Entrevista com Lieve Tobback Entrevista

Lieve Tobback é belga e veio para Portugal com 18 anos, atrás de um amor. Tinha apenas um papel com a sua morada! Outros tempos. Tempos sem internet, nem telemóvel. Foi ver ao Atlas da escola onde ficava Coimbra e apanhou um autocarro. Assim, simples. Hoje vê esta coragem como uma ingenuidade mas a verdade é que foi aqui, e com este Amor, que constituiu família. 

Apaixonou-se também pelo povo português. Procurava algo diferente mas não sabia que o ia encontrar em Portugal. Sentiu-se logo em casa. Segundo ela os portugueses sabem aproveitar a vida e gostam de a viver, de estar com amigos, de se divertirem e passar bons momentos. Passaram mais de 20 anos, tempo suficiente para já quase não se lembrar dos dias chuvosos, das regras rígidas, ou da pouca ligação afectiva entre as pessoas, na sua terra natal. Num país onde, segundo ela, vivem para trabalhar. Já em Portugal, trabalha-se para viver.

Tem quatro filhos. Diz que a mudança de três para quatro foi a mais difícil… Sente que, se ultrapassou a primeira semana de vida do seu último bebé… consegue ultrapassar tudo! Para nós a experiência de parto da Lieve contribuiu em muito para este sentimento. Nem tudo são boas práticas nas maternidades portuguesas e os relatos que partilhou connosco deixam-nos chocadas e em lágrimas. Lieve escolheu ser Doula para que mais nenhuma mulher passe pelo mesmo. Ser fotógrafa de partos surge logo depois, como uma missão a cumprir, ao perceber, num encontro de doulas, que fazia falta uma base de dados de imagens do contexto português. Mas desenganem-se se pensam que ter no parto uma doula- fotógrafa seria como ter um dois em um. Ter ambas os papéis no mesmo parto é incompatível e Lieve tem apenas uma história onde saltitou entre as duas funções. E porquê? Porque se sentiu interpelada. E esta mulher não é de ficar parada!

Marina – O que eu sei sobre a Lieve Tobback… És doula e/mas também fotógrafa de partos. Como é que isso aconteceu? Teve a ver com o nascimento dos teus filhos?

Lieve – Não! Isto teve a ver com um encontro de doulas em que estávamos a falar da necessidade de termos um banco de imagens e vídeos para mostrar às mulheres, com partos em Portugal. As próprias pessoas que acompanhamos muitas vezes dizem, “Pois, mas isso é lá fora”, porque de facto quase todas as referências que usamos no nosso trabalho como doula, para informar as mulheres e a família, vêm de fora, de outros países. É raro encontrar material de Portugal, fotografias, filmes, documentários. Estava a discutir-se esta necessidade de criar um banco de imagens de “partos nossos”, partos cá em Portugal e eu comecei a pensar nisso. Eu já era fotógrafa na altura e pensei logo que poderia fazê-lo, fazia todo o sentido para mim. Pensei em voz alta…  e aconteceu! Todos me apoiaram e comecei a registar como funcionam as coisas cá em Portugal.

M – Então, explica-me… quando estás a acompanhar um casal tens as duas funções, ou optas por uma?

L – Não consigo fazer as duas coisas ao mesmo tempo. E explico porquê. Como doula somos um elemento “presente”, mais ou menos interventivo, mas estamos presentes. Estamos lá exactamente para mostrar à mulher que ESTAMOS com ela. Mesmo que estejamos ao lado, ou a um canto (onde ela quiser), mas estamos presentes sempre, uma PRESENÇA constante. Como fotógrafa de partos é exactamente ao contrário, eu torno-me invisível. As mulheres que tenho fotografado dizem-me isso mesmo, que não me viram, que não deram conta da minha presença. E isso é muito importante porque eu não quero interromper. Uma mulher não se pode sentir observada porque “aquilo” pode parar, pode parar o progresso do trabalho de parto. Ter alguém com uma máquina apontada a fotografar? Ou a mulher está mesmo muito à vontade contigo ou então, esquece. A maioria das mulheres está na “partolândia” e não quer ser observada, não quer nem pensar no que eu estou ali a fazer.

