Quando Nós Nascemos Especiais / Ser Mãe

A nossa mãe nasceu numa terra chamada Vilar. Nasceu em casa, como era frequente em tempos de outrora. É a mais nova de seis irmãos. O seu nome era uma das três opções que os seus padrinhos sugeriram aos nossos avós maternos. Eles escolheram Lúcia.

A nossa mãe, ainda pequenina, acordava muito cedo para ir trabalhar no campo, antes de ir para a escola. Terminada a escola, regressava ao campo. Depois, ia fazer as tarefas domésticas, jantar e, só aí, ia fazer os trabalhos da escola, à luz de velas.

Anos mais tarde, já casada, a nossa mãe já tentava engravidar há 6 meses e não tinha conseguido ainda. Decidiu fazer uma promessa: ela prometeu que ia a Fátima a pé, se engravidasse. Por coincidência – ou não -, nessa altura um grupo de pessoas conhecidas ia a Fátima a pé. Então, a nossa mãe optou por antecipar a sua jornada a Fátima, apesar de não estar grávida. E foi a Fátima a pé.

Pouco tempo após o seu regresso a casa, ela sentia que algo estava diferente e, três dias depois, disse ao nosso pai que achava que estava grávida. E foi assim que, em Maio de 1985 e após confirmação médica, a nossa mãe teve a certeza que estava grávida!

 

1 – Como soubeste que estavas grávida?

Sentia que algo tinha acontecido: eu não podia ver o vosso pai à frente. Ele parecia-me diferente do que era (risos). Como já tinha ouvido relatos de mulheres que, durante a gravidez, não conseguem estar com os maridos, isso fez-me desconfiar de que estaria grávida.

 

2 – O que sentiste?

Fiquei feliz. Eu queria muito engravidar e finalmente tinha conseguido!

 

3 – Que medos tiveste?

No início não tinha medos nenhuns. Mais para o final da gravidez, tinha receio do momento do parto.

 

4 – A gravidez foi tranquila?

Até ao 7.º mês foi. A partir daí comecei a ter sintomas de trabalho de parto. Vocês nasceram faltava 1 dia para completar os 8 meses de gravidez.

 

5 – Quando descobriste que eram gémeas?

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Isso é uma coisa esquisita. Desde o início que eu sabia que eram gémeas. Um primo tinha-me mostrado um livro de gravidez e, segundo os cálculos do livro, de acordo com a altura da gestação, seriam gémeos. E eu acreditei nisso desde o início, apesar do médico me dizer que era só um bebé. A minha gravidez já ia longa, quando se confirmou, com a única ecografia que fiz, que eram gémeas. Inicialmente não dava para ver o sexo dos bebés.

 

6 – Sentiste-te bem acompanhada, durante a gravidez, pelo teu médico?

Senti.

 

7 – Como é que esperavas que fosse o teu parto?

Queria um parto normal. Mas, na altura, com as dores, só queria era que vocês nascessem.

 

8 – Como foi o teu parto e a recuperação?

Tive problemas durante o parto. Fui para o hospital na Consoada de 1985 e vocês nasceram a 6 de Janeiro de 1986. Ganhei uma infecção na bexiga e nos rins. Tive albumina no último grau. Foi um parto complicado. Estive em risco de vida e vocês também. Mas, felizmente, correu tudo bem.

No primeiro dia em que estive no hospital internada, uma enfermeira disse para eu não estar a tocar sempre à campainha. Disse-me que as dores eram normais e para eu aguentar. Eu senti muitas dores! Como uma familiar conhecia o diretor geral do Hospital de St. António, ela falou com ele e, a partir daí, tive muita atenção e cuidado por parte da equipa médica.

 

9 – Sentiste-te respeitada?

A partir do momento em que falaram com o diretor, não tive mais problemas.

 

10 – Já tinhas ouvido falar em parto na água?

Não. Ouvi, pela primeira vez, convosco.

 

11 – O que achas sobre essa possibilidade? Se, quando estavas grávida soubesses dessa possibilidade, terias optado pelo parto na água?

Penso que sim. Tendo em conta as vantagens para as mães e para os bebés. Desde que devidamente acompanhada, claro.

 

E assim terminamos a entrevista à nossa mãe. Lembranças antigas, memórias de uma vida aqui foram partilhadas! Gratas a ti, mãe, por aceitares este desafio! ☼

 

Cátia e Liliana

 


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.