Entrevista com Cláudia Mouta Entrevista

(Imagem de capa de Paula Vieira)

Objecto geométrico infinito a uma dimensão, uma linha (ou recta) é o conjunto de todos os pontos que a constituem.

Educadora de Infância, parte de Equipa da Segurança Social, colaboradora com a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens… a criadora das AMMA procurou sempre estar alinhada com o seu Ser, o seu verdadeiro Eu.

A criatividade sempre lhe esteve nas mãos. A fazer desenhos para os irmãos colorirem ou a construir sonhos para si própria, até à marca AMMA foi um “pulinho” de 30 anos. Sempre à procura de si, despediu-se do emprego que tinha, cujo propósito começava a ficar aquém das suas expectativas existenciais, e, numa “loucura calculada”, abraçou a vontade de criar bonecos com linhas.

Mães grávidas. Foi há 3 anos.

Vamos conhecer a Cláudia Mouta? Vamos!

 

Marina – Quem é a Cláudia Mouta?

Cláudia – Isso é sempre uma questão…1-40_a

M – É difícil, não é?

C – Como é que me hei-de apresentar? A área da infância sempre foi uma área de interesse onde trabalhei. Fui Educadora de Infância. Agora já não. Mas trabalhei sempre com crianças. Quer em Jardim de Infância, quer em Centro de Acolhimento e outros projectos.

M – Tiraste o Curso de Educadora de Infância?

C – Sim, na Escola Superior de Educação de Lisboa, a ESE. A área da criatividade… sempre foi um foco de interesse. Aliás, quando era mais nova, tinha uma irmã mais nova, e um irmão ainda mais novo… E sempre adorei desenhar para ela, fazia-lhe livros. E para o meu irmão, também fazia bonecos e fantoches. Sempre gostei muito de criar, no fundo.

M – Sempre houve esse “talento”…?

C – É uma forma de expressão. É algo que eu sinto mesmo falta de fazer.

M – Então o projecto AMMA acaba por ser essa forma de expressão, é isso? Como é que ele surge? O nome? Foi com certeza tudo pensado com pormenor…

C – Eu já não estava a trabalhar especificamente como educadora, estava a trabalhar com a Comissão de Protecção de Crianças (e Jovens) e com uma Equipa da Segurança Social… trabalhava mais com famílias. Estava ligada na mesma às crianças mas não tão directamente. Foi importante e eu gostei muito de estar lá mas chegou a uma altura em que comecei a sentir que já não me servia. Eu acho que sempre senti muito a questão de… eu sempre precisei de sentir que o que estava a fazer tinha um propósito.

M – Precisavas sentir que eras útil, é isso?

C – Sentir que está alinhado comigo! E esteve, até certo ponto, mas chegou a uma altura em que eu já não estava a sentir isso. Então… comecei a pensar numa alternativa, tinha que sair dali! Mas tinha que encontrar um “rumo”. Para onde? Voltar ao Jardim de Infância também era uma coisa que já não me apetecia. Eu andava à procura de uma alternativa e a AMMA surgiu daí. Acabei por perceber que … Eu acho que temos uma fase na vida, por volta desta idade (tenho 33 anos) em que… algumas mulheres é com os filhos que surge esta necessidade de mudança, e a mim teve a ver com o trabalho. Estava a redescobrir-me. Eu já não era “aquilo”, tinha que perceber então… quem é que eu era. Vem novamente a ideia de ter que voltar a criar, perceber do que é que eu sinto falta, o que é que gosto de fazer… CRIAR. E surgiu-me assim de repente criar bonecas grávidas.

M – Assim de repente? No meio de algumas possibilidades, como o desenho, a ilustração… aparece uma vertente mais de “trabalhos manuais”, de costura…

C – …da qual eu não percebia nada.

