[Relato de parto #7] Dora Almeida Relatos

Até a pouco pensei que não fazia sentido partilhar o meu relato de parto mas depois pensei… Gosto tanto de ler relatos de parto felizes aqui… que talvez o meu valesse a pena partilhar com vocês!

Não será o último parto assim, não foi com certeza o primeiro, mas decerto para mim mágico e único!  Vivo na Suíça e tal como o parto hospitalar, o parto domiciliar aqui é uma opção da mulher! Apesar de apenas 3 a 4% das mulheres suíças optarem por tal!
Assim que soube, foi logo para mim a primeira opção! Não podia perder esta oportunidade uma vez que vivia num país onde me dava todas as condições para tal.
Pois assim foi. Procurei no início da gravidez uma parteira e felizmente depois de conhecer uma e ter falado com outra, “a tal” apareceu, e foi quem me fez o acompanhamento ao longo da gravidez (em paralelo com as ecografias devidas no hospital!).
Mais uma vez (senti o mesmo da primeira gravidez) nunca pensei passar das 38 semanas… Mas passei! Todas sabemos como é… a partir desta altura já estamos cansadas e ansiosas para termos o nosso bebé nos braços! Os sinais eram vários mas a coisa ainda não se dava! Até que um dia, após mais uma caminhada com o marido e filha… comecei a ter contrações um pouco mais dolorosas que o normal, estávamos quase a chegar a casa, e começaram a ser mais frequentes! Em casa o meu marido começou a ajudar a contar, “et voilá”, estavam regulares!! Que felicidade… o momento estava quase a chegar! Pelas minhas contas, e tendo em conta o meu primeiro parto que durou 12 horas desde a contração regular até à expulsão (impossível não compararmos), este bebé iria nascer lá para a meia noite ou uma da manhã… Pensei eu, sem nunca me focar muito nisso porque nestas coisas não vale a pena, no fundo não sabemos de nada!
Passado umas duas horas mandei mensagem à minha parteira, ela deu algum tempo e depois veio ter connosco!
Fez CTG, mediu a tensão etc… O CTG não estava como ela gostaria tendo em conta a minha tensão alta! Ou seja, numa das contrações e após a mesma os batimentos do bebê desviavam ligeiramente. Ela referiu que estes dois factores eram de risco e que provavelmente teríamos de ir para o hospital.
Fiquei desanimada não pela opção, pois nunca quereria pôr o meu bebé em risco… mas sim porque sentia (e sabia) que tudo estava bem! A tensão alta sempre a tive e nunca me impediu de nada… Inclusive na primeira gravidez, tinham sempre de medir mais do que uma vez, e depois de eu estar parada algum tempo. Sempre disse a minha parteira que se fosse necessário iríamos para o hospital sem problema… Mas neste caso seria mesmo uma desilusão porque por um lado compreendo-a, não queria pôr em risco nada nem ninguém, mas por outro lado a minha intuição era forte, eu não podia garantir-lhe que a “normal” tensão alta não iria influenciar negativamente o parto em casa, mas tinha vontade!
Foi super querida e percebeu o estado em que fiquei, e deu uma alternativa: iria voltar mais logo, eu teria de me acalmar e voltaríamos a fazer novamente o CTG e medição da tensão e logo veríamos como actuar! Uma vez que ainda estava tudo no início!
Assim foi, voltou daí a umas horas. O CTG estava normal, a tensão, apesar de descer, estava no limite. Como eu não tinha assim muitas contrações dolorosas, na opinião dela não precisava de verificar a dilatação, uma vez que não esperava que tivesse ainda muito avançada, mas eu pedi-lhe que o fizesse – estava com 2/3 dedos! Achei de facto pouquíssimo e estava à espera de mais, já tinham passado algumas horas e pensei que tudo se desse mais rápido. Começaram os sinas às 14:30 da tarde e já eram umas 22h e tal…
Ela voltou para casa (vive a 10min) e fomos descansar, uma vez que tudo estava pacífico. Eram 23h quando ela saiu, fiquei de lhe dizer algo se houvesse alguma alteração, caso contrário tínhamos encontro marcado no dia seguinte às 10h (que era o dia previsto de nascimento).
Fiquei na conversa com o meu marido até à meia noite, talvez. Antes de nos deitarmos tive duas contrações muito dolorosas, e o meu marido sugeriu (e bem) que ficasse no sofá, senão iria acordar a minha filha a contorcer-me de dores. Combinámos que lhe mandaria “um toque” se precisasse de algo, para não a acordar.
Deitei-me no sofá e tentei descansar.
Tentei… As dores pioraram e pioraram… Achei que iriam abrandar e que era uma fase, mas qua ainda conseguiria dormir… Pioravam a cada momento, e deixei de conseguir pensar… Continuei a tentar descansar.
Entrei de tal forma em transe que apenas tentava aguentar, à espera que passassem as dores. Começaram as contrações a ficar cada vez mais próximas entre elas, e lembro-me de “apagar” nos intervalos (nunca pensei que isto fosse possível, dormir, literalmente por breves momentos até à próxima dor). Para aliviar a dor com o meu punho pressionava o mais que podia a minha lombar, e começo a sentir uma vontade enorme de ir à casa de banho, pensei “não aguento mais”, pensei que algo estava errado…
Mando de imediato uma mensagem à parteira para vir e “um toque” ao meu marido. Quando ele veio eu já sentada no sofá, só lhe disse que me tinham rebentado as águas, porque me sentia molhada.. Levantei-me para ir à casa de banho e toda eu tremia que nem varas verdes, de tal forma foi o esforço físico naquela última hora… tiro as cuecas e vejo que era sangue e não “as águas”. O meu marido ficou um pouco em pânico mas eu achei que era normal pois o mesmo aconteceu no meu primeiro parto.

