Mãe do avesso Ser Mãe

Ser mãe é plantar sementes, deixar crescer, acariciar os frutos e apreciar as flores que provavelmente outros vão colher. Ser mãe é muita generosidade.

Tenho dias assim. Dias do avesso. Dias em que preferia dormir mais uma hora que receber o grito do meu filho (ainda que seja seguido por um mimo!) ao acordar. Dias do avesso. Porque não posso às vezes ser só filha?! Almoçar cereais secos e passar o dia no facebook…? Descalça, em cuecas, sentada no chão da sala? Porque não? Almoçar uma barra de chocolate e lanchar um copo de vinho, pronto! Porque não?
Há dias assim. Dias em que preferia o meu batom, aos carrinhos dele, no meu bolso. Dias em que gostava mais de calçar os saltos altos que os chinelos rasos. Dias assim. Em que não posso ouvir nem mais uma vez o “wheels on the bus“.
Tirar uma folga. Eu só queria tirar uma folga.
Mas já percebi que é beco sem saída, já sabemos por prova provada que desde que engravidamos que as células do nosso filho vivem em nós (mesmo que a gravidez não evolua!).
Não há fuga.
O beco não tem saída.
Já sabemos que o nosso corpo está contra nós, a nossa liberdade de “mulher antes de ser mãe” foi-se. Já sabemos que as mamas se enchem de leite e o produzem sem limite, enquanto a cria dele precise; já sabemos que o cheiro da cabeça dos nossos filhos tem em nós o mesmo efeito viciante de uma droga; e
que até os nossos ouvidos são mais apurados para os choros e gritos (felizmente também para os risos!) dos nossos bebés do que para qualquer outro som. Uff. Não há saída?
Li há tempo que logo que nos tornamos mães o nosso cérebro recebe um upgrade que nos permite fazer as mil tarefas que agora temos à nossa responsabilidade. Também está provado que a nossa capacidade cardiovascular melhora! (Não me espanta, nunca corri tanto!) Malditos upgrades, se não os tivesse talvez mais ajudas chegassem!
Sou mãe. Sou mãe em terra estranha, sem melhor amiga na esquina ou avó à distância de um telefonema.
Sou mãe. Sou mãe sem empregada, e sem emprego para onde correr todos os dias.
Sou mãe. Sem babá, sem escolinha, sem tempo só para mim.
O tempo todo. Sou mãe o tempo todo.
Mas mesmo as que trabalham, as que viajam, as que se escondem e se negam… Deixam de ser mães? Não acredito.
Aliás, acho até que nós mulheres, de útero parideiro ou não, temos todas esta natureza. Por um lado uma capacidade inesgotável de criar, e por outro um talento extraordinário, incontrolável, para nutrir. Não há saída.
Quando me diziam que ser mãe era para toda a vida eu não percebi que não havia folgas. Ne-nhu-mas.

Hoje parece que o Dia do trabalhador coincide com o Dia da Mãe, porque não os juntam de uma vez por todas? (digo já que a ideia não foi minha, mas foi partilhada por tantas mães que conheço que não sei a quem creditar a autoria!)
Hoje é dia da Mãe e eu e o meu filho celebrámos. Fiz todas as tarefas da casa, mais as dos meus projetos, com um filho “à perna”, na mama, no colo… A falar comigo sem parar, entre pedidos, risos, convites para brincar com os carros, choros e reclamações: “mama“; “mamã vem aqui!“; “quero maminha“; “mamãaaaaaaaaa!!

Tenho dias assim. Do avesso. Dias em que me apetece pedir – pronto, amanhã que não seja dia da mãe, pode ser?

Não sou menos mãe por querer desistir agora da corrida (que aliás ainda agora começou!), pois não? Eu por mim vou desacelerar, mães.

 

(imagem de Sofia Mota)


Joana é Mãe D' água, já foi actriz e está preparada para ser Deusa. A Joana é mãe, yogui, viajante, escritora, activista pelos direitos da mulher... Uma "inspiradora de mães", como ela gosta de dizer. E porque Sereia não escreve só na areia a Joana é a editora oficial das mães D' água. Doce e salgada, escreve sobre tudo e sobre nada. Sobre amor, sobre magia, sobre viagens interiores e sobre os acordares da maternidade. (terminou colaboração com o blogue em Junho 2017)

  • Anabela Simões

    Joana, vi-me e revi-me neste teu maravilhoso desabafo tão, mas tão de mãe… Grata, minha querida

    • Muito grata minha querida Anabela! Um beijo enorme, de mãe para mãe. Grata sempre, pelo feddback precioso!
      Muito carinho,
      Joana

  • Marta Gabriela

    Quantas mães se revêm neste teu avesso? eu tb tenho dias do avesso…é verdade antes de sermos mães somos filhas e mulheres e depois mudamos prioridades 🙂 para criar uma criança “é preciso uma aldeia inteira”! espero que cada uma de nós mães encontre e se abra à ” sua” aldeia 😀 Gosto de te ler e gosto de ti, sereia! um abraço a curta distância do coração <3

    • Minha querida Marta, tão grata pelas tuas palavras! É mesmo isso, precisamos de uma aldeia inteira para criar e guiar um novo ser assim… Sabes, li já não sei onde que, no mundo destas “mães modernas”, que vivem a maternidade de “smart phone” na mão, a sua aldeia são estas mães com quem falam, para quem escrevem, onde se aconselham e desabafam. Apesar da distância, ou graças a ela!, a minha aldeia são vocês! Também gosto muito de ti!
      Muito carinho meu,
      Joana