M – Partolândia? Muito bom! (risos)

L – Sim… Quando estou contratada como doula nem sequer levo a máquina. Estou a acompanhar aquela mulher, não consigo pensar nas partes técnicas ou artísticas. Estou lá inteira, a sentir tudo o que a mulher está a sentir…

M – Tens que estar conectada. Não consegues estar dividida com outra tarefa?

L – Mas já me aconteceu fotografar um parto que não estava a avançar (um parto bastante demorado, já quase um dia inteiro e não avançava de um determinado ponto) e eu perceber o que aquela mulher precisava, pousar a máquina, falar com a doula e pedir autorização para interferir como Doula. Depois da mãe também aceitar a outra doula saiu (também já estava muito cansada), e comecei eu a trabalhar com aquela mulher, de uma forma muito diferente.

Porque as doulas são muito diferentes entre si. Algumas são mais “Mãe”, numa de proteger, eu sou mais “tropa”. Se a criança tem de nascer, vamos lá trabalhar para isso. Vamos lá sentir isto que estamos a sentir, apesar de ser desconfortável. Nós queremos é mais disto. Os beijinhos, os miminhos nem sempre ajudam.

Neste caso o trabalho de parto começou finalmente a avançar mas houve ali momentos em que a mulher estava zangada comigo porque, feita general, a pus a fazer escadas. Ela depois percebeu que aquilo estava a funcionar, as contracções começaram a ficar mais fortes e mais regulares, mas ao início resistiu. Foi um episódio engraçado mas, lá está, depois saí, voltei à fotografia e passei a bola para a outra doula (que também estava a precisar de fazer ali uma pausa para pensar e reequacionar o que não estava a funcionar).

M – E és sempre assim, general, como te intitulaste, ou sentiste que era o que aquela Mãe e aquele trabalho de parto precisavam?

L – Eu não sou sempre assim mas naquele momento aquela Mamã precisava…

M – Então tu também tens a faceta “Mãe” e achas que às vezes se justifica?

L – Sim, claro! Já mandei a parteira ir dar uma volta, tomar um cafezinho, porque estava a ser “mazinha” com a minha grávida.

M – Já voltamos à fotografia… Ainda é difícil aceitar o papel da doula nalguns hospitais hoje em dia? Ainda não é uma presença muito constante e aceite, pois não?

L – Aqui em Coimbra, na Maternidade Bissaya Barreto, já me aceitaram como doula, respeitaram-me como profissional, de igual para igual. Entrei várias vezes na enfermaria para perguntar informações sobre a minha grávida e fui aceite. Cheguei a estar o dia inteiro com a mulher e não fui posta na rua, como aconteceu com o Pai ou outros acompanhantes. Foi fantástico.

M – Mesmo o Pai não deixavam? Isso é contra a lei desde a revisão de 2014 da Lei do Acompanhante (Lei nº 15/2014, Secção II, artigos 16º a 18º)

L – Por acaso foi antes, em 2013. O Pai só podia estar no quarto (antes de ir para o bloco de partos) durante a hora de visita.

M – Então tens uma boa experiência em Coimbra?

L – Na Bissaya Barreto, sim. Na Maternidade Daniel de Matos não. Já me recusaram duas vezes a entrada.

M – E é tão importante, quando uma mulher o deseja, o acompanhamento de uma doula. Podes descrever em algumas palavras o papel de uma doula? Quer seja durante a gravidez, depois no trabalho de parto e pós-parto?

L – Eu considero-me mais doula de parto e de pós-parto. Também acompanho durante a gravidez, dou informação à mulher/casal mas reconheço que não sou tão boa, há outras doulas que fazem isso muito melhor que eu.

M – Sentes-te mais “centrada” no trabalho de parto e no pós parto?

L – Sim! Eu tenho uma sintonia quase perfeita com a mulher em trabalho de parto e apesar de ser sempre muito diferente eu sinto aquilo que a mulher está a sentir. Às vezes reportam-me isso mesmo. Por exemplo, terem sede e eu já estar com um copo com água para lhes dar, antes mesmo de me pedirem. Logo que as necessidades se manifestam, fome, sede… eu já estou a fazer algo, mesmo que na cabeça da mulher ainda não seja claro do que precisa. Por isso me considero uma doula de parto. É onde me realizo! E nos pós-parto também. Ajudar com a amamentação, as dúvidas com o bebé e com o próprio corpo, o baby blues…

