[Relato de Parto #4] Solange Parreira Mães D'Água / Relatos

Nascimento do Tiago, 9 de Março 2015

Sempre desejei para ti que nascesses da mesma maneira que a tua irmã, na água. Acredito que nascer no teu elemento seria facilitar a tua transição para este novo mundo. Esta possibilidade foi-nos negada no único Hospital Público que tinha essa prática em Portugal (HSB).
Após ponderação e depois de acordarmos um “meio termo” com o papá, ficou decidido que o período expulsivo ia ser feito no Hospital onde se tinha realizado o parto da tua mana, e as fases iniciais do trabalho de parto iríamos gerir juntos, fora do hospital.
Fizemos a dilatação em casa, com uma grande calma.

Comemos, bebemos, dançámos!

E estive no duche todo o tempo que senti ser necessário. E soube tão bem esta liberdade… a água quente ajudando a relaxar o corpo e a aliviar as dores nas costas…
Chegou o momento em que senti que estava pronta para te receber e chegámos já ao Hospital com sete cm de dilatação.
Entrámos para o bloco e foi-me dada a hipótese de usar a água, no duche, mas aqui eu senti que o processo estava já rápido, e já sabia por experiência que na transição para fora do duche ia ter frio, e não ia querer sair de lá… Fui alertada de que não podia fazer o parto no duche, que existiam riscos que não podia correr… Não tive outra hipótese senão um expulsivo “a seco”. Não houve nenhuma destas questões e entraves no parto da tua irmã, eu estava dentro da água, simplesmente.
Por entre algumas peripécias lá chegou a hora de fazer força para tu nasceres, cansada, mas com uma vontade enorme de te conhecer, comecei o processo.

O “anel de fogo”! Que dizer?

Bem mais intenso! Sem o alívio da água para contrabalançar a pressão, a intensidade foi muito maior. Nasceste com uma distocia de ombro e uma circular à volta do pescoço, sendo que foram necessárias algumas manobras para saíres totalmente. Durante tudo isto aquela sensação de pressão, ardor, desconforto até, sem atenuante.
A transição da tua irmã para o mundo exterior foi muito mais calma, mesmo estando ela numa posição posterior que não ajuda ao nascimento, nasceu no mesmo elemento em que esteve durante 40 semanas e foi suave.
Tu nasceste, meu amor, e fiquei super feliz por te ter nos meus braços, mas sei que se o teu parto tivesse ocorrido na água teria sido uma viagem mais fácil para ambos.
Existe um bem neste mundo acessível a todos – a água. Um recurso natural, com benefícios comprovados, qual pode ser a razão para não o usar a ajudar neste processo natural do nascimento? Por isto eu não desisto, e defendo esta causa da utilização a água como auxílio no trabalho de parto.

Passei por duas experiências, felizes, de parto natural, mas para o segundo ter sido ainda melhor, faltou algo muito simples – a água.

~ Solange Parreira

(imagem de Rute Soares)


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.