Dimensão espiritual e religiosa da Doula Ser Doula

Uma doula não necessita de participar em práticas religiosas ou espirituais que não fazem parte da sua visão do mundo.
É essencial no entanto que a doula seja capaz de criar para a mulher a parir um espaço, genuíno, onde esta se sinta segura para recorrer à sua força religiosa e espiritual.

“Dimensão espiritual e religiosa da Doula”

artigo de Amy Wright Glenn, tradução pelas Mães D’ Água

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Como estudiosa de religião comparada, doula e capelã do hospital, estou particularmente interessada em examinar como as doulas podem melhor apoiar a prática espiritual ou religiosa de uma mulher no parto.

Muita da formação para Doulas contemporânea consiste no domínio das medidas de conforto comprovadas para corpo e mente. Somos treinadas para oferecer o nosso melhor no que diz respeito a aliviar a dor física do trabalho de parto. Criamos uma relação de empatia e acarinhamos a mulher enquanto atravessa os altos e baixos emocionais do trabalho de parto.

Mas e o espírito? Muitas mulheres com quem trabalhamos têm uma prática espiritual ou religiosa. Como podem as Doulas ser mais eficazes em reconhecer a consciência única destas mulheres em compreender a poderosa dimensão espiritual e/ ou religiosa do nascimento? Como podem as Doulas ser mais eficazes dando apoio a estas mulheres quando se trata de invocar uma força que transcende o entendimento humano?

Eu vim para o meu trabalho de Doula com um passado de religião comparada e filosofia. Falar de questões relacionadas com a dimensão sagrada da vida humana era o meu dia a dia no meu trabalho como professora. Durante os meus anos de trabalho como Doula eu completei a minha formação como “clinical pastor” o que me permitiu trabalhar como capelã no contexto hospitalar. Como capelã servi pessoas em situações de crise e mantive-me disponível e aberta para uma enorme variedade de expressões de fé, para apoiar os que estavam de luto ou a morrer.
A minha formação académica e treino como capelã ajudaram-me muito a ser capaz de criar espaço, apoiar, encorajar e entender as várias religiões e práticas espirituais das minhas clientes enquanto Doula. Como Doula, fazer perguntas as minhas clientes sobre este elemento vital da identidade humana fez todo sentido para mim. Acredito que o conhecimento que ganhei me permitiu apoia-las com uma consciência e força mais profundas.

Sim, apercebi-me durante o meu trabalho como Doula que esta abordagem era rara. Nós sabemos que a mulher se transforma emocional e fisicamente durante a maternidade. Para a maior parte das mulheres, a maternidade também envolve transformação espiritual e religiosa. Para apoiar esta transformação eu acredito que é importante reflectir sobre as dimensões religiosas e espirituais do nosso trabalho.

Neste espírito eu reflito sobre as questões que me surgem frequentemente no meu trabalho. Espero que as minhas respostas a estas questões abaixo ajudem cada uma de vocês no vosso próprio percurso como Doulas e que possam apoiar a mulher a parir com maior consciência da vida espiritual e religiosa que ela mesma tem.

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Como podemos apoiar espiritual e religiosamente a mulher que vai dar à luz?

Na entrevista pré-natal eu pergunto sempre às minhas clientes se têm alguma prática espiritual ou religiosa, e peço-lhes permissão para as lembrar destes símbolos ou práticas sagradas durante o parto. Eu faço isto porque muitas mulheres há anos que cultivam relações profundas com imagens que amam, orações, estórias e rituais. Conhecer o repertório religioso e espiritual de cada mulher é como ter na mão uma chave poderosa. Uma mulher que vai parir, ou uma nova mamã, pode beneficiar tremendamente em ser lembrada dos símbolos ou práticas que para ela, na sua mente e coração, estão já revestidos de poder.

Lembro-me de trabalhar com uma mulher católica que desejava um VBAC (parto vaginal depois de uma cesariana). Numa das conversas pré-natal, ela pediu-me para a lembrar de São Sebastião se, nalgum momento durante o seu trabalho de parto, ela tivesse vontade de desistir. Durante um momento muito difícil, quando parecia iminente uma segunda cesariana, eu lembrei-a deste santo. O efeito foi extraordinário. Ela reuniu a determinação necessária e corajosamente teve o seu filho por via vaginal. Talvez isto tivesse acontecido na mesma se eu não soubesse nada da sua herança católica e da importância de São Sebastião na sua vida. Não sei. O que eu sei é que saber disto, para o parto dela, foi uma maneira maravilhosa de a apoiar neste momento crítico do trabalho de parto.