Ligo a água para encher a banheira na esperança de ficar melhor enquanto espero a parteira…

Estava toda a tremer sem quase conseguir falar, só a tentar aliviar, e seguir o que o meu corpo me mandava. Antes de entrar na água uma enorme vontade de fazer força – tive que fazer, a tal “vontade incontrolável”. O meu marido tentava falar com a parteira e enchia a piscina de parto.
Entro na banheira e ao mesmo tempo que grito, oiço a minha filha também a gritar, porque acordou e não me viu, apenas ouviu o meu grito! Assim que me viu na banheira parou, ao longe, e começou a observar-me, tranquilamente (o meu marido disse-me depois que parou de chorar assim que me viu daquela forma). Lembro-me de ter dito ao meu marido para fechar a porta ou para tirar a nossa filha dali, não queria que me visse assim, não sabia a reação. Isto no meio de tanta dor e vontade de fazer força. Sentia que precisava de mais espaço… faço mais uma vez força… acreditem ou não, eu estava de tal maneira em transe e concentrada, que ainda não sabia bem o que se estava a passar, e acho que naquele momento isso não era importante. Importante era eu seguir o meu corpo, seguir o instinto e parir! Assim foi…
Eu estava de cócoras, vertical, com as mãos de lado na banheira, levanto-me, toco, e sinto já a cabeça da minha bebé… O meu foco agora mudou, fiquei com receio de estar a magoar a bebé, não tinha ninguém a dizer-me como fazer, se estava a ir bem ou não, então só me restava tirar a minha bebé cá para fora…

Mudo ligeiramente a posição e levanto-me porque precisava de abrir mais as pernas… Mais uma força e sai a minha bebé para a água nas minhas mãos… Que sensação indescritível!!
Ali, na minha casa de banho, na banheira, a tirar o meu bebé de dentro de mim!!

Pensei, “isto não foi possível”… Aí “acordei” e senti-me poderosa!! A minha bebé chorou e quando olho para ela… percebi que estava tudo bem!  O meu marido chegou entretanto à casa de banho, abriu a porta e ficou perplexo e emocionado… Ninguém estava à espera que tudo fosse tão rápido e… assim!! Foi maravilhoso! Ele ajudou-me a tirar o cordão em redor dos ombros porque eu estava ainda toda a tremer. Perguntei pela parteira e ela estava a chegar… Chegou minutos depois do nascimento!
A minha filha veio ver a mana bebé e parece que já estava à espera deste momento tão falado antes, foi tudo tão natural, tranquilo e emotivo.
A minha placenta não saiu logo. Saí do banho, fui para o sofá, e foi então que, por sugestão da parteira, esperei por uma contração para fazer mais uma vez força, para a saída da placenta. A placenta estava completa e tudo estava bem. Levei quatro pontos (dois internos e dois externos) e no final do dia do nascimento eu já estava pronta para outra :-))
E foi assim que Nasceu a minha bebé… da maneira mais inesperada que alguma vez imaginei, com 3,500 kg e 52 cm precisamente às 40 semanas de gestação! Foi um parto tão mágico e puro… que só desejo que muitas mulheres passem pelo mesmo!
Um feliz ano 2016 a todas… Com muitos partos de sucesso, com muitos bebés de água e famílias felizes…
O meu 2015 acabou tão bem… Que o 2016 já está ganho!

~ Dora Almeida


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.

  • Carla Valverde Nomura

    que lindo!! maravilhoso de fato! Parabens!

    • Um parto poderoso! Inspirador! <3

      • Dora Almeida

        ❤️ Espero que de facto sirva de inspiração a muitas mulheres! Para saberem a FORÇA que temos e nem imaginamos .. muito grata do fundo do meu coração

    • Dora Almeida

      Muito grata! Que todos as mulheres possam experienciar o seu parto da mesma mágica forma 🙂

  • Carla Martins

    Motivador e inspirador!! Parabens e obrigado pela partilha deste relato. O melhor relato que tive prazer de ler.