Casei com uma parteira Especiais / Ser Parteira

Texto de Tom Smith para a revista Mothering
Tradução das mães D’ água

O despertador da Sharon toca e eu espero que ela o desligue. Finalmente volto-me, balbuciando que o alarme é dela, que o desligue por favor, quando dou por mim a falar para uma cama vazia. Gemo, lembrando-me da chamada às duas da manhã e pensando na manhã difícil que me espera.

Quando ligam, ela vai. Não importa que horas são, não importa em que parte está o filme ou que visitas temos para jantar. Ela sai porta fora, e ai do homem que a tentar travar. Eu tentei, uma vez. Estávamos no meio de uma discussão e ela recebeu uma chamada. Eu disse que não era justo. Eu bati o pé. Eu gritei. E ela só ficou mais e mais zangada. Perguntou-me se eu queria ligar a mulher e dizer-lhe que tivesse o bebé sozinha. Por um segundo eu odiei a mulher que estava para ter o bebé mas também comecei a perceber que para a Sharon, uma mulher em trabalho de parto tem sempre prioridade.

Ouvi parteiras dizer, às vezes com humor, outras com ferocidade, que não há nenhuma profissão que se compare a esta. Eu concordo, e acrescentaria que não há nada que se compare a estar casado com uma parteira. Eu odeio o que ela faz e amo o que ela faz. Acho-o irritante e acho-o excitante. Alguém uma vez me disse que a taxa de divórcios é muito alta entre as parteiras de parto domiciliar. Eu pensei “Estás a brincar? O quê, com o mau salário e as más horas de trabalho e o risco de ser processada no nosso estado, que tipo de homem não quereria como esposa uma parteira?”

Fico zangado? Às vezes. Quero que ela faça outra coisa? De modo nenhum. Como poderia, quando ela chega a casa às quatro da manhã, de lágrimas nos olhos e me conta a história da mãe que estava com tanto medo porque o seu último bebé morreu aos seis meses de gravidez, e como a dor do luto e a alegria se misturaram quando o bebé dela de quatro quilos e oitocentas irrompeu no mundo? Ela ama o trabalho dela e ama as mulheres com que trabalha. Ela toma tantas decisões difíceis. Não quero fazê-la ter de escolher entre o trabalho dela e eu. Além disso, provavelmente eu perdia.

Quando a nossa filha, Hannah, reclama e pergunta porque é que a mãe dela tem de sair de novo amanhã. A Sharon diz simplesmente, “é o meu trabalho, é o que eu faço.” Isso é verdade, mas é também a sua vocação e a sua paixão. É o seu modo de fazer diferença no mundo. Ele é uma leoa quando diz, “As mulheres precisam de ter opções sobre onde podem ter os seus bebés”. Nestes momentos eu admiro-a profundamente – e depois o telefone toca. Eu oiço enquanto ela explica sobre a importância de comer para alimentar o bebé. Ela move as mãos enquanto fala, deitando abaixo o mito de ganhar o mínimo peso possível durante a gravidez. “Por amor de Deus”, diz ela, “se tens fome, come! Come muita proteína. Sim, quatro ovos com molho picante não faz mal. Nós queremos bebés gordos e felizes.” Ela desliga, e o telefone toca de novo.

Um dia a Hannah atendeu o telefone, e depois chamou a Sharon, que se retirou para o quarto. Eu perguntei à minha filha quem era. Ela disse que não sabia, mas que soava como uma parteira. Eu pensei, “Ah sim, eu sei o que queres dizer. O tom amigável mas profissional, a disponibilidade para falar com crianças e o som da irmandade nas entrelinhas, “preciso de falar com a tua mãe sobre uma coisa.” Enquanto a Sharon fecha a porta do quarto oiço-a dizer, “Nós usamos cânfora e rosmaninho no nosso banho de assento para as mães no pós-parto e sentimos…”

As parteiras de parto domiciliar que eu conheço absorvem conhecimento como esponjas. Eu invejo o foco, e a paixão que a Sharon tem por informação, seja encontrada num texto científico ou no uso de ervas que passa por tradição oral. Ela recolhe relatos de parto e textos médicos, conhecimento baseado na experiência e encontrado nos livros com o mesmo entusiasmo. Estas mulheres têm de saber o que fazem, porque trabalham numa zona muito indefinida – especialmente no estado de Indiana. O parto em casa não é exactamente ilegal aqui, mas também não é regulamentado.

Às vezes sinto que vivo com uma montanha russa de emoções. A maior parte dos partos acontecem sem incidentes, e a Sharon regressa a casa exausta e satisfeita. Mas às vezes quando ela regressa com uma expressão de dor no rosto e ela começa, “Tivemos de transferir…” Uma história de perda começa, e eu vou-me abaixo com ela na sua angústia. Muitas vezes as histórias não são fáceis de ouvir: a decisão agonizante quando se torna claro que o parto não vai acontecer em casa, a frieza asséptica das salas de urgências, a aspereza e às vezes hostilidade dos médicos que não têm muito contacto com parteiras. E pelo meio de tudo a aflição, porque muitas vezes, embora nem sempre, uma transferência significa uma cesariana. A parteira acompanha, dando assistência ao parceiro da mulher, sugerindo opções no hospital. A corrente de irmandade permanece intacta mesmo neste ambiente, tão diferente da segurança calma e calorosa de uma casa.

Eu confesso que a profissão da Sharon me assusta às vezes. Ela trabalha tão perto do limite entre a vida e a morte. Ela dá assistência na zona onde a vida brota para o mundo, e às vezes é um sítio perigoso para se estar.

Eu falo como se estivesse de facto lá, mas eu sou apenas parte das personagens secundárias. Eu sou um ouvinte. Eu maravilho-me com a beleza e com a dor, com a força e vulnerabilidade das mulheres, e no entanto eu estou cá fora. Eu sei os nomes das mulheres a parir e oiço as suas histórias de parto, mas nunca chego a conhecer a maioria delas.

Eu penso muitas vezes que sou casado com alguém que está no caminho da Wise Woman (a Mulher Sábia). Mas a Sharon não é um arquétipo; ela é uma mulher real que lida com sangue e dor e barrigas abauladas e com a epifania de nova vida. Ela é a guardiã da hora do parto, e quando essa hora chega, não há nada a fazer senão deixá-la ir. O telefone toca e ela foi-se.

 

~ Tom Smith divide o seu tempo entre escrever, ensino doméstico para suas duas crianças, Ben e Hannah, e trabalho na biblioteca local. Vive em Lafayette, Indiana, onde depois de 14 anos ainda e casado com a parteira.

(imagem de Angela Gallo)


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.