O que nos conta o nosso corpo sobre nós e sobre o Todo Ser Mulher

~ Alma Mater ~
Radmila Jovanovic, ginecologista e obstetra, fala dos ciclos da mulher

no Alma Mater da ALAGAMARES TV

(episódio 2)

Bem-vindo ao segundo episódio da Alma Mater na rubrica “Ser Mulher por Inteiro”!
Depois de termos entrado um bocadinho no nosso ritmo, no ciclo, agora vamos – nos próximos três episódios -, falar mais sobre partes do nosso corpo e o que é que elas nos contam sobre nós e sobre o Todo.
Para isso vou precisar de um desenho pequeno. Esta estrutura aqui no meio é o útero; isto a vagina e a vulva; as trompas e os ovários. É um esquema do nosso corpo. Daquilo que se encontra dentro, daquilo que os americanos chamam “room”. Neste nosso corpo, existem gravações ou divisórias que falam sobre três tempos diferentes. Quando nos centramos na área da vagina, vulva e, inclusive, numa parte do colo também, falamos do aqui e agora. Quando vamos para os ovários, falamos do passado, falamos das heranças e, quando entramos no útero, (e ali outra vez cruzo aqui e pego o colo junto), falamos sobre a projeção do futuro, falamos daquilo que quer vir.
Significa que nesta vez, neste segundo episódio vamos falar sobre o aqui e agora, sobre a vulva e a vagina. A vulva é o portão para o nosso jardim; a vulva é a entrada; a vulva é uma apresentação; a vulva é o sítio onde se decide quem pode entrar e quem não. A vagina é o órgão onde se partilha; onde o dentro entra em contacto com o que está fora; onde a nossa casa recebe uma nova informação. A parte de fora é uma parte que é importantíssima, a vulva é uma parte que é importantíssima, porque ali existe um órgão crucial, um órgão que foi muitos anos ignorado e nem sequer chamado importante e nem sequer usado na medicina, que é o clítoris. E o clítoris é o órgão que serve apenas para trazer prazer. Então, essa é uma informação que se encontra no nosso corpo, na vulva, que diz: só por prazer vale a pena comunicar; vale a pena encontrar-se um feminino e masculino; vale a pena o interior e exterior fazerem uma nova composição? Fala sobre o dia-a-dia, fala sobre o que a vida traz, como é que a vida deveria ser também vivida só por busca de prazer e não é só porque tem que ser.
O que é que acontece naquela altura? Antes de haver um relacionamento sexual, a vulva tem que ser preparada para isso. Ela se prepara para isso. E ali, o clítoris tem uma função crucial. Ele traz depois toda esta movimentação, inchaço, toda esta transformação da entrada, traz todos os mucos necessários para poder haver um prazeroso primeiro contacto.
É muito interessante o clítoris, hoje em dia. Na Holanda existe um grupo de médicos que só se dedicam a ele e tentam perceber para que é que ele pode servir, ao nível da saúde. É um sítio onde se cria energia altíssima, energia excitada, energia que depois, de repente, começa a acordar a kundalini e a levá-la para os sítios mais altos; sair daquilo que é matéria e entrar nos sítios das ondas. Onde, no fim, também transformação pode acontecer, porque a matéria em si não vai ser possível mover. Ela tem que ser transportada ao nível cardíaco e além disso, para poder ganhar uma nova capacidade de poder ser retomada na matéria diferente.
É muito bonito termos um sítio tão especial e tão sensível! É um sítio que tem uma sensibilidade muitíssimo mais apurada do que, por exemplo, a glande do pénis dos homens. E é um sítio que serve mesmo para isso, para nos ensinar que é necessário ir à busca de tudo o que fazemos; ir em busca do prazer. E, ganhando conexão com o prazer, ganhamos logo a possibilidade e a capacidade de transformar. Sem isso, ficamos sempre só na matéria, a conectarmo-nos com aquilo que já existe; a reparar e a restaurar e nada mais do que isso.
Quando existe entrada dentro de nós e quando existe conexão com o masculino e o feminino, começa sempre um processo transformativo. Por isso, é ainda mais importante, existir sempre esta energia alta, onde a movimentação da onda pode acontecer.
