Vamos partilhar imagens de banheiras nas salas de parto? Parto na Água

 

“Marcar a diferença com fotos de salas de parto”

artigo de Sara Wickman, tradução pelas Mães D’Água

Partilhei recentemente um link nas redes sociais acerca de um estudo feito por Bowden et al (2016) sobre imagens de salas de parto, que teve uma resposta esmagadora por parte de parteiras, profissionais de parto e mulheres. O nível de paixão que as pessoas têm para este tópico não me surpreendeu porque é um tema que surge muitas vezes nos meus workshops, mas deixou-me a pensar se havia alguma coisa que pudéssemos fazer acerca disto.

Mas deixem-me primeiro falar brevemente sobre o estudo (e como habitualmente eu partilho o link para os que quiserem investigar e ler o artigo completo). Os investigadores recolheram imagens de diversas fontes on-line e em seguida, analisaram-nas para ver o que elas continham. Não é difícil adivinhar: a maioria das imagens são de quartos dominados por uma cama ao centro e salas de parto equipadas com equipamentos e tecnologia, um reforço visual da ideia de que as camas são os locais mais adequados para dar à luz.

Se é novo nesta área e se está a questionar porque estou a dizer tudo isto talvez goste de saber que as camas não são realmente os lugares ideais para o trabalho de parto e nascimento. Muitas mulheres sentem que o seu trabalho de parto é mais confortável e que elas dão à luz mais rápido se estiverem ativas, na posição vertical e se se movimentarem livremente; capazes de adotar a posição que melhor lhes convém no momento. Estas coisas não são fácies de fazer se estiveres acima do chão, numa superfície que não tem muito espaço de manobra. Acresce o facto de que a maioria das mulheres a parir estão de nove meses e a agilidade não é a maior…

Porque é que fotos de salas de parto importam? Bem, porque as imagens de ambientes que se vive num parto nos afetam a todos, mas especialmente as mulheres grávidas. Elas irão influenciar as nossas atitudes, as nossas escolhas e talvez até mesmo nossos comportamentos ao entrar numa sala de parto. Imagine visitar um planeta onde todas as imagens de nascimento são de piscinas de água à luz de velas, ou de mulheres que entram em pequenas e acolhedores tendas, cheias de almofadas, quando estão em trabalho de parto. Acha que isso é o que esperaria encontrar? Será que as suas ideias sobre o nascimento seriam diferentes se você crescesse nessa cultura?

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O que podemos fazer acerca disso?

Quero propor uma solução; algo muito simples e fácil que qualquer pessoa que esteja interessada em fazer a diferença aqui pode fazer.

Parte da razão porque as imagens predominantes na internet são de “cama ao centro” é porque essas são as imagens que as pessoas colocam nos seus sites de imagens disponíveis para bloggers e donos de sites usar na net, sejam os de imagens públicas ou de direitos pagos. Uma potencial solução é nós disponibilizarmos mais imagens de salas de parto sem camas (com ou sem mulheres ou famílias – por favor, respeitem a privacidade, direitos autorais e todas essas coisas, é claro) no Flickr e/ ou em sites semelhantes. Também é importante “tagar” essas fotos, ou dar-lhes nome adequado, para que elas possam aparecer numa pesquisa quando as pessoas procurarem “imagens de parto” ou “sala de parto”.

E nem sequer temos de as oferecer gratuitamente, com algum tempo, um fotógrafo de parto, por exemplo, pode até criar uma conta de acesso pago com estas imagens disponíveis para uso em blogs, notícias e websites. Posso dizer que eu normalmente tenho muita dificuldade em encontrar este tipo de imagens para o meu site, acredito que outros como eu também tenham! O que tenho a certeza é que a maioria das pessoas não se preocupa tanto quanto eu (e provavelmente tu!) em encontrar e partilhar imagens positivas de parto, e por isso usam a primeira que encontram.

Eu tenho noção de que a maioria das pessoas que ler isto vai achar que é demasiado trabalho e vai clicar em outra coisa qualquer. Não tem problema, mas depois não venham dizer que não há nada que possamos fazer para criar mudança, porque de facto há um monte de pequenas coisas que podemos fazer para marcar a diferença e esta é apenas uma delas!

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O estudo:

Bowden C, Sheehan and Foureur M (2016). A Birth Room Images: What they tell us about childbirth. A discourse analysis of birth rooms in developed countries. Midwifery. DOI

Objetivo: Este estudo examinou imagens de salas de parto nos países desenvolvidos para analisar as mensagens e o discurso visual a serem comunicadas através de imagens.

Desenho: Um pequeno estudo de qualidade usando Kreas and van Leeuwen’s (2006) “social semiotic theoretical framework for image analysis”, uma forma de análise de discurso.

Ambiente/ Participantes: Quarenta imagens de salas de parto foram recolhidas em 2013, a partir do Google Imagens, Flickr, Wikimedia Commons e entre colegas de obstetrícia. As imagens eram de unidades obstétricas e unidades de apoio ao parto lideradas por parteiras em países desenvolvidos (Austrália, Canadá, Europa, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos da América).

Principais conclusões: Os resultados mostram três tipos de imagens de salas de parto: o tecnológico, o ambiente domiciliar, e a sala de parto híbrida. O mais dominante era a sala de parto tecnológica, com cama para o trabalho de parto ao centro e equipamentos médicos. A mensagem visual das imagens da sala de parto tecnológico reforçam a noção de que a cama é o lugar mais apropriado para dar à luz e de que o uso de equipamentos médicos está intrinsecamente envolvido no processo de nascimento. Parto é assim considerado como um risco/ perigo.

Conclusões principais e implicações: As imagens na Internet informam e influenciam a sociedade sobre comportamentos estereotipados, as tendências do nosso tempo e as normas socioculturais, é importante reconhecer que as imagens de salas de parto com muita tecnologia, na Internet, podem influenciar e até ditar às mulheres uma determinada atitude, escolhas e comportamento, mesmo antes de entrar na sala de parto.

~ Sara Wickman
A Sara e parteira, oradora, escritora e investigadora. Podes ver mais sobre este artigo e o seu trabalho AQUI.

 


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.