Posso também falar por experiência própria. Yoga, meditação e oração são práticas centrais no meu dia a dia. Nas conversas pré-natal eu contei à minha doula e parteiras sobre esta dimensão da minha identidade. Durante o meu parto, elas estiveram abertas e deram-me o espaço, carinhoso, sem julgamento, para eu usar várias posturas de yoga que me ajudaram a gerir a intensidade das ondas que percorriam o meu corpo. A determinado ponto elas juntaram-se ao meu marido, à minha irmã e a mim a cantar “OM”. Esse momento destaca-se como uma memória muito sagrada, marcando um momento profundamente sagrado e transformador na minha vida.

Esta técnica específica pode ser adaptado para apoiar mulheres que não são religiosas?

Nas conversas pré-natal, se a Doula vir que a mulher não tem uma visão do mundo espiritual/ religiosa, a técnica que descrevi pode na mesma ser usada. Todos nós temos memória de momentos na nossa vida que são mais significativos do que outros. Uma mulher ateia pode não considerar os seus sentimentos profundos de conexão com a Vida ou o Amor espiritualidade, mas isso não significa que estas conexões não existem. Eu encorajo as mulheres que não são religiosas a partilhar comigo o que as inspira, o que simboliza força, coragem e amor nas suas vidas. Com a permissão delas, eu uso esta informação em pontos chave do seu trabalho de parto e nascimento para oferecer apoio acrescido.

Não é demasiado pessoal, fazer perguntas sobre a crença religiosa ou espiritual de uma pessoa?

Eu não acho que seja demasiado pessoal fazer perguntas sobre este tópico. Para algumas mulheres vai ser muito importante que consigamos tratar esta parte da identidade humana de forma aberta. Se Doulas derem por si a trabalhar com mulheres que têm uma prática espiritual e religiosa activa, é importante explicar que usar orações, meditações, visualizações, etc. pode ser uma tremenda fonte de força durante o parto, o nascimento e no período pós-parto.
Um vez dei apoio a um casal muçulmano no nascimento do terceiro filho. Dada a minha formação, sei algumas orações do Corão, em Árabe, e estava disposta a usá-las com a permissão necessária. Mais do que isso, eu disse ao casal que esse tipo de expressão de fé era bem-vinda, e encorajei-os a usar a sua prática religiosa como fonte de força para o parto. A determinado momento na fase de transição, o marido pegou na mulher e dançaram um slow durante cada contração, e ele sussurrou-lhe ao ouvido ayahs (versos) do Corão de que ela gostava. Lágrimas rolaram-lhe pela cara abaixo e força encheu a sua alma. Foi um momento sagrado e lindo de testemunhar.

Falar sobre este tema também pode ajudar alguns casais a perceber melhor o que é mais importante para eles.

Ao ser entrevistada por um casal evangélico cristão, o tema da expressão espiritual e religiosa surgiu. Eles referiram o quanto a oração é importante nas suas vidas e sabiam que a oração seria fulcral como apoio para o trabalho de parto e nascimento. Perguntaram se me sentia confortável de rezar com eles, eu disse ao casal que a minha formação como capelã do hospital envolvia rezar com pessoas de vários credos. Isto levou-os a perguntar se eu sou cristã. Quando lhes disse que não sou, tornou-se claro que ter uma Doula cristã era muito importante para eles. Eu encorajei-os a trabalhar com uma Doula que partilhasse a mesma fé religiosa. Mais tarde encontraram a Doula certa para o parto deles e eu fiquei grata que a nossa conversa os tenha ajudado a fazê-lo.

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Então é necessário que a Doula partilhe as mesmas tradições religiosas dos seus clientes?

Embora haja casais que querem trabalhar com Doulas que partilham semelhantes visões do mundo no que diz respeito a manifestação da fé, o que na maioria das vezes importa mais é que a Doula tenha vontade de criar espaço para essa expressão e o faça de forma genuinamente respeitadora. Na minha experiência, mesmo que duas mulheres sejam muçulmanas, ou hindus, ou cristãs, cada uma vai ter a sua própria abordagem no uso desta energia espiritual. Cada mulher terá a sua seleção de orações ou símbolos que traz da sua própria experiência na sua fé.

Há duas questões centrais a explorar para cada cliente. Uma Doula pode criar o “safe space” (espaço seguro) para a forma de expressão única da sua cliente? Uma Doula pode encorajar ou nutrir e fortalecer esta expressão?

Como pode a identidade religiosa e espiritual da própria Doula influenciar a sua capacidade de oferecer este tipo de apoio?

Se a Doula quer incorporar apoio religioso ou espiritual, ela terá de ter muita consciência de si própria neste ponto. Para mim, eu abordo a verdade religiosa e espiritual de um modo pluralista. Por outras palavras, eu acredito que o grande mistério que permeia e suporta a vida pode ser acessado por uma grande variedade de formas. Eu não acredito que uma determinada religião ou prática religiosa seja privilegiada quando se trata de perceber ou participar deste mistério.