O encontro entre o masculino e o feminino, que nós chamamos sexualidade e que está colocado assim muito em baixo para a gente não falar sobre isso, mas quando se fala sobre vagina e vulva tem que se falar sobre sexualidade, porque um acto que promove a transformação por si próprio, num acto próprio, que mexe com a nossa matrix; que mexe com aquela energia que temos dentro de nós; que movimenta as nossas águas; que nos leva, depois, ao “onde é que nós estamos” antes de uma relação, que é diferente do depois de uma relação sexual. Existe um upgrade, existe uma nova mulher, existe um novo encontro na próxima vez. O que significa que é um momento muito importante. Com este movimento muito importante ficamos a perceber ainda mais se nos conectarmos com o movimento que é a mesma coisa só que muito maior, que é o parto. A mesma situação! Um prolongamento gravidez/parto de 9 meses é a mesma situação. É entrada, é desenvolvimento, é transformação e criação do novo e expulsão de uma coisa nova para fora. As hormonas que atuam são iguais, seja num seja no outro. A única coisa é que a potência das hormonas é muito mais alta no parto, porque também é necessário, porque existe um impacto muito maior, do que no acto da sexualidade. E quando a sexualidade é vivida – significa quando este convite desta área aqui é a entrada do exterior – é vivido de uma maneira consciente, nós ganhamos uma nova sabedoria; uma nova conexão. Isto é o meu pedido a todos nós, que percebamos que não é a questão de fricção apenas – claro, a fricção traz orgasmos e muita coisa -, mas não se trata disso. Trata-se de perceber a percepção da modificação que isto trouxe para nós e que isto não seja escondido no dia-a-dia, quando depois saímos para trabalhar. Que tenhamos um tempo de assimilar isto que está a acontecer neste Universo, naquele momento. É um momento sagrado; são momentos muito sagrados, independentemente de quanto tempo dura ou não e merecem ter o tempo de honrar; o tempo depois.
Quando nós convidamos alguém para vir ter connosco na nossa casa, nós bem sabemos o que temos em casa, certo? A minha questão a vocês é: Vocês também sabem o que têm em casa? Vocês conhecem todos os cantos, todas as sensações e todos os sítios? Vocês sabem onde é o sítio melhor para o convidado sentar, ficar? Que sítios têm que ser protegidos e, se calhar, não entrar naquele momento? Você sabem isto nas vossas casas? Porque é que eu falo agora disso? É um convite para nós, Mulheres! A beleza daquilo que se encontra dentro do nosso sistema e começar a conhecer esta beleza que se encontra dentro desse nosso sistema, para podermos conviver esta conexão entre o dentro e fora, entre o feminino e o masculino de uma maneira muito mais consciente, com muito mais informação. Por isso é que eu muitas vezes falo que precisamos de escolas; precisamos de sítios onde podemos ensinar isso, aprender isso; onde podemos tirar a roupa da vergonha; onde podemos simplesmente ficar presentes naquilo que existe dentro de nós. E percebemos, também, quanto é que é a nossa responsabilidade, como é que este contacto vai ser e o que é que vai ser transformado. Como é que nós podemos mexer no nosso específico acto sexual em casa, com o nosso marido, com a energia no mundo sobre aquilo que se quer criar. É um convite para explorarem e para convidarem os maridos ou os namorados ou os parceiros de uma outra maneira.
Obrigada!

Mais sobre Radmila Jovanovic:

Sou médica especialista em ginecologia e obstetrícia que usa visão holística no trabalho com as mulheres. Faço leitura do corpo feminino usando técnicas da medicina convencional em combinação com, entre outras, biologia da saúde, e experiência somática. O desenvolvimento do parto natural e humanizado, bem como a introdução do parto na água no meio hospitalar foram e são os meus focos principais enquanto médica obstetra. A auto-consciencialização e enpoderamento da mulher para a sabedoria do corpo feminino tem prioridade neste caminho.

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(imagem de capa de Chanel Baran)


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.