Entrevista com Luísa Condeço Entrevista / Ser Doula

“A Luísa é uma mulher inspiradora… tem os seus processos, como todos nós! mas a forma como ela encara os seus processos inspira muitas mulheres a passarem pelos delas, com coragem…

Depois, a humildade da sua essência , na sua forma de estar, de falar… sentimos realmente que quando ela está a ministrar o curso, está também a aprender com o grupo no qual está presente, porque na verdade a aprendizagem é uma constante na nossa vida…
A forma como nos recebeu em sua casa… nem tenho palavras, sabem a sensação de estarem fora de casa, mas como numa extensão à nossa própria casa? Exatamente assim…”

Uma mulher corajosa que, com as dificuldades que sentiu em ser mãe, devido à falta de informação que tinha desde a gravidez até ao parto, e nos primeiros anos, decidiu revolucionar o apoio à grávida/ casal e lutar pela liberdade e direito de escolha. Em 2002 iniciou o seu trabalho como doula autodidata e, em 2005 fundou a Associação de Doulas de Portugal. Mais tarde, em 2012, criou a Rede Portuguesa de Doulas, um grupo que reúne doulas de várias organizações, e também independentes, “numa partilha franca e aberta sobre todas as questões relacionadas com este modo de vida”.

Vamos descobrir quem é Luísa Condeço!

C – O que faz uma Doula? Qual o seu papel?
LC – Em todas as imagens antigas que representam um parto podemos observar como era comum a presença de uma ou mais mulheres, facilitando ou apoiando o nascimento de um bebé (e de uma mãe). Eram normalmente mulheres mais experientes que já haviam tido outras crianças ou assistido a mais partos. Era comum este hábito de as mulheres se juntarem para este evento e todas tinham uma função. Este padrão era repetido nascimento após nascimento. Algumas mulheres tornavam-se verdadeiras peritas neste apoio, dando origem às primeiras parteiras, visando o trabalho uma a uma. Ou seja, a parteira com a sua sabedoria milenar, considerando a fisiologia natural do nascimento, e apenas com aquela mulher, naquele momento. Outras mulheres davam outro tipo de apoio, normalmente mais emocional e prático – estas foram as primeiras doulas.

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C – Adoro a ideia de “ajudar uma mãe a nascer”.

LC – Doula é uma palavra grega que significa “mulher que serve” e era designativa das mulheres que cuidavam de outras, especialmente grávidas, mulheres lactantes ou com crianças recém-nascidas. As doulas acompanhavam o crescimento destas crianças nas suas várias etapas de desenvolvimento estando, muitas vezes, presentes como uma figura materna de confiança, ao lado dos filhos da mulher a quem serviam. Esta palavra foi usada pela primeira vez no ocidente pela escritora americana Dana Raphael no seu livro “The Thender Gift” onde é feita a referência a mulheres que facilitam o apoio emocional e físico a outras durante o trabalho de parto e parto.

Mas tarde, uma equipa de pediatras, Marshall Klaus, Phillys Klaus e John Kennel (falecido em Agosto de 2013), usaram esta designação para descrever as mulheres que davam apoio físico em hospitais na Guatemala, onde efetuaram um estudo sobre os benefícios deste apoio.
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C – O que leva um casal a procurar uma Doula?
LC
Muitas vezes a vontade de saber mais, outras de procurar um porto de abrigo incondicional que eles reconheçam como tal. A certeza de que da Doula virá informação fidedigna e respeito pelas suas escolhas mais íntimas. Informar-se melhor e conquistar um parto mais saudável e seguro tanto para a mulher como para o bebé.

C – Nos dias que correm há muita procura por Doulas?

LC – Não sei o que entendes por “muita” mas todas as semanas temos pedidos de informação e de acompanhamento de doulas.
C – Isso é óptimo!

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Eu tive de levar os meus filhos comigo para o Curso de Doula, os quatro passaram por lá, e foram recebidos e acolhidos com imenso carinho, mesmo entre choros e desassossego natural de uma criança, fraldas esquecidas em cima da cama… Agradeço do fundo da minha alma a oportunidade de poder crescer nesta formação, de ter tido a oportunidade de conhecer a Luísa, o que por si só já é transformador. Conhecer a sua história, mostra bem o quão emponderada é, e isso é… inspirador!!!”

C – Quais sentes serem os maiores receios das mães?
LC – De não ser capaz, de não ser suficiente, de ter medo de morrer, que o bebé não seja perfeito, que doa muito, que o bebé sofra. Que a determinado momento elas não consigam e acabem por ter intervenções no parto que prejudiquem a sua saúde e a do seu bebé.

C – E dos papás? Há muita diferença em relação a medos? Ou vão muito de encontro aos das mulheres?
LC – Os mesmos relativos ao bebé, mas com a variação do medo que a sua companheira morra, que sofra sem necessidade, incluindo sofrimento causado por intervenções hospitalares desnecessárias, que a afete de forma irreversível a nível emocional, físico, sexual e psicológico.