M – Nada? (Wow)

C – Eu queria um trabalho que me permitisse trabalhar a partir de casa. Eu acho que sentia falta de estar comigo. De estar dentro de casa, de explorar este lado da criatividade, de voltar a fazer alguma coisa com as mãos. E teria de estar alinhado com as crianças, também porque no fundo foi o que eu sempre fiz/ quis.

M – É o teu centro…

C – Sim. Eu acho que a ideia das bonecas grávidas foi quase como se fosse também, como querer reescrever uma história… que começa como? Começa com um nascimento. Então, lembrei-me que quando eu era criança tinha uma boneca grávida, era daquelas que a barriga saía, não muito anatómica… mas eu adorava aquela boneca. Lembrei-me que realmente não existia nenhuma boneca que representasse o nascimento natural, pelo menos que eu soubesse na altura. Então, porque não fazer isso? Foi uma ideia completamente louca. Pensei “vai tudo achar que eu estou maluca… vou despedir-me do meu trabalho para fazer isto”. Porque na altura despedi-me. Mas não conseguia pensar noutra coisa.

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IMG_8483 - Cópia

M – São decisões muito difíceis que os outros vêm como loucuras, não é? Deixar o que se chama uma “vida estável” para abraçar uma aventura destas… e estavas “só” à procura de ti.

C – Sim, é muito por aí. Eu tive que assumir isso, sabendo que toda a gente iria achar que eu era “louca” mas eu não podia fazer de outra forma, porque não havia forma de continuar no meu emprego daquela maneira. Então…pronto, fiz isso e… correu bem!

M – É uma história com final feliz! Yeaaah!

C – Tem corrido bem!

M – Quando dizias reescrever uma história… sentias necessidade de reescrever a tua história?

C – Não foi muito consciente na altura mas hoje consigo perceber que sim. As bonecas têm essa potencialidade. Eu sinto que ao criar famílias, ao criar bonecas grávidas e a reproduzir nascimentos, eu estou a trabalhar isso em mim. Eu na altura não consegui foi perceber logo isso de forma consciente mas agora vejo que sim, deu-me oportunidade de trabalhar certas coisas.

M – Conhecias a tua história desde o parto?

C – Eu conhecia mas… quando eu saí do trabalho e comecei a explorar esta opção, tirei um pequeno curso de costura para saber usar a máquina, uma vez que não sabia nada… e surgiu também uma formação de doula com a Associação de Doulas de Portugal…

M – E fizeste a formação? Uau! Mas porquê?

C – Esta fase da minha vida foi muito de acção, de “Vamos lá e não vamos pensar muito nisto!” Fiz com a Carla Silveira e a Ana Raposeira. Na altura, através da internet, do facebook, acompanhava alguns grupos. Até já tinha ouvido falar de doulas mas nem sabia muito bem o que era. E surgiu esta formação em que eu achei que fazia sentido ir por ali. E ajudou-me realmente muito ao nível de conhecimento.

Com esta formação de doulas que fez para o seu projecto AMMA, Cláudia tem também acompanhado já algumas amigas, de uma maneira informal, e uma grávida de início ao fim. Considera, no entanto, difícil conjugar ambas as actividades e tem-se dedicado apenas à gestão das encomendas e concepção dos bonecos AMMA.

M – Esta formação foi uma boa oportunidade para adquirir conhecimento…

C – Sim, ajudou-me a estruturar informação de base para o projecto, uma vez que o tema central era a grávida e o parto. Eu não sabia muito bem ao que ia e descobri um mundo…

M – Gostaste?

C – Adorei. Mais do que tudo, foi reencontrar-me com toda a questão do feminino. Estar entre mulheres… Eu sempre negligenciei muito este lado e de repente, estar naquele grupo de mulheres e sentir-me recebida e ouvida, acolhida sobretudo… foi bastante o que eu retirei da formação. Obviamente que também toda a questão do parto e da gravidez.

M – Este teu “bebé”, estamos a ver como nasceu e cresceu… Há o elemento CRIAR. Surge o trabalhar com a gravidez, através de uma boneca. E mais?