O baby blues ou depressão pós-parto é um estado de melancolia que se sente no pós-parto, definida como uma perturbação emocional que pode durar alguns dias. Consiste num estado de tristeza, desconforto e choro frequente. Os episódios de mudança de humor após o parto são comuns e afectam cerca de 40 a 60% das mulheres. Há muitas mudanças a acontecer no corpo e, apesar de os “baby blues” serem a forma menos grave de depressão pós-parto, é importante não ignorar esta fase em que muitas mulheres se sentem confusas e culpadas por se sentirem tristes após um evento tão feliz. Isto faz com que se isolem e não falem sobre o que estão a sentir.

M – As pessoas que te contratam normalmente já têm uma ideia do que pretendem ou vão descobrindo à medida que estão contigo, consoante a informação que vais dando? Quem tem uma ideia já concebida costuma mudar?

L – As mulheres que até agora vieram ter comigo já sabiam aquilo que queriam. E queriam um parto o mais natural possível. A única mulher que estava com dúvidas… ou melhor, sabia o que queria mas tinha algumas inseguranças, foi uma das que depois pariu na Maternidade Daniel de Matos. Ela estava a ser seguida lá, estava a sentir-se bem acompanhada, e estava mentalizada que eu ia acompanhá-la, porque a equipa assim lho disse…

M – Mas não pudeste… recusaram-te?

L – Sim, recusaram-me a entrada. Ela é enfermeira e queria mesmo ter um parto em contexto hospitalar porque não se sentia à vontade para ter um parto em casa. E eu, claro que aceitei. A escolha é da mulher, deve parir onde se sentir mais confortável e mais segura. É nisso que nós trabalhamos. Perguntou várias vezes durante a gravidez se podia levar a doula e sempre lhe responderam que sim.

M – Mas na hora recuaram.

L – Disseram que dependia da equipa e se era uma noite complicada, ou não, com muitas mulheres em trabalho de parto mas, que se fosse uma noite calma, com pouca gente, então eu poderia entrar. No dia em que ela foi visitar a maternidade, os quartos e o bloco de partos, havia apenas uma mulher em trabalho de parto e ela tinha o marido e a doula com ela. Por isso, mais se convenceu que eu também entraria e isso deu-lhe uma segurança maior. Na noite em que ela me chamou, ainda estivemos em casa boa parte do tempo, preparei-lhe um banho e estivemos a dançar na sala e tudo. A maternidade ficava apenas a 30 minutos de viagem mas naquela noite estava um nevoeiro cerrado, e como estava a avançar muito rapidamente, ela não queria de forma nenhuma ter o parto em casa. Até porque eu estava sozinha com ela e com o marido, não havia nenhuma parteira, não queria arriscar, e fomos para o hospital. Em Coimbra ela tinha casa da irmã ou de uma amiga, onde poderia ficar a fazer o resto do trabalho de parto, já mais perto da maternidade. Estava tão mau tempo que demorámos uma hora! Na maternidade, “estragaram” o trabalho todo que tínhamos feito em casa (por assim dizer). Ela já estava com 5 cm! Logo de início houve má vontade da enfermeira que nos recebeu, a dizer para mim que “nem toda a gente pode entrar”… e aquela agressividade toda (que infelizmente eu já estou habituada na Daniel de Matos), era desnecessária, e parou um pouco o progresso do trabalho de parto. Infelizmente todas as minhas experiências nesta maternidade são más…

M – E não lhe falaste da opção da Bissaya Barreto?

L – Falei, mas ela gostava muito da equipa que a estava a acompanhar na Daniel de Matos e acabou por decidir assim. Ela entrou com 5 cm, o ideal era terem dito para ir dar mais uma volta ali perto e regressar depois. Mas quando chegou ao pé de nós já estava de bata vestida e a dizer que ia ficar internada no hospital. Já tinham feito clister… enfim, tinha entrado no sistema ao passar aquela porta e já não ia sair de lá. Era uma noite calma, não havia mais nenhuma mulher em trabalho de parto, e recordando o que lhe tinham dito, supostamente não havia problema em eu entrar também, mas o chefe de equipa não autorizou.

M – Ficamos tão tristes quando conhecemos pormenores assim…

L – Ainda para mais vindo de pessoas que defendem o parto em casa, o parto respeitado e humanizado…

M – Qual é a tua visão sobre o parto na água, enquanto doula?