C – O que te motivou a ser Doula?
LC – Um parto induzido sem necessidade médica que resultou numa cesariana com anestesia geral, tendo-me sentido defraudada na informação que me tinha sido oferecida na Preparação para o Parto, dificuldades na amamentação que resultaram num puerpério muito difícil. Quando descobri o que era a Doula percebi que se tivesse tido uma, toda a minha experiência teria sido diferente. Mas sinto gratidão por ter sido como foi. Abriu-me para esta experiência maravilhosa!

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(Imagem fantástica no curso de doulas, trabalho emocional com a maravilhosa Xuxuta Grave)

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(com Barbara Harper)

C – Quais as primeiras palavras que em que pensas se te pedir para definir “Doula”.

LC – Amor e apoio incondicional, suporte, orientação, descoberta, entrega, guardiã do espaço sagrado da grávida, constância, confiança.

A Luísa é uma pessoa que ficará certamente para sempre no meu coração. O que ela proporciona no seu curso é algo mesmo arrebatador, não é um simples curso de Doula, engane-se quem o começa achando isso, como eu (risos)! Muito, mas muito mais que isso! Muito mais profundo, é uma descoberta profunda do nosso ser, é um trabalho muito intenso, que nos transforma de uma maneira arrebatadora no que diz respeito ao nosso auto conhecimento, para depois poder olhar o outro também desta forma profunda. Para o poder entender muito para além do que está por cima! Isto é fundamental quando se está a trabalhar com uma mulher que está a gerar um ser e prestes a parir… com todas as suas questões emocionais, com toda a sua história, medos anseios… por isso digo, para mim fez todo o sentido iniciar esta minha caminhada com a Luisa, e eternamente grata ao Universo por me ter colocado neste caminho…”

 

C – Qual o momento certo para ter uma Doula?
LC – Cada mulher saberá melhor, mas a ideia é que quando pense em engravidar, pense também numa doula!

Há uns anos atrás, cerca de dois ou tres anos, não sei precisar ao certo, pensei: “se fizer esta formação (doula) quero fazer com aquela mulher”. Ainda investiguei outras formações mas, o que é certo, é que nunca se proporcionou… ou não eram no Algarve, ou não aconteciam por falta de inscrições, ou simplesmente não tinha dinheiro. Acabou por se proporcionar com a Luísa, parece que no fundo, no fundo, eu já sabia que ia ser com ela…”

C – Qual a função da Doula na gravidez? E qual o seu papel no trabalho de parto?
LC – É diferente em cada momento:
O papel da doula
A doula é alguém que conhece e compreende a fisiologia do parto, que respeita e tenta assegurar as necessidades básicas de uma mulher em trabalho de parto e, acima de tudo, respeita as opções da mulher grávida/casal, apoiando nas decisões informadas e conscientes.

Durante a gravidez
Acompanha a grávida durante a gestação através de apoio emocional, esclarecimento de dúvidas e procura de informação. Ajuda também a planear e desmistificar o trabalho de parto e puerpério (pós-parto).

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Durante o Trabalho de Parto
No trabalho de parto, a doula está ao lado da mãe criando uma esfera de proteção e confiança que facilita a progressão do trabalho de parto. A doula poderá propor medidas de conforto como duche ou banho, toque de conforto, relaxamento ou respiração profunda. A doula apoia também o pai e mostra como ele poderá ser útil e mais participativo, se for esse o desejo do casal.

Quando o parto decorre no hospital, a doula é a única profissional que garante assistência personalizada e contínua à parturiente, funcionando também como um elo de ligação entre a equipa de atendimento e o casal. Ela explica os termos médicos e os procedimentos hospitalares visando sempre proteger a experiência emocional do parto para o casal. A doula não executa atos médicos nem perturba a equipa médica.

No Pós-Parto ou Puerpério
A doula também presta serviços no pós-parto, nomeadamente no que respeita aos cuidados a ter com o recém-nascido, apoio na amamentação, adaptação da família a um novo elemento ou realização de pequenas tarefas domésticas (caso a doula disponibilize este serviço).

O que a doula não faz:
A doula não efectua qualquer procedimento médico, e portanto, não substitui qualquer dos profissionais tradicionalmente envolvidos na assistência ao parto. A doula não deve perturbar o ambiente domiciliar nem hospitalar por razões pessoais ou outras. A equipa precisa de sentir que a doula é um elo de ligação e uma mais-ajuda ao processo e não uma perturbação ou entrave.

Que mais benefícios traz uma doula ?
A presença da doula produz um clima de intimidade, carinho, afeto e, acima de tudo, segurança.
As mães relatam uma experiência de parto mais satisfatória e gratificante, sentem-se mais fortalecidas, apresentam níveis mais baixos de ansiedade e níveis mais elevados de atenção e recetividade para com o seu bebé. O risco de depressão pós-parto também é diminuído. Tudo isto favorece o vínculo precoce entre ambos.
Além dos benefícios para mãe existem outros benefícios importantes:

Para o bebé
Os benefícios para o bebé também são evidentes. O risco de complicações e de internamento prolongado é diminuído, favorece-se o sucesso da amamentação e o reforço do vínculo mãe (pais) / bebé.

