Quando eu nasci ~ Cláudia da Silva Especiais / Ser Mãe

A minha mãe tinha (e continua a ter) muito medo do parto. Para contar a história do meu nascimento, parece-me importante contar a do nascimento do meu irmão. O primeiro parto da minha mãe, há 52 anos atrás, foi em casa. Foi um parto natural, felizmente. O medo, esse já existia antes, durante a gravidez. Ouviam-se algumas histórias (menos felizes) e não havia qualquer preparação para o parto. Durou cerca de oito horas. E houve episiotomia, porque a parteira achava que era necessário para permitir a passagem do bébé. A minha mãe não guarda boas memórias desse “pormenor”, mas está convencida de que foi necessário para “evitar quer o bebé abafasse“! Após esta experiência, não queria ter mais filhos.

Passados 18 anos, quando a minha mãe engravidou de mim, ficou abalada, resistindo imenso à nova benção que lhe tinha sido concedida. Após algum tempo de tristeza e revolta e de até ter ponderado um aborto, tomou a decisão de não o fazer. E queria muito ter uma menina. No coração, sabia que sim!

image

Decidiu programar o parto por cesariana, aproveitando a anestesia (geral) para fazer laqueação das trompas.
Em palavras da minha mãe, o primeiro parto foi uma experiência “horrível”, pois ela “passou muito…”. O meu nascimento também não foi de todo tranquilo: sentiu medo e ansiedade, sofreu durante a anestesia que foi dada lentamente e no pós-parto, durante a recuperação. Durante a anestesia, sentiu-se “morrer aos bocados” e após a cirurgia, “só queria morrer”.
Ao perguntar à minha mãe qual seria a sua escolha, caso tivesse um novo parto, após estas duas experiências, ela diz-me que escolheria o parto natural. Quanto à minha escolha de parir na água, considera que sou “muito corajosa”. Quando a questiono sobre o motivo que ela considera que leva as mulheres a optarem pelo parto na água, ela diz que acha que a água “ajuda a diminuir as dores”.

***
Muito para além da água, na minha experiência de parto, para mim o que fez a diferença toda foi o relaxamento que consegui sentir, a confiança, a fé… e ter uma mão amiga que me lembrou de respirar fundo e de deixar sair o som da minha boca, num “Aaaahhh” em vez de um “Ai!”. Essa voz, mão, presença amiga, companheira, foi quem me ajudou a restabelecer a confiança após um parto que não terminou como eu tinha desejado. Essa presença maravilhosa que foi a minha doula. E o meu companheiro, marido, amante, que esteve comigo durante grande parte deste processo e me mimou tanto.

O parto é uma experiência sexual. O parto é morte e renascimento. O parto é uma viagem espiritual. As mulheres (e os homens) ainda possuem muita informação genética relacionada com traumas sexuais e com medos diversos relativos à sexualidade e ao nascimento, adicionando-se ainda muitos tabus a eles associados. Não é de todo surpreendente que uma mulher a quem o conceito de sexualidade é passado como algo misterioso e, em simultâneo, sujo e vergonhoso, tenha também um conceito deturpado ao nível do parto e de toda a natureza feminina. Esta é ainda a realidade de muitas mulheres. É o sagrado feminino que está em resgaste, em libertação, em renascimento. É esta energia divina que é preciso libertar e deixar florescer. É necessário (e fundamental) reequilibrar a energia feminina com a energia masculina, fazendo um novo Todo sagrado. Uma nova união.
É urgente mudar esta visão da sexualidade e do nascimento. É urgente acordar da ilusão do medo, da vergonha, da culpa. É urgente mudar o modo de nascer. E renascer para a realidade divina de quem realmente somos.
É por isso, por mim, pela minha mãe, por todas as mães, por todas a mulheres, por todos os pais, por todos os homens. Pela humanidade. Pela nossa divindade. Por todos trabalhamos, para mudar e abrir mentes. Para que todos nos relembremos quem somos.
Por partos respeitados. Por nascimentos livres. Pelo prazer de Ser.
Grata pela oportunidade de estar aqui e abraçar este desafio de transformação grandioso.

Cláudia da Silva 


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.