No entanto, de acordo com a Professora Diana Eck, da universidade de Harvard, a maioria das pessoas não aborda a religião deste modo. No seu livro “Encountering God: From Bozeman to Banaras,” Eck mostra o contraste entre a abordagem pluralista da diversidade religiosa com a perspectiva exclusivista ou inclusiva. Enquanto algumas pessoas são exclusivistas na sua orientação em relação há reivindicação de verdade de outros, a maioria é inclusivista. Segundo Eck, os exclusivistas defendem que a sua religião ou orientação espiritual é a única correcta, ponto final.  Os inclusivistas também vêm a sua tradição como a mais correcta, mas vêm valor e beleza em tradições diferentes, ainda que lhes falte essa Verdade.

Imagino que seja muito mais fácil oferecer apoio religioso ou espiritual para mulheres durante o parto e para novas mamãs tendo uma visão pluralista ou inclusivista. No entanto, conheço Doulas que têm uma abordagem exclusivista da verdade, e conseguem criam um espaço de amor para expressões alternativas. Isto é o mais importante. Uma Doula não precisa de participar em práticas religiosas ou espirituais que na sua visão do mundo não são autênticas. No entanto, é essencial que a Doula seja capaz de criar na mulher que vai dar a luz a confiança de que é seguro usar a sua força religiosa ou espiritual durante o parto.

Se uma doula não for capaz de criar esse espaço seguro para a expressão religiosa ou espiritual de uma mulher em particular, ela pode ajudá-la a encontrar uma Doula que o faça.

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Qual é a importância disto na gravidez e pôs-parto?

A relação entre a Doula e a sua cliente durante a gravidez pode ser enriquecida positivamente se esta tiver informação sobre a sua vida espiritual ou religiosa. Por exemplo, se eu souber que caminhadas longas na natureza são uma parte importante da prática espiritual da minha cliente, eu posso encoraja-la a guardar tempo para esta introspecção. Posso até oferecer-me para ir com ela para caminhar no jardim da zona. Apoiar uma mulher que tenha referido esta necessidade de conscientemente cultivar expressão religiosa e espiritual ajuda a adicionar uma importante dimensão, da maravilha, do mistério, à experiência da gravidez e prepara-a para transferir esta capacidade para o trabalho de parto e parto.

Em relação ao pós-parto, eu pessoalmente nunca me senti tão viva espiritualmente como nas primeiras semanas depois do nascimento do meu filho. Apesar das dificuldades que caracterizaram o início da minha experiência de amamentação, a força do sentimento de Amor que percorria o meu corpo era incrivelmente visceral e vívida. Saí do casulo dessas primeiras semanas do pós parto profundamente transformada. Novas visões sobre a espiritualidade, que ganhei, sobre a importância da vida, continuam a inspirar-me. Doulas que trabalham com récem-mamãs podem convida-las a partilhar as suas experiências de um modo que permita esse espaço para a expressão de novas visões religiosas ou espirituais.

No entanto, algumas mães enfrentam muitas adversidades ou depressão neste período. A alteração de rotinas de sono, vida com um recém-nascido e a intensidade das alterações hormonais… pode ser esmagador. Nestas situações as Doulas pós-parto fazem bem em guiar as suas clientes não só para apoio formal, terapêutico, mas também, para mulheres que tenham prática religiosa ou espiritual, em buscar apoio na comunidade da sua fé.

Finalmente, as doulas necessitam de ter formação formal neste tema específico?

A minha instrutora DONA fez um trabalho notável cobrindo uma variedade enorme de temas e material durante um workshop de apenas um fim de semana. Ela enfatizou a necessidade das Doulas aceitarem “a verdade da Mãe” – quer seja no que diz respeito ao uso de analgésicos, escolha de profissional de apoio ao parto ou religião.

Aceitar a verdade do outro foi uma componente muito importante do meu treino como capelã do hospital. Aprender como dar espaço para expressão religiosa e espiritual era a fundação. Eu acho que pode ser também essencial na formação como profissional de apoio ao parto. O nascimento é um ponto limite, como a morte, um espaço onde o mundo que os sentidos humanos conhecem encontra um mistério para lá do nosso entendimento. Muitas mulheres em trabalho de parto e recém-mamãs beneficiam imenso da inspiração e capacidades das Doulas que exploram a dimensão religiosa e espiritual do seu trabalho.

~ Amy Wright Gleen

Este artigo foi publicado originalmente na International Doula Magazine.

imagem de capa PhillyVoice


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.

  • Daniela Espíndola Alves Figueiredo

    Maravilhoso!

    • Muito gratas pelo feedback! <3
      Carinho das mães D' água!