estive a contar como foi o parto à Enfermeira do Serviço do Puerpério. E sinto que foi uma experiência de parto que influenciou positivamente, tudo. Desde o início. A presença do Pai, a ajuda dele em todos os aspectos. Acho que qualquer homem que tem a possibilidade de viver tão de perto o nascimento de um filho e sentir-se assim incluído, acaba por tornar mais fácil também, mais tarde, a inclusão na nova vida familiar… na troca de fraldas, nos cuidados vários, no dia-a-dia do bebé. Eu senti isso. Foi um pós-parto muito bom. Tendo em conta que tive uma subida de leite brutal, o facto de não sentir mais dor nenhuma e sentir-me capaz de tudo, foi muito bom!

M – Quando referes mais dor nenhuma… estás a pensar em quê, especificamente?

I – Uma episiotomia… uma cesariana, deixam marcas. A única preocupação mais física que tive, no pós-parto, foi mesmo a subida de leite. Melhor é impossível. Não tenho ideia de me ter debilitado de alguma forma.

 

– A amamentação? Não tens outro filho… ou experiência de outro parto. Mas como foi?

– A amamentação correu bem. Tanto para mim como para ela, sentia-a muito ligada a mim. Foi logo ao peito ainda eu estava dentro de água. Fui cosida, levei 3 pontos muito superficiais, com ela ao peito. E a partir daí correu bem. Amamentei até 1 ano.

 

M – Tu já sabias que ias ser alvo daquela notícia, nas comemorações dos primeiros 25 partos na água? Ou isso surge depois? Pediram-te o vídeo que tinhas?

– Não. No dia a seguir, quando eu estava lá em cima no Puerpério, questionei-me o porquê de eu não saber aquilo antes. Como é que não há informação sobre isto, porque isto é tão bom, que deveria estar disponível para todas as pessoas. Isso foi uma das coisas. Então, comecei a fazer não o meu testemunho, mas uma carta de agradecimento à equipa hospitalar, que dizia que cedia o vídeo do meu parto para ser divulgado, para se conseguir abrir as mentes profissionais; para ser utilizado em palestras, em formações. Até porque há coisas que se não estivessem gravadas, as pessoas poderiam questionar se eu não estaria a mostrar um lado muito romântico do parto. Mas, o certo é que, durante o percurso, além de eu ter dado segurança ao Ricardo, não sentia dor, apenas vontade de fazer força. E fui tão acarinhada e houve momentos de uma quase “conversa de café”; foi uma coisa tão familiar, que eu acabei de parir e agradeci por tudo, por me terem deixado ter este momento. A resposta que ouvi foi um agradecimento “inverso”, por eu lhes ter deixado participar. Isso fez-me tanto sentido, que me questionei… “Se isto não acontece com toda a gente, é algo que tem que ser divulgado”. Há a possibilidade dos bebés nascerem assim e de se ficar com esta ideia tão positiva do parto (histórias horrorosas ouvem-se por todo o lado)! E aquela emoção que eu senti, até na equipa, mostra que aquele momento foi especial também para eles. São momentos que, nos hospitais, não se vivem assim com tanta frequência.

M – Não deve ter sido por acaso que, quando o parto na água terminou, tu foste uma das pessoas a quem o enfermeiro Vítor Varela pediu ajuda externa…

– Num mês fui para casa, vi o meu vídeo e editei-o; tentei incluir as partes que faziam sentido, apesar de não perceber nada de tipos de assistência/modelos assistenciais, mas tentei captar o que fazia sentido para mim e o que aconteceu no meu parto. Soube, entretanto, que na semana seguinte, o Enfermeiro Vítor foi aos Açores e que mostrou o meu vídeo lá. Há quem ache que é preciso coragem para partilhar com os outros algo tão íntimo mas, o que eu senti, e que se consegue ver através do vídeo do meu parto, era importante partilhar. A Dr.ª Cristina, sendo a única médica dentro daquele hospital que fazia questão de acompanhar o projecto, concordava que quem o visse apaixonava-se! Era quase inevitável um médico que não visse o vídeo dar o benefício da dúvida.

