Entrevista com Sónia Barbosa Entrevista

A Sónia é Enfermeira parteira e desde 2008 que dá assistência ao parto na água em Portugal. Acredita no “poder feminino para gerar e parir com saúde e prazer”.

 

Qual a importância da água em cada uma das fases do trabalho de parto?

O uso da água durante todas as fases do trabalho de parto e parto pode ser útil e benéfico, contribuindo para o bem estar materno através do relaxamento e alívio do desconforto e consequentemente bem estar fetal. Na fase ativa, a água é promotora da dilatação, promovendo partos mais rápidos e eficazes, através não só do relaxamento materno mas também pela facilidade que cria à mulher de se movimentar e adotar posições verticalizadas. Na expulsão, a água permite uma expulsão mais lenta e suave, protegendo o períneo materno e promovendo o nascimento autónomo do bebé.

 

Porque é a água um meio adequado para o nascimento?

O bebé encontra-se no ventre materno em meio aquático, nascendo “em terra” os receptores faciais para ativar o mecanismo da respiração são ativados ainda antes da expulsão total (em apresentação cefálica), nascendo dentro de água este mecanismo é retardado até ao contacto do bebé com o ar, permitindo uma transição mais suave.

 

Como profissional, o que pensa dos projecto de parto na água que desejamos ver a funcionar no nosso SNS?

 

Acredito na água como ajuda terapêutica durante o trabalho de parto para todas as mulheres, mas especialmente para as que ambicionam um parto sem fármacos ou intervenções. Um projeto desse tipo, com a introdução da possibilidade de as mulheres terem um parto na água no sistema nacional de saúde é de louvar e sem dúvida que poderá trazer mais valias às mulheres mas também aos profissionais. No entanto, a água por si só não trará as mudanças ambicionadas e desejadas na assistência obstétrica nacional, é importante que todos, mulheres, sociedade e profissionais se questionem sobre o modelo obstétrico assistencial vigente e ambicionem mudar. É premente e salutar que se retome um modelo obstétrico de continuidade de cuidados, modelo seguido por parteiras, em que cada mulher é acompanhada por uma parteira durante o ciclo gravídico-puerperal. Não é possível ambicionar parto na água de baixa intervenção num modelo de assistência em que mulheres não conhecem os profissionais que as assistem e vice-versa. Partos saudáveis, fisiológicos, sem fármacos ou intervenções clínicas (excepto vigilância), só são possíveis num ambiente em que a confiança entre mulher e profissional de saúde existe.

 

Pode indicar fontes científicas sobre o tema?

Posso, existe um site, Evidence Based Birth, que compila evidência científica sobre a assistência na gravidez e parto e daí pode-se seguir os diferentes links e referências sobre o tema. (Podes ver este documento AQUI.)

 

Qual o papel da parte emocional neste tipo de parto?

O parto é um evento límbico cuja função é garantir que a mãe se apaixone pela cria, promovendo a sobrevivência desta. Este tipo de parto permite que mais mães e bebés usufruam de um cocktail hormonal associado ao parto fisiológico – parto que decorre apenas e só sob o cocktail hormonal da mulher. Este cocktail é responsável não só pela evolução saudável do trabalho de parto, mas também é garantia de que mãe e bebé se reencontram no exterior após a ligação intra-uterina, apaixonando-se imediata e perdidamente.

 

Em que situações (patológicas) seria benéfico o parto na água?

Sem dúvida que mesmo situações patológicas teriam benefício utilizando a água, mesmo que apenas na dilatação. Por exemplo na maternidade de Oostend na Bélgica, com mais de 30 anos de parto na água, já assistem partos na água em situações de bebés macroscópicos, gémeos, hipertensão arterial e pré-eclampsia e após induções. São facilmente percebidos os benefícios nos casos de hipertensão arterial, por exemplo, já que a imersão em água quente diminui a tensão arterial e promove a diurese.

 

O alívio da dor de forma natural é abordado na formação das Licenciaturas em Enfermagem?

Sim, mas de forma muito discreta. O foco principal é na via farmacológica.

 

Em que casos os partos na água acabam por ter de ser intervencionados fora de água?

Em caso de partos de evolução difícil e prolongada, normalmente relacionados com estado emocional materno alterado ou maus posicionamentos fetais. Estas situações são habitualmente mais frequentes em primíparas, o mesmo acontecendo em partos em que não é usada a água.