L – Como eu disse às Mães d’Água quando fui convidada para a entrevista, eu (ainda) não acompanhei um parto na água. O trabalho de parto sim. Todas as mulheres que eu acompanho fizeram grande parte do trabalho de parto na água e é maravilhoso! Nota-se logo um alívio. Na parte da expulsão, todas as mulheres quiseram sair da água.

M – E explicaram-te porquê? É só uma questão natural de sentirem que têm que sair para fora?

L – Elas queriam sair e como a Mulher é que manda…

M – Apesar de não teres acompanhado um parto na água completo até ao momento da expulsão, qual é a tua opinião sobre ele? Uma palavra ou duas sobre o que tu achas do parto na água.

partos (9)L – Eu digo sempre que a escolha é da Mulher. Ela a qualquer momento pode escolher entrar ou sair da banheira (ou do duche, ou do chuveiro, ou da piscina). O parto com a parte expulsiva também na água eu acho que se torna mais suave, quer para a mulher, quer para o bebé. Para a mulher, nem que seja pela leveza que o corpo sente quando está mergulhado na água. No final do parto e na parte expulsiva há um peso enorme e na água não se sente aquele peso. Perguntei a uma das mulheres que acompanhei: “Aquilo estava a correr tão bem, a cabecinha já a coroar e, de repente, decidiste sair da banheira, porquê?”. Ela disse que essa leveza lhe fazia impressão, que parecia que não estava a conseguir fazer a força toda, porque não tinha a gravidade a colaborar. Então optou por sair, para usar a gravidade e fazer força. Eu não tive nenhum filho na água, mas consigo imaginar perfeitamente aquilo que ela está a dizer.

M – Sim, faz sentido! O que te motivou a ser doula? Há quanto tempo começaste?

L – Durante a gravidez da Leonor (é a minha terceira filha), há 12 anos atrás, eu queria algo diferente. Eu não queria um parto igual ao que tinha tido com os rapazes. Foram no hospital. Eu comecei a receber algumas informações, que diziam que havia uma forma diferente de nascer, mais natural, mais respeitada e menos dolorosa. Com os rapazes não foi nada prazeroso. Então comecei a ver umas coisas e a falar com o meu companheiro, na altura, mas ele não gostou da ideia. Achava que colocaria a menina em risco. Os pais dele também não, quase entraram em histeria.

Na altura, a informação a que tinha acesso era a que estava na internet e eu não conhecia de facto ninguém para este tipo de parto, optei até por parar de ler, para não criar grandes esperanças e ter depois uma desilusão muito grande.

O parto da Leonor foi pior que os anteriores. O seguinte ainda pior. O parto do mais velho foi um parto muito bom. Foi no hospital, sim, mas foi muito bom, fui muito respeitada! O segundo, do Miki, não foi respeitado, mas não foi assim tão mau quanto isso. O da Leonor foi muito mau, fui muito mal tratada mesmo. E da quarta vez foi o pior de todos. O quarto parto foi violência obstétrica. O “pacote completo”.

M – Fizeste queixa ou deitaste para trás das costas?

L – Não… não consegui voltar lá. (pausa para retomar a resposta)

Contei-te dos meus partos porque me perguntaste porque é que decidi ser doula. Durante a gravidez da Emma eu sabia que queria ter um papel mais activo do que tive no parto da Leonor. Por isso comecei a pesquisar de forma consciente. O parto domiciliar estava fora de questão, porque o meu companheiro não concordava. Estudei bastante durante a gravidez da Emma para estar informada. Encontrei a minha informação na internet, li artigos e vi documentários. Quando chegou o dia do parto sabia exactamente como estava a funcionar o meu corpo e como eu queria parir a minha filha. Quando cheguei a maternidade, sabia que estava em trabalho de parto activo. As contracções eram muito boas, fortes e regulares. Mas mal entrei pela porta do hospital todos os meus conhecimentos e aprendizagens foram desvalorizados e ignorados e fui rotulada como sendo “uma parturiente difícil e problemática” por questionar os procedimentos (desnecessários) dos profissionais que me atenderam. Aquele que deveria ter sido outro dia mais feliz da minha vida, não o foi, de todo! Fui desrespeitada e violentada. Depois desta experiência decidi que não queria que outras mulheres passassem pelo mesmo e decidi fazer a formação de doula. Assim podia pegar na minha experiência negativa e fazer algo de positivo com ela. Queria ajudar para que outras mulheres pudessem ter os seus filhos em paz e em harmonia, de forma respeitada. Como disse antes, aqui na zona de Coimbra na altura não era nada fácil encontrar informação sobre o parto humanizado, ou doulas. Como eu na altura que estava grávida não sabia onde procurar, não encontrei, e fiquei sem apoio. Por isto decidi tirar o curso de doula. Depois comecei a divulgar o trabalho das doulas e muita informação sobre o parto humanizado. Mostrei-me disponível para ajudar todas as mulheres que procuram uma experiência de parto e pós-parto positiva. Esta disponibilidade continua!

