Quando eu nasci ~ Catharina Didelet Especiais / Ser Mãe

Os partos dos meus filhos foram completamente diferentes, para já porque um foi em 1980 e o outro em 1996, o primeiro em França (Béziers) e o outro em Portugal (Lisboa). Em nenhum deles me foi facultado a hipótese de ser um parto na água. 

Senti-me sempre ansiosa pelos nascimentos, mas com mais vontade e curiosidade para conhecer o nova “criatura de deus” do que propriamente medo.

Quando eu nasci… a minha mãe tinha 25 anos. Em 1977/78, ela e uma amiga, tinham agarrado numa mochila com uma ou duas mudas de roupa e partido para o sul de França para trabalhar nas vindimas. O meu pai era um holandês, com 1.80m de altura e olhos cinza-esverdeados, que um dia passou pela esplanada onde a minha mãe e a amiga estavam, parou a sua bicicleta e disse à minha mãe: “You want to make love to me?”. A resposta deve ter sido sim… e dois anos depois nasci eu!

Quando cheguei ao hospital a primeira coisa que me deram foi um Valium. Não sei se foi por ser o primeiro parto, ou por me verem tão nova, mas o que é facto, e penso nisso muitas vezes, é que isso me “distanciou” de alguma forma do momento presente. Estive 14 horas em trabalho de parto e fui muitas vezes observada por vários médicos e enfermeiros, que me trataram de uma forma excelente. Eu costumo dizer que o hospital parecia estar “voltado” para tomar conta de mim. O