Pensamentos de uma Mãe ativista Mães D'Água / Ser Mulher

Fará sentido saber a forma como nascemos? Como nasceu a nossa mãe, a nossa avó, ou simplesmente saber o que as marcou, o que ficou? Fará sentido saber como se nasce em outros países, em outras culturas?
Será que há uma real preocupação em saber o que sente uma mulher grávida, o que deseja, o que precisa enquanto gera o seu filho? Sente-se apoiada, protegida, capacitada, compreendida na hora de parir? Será que têm ao seu lado, uma voz segura a desconstruir medos, mitos, receios?

Será exagero dizer que o nascimento de um filho transforma uma mulher de forma irreversível?
O meu ativismo nasceu com a maternidade e cresce de dia para dia.

Em Portugal o ativismo feminino ligado aos direitos humanos no nascimento tem sido bastante discreto quando comparado com o ativismo que luta pela igualdade de género e pela inclusão social, querendo dar visibilidade às mulheres na vida social, política, cultural e quotidiana.
E todo o tipo de ativismo contribui para a mudança.

De facto todos podemos mudar o mundo!

Mudar o que nos toca profundamente, mudar o que está ao nosso alcance. Passo a passo mudam-se realidades, questionam-se verdades indiscutíveis, juntam-se pessoas com objetivos comuns.
Assim se criam Movimentos, assim surgem as Mães d’Água! Um movimento que quer mostrar que as mulheres têm algo a dizer, a pedir, a exigir, quando se fala da forma como se nasce em Portugal.
Um Movimento cívico que quer mudar o mundo, mudando a vivência do nascimento para mãe, pai e bebé, contribuindo para a capacitação dos casais, questionando os protocolos e as opções hospitalares.
Em Portugal eram poucas as mulheres/casais que reprovavam a realidade que domina as nossas maternidades, hoje já somos mais! Ainda a começar, é certo! Com muitos desafios e momentos de celebração futuras. Mas iremos ser mais, mais fortes! Os suficientes para mostrar que terá de haver lugar para as nossas opções.
Algo mudou quando se tocou num projeto que aumentou em flecha a satisfação parental com a experiência do nascimento e de repente passou a ser, primeiro desaconselhado e depois suspenso.
Falo do 1º Projeto Ibérico de Parto na Água implementado num hospital público em Portugal, Hospital de São Bernardo em Setúbal, pela equipa de EEESMO da instituição. Um projeto pioneiro que seria certamente replicado por tantos outros hospitais e maternidades, não fosse ele literalmente banido daquele hospital como se houvesse perigo de contágio. Perigo de contágio? Parece estranho mas não é, não fosse este tipo de parto defendido por minorias que retiraram da zona de conforto tantos profissionais. Novas ativistas, mulheres com vontade própria, procuravam um projeto inovador muito pouco consensual na esfera clínica, para vivenciarem o nascimento.
Mesmo existido dúvidas relativamente a direitos ou modelos de assistência e apoio no parto, mesmo carregando um ativismo tímido, a mensagem, os relatos e testemunhos, tornaram este projeto um perigo para quem acreditava que o modelo “medicocêntrico” seria uma realidade inquestionável.
A verdade é que todos contribuímos para que este modelo onde há pouco espaço para a mulher se transforma-se numa realidade quase indestrutível. Um modelo paternalista que se instalou, ganhou forma e força.

E por mais voltas que possa dar ao texto a culpa é de cada um de nós! Falo de um problema cultural. Falo de desresponsabilização cívica, falo de falta de envolvimento em questões tão importantes como a do nascimento. E como podemos de facto alterar a forma como se vê o nascimento?

É um caminho longo mas necessário. Teremos sim de começar pelo início, pelo problema… terá de se quebrar as falsas verdades que alimentam tantas teorias e que até hoje desviam o caminho de tantas mulheres. A cultura do medo, a cultura do sexo fraco, a cultura do tempo e do protocolo, mas não só, a falsa verdade de que vai correr melhor se adormecermos sensações, sentimentos, estados de alma… vai correr melhor se nada for questionado, que para tudo correr bem será melhor ser aquilo que alguém pensou…que podemos comprar a paz.

Será exagero dizer que está tudo mal?

Se muitos acreditam que foram os avanços tecnológicos e científicos que vieram salvar o futuro do nascimento, eu acredito que quem irá fazer a diferença são as pessoas. São os Movimentos cívicos, são os homens e mulheres de hoje.
Pessoas que olham nos olhos de outras pessoas, que sabem ouvir, que são verdadeiras, cooperantes, dedicadas, humildes e sábias.
Como mulher sinto que foi isso que me valeu e foi isso que encontrei ao tornar-me mãe. E graças a essa experiencia sou uma mãe ativista!
Que luta para recuperar o Parto na Água, e para o implementar a nível nacional, com tantas outras mulheres que o viveram ou desejam viver esta experiencia libertadora! Que Luta por uma opção que irá mudar o mundo para melhor.

~ Inês Anjo


Sou uma mulher apaixonada pela vida acreditando sempre no potencial de cada pessoa conseguir ultrapassar limites e descobrir a sua plenitude. Com a minha gravidez e maternidade iniciei um caminho de encontro com a minha essência. A minha paixão pessoal… ser Mãe d’agua.

  • Marta Monteiro

    Obrigada Inês por este texto maravilhoso. Embora não tenha feito esta escolha para os meus partos, concordo e apoio esta causa! As mulheres têm o direito de escolher, de serem informadas e de participarem activamente nas decisões do nascimento dos seus filhos. É o nosso corpo, são os nossos filhos e é o nosso trabalho de parto.

    • Inês Anjo

      Querida Marta é essa a questão. Falamos de direitos e essa palavra diz tudo… Opções para todas as famílias, porque são todas diferentes e merecem direitos iguais. Sem opções para o parto fisiológico, este processo fica comprometido. Vamos então fazer o possível, o que está ao nosso alcance, assim faremos a nossa parte! Somos todos importantes e essenciais para promover esta mudança. Muito grata