M – Na área de Coimbra há agora muitas Doulas a fazer esse acompanhamento?

L – Não somos muitas, mas somos algumas. Eu estou disponível, e por exemplo, se há uma mãe que não me pode pagar, eu faço esse acompanhamento de forma gratuita. Não consigo dizer a uma mulher que ela vai ter que ter o filho sozinha por não poder pagar, já fiz muitos acompanhamentos sem pedir dinheiro, porque sei que as pessoas não têm possibilidades. Não acho justo dizer: “ou pagas ou não há nada para ninguém”.

M – E com essa generosidade não acaba por haver um retorno positivo das pessoas? Não acabam por juntar um valor simbólico para te dar, por exemplo?

L – Há sempre um retorno! Às vezes é em couves e batatas ou uma ajuda cá em casa (vêm cá cavar terra). Há sempre um retorno!

M – Eu estou a adorar conhecer a Lieve Tobback doula. Mas vamos agora à fotógrafa?

L – Sim.

M – Estava aqui a pensar em tudo o que já me disseste… o facto de seres doula dá-te uma sensibilidade diferente para seres fotógrafa de partos, verdade?

L – Eu acho que um fotógrafo de partos tem de saber um mínimo sobre a fisionomia e a fisiologia do parto, saber como funciona e quais são os factores que podem atrapalhar o progresso do trabalho de parto. É isso que tento “ensinar” nos workshops de fotografia de parto que dou. Claro que também falo dos aspectos técnicos mas tem muitos conteúdos deste meu conhecimento de doula: Como se deve agir e comportar durante um trabalho de parto para não incomodar; Como ser o menos invasivo e mais invisível possível. Partilho pequenos truques e sim, sei que o meu trabalho como doula ajuda imenso para fazer um bom trabalho enquanto fotógrafa de partos (e formadora de workshops nesta área). Eu sei ler o corpo da mulher e antecipar o que vai acontecer, nunca sou apanhada de surpresa. Seria aborrecido por exemplo o bebé nascer e não ter esse registo em fotografia.

M – Já dás esses workshops há muito tempo?

L – Comecei há um ano e meio atrás, mais ou menos. Foi quando comecei a perceber que se estava a instalar a “moda da fotografia do parto”. Alguns fotógrafos viram aqui um nicho de mercado, mas depois vi alguns trabalhos e ia entrando em choque. Só me ocorria dizer “um parto não é nada disto!”. Repara, um parto não é uma criança a ser esfregada com uma toalha, um parto não são as luvas de médico a cortar o que quer que seja ou uma mulher toda sorridente a sorrir para a máquina, isso é totalmente encenado. Um parto é algo tão mais íntimo, tão recheado de emoções. Eu percebi que os fotógrafos não faziam a mínima ideia do que é um parto e que precisavam de saber mais para fotografar bem este momento. Não só fisicamente mas também emocionalmente. Até para saber o que fotografar!

M – Faz todo o sentido! E já tens data marcada para um próximo workshop?

L – Tenho recebido alguns contactos de fotógrafos da zona de Lisboa a pedir um workshop. Ainda não tenho data confirmada, mas provavelmente será 11 ou 25 de Junho, em Lisboa. Quero salientar que o meu workshop está aberto a todas as pessoas que se interessam pela fotografia de parto ou pelo parto em si, não é apenas para fotógrafos. Como disse antes, o workshop está muito focado em todo o processo do trabalho de parto e parto, apenas a última parte é dirigida à prática de fotografia. Já tive um casal num dos meus workshops, onde a mãe era fotógrafa e o pai queria simplesmente aprender mais sobre o parto para poder acompanhar melhor a sua companheira quando chegasse a hora do bebé nascer.

