Parir é um ritual sagrado ~ A água é guardiã do meu templo Mães D'Água / Ser Mulher

Porque dizemos que parir é nascer de novo?
Porque é mesmo.
Não é uma metáfora bonita em rascunho de poema, é a verdade.

A mulher que sou hoje não existia antes.
Não existia.
Tu não a conhecias e eu também não.
Sou outra, e entendo agora o discurso de tantas mães que, mesmo sem se aperceberem, falam de mudanças radicais na sua vida (físicas, de estilo de vida, ou até espirituais) com “antes de ser mãe não era assim”; “desde que fui mãe que eu”… Elas mudaram.
Eu mudei.

Tenho menos certezas mas sou muito mais segura.
Uso menos maquiagem mas muito mais beleza.
Menos saltos altos mas muito mais gingar de anca.
Tenho mais olheiras. Uff, muito mais…
Menos dentes, menos manias… Mais coragem, mais leveza…

Lembro-me, nos dias depois de parir, de me sentir como nunca antes, num misto mágico de besta e deusa. Desgrenhada, quase sempre de cócoras, as unhas dos pés por cortar… E nos olhos um brilho de deslumbre, de amor, de muita oxitocina misturada. Os cabelos ganharam uma força que nunca lhes conheci antes e desde então que não os corto.
O meu corpo mudou.
Tanto.

Lembro-me da sensação única de saber finalmente para que o meu corpo é feito.

Cada parte do meu corpo.
De sentir como são majestosas as mamas cheias de leite. Lembro-me das selfies ao espelho de peitos cheios, brilhantes, luzidios. Que espanto!
Que espanto perceber aos 34 anos para que serve uma vagina e todas as capacidades sobre-humanas desta poderosa “Yoni”. Sem dúvida entendendo porque é adorada como deusa, força criadora, pelas religiões mais antigas.

E não são só mudanças no corpo físico, agora mais magro, mais seco, menos rígido. São mudanças na alma! Na maneira de agir, nas relações…

Uma libertação sentir como esta “granada” no meu casamento – sim, há quem diga que às vezes ter um filho é como lançar uma granada numa relação – me fez pela primeira vez partilhar com um homem quem realmente sou. “Unapologetically”, dizem os ingleses, ou seja, “sem merdas”.
Uma libertação que quase nos custou a relação… Mas que nos ensinou tanto. A ambos.

Quem me conhece sabe das minhas odes frequentes ao meu tumtum, o meu filho, e dos poemas de amor que lhe escrevo regularmente. É uma paixão ser mãe.

É uma paixão ser mãe?
Sim, é.
Uma experiência avassaladora, esta vida com um furacão que não pede licença para agitar todos os dias o meu mundo. Por vezes em ataques de carinho e riso, fazendo-me sentir amada como nunca antes. Outras em tempestade, de grito, de frustração… de choro. Choramos juntos muitas vezes, a aprender como se vive assim, tão intensamente.

Mudei. É possível não mudar?

A mulher que não queria ter filhos porque tinha medo de perder liberdade neste caminho de ser mãe já não existe. Deu lugar a uma mulher que a perdeu já!
Mas se encontrou nessa perda.

Pari a cantar mantras, num misto de manifestação de esperança e de medo.
Medo, sim.
Lembro-me de sentir medo durante o meu trabalho de parto. Não foi medo dos que estavam comigo ou dos processos que decorriam – eu tive um parto na água, rodeada de parteiras que me observaram e apoiaram carinhosamente – mas medo de ser… Pequena demais para um evento tão grandioso. Medo que o meu corpo (afinal humano!) não aguentasse o processo. Medo real de me perder (acredito até que é este medo que pode criar um parto “demorado”). Não senti medo da morte, mas sim medo de ir para uma zona de existência de onde não poderia mais voltar.

E tinha razão para ter medo.

Não volta mais, não volta nunca, a Joana que eu era antes de parir.
De nada serve aos amigos lamentar a perda, ou aos amantes a ausência. Essa partiu, ficou afogada nas águas esbranquiçadas da piscina de parto do HSB.

Mas não falo dos “horrores do parto”, nada disto é horroroso para mim. Sei que senti o medo durante a fase de transição, uma fase em que muitas mulheres querem desistir, voltar para trás, fugir, sair, gritar “nunca mais!”. E depois disso… Recebi a nova mulher que sou, num expulsivo brutal. Pari-me.
Dancei.
Para mim a saída do corpo do meu filho de dentro de mim (e tão visceral é esta acção) foi, se o posso resumir a uma palavra, dança.
Uma dança pela primeira vez aberta, sem preocupação em ser bonita, harmoniosa ou ao ritmo. Uma dança debochada, sagrada, livre.
Sentir o teu corpo de tal modo tomado por um movimento involuntário – o parto acontece, não se faz acontecer – que te abana de fora para dentro, é absolutamente transformador. Nem sabes bem o que vai sair, se é excremento, vómito, víscera, o coração pela boca… Mas tu… neste momento, sais de ti.

Como recuperar disto?
Como podem as mulheres, e muita da sociedade e comunidade à nossa volta, esperar que se volte à “normalidade”?
Como falar do pós-parto como um período de recuperação?
Não é.
Para mim não se recupera, não se recupera nunca deste evento. E como qualquer rito de passagem, ele é limite entre a vida e a morte, e marca para sempre a mulher que o experiencia.
Depois deste marco, que fazemos com a mulher que “morreu”, essa que fui e que já não sou mais..? Que se faz com as roupas de que já não gosto, as frutas que não consigo comer, as músicas que já não oiço, as pessoas que não quero comigo…? Este é o processo duro depois de parir, o processo que a mim, como a muitas, me deprimiu, me assustou, me tirou o chão.
Como se integra esta pessoa que nasceu – estas novas pessoas, porque o pai também muda neste processo, e como! – esta nova vida, que a água gerou, na vida que tínhamos antes do parto?
Às vezes não cabe.
Muitas vezes esta nova mulher, acordada para novas forças e iniciada em novas magias, não cabe na vida que antes vivia.

Que fazer então?
Aceitamos a mudança.
E, como durante o parto… Dançamos. Sem vontade de pedir desculpa ou vergonha de mostrar quem somos.

Boas danças, mãe D’ água!


Joana é Mãe D' água, já foi actriz e está preparada para ser Deusa. A Joana é mãe, yogui, viajante, escritora, activista pelos direitos da mulher... Uma "inspiradora de mães", como ela gosta de dizer. E porque Sereia não escreve só na areia a Joana é a editora oficial das mães D' água. Doce e salgada, escreve sobre tudo e sobre nada. Sobre amor, sobre magia, sobre viagens interiores e sobre os acordares da maternidade. (terminou colaboração com o blogue em Junho 2017)