[Relato de parto #5] Betânia Ferreira Mães D'Água / Relatos

Desde sempre que a água é um elemento crucial na minha vida… é ao mar que confio os meus segredos, sonhos e alegrias. É no mar onde renovo o meu ser… Foi o mar que me trouxe o amor e é ao mar que tenho dedicado a minha vida….

Desde sempre soube que o meu parto só faria sentido na água, não o conseguia sequer imaginar de outra forma.
Quando soube que estava grávida não houve para mim qualquer dúvida de que caminho seguir.
Embora no início o Fred, meu marido, estivesse um pouco reticente,  ao longo da gravidez fomos-nos informando, preparando, ganhando confiança e segurança na nossa decisão, e acima de tudo nos protegendo dos medos e preconceitos que nos rodeavam e assombravam. Mas sempre tivemos pessoas maravilhosas a dar-nos apoio e segurança durante toda a gravidez. Desde a nossa obstetra, às aulas de preparação, fora e dentro de água, às aulas de yoga, enfermeiras e parteiras.

Conforme se ia aproximando o dia, eu sentia-me cada vez mais confiante e segura no meu poder enquanto mulher, na força do meu corpo.

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Durante toda a gravidez sentia uma ligação incrível com o Raphael (o meu filho)… como se estivesse num estado de expansão da minha consciência, e uma imensa sensibilidade… como se com um simples gesto meu ou dele ambos entendêssemos o que sentíamos, o que pensávamos…
Estava perto das 37 semanas e eu sentia que o Raphael ia chegar em breve e com a lua cheia. Às 37 semanas, comecei com contrações, iam e vinham ao sabor das marés, durante uma, duas horas… O colo do útero estava pronto, e já com 2 cm de dilatação. Comecei a preparar-me psicologicamente, conversava com o Raphael, com o meu corpo.
Chegaram as 38 semanas e naquela madrugada também as contrações, uma a seguir à outra, cada vez mais fortes. Tomei um duche quente, mas não passaram. Depois um banho de emersão e elas continuaram… não havia dúvidas. Tinha chegado o nosso momento.
Já na clínica enquanto fazia o CTG, o Fred, a Luísa, Uta e Karin preparavam o nosso cantinho. Quando lá entrei nem queria acreditar, estava tudo tão perfeito… o nosso pequeno “santuário”, as velas, o cheiro a mar, a piscina, a nossa playlist de música que escolhemos para aquele dia (e que até hoje ouvimos).
Foram 12 horas de contrações muito intensas e ativas, gemi em todas elas, mexi-me em todas elas. Eu, o Raphael, e o Fred, que com a sua força, paciência, amor, carinho e ajuda, foi a minha “doula” em cada uma das contrações.

Houve muitos momentos em que me senti cansada, sem forças… as águas não rebentavam, as contrações eram dolorosas, mas nunca em momento algum deixei de acreditar em mim, em nós…

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Senti a noite passar, o dia nascer… sentia-me num estado segundo, como se estivesse num outro mundo à espera de ver o Raphael e juntos renascermos… Pensava no meu filho, comunicava com ele, sentia a força do mar, pensava no parto de duas fêmeas golfinho que em tempos assisti, via golfinhos a saltar… sentia o calor da água que tanto me confortava, as mãos da Uta e da Karin que me acariciavam e davam força e nas suas palavras de confiança, o conforto do abraço do Fred. Ele e eu éramos um só, ele era a minha ligação com este mundo.
A Uta e a Karin acabaram por me sugerir rebentar as águas, que me poderia aliviar a pressão e desconforto que sentia, não hesitei… Algum tempo depois sentir o “anel de fogo” foi como o descer à terra… estava fora d’água… senti um imenso ardor e desconforto e logo que pude voltei a entrar dentro d’água, devo até ter saltado porque sentia todos à minha volta a tentarem amparar-me, era tal a minha vontade de sentir aquele alivio e sensação maravilhosa da água quente.
E aos poucos o Raphael foi saindo, lentamente… sentir a sua cabeça a sair, sentir o toque do seu cabelo nas minhas mãos, poder tocá-lo e vê-lo ainda dentro de água, a olhar-nos nos olhos, ainda meio dentro meio fora, e de repente poder abraça-lo, senti-lo nos meus braços, no meu peito, sentir a sua pele… foi de uma imensidão, uma sensação absolutamente maravilhosa, de uma imensa gratidão, um dos melhores momentos que tenho gravado na minha memória.

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E assim, da forma mais natural e humanizada possível, e na água, como sempre sonhamos, o Raphael deu o seu primeiro mergulho neste mundo e na nossas vidas. E foi assim que lentamente, mas tão de repente, tudo nas nossas vidas mudou.

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Não somos mais os mesmos. E tudo por causa de um momento, um olhar, um sentido.

Betânia Ferreira

(imagens de parto de Maria Azanha)


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.