M – Oh, que lindo!! Então e qual é o próximo passo na vida de Lieve Tobback?

L – Bom, eu recebo muitos pedidos de orçamentos, e o que gostava neste momento, ao discutir isto com um grupo de fotógrafos de parto, era de uniformizar um preço. Definirmos um preço de referência, um preço mínimo.

M – Um preço justo.

L – Sim. Sabemos que há quem cobre menos mas…

M – …a qualidade também se paga! Se as pessoas têm telemóveis caros ou outros gastos dispendiosos, há que saber avaliar com alguma honestidade que este serviço também tem de ter um preço justo, não é?

L – Exacto! Mas a maior parte dos pedidos de orçamento ficam por aí porque existem de momento muitos fotógrafos a oferecer o seu trabalho de graça. Eu não posso fazer isto. Eu vivo da fotografia. Tenho quatro filhos que vivem da minha fotografia e não posso pagar para trabalhar. (Como fotógrafos de parto) temos de estar “on call” durante semanas, semanas em que não se pode combinar nenhum trabalho ou compromisso social inadiável. Muitas vezes fotografar um parto implica ir para junto da mãe assim que começa o trabalho de parto, e ficar um dia, às vezes dois. E eu gosto de ficar até, mais ou menos uma a duas horas após o nascimento, até estarem todos já “instalados”, descontraídos.

partos (12)

M – É uma questão de valorização do teu trabalho. É muito importante!

L – Sim. Portanto, neste momento, como fotógrafa de partos, eu gosto… mais, eu adoro fazer este trabalho! E sei que sou boa naquilo que faço. Mas não vou atrás das pessoas, nem posso pedinchar… tenho pena que haja esta desvalorização, mas eu não vou contribuir para ela. Como doula ofereço os meus préstimos, se for preciso gratuitamente, porque acho que é uma coisa essencial, mas fotografia de parto já é um “luxo”.

M – Só fotografas partos domiciliares?

L – Até ao momento só fotografei partos domiciliares. Nos hospitais públicos não há autorização para um fotógrafo entrar. Sei que em muitos hospitais privados as portas estão abertas para os fotógrafos de parto, mas ainda não fui convidada.

M – E que mais fazes na área da fotografia?

L – Agora estou com um projecto novo (há cerca de um mês e meio), o Projecto Essência. Um projecto que está a crescer de uma forma brutal. É com mulheres e é… um regressar à essência e um reencontro com elas próprias. Este projecto surgiu porque nós mulheres temos tantos papéis: Companheira, Mãe, profissional, dona de casa, amiga… muitas vezes perdemo-nos a nós no meio de tantas solicitações. Este projecto é um momento essencialmente para parar e para sentir. Só sentir. Um momento para não pensar no que o mundo espera de nós ou nas nossas obrigações mas simplesmente sentir quem sou Eu (ou melhor, quem são elas!).

Essência (17)

M – Uau…

L –  Temos uma conversa antes onde gosto sempre de saber como chegaram até mim e porque me escolheram. Tenho percebido que são quase sempre mulheres que estão numa fase da vida em que precisam de algo, muitas não sabem muito bem o que é, e por isso esta necessidade de se reconectarem com a sua Essência. Nesta conversa falamos sobre o que pretendem da sessão (de fotografia), o que procuram, quais os aspectos da sua vida e de si próprias que querem “trabalhar”…

M – Achas que se cruza algures com o “coaching“?

L – Não, é mais uma viagem emocional através da imagem. Pergunto-lhes o que gostam mais na sua vida, o que gostam menos, as dificuldades… e depois há uma sessão fotográfica algures na natureza, um lugar escolhido por cada mulher. Pode ser o mar, a serra, ou o campo. Tento perceber qual é o elemento natural com que se identificam mais. Vamos sempre para um local onde não há barulhos de civilização. Onde não se ouvem carros, onde não se vêem casas nem pessoas. A primeira coisa que peço é para se descalçarem. Para sentirem a ligação com a Terra. E depois é uma espécie de meditação. Uma quase meditação que eu oriento para as guiar nesse reencontro, nessa viagem, com todos os sentidos disponíveis para receber o que está em volta. Chega a um ponto em que eu já não digo mais nada… eu noto a transformação nas mulheres. É fantástica, é simplesmente brutal. Quase parece que entram em transe. E começo a fotografar. Não são poses nem sorrisos encenados, é simplesmente um entrar em contacto com a Natureza em volta, e consigo própria.