 

Como é feita a monitorização do bem estar dos bebés (CTG)?

Nos partos fisiológicos (sem uso de fármacos ou intervenções) a monitorização intermitente por doppler é suficiente e tranquilizadora.  Em caso de dúvidas sobre o bem estar fetal deve ser usada a cardiografia contínua (CTG), se disponível o aparelho com telemetria (sem fios) e sondas impermeáveis, a mulher pode continuar dentro de água, caso contrário o parto deverá continuar fora de água para que o bebé possa ser monitorado.

 

Sabendo que a monitorização é menor, como é que gere a segurança e confiança relativamente à parturiente e ao seu bebé? Sente falta de alguns meios técnicos que são usados num parto que não seja na água?

Não sinto falta de meios técnicos em caso de parto na água, se realmente há suspeita de que será necessário intervir, o parto deve ocorrer fora de água. A monitorização dentro da água não é menor, é igual a monitorizar um parto fisiológico fora de água. Muitos dos profissionais portugueses sentem-se inseguros quando se fala em monitorar o bem estar fetal de forma intermitente porque trabalham praticamente em exclusivo com partos medicalizados e portanto nesses casos a monitorização tal como é realizada (contínua) é necessária e recomendável.

 

Que outros sinais indicadores do trabalho de parto usa, como parteira, para compreender o desenvolvimento do mesmo?

Fiz formação com várias parteiras e obstetras internacionais (como Verena Schmid, Cornelia Enning, Barbara Harper, Naolí Vínaver, Michel Odent, Ricard Herbert Jones, entre outros) que trabalham com parto fisiológico e parto na água, o que me permitiu aprender a olhar para os sinais de saúde numa mulher grávida e/ ou em trabalho de parto, em detrimento da valorização dos sinais que a tecnologia nos dá. Assistindo as mulheres tendo por base um modelo de continuidade de cuidados – Midwifery Model of care – permite-me conhecer não só os medos das mulheres mas também as suas forças, permitindo-me assistir em segurança um trabalho de parto, promovendo a fisiologia saudável e inata de mulheres e bebés.

 

Que mitos urbanos sente que existem sobre o parto na água?

O mito do risco de afogamento do bebé e o risco de infeção.

 

Comente esta frase: “A Arte da obstetrícia é saber esperar” (Enf. Bruno Rito, Hospital do Garcia de Orta, in “No tempo das Cesarianas”).

Concordo em absoluto, acrescentaria até “a melhor parteira é aquela que põe as mãos atrás das costas” (Prof. Paula Prata da ESEP, aquando da minha realização da especialidade de obstetrícia). Na verdade, no tempo em que não temos tempo…achamos (profissionais/ sociedade) perfeitamente aceitável induzir ou acelerar o nascimento dos bebés porque nos é conveniente, sem nos questionarmos de qual a influência imediata e futura das nossas decisões e intervenções. A natureza é sábia… o processo da reprodução, desde a concepção ao nascimento está perfeitamente desenhado e equilibrado com um objetivo bem delineado: a sobrevivência da espécie de forma saudável. Intervindo neste processo estamos sem dúvida a condenar a sobrevivência da espécie humana, contribuindo para o aumento da doença física e emocional… É sem dúvida uma arte assistir um parto sem intervir – quando fomos ensinados e treinados a intervir, como se intervir fosse garantia de salvamento de vidas. No nascimento a intervenção, quando indicada, sem dúvida que salva vidas, mas quando desnecessária condena a saúde imediata e futura, podendo mesmo significar perda de vidas humanas.

 

A Enf. Parteira Sónia Barbosa da Rocha dá assistência ao parto na água no Hospital da Boa Nova (como equipa externa) e no parto domiciliar.

12900019_1039619796101662_597223058_n

 

Podes ver mais sobre o seu trabalho, relatos de partos assistidos por ela e contactos profissionais AQUI.

 

 

~entrevista por Cátia Brandão


Cátia é mãe, mãe d´água de coração! Adora o conhecimento acerca do funcionamento do corpo humano, desenhar e brincar com a sua princesa. A Cátia é AO, terapeuta de Shiatsu e de Chi Kung, Naturopata e amante das medicinas complementares. Ela defende que devemos aprender a conhecer o nosso corpo e viver em harmonia com ele e com a natureza.