C – A questão de ser personalizado. À família, não só a grávida. O nome surgiu quando estava à procura de algo ligado à maternidade e AMMA quer dizer Mãe em hindú.

M – E há a questão do trocadilho com a língua portuguesa… de amar.

C – Exacto! Tem a ver com amor. E pronto, eu achei na altura que fazia todo o sentido. Demorei um bocadinho, foi com ajuda… de uma amiga minha, a Susana, foi ela que me criou o logótipo. E mantenho até hoje porque me soa bem. Acho que foi uma boa escolha.

M – É muito bonito, sim! E AMMA d’água… também combina bem!!

C – Pois é!

M – Esta ideia teve logo muito corpo, pelo que me estás a contar.

C – Sim, era preciso ter foco. Mesmo as pessoas à minha volta, que eu pensava que me tentariam dissuadir… pelo contrário, apoiaram-me imenso.

M – É preciso alguma coragem para dar um salto destes… e procurar esta verdade interior, não achas?

C – Sim… eu acho que algumas pessoas até se identificaram com isso. Deram-me imensa força. Essa questão da coragem, eu nem sei bem… coragem teria sido ter permanecido naquele trabalho. Eu não consigo funcionar de outra maneira. Eu senti que não tinha alternativa.

É lindíssimo constatar a profundidade de uma reflexão como esta no olhar sereno da Cláudia. Não haver alternativa foi simplesmente ir ao encontro de si… como quem tem sede e procura água, não se deixando enganar pelos oásis de uma travessia que se faz no deserto, sozinha.

M – Começaste a anunciar-te pelo facebook? Criaste o site… conta-me um bocadinho como é que fizeste essa parte da divulgação deste projecto.

C – Criei o site e a página de facebook.

M – És tu que os geres?

C – Sim. Na verdade as pessoas chegam-me sobretudo pelo facebook. Comecei primeiro pelos amigos, foi de boca em boca, mas depois cheguei aos blogues, o que me ajudou a passar da fronteira dos amigos e dos amigos dos amigos. É a parte mais difícil.

M – Passaste do anonimato para o estrelato, por assim dizer… através de quem?

C – Foi mesmo!! Foi no blogue da cunhada da minha irmã. A AMMA foi anunciada no blog da Pipoca mais Doce.

M – Que é só o blogue mais visualizado no universo feminino… boa!

C – Sim! Ela na altura estava grávida e sugeriram-me fazer uma boneca para ela, que de certeza não se importaria de fazer a divulgação e ajudar-me. E realmente, na altura, de um dia para o outro, de repente comecei a ter imensos contactos. Foi mesmo o pontapé de saída que eu precisava. Que lhe agradeço muito, claro!

M – Quanto tempo demoras a fazer uma boneca?

C – Cerca de 2 dias. A boneca grávida, personalizada, é esse tempo.

M – Tem muito trabalho por trás… Entretanto, já não fazes só a boneca AMMA. Tens também a “colecção” dos super-heróis. Que são muito giros!! Como é que eles surgem?

C – Estava a explorar. Estava com vontade de fazer algo mais dirigido mesmo para as crianças, porque a boneca grávida acaba por ser mais para as Mães e para as famílias. Os super-heróis têm muito a ver com a questão da auto-estima das crianças (e de todos nós como adultos, também) e da valorização pessoal, que muitas vezes está muito em baixo. E eu queria criar um boneco que ajudasse a associar as qualidades de cada criança e pusesse a família, ou quem encomendasse o boneco, a pensar nas características dessa criança. O que é que a faz especial?

“Estes bonecos são especiais e servem para recordar as qualidades de super-heróis que as crianças guardam dentro de si. Existem oito bonecos diferentes, representando os quatro elementos – terra, ar, fogo e água. Têm um cinto de super-poderes personalizado a cada criança. Pela indicação de 3 características especiais de cada criança (super-poderes), estas são convertidas em símbolos a integrar no cinto do boneco.