Para a equipa hospitalar (médicos e enfermeiros)
No que concerne à equipa médica, a doula contribui também para a diminuição da sua ansiedade, da pressa, dos receios e de todas as intervenções médicas daí decorrentes.
A presença da doula ajuda a grávida a perceber qual a melhor altura para se dirigir ao hospital/maternidade, evitando que essa deslocação se realize demasiado cedo (processo que pode desencadear a trilogia stress/ tensão/ medo).
A entrada no trabalho de parto franco (ativo) e a chegada ao ponto de não-retorno (a partir da meia dilatação), asseguram e firmam a confiança da parturiente e da equipa médica. Optar por ter uma doula é, muito provavelmente, a decisão mais importante que uma mulher pode tomar durante a gravidez para tentar viver um parto humanizado.

E para mim fez todo o sentido, logo no primeiro módulo pensei, ok já percebi porque tinha de iniciar aqui… e assim foi.”

C – Como escolher uma Doula?
LC – Com o coração. Ao clicar no nome da Doula no sítio da Rede a mulher vai poder ver uma foto da Doula, ler um texto que esta escreveu sobre si mesma, e nesse momento deverá ler mais que um, para sentir qual delas desperta na mulher grávida uma empatia, uma confiança que dará a essa Doula o privilégio de a acompanhar num dos momentos mais íntimos e transformadores da sua Vida.

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“Tenho formação em várias áreas mas o que mais me apaixona é mesmo a descoberta do mundo interior de cada mulher, nas suas experiências e vivências da maternidade e a construção e transformação de cada uma de nós, que se reflete no mundo que nos rodeia.” LC

C – Existem evidências científicas que mostram que a presença da Doula diminui a taxa de cesarianas e o tempo de trabalho de parto, etc. Na tua experiência como Doula, como justificas este facto?
LC – Porque a melhor ferramenta da Doula é ela mesma, isto quer dizer que quando a grávida escolhe uma doula, a grávida escolhe por via da empatia, criando uma ligação emocional com essa doula. Nessa ligação existem laços de confiança, de entrega, que só serão possíveis com essa doula. Com as suas competências, personalidade e características que a diferenciam de todas as outras. Isto, aliado ao facto de que a Doula proporciona apoio contínuo e alívio da dor com métodos não farmacológicos, temos como resultado, menor tempo de duração de trabalho de parto, menor taxas de cesariana, maior vinculação com o bebé e maior satisfação com o resultado do parto.

C – Qual a visão da Doula acerca do parto na água?
LC – Como noutros tipos de parto, se a grávida o escolheu de forma consciente e informada, se lhe traz benefícios a si e ao bebé, estaremos do lado dela incondicionalmente. Pessoalmente adoraria ter um parto na água!

C – Que bom!
LC – Muito grata por poder participar no vosso movimento.

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C – Onde te podemos encontrar?
LC – Nas redes sociais: no meu Facebook; Diretor executivo na empresa Rede Portuguesa de Doulas; no site.

Ofereço uma gama completa de serviços na área da maternidade e educação para mulheres e famílias, que vão desde o apoio à concepção, gravidez, parto e pós-parto e amamentação.

Leciono, também, cursos iniciais e avançados para doulas e formação em parto humanizado e métodos não farmacológicos para alívio da dor, para profissionais de saúde.

Criei o Circulo da Fertilidade e o Rosário da doula.

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Dou apoio às camadas mais jovens em áreas como o sistema reprodutor e sexualidade nas escolas e grupos de pais com adolescentes.

Consultas on-line via Skype ~ luisa.condeco71

Aproveito para agradecer publicamente a ti, minha irmã, por tudo… por cada abraço, pela receção calorosa em tua casa, pela oportunidade que me deste em estar presente nesta formação. Mesmo com todas as dificuldades que tive, por cada lágrima que choramos juntas, pelo pequeno almoço todas as manhãs preparado com tanto zelo e carinho, pelo calor da tua energia , pela tua luz… por tudo… adoro-te!!!!”


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alavras de carinho em homenagem à Luísa pela nossa querida Ana Conceição.

 

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E como uma imagem conta mais que mil palavras…

 

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… termina, desta forma doce e carinhosa, a entrevista a esta mulher, guerreira e defensora o poder de escolha da mulher. Que o emponderamento e a capacidade de aprender com as suas necessidades sejam uma inspiração para nós. Grata pela abertura, foi um prazer este tempinho partilhado.

~ Cátia Brandão

  (imagem de capa de Lieve Tobback)


Cátia é mãe, mãe d´água de coração! Adora o conhecimento acerca do funcionamento do corpo humano, desenhar e brincar com a sua princesa. A Cátia é AO, terapeuta de Shiatsu e de Chi Kung, Naturopata e amante das medicinas complementares. Ela defende que devemos aprender a conhecer o nosso corpo e viver em harmonia com ele e com a natureza.

  • Parabéns à excelente entrevista. De fato é uma mulher maravilhosa.