Essência (2)Essência (10)Essência (5)Essência (7)

M – E captas então esse momento.

L – Sim! Estas sessões demoram sempre entre duas e cinco horas. São muito intensas e poderosas. Empoderadoras. Para elas e também para mim. São mesmo de uma entrega total e eu trabalho com aquilo que a mulher me dá. E também aqui o meu trabalho de doula me ajuda porque acaba por acontecer algo idêntico ao acompanhar de um trabalho de parto: eu sinto aquilo que a mulher está a sentir. É muito cansativo para as duas. É uma viagem enorme. À medida que o projecto está a crescer e que vou fazendo mais sessões Essência, vou percebendo cada vez mais as diferenças, e ao mesmo tempo as semelhanças, em cada mulher. Também estou em constante pesquisa e estudo sobre o corpo e a mente da mulher. Descobri que este trabalho está a ser terapêutico. Não é “terapia” porque não sou terapeuta, mas é um trabalho emocional e transformador muito forte. A mulher não tem a noção consciente que eu estou lá, mas sente a minha presença e vai agindo conforme a minha linguagem corporal. Vou guiando conforme e onde me coloco. A própria mulher é que decide quando é que está pronta e também quando termina. É engraçado que todas elas chegam a um ponto em que olham para mim, com olhos de me ver, e dizem… “Pronto! Já está!” Isto dito com uma leveza muito grande. É lindo!

M – Se é…

L – E depois entrego-lhes todas as fotografias da viagem. Neste momento estou a editar uma sessão com mais de 500 fotos, um trabalho de quatro horas!Cada expressão é tão diferente em cada momento, que eu envio mesmo tudo. Mas não as envio logo. A experiência é tão intensa que eu quero que a mulher vá digerindo pouco a pouco o que aconteceu, mas com o que sentiu por dentro, sem ver o lado de fora. E só depois, deixo passar uma semana ou 15 dias, é que envio tudo, para reviverem o momento. É espectacular depois receber o feedback de mulheres que me dizem que se sentem muito mais reconectadas consigo, que têm de repente coragem para começar novos projectos que sempre sonharam mas não tinham coragem para avançar, outras que assumem uma posição com o companheiro sem se abafarem… outras encontraram um lugar sagrado onde voltam, porque se tornou um lugar especial (com ou sem meditação, apenas estar)… outras que têm muito mais paciência com os filhos. Todas elas dizem que todos os sentidos parecem ter aumentado, as coisas têm mais sabor, tem mais cheiro… mais cor. Tem sido mesmo muito intenso.

M – Com este projecto a fotografia de partos fica um pouco em stand by… e ser doula?

L – Sim e não. Porque eu sinto-me a “doular” as mulheres, de uma outra forma, mas a “doular”. No fundo para se parirem a si próprias!

 

E foi assim que terminou esta entrevista. Quatro filhos, quatro partos, todos diferentes. Únicos, como as experiências de 40 anos de vida da Lieve. Ser Mãe, doula, fotógrafa de partos e agora as experiências no feminino do projecto Essência, com mulheres à descoberta de si mesmas.

Há pessoas assim… a vida interpela-as, chama-as a fazer algo e elas simplesmente arregaçam as mangas e dizem “Aqui estou”. 

O que virá a seguir…? 

Mais sobre este trabalho inspirador da Lieve AQUI. E se quiser aventurar-se num viagem à procura de sim mesma que tal um mergulho no Projecto Essência?

 

Lieve (1)


Mulher dos 7 ofícios, divido o meu tempo entre a Educação, o Teatro, o Associativismo e 1001 ideias sempre em processamento. A minha "actividade" principal é, no entanto, ser Mãe. (Re)descobrir o mundo novamente pelas mãos do meu filho e despertar novas sensibilidades em ambos. Tenho como lema "falhar, falhar mais, falhar melhor". (não sigo o acordo ortográfico)