É um boneco perfeito para apoiar as crianças em momentos de insegurança e dificuldades e a promover a sua auto-estima e resiliência, enaltecendo as suas potencialidades únicas – tal como um super-herói.

Ao encomendar-se um boneco destes, a criança recebe uma máscara de super-herói igual ao do seu boneco.”

 

M – Terminando com a nossa AMMA d’Água, cuja venda reverte uma parte para o nosso Movimento (o que te agradecemos muito) como foi todo o processo de criação? Já conhecias o Movimento antes?

C – Eu já vos conhecia através do facebook. Assim de um momento para o outro começou a falar-se de parto na água, vocês conseguiram uma divulgação muito boa. Ia acompanhando o vosso trabalho… desde a suspensão desta opção no Hospital S. Bernardo em Setúbal e pronto, fiquei muito contente, claro, por poder fazer parceria convosco! Eu já andava a pensar, antes mesmo do contacto, não em fazer uma boneca específica a parir na água, mas tinha na ideia pelo menos fazer a piscina… explorar um pouco isso.

M – E eis que surge…

C – As coisas atraem-se!

M – E como é que chegas ao “produto final”?

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C – A sereia vem por brainstorming com a Joana Fartaria e também me inspirei nas vossas sessões fotográficas no mar.

M – As sessões Mães na Água…

C – Depois foi ver como conceber a boneca do ponto de vista do nascimento… se tivesse mesmo cauda de sereia era m

ais difícil, não dava.

M – Sabes quantos pedidos de AMMA d’Água já

tiveste? Um número por alto, consegues dar?

C – Umas 10 ou 12, talvez.

M – E sentes algum retorno com a nossa parceria?

C – Sinto que sempre que há uma partilha, no facebook, eu geral

mente tenho mais visualizações ou “gostos”. Há um aumento de contactos e pessoas a perguntarem-me os valores.

M – E sobre o parto na água, que tens a dizer?

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C – A nível pessoal acho que deve ser uma forma de nascer muito

mais suave, com muito respeito e muito cuidado. É uma pena a opção ter deixado de existir (no SNS). Acho que devia haver essa hipótese de escolha. De uma forma gratuita.

Mas mais do que tudo, acho que o importante é a escolha de qualquer mulher/casal ser respeitada, e qualquer parto pode ser muito bom desde que seja alinhado com o que a pessoa deseje. Qualquer forma de nascer é válida, o parto na água não é para toda a gente, tem é de estar alinhado connosco.

M – Oh… muito te agradecemos este último “apontamento” pois, é exactamente isso que defendemos. Um parto cujo opção é acolhida, respeitada e concedida. Há muito trabalho pela frente ainda… Obrigada!

E depois terminámos!

Muitas são as linhas com que a nossa vida se cose… Será que a sua linha da vida se vai cruzar com a vida da Cláudia e da AMMA? Ou estão em linhas paralelas? Não deixe que isso aconteça. Pode encontrá-la no facebook ou no site oficial da AMMA brinquedos.

Como estará este seu projecto daqui por 5 ou 10 anos… ninguém sabe, nem mesmo ela. Diz que não se imagina a fazer a mesma coisa para toda a vida e tem dificuldade em pensar a longo prazo, mas acredita que ainda existirá um projecto Maior, só não sabe ainda como, talvez noutros moldes. Quem sabe? É um projecto muito pessoal, uma construção de si própria que está em constante movimento e actualização. Cá estaremos para fazer caminho, juntas!


Mulher dos 7 ofícios, divido o meu tempo entre a Educação, o Teatro, o Associativismo e 1001 ideias sempre em processamento. A minha "actividade" principal é, no entanto, ser Mãe. (Re)descobrir o mundo novamente pelas mãos do meu filho e despertar novas sensibilidades em ambos. Tenho como lema "falhar, falhar mais, falhar melhor". (não sigo o acordo ortográfico)