Quando eu nasci… Especiais / Ser Mãe

A minha mãe, suas experiências de parto.

Uma das frases que a minha mãe mais me repetiu durante a minha gravidez foi: “Decidir sobre o teu parto? Naquele momento de horror tu consegues lá escolher alguma coisa!

Para mim isto resume, tristemente, as suas, quatro, experiências de parto.

A minha mãe faz parte das pessoas que foram ensinadas a confiar no médico acima de qualquer outra coisa, a não questionar sequer. Nas nossas muitas conversas sobre este tema do parto, quando eu referia que há várias opções, a visão hospital/ médico é apenas uma… ela abanava a cabeça, em firme negativa, “Mas essa é a única segura!“.
Quando lhe dizia que muitos nasciam em casa, ela referia os muitos que morriam.
Quando eu lhe falava de plano de parto, ela falava de ciência e hierarquizava claramente a minha posição no hospital – abaixo do “Doutor“, da equipe, do “procedimento médico“…

A minha mãe não sabia, mas a experiência de parto pode ser diferente.
Ela não sabia que se pode ter prazer no parto, ter confiança, conforto, alegria. Não acreditava.
Os “partos fáceis” para ele eram sortes do acaso e as “horas pequeninas” excepções invejáveis.
Falámos muito sobre as suas experiências de parto…

Durante o segundo parto eu só pensava: mas eu já sabia que era assim! Para que me vim meter nisto de novo?”

Lembro-me da reacção das enfermeiras: grávida outra vez?!?! Ainda agora pariu um! Não fazem mais nada!

De ouvir nos outros quartos: Está a gritar para quê? Quando o fez não gritou!

Eu tocava a campainha mas elas (as enfermeiras) não vinham…
– O meu filho vai nascer!!
– Hei! isso ainda está muito atrasado!
– Talvez… Mas eu já não consigo fechar as pernas.
– Ai que ela vai parir na cama!!

No parto do teu irmão a enfermeira ficou em pânico:
– Não faça força que eu estou aqui sozinha, o doutor foi jantar e eu não me responsabilizo! Não posso fazer o parto sozinha!

No hospital onde tive o bebé que morreu havia fila para nos cortarem os pêlos púbicos. No início da fila uma enfermeira gorda, daquelas brutas, com uma lâmina suja de pêlos na mão! Que nojo!

Pelo caminho perdeu um filho.
Perdemos, ela um filho, nós, um irmão.

Perdeu um filho no parto onde “deveria ter o melhor acompanhamento, as melhores condições – foi no hospital da capital! Vocês nasceram na província, em boas clínicas, (tu no hospital), mas… Fui muito melhor tratada nos outros partos. Naquele hospital enorme foi tão frio… Não dão importância nenhuma a uma pessoa. Foi horrível. Não vás para Lisboa, filha! Eu tenho tanto medo!

Esta perda marcou-a muito. Refere muitas vezes a sensação impossível de “voltar para casa de mãos… vazias… sem nada.

Foi horrível. Na altura o teu pai quis fazer queixa. Foi negligência médica! Mas eu não queria uma guerra dessas, só queria esquecer isso tudo. Ultrapassar, percebes?

A minha mãe ficou em pânico quando lhe falei dos meus planos de parto – na água, e até ao final referiu o medo que sentia. Medo.

Eu não leio nas histórias de parto da minha mãe experiências felizes. Mas o mais duro é que ela não fala deles como “partos roubados”… fala deles como “partos normais”.

O parto é uma coisa difícil! Um parto é assim, é uma coisa horrível, ninguém gosta! Mas quando recebemos o bebé nos braços esquecemos isso tudo! Tu, quando te vi já estavas vestida e lavadinha – foi o parto mais fácil.

Eu estou aqui, com as mães D’ água, para que isto não seja “o normal”.

Quando engravidei sonhei em ter a minha mãe ao meu lado no momento do parto, e bastaram algumas conversas para desistir desta ideia. A culpa não é dela. Mas eu não podia convidar este medo, a sentar-se comigo.
Quando entrei em trabalho de parto a minha mãe veio até Setubal, e esperou lá fora, ansiosa, enquanto todo o parto se desenrolava na água, ao som da minha própria voz a cantar. A minha mãe recebeu o seu neto sem sinal de stress, sem choro, calmo, dormindo até. E viu-me a mim, pouco depois, dizendo: “nem parece que tiveste bebé agora! Olha para ti!

O que vos posso dizer? Que gostava de ter sido eu a acompanhar a minha mãe quando ela pariu. Gostava lhe ter segurado na mão e massajado as costas. De a ter sossegado. De lhe ter falado baixinho e com o carinho que ela merece. De ter sido paciente, respeitadora. Gostava que ela tivesse sorrido perante o deslumbre da vida, ainda que se desenrole por desconfortos, e até dores. E sobretudo gostava, que ela não tivesse sentido medo.

Eu não posso mudar as histórias de parto da minha mãe, mas pude escrever a minha.
Escolhi. Escolhi ser dona do meu parto e não pôr esta “hora” nas “mãos de quem sabe”. Não. O parto é meu. O parto foi meu. Ou antes… foi nosso…

Semanas depois de parir, vi, comovida, a minha mãe a mostrar imagens minhas, na piscina, às amigas. E com brilho nos olhos, como se fosse história que lhe pertencesse, e ela a defensora deste modo de nascer, dizer: “Nasceu na água! Olhem para isto! Nem uma aspirina ela tomou!!

Sim, no parto nascemos de novo. O nosso bebé, nós, e todos os que tomam parte do processo renascem também…

A mulher durante o parto é veículo de cura, não só para ela, mas para as que vieram antes dela… e para as que virão.

Quando eu nasci foi assim… mas já não é. Pois não?


Joana é Mãe D' água, já foi actriz e está preparada para ser Deusa. A Joana é mãe, yogui, viajante, escritora, activista pelos direitos da mulher... Uma "inspiradora de mães", como ela gosta de dizer. E porque Sereia não escreve só na areia a Joana é a editora oficial das mães D' água. Doce e salgada, escreve sobre tudo e sobre nada. Sobre amor, sobre magia, sobre viagens interiores e sobre os acordares da maternidade. (terminou colaboração com o blogue em Junho 2017)