Acredito piamente que eles têm medo de gostarem, porque saem da sua zona de conforto e têm de mostrar que não sabem tudo, porque essa é a grande questão nos médicos. Muitas vezes sabem muito, mas não têm humildade para admitirem que o parto na água faz sentido. Daí a minha preocupação em tentar divulgar ao máximo (não espero contrapartidas com a exposição do vídeo). Questionei-me acerca de não ter sabido desta opção com muito mais tempo e o porquê de não ser divulgada. Esta é uma forma de nascer maravilhosa!

 

M – Mudavas alguma coisa, se pudesses, mesmo tendo sido uma experiência positiva? O que mantinhas?

– Eu mudava a forma como fui recebida inicialmente. Espero que esta realidade seja alterada muito em breve, porque uma mulher grávida precisa, acima de tudo, que a olhem nos olhos. Atrás de uma mulher está uma história. Nós nunca sabemos que história é que está ali. E é tão importante termos essa abertura, porque já vamos para um sítio que não nos é familiar; já vamos para um sítio onde não conhecemos ninguém; onde vamos estar, infelizmente, privados da nossa família; não vamos estar na nossa zona de conforto; vamos passar por uma experiência que desconhecemos. Mesmo que seja o segundo filho, nenhum parto é igual. Portanto, sentir aquilo que eu senti e, mais do que isso, ficar um bocadinho chocada com a forma como fui recebida e ter de tentar fugir e evitar aquela pessoa (médico)…

Para mim não há médicos nem enfermeiros. Para mim há pessoas! E eu sinto que também há muitos médicos com abertura, como há muitos enfermeiros sem abertura. A questão é que quando alguém está a trabalhar e a prestar um serviço público para pessoas tem de ter essa noção. Porque eles próprios têm princípios básicos dentro da profissão de ordem ideológica, princípios éticos, o que seja, mas a forma como se trata o outro deveria ter mais valor. Mas lá está, é da pessoa. A auxiliar que me ia levar o chá teve uma atitude muito querida e amorosa; fez-me sentir melhor.

Espero que isso mude, porque haver um grande quantidade de mulheres que chega ao hospital e bloqueia no trabalho de parto significa alguma coisa. Mulheres que em casa estão bem e chegam ao hospital e bloqueiam completamente… alguma coisa está mal!

 

M – As casas de parto ainda estão muito longe, no nosso país?

– Eu espero que não. Há uma pronta a abrir, em Coimbra! Eu espero realmente que alguma coisa mude: no modelo de assistência, ou melhor, há espaço para todos e para a mulher procurar o que faz mais sentido para ela. Eu fui à procura do que fazia mais sentido para mim e realmente tive uma experiência positiva.

 

Inês é formada em Biologia e sempre trabalhou numa indústria de papel, mas a maternidade conduziu-a a uma viagem de transformação. Aos dois meses da Carolina fez um curso de massagem para bebés e entretanto surgiu o convite para fazer parte da equipa educativa de um infantário, onde está responsável por uma sala de bebés. Terá o parto na água influenciado esta mudança? Nunca saberemos… 

Em Junho de 2014 Inês junta-se a um grupo de mulheres que defendem e desejaram preservar esta opção de parto no Sistema Nacional de Saúde no Hospital de Setúbal. Esta opção foi mais tarde questionada e este projecto suspenso, mas isto não fez estas mulheres desistir, pelo contrário! Ganhámos mais força como Mães d’Água – pelo parto na água em Portugal!

(Podes ver mais sobre a história do parto na água no HSB aqui)

 


Mulher dos 7 ofícios, divido o meu tempo entre a Educação, o Teatro, o Associativismo e 1001 ideias sempre em processamento. A minha "actividade" principal é, no entanto, ser Mãe. (Re)descobrir o mundo novamente pelas mãos do meu filho e despertar novas sensibilidades em ambos. Tenho como lema "falhar, falhar mais, falhar melhor". (não sigo o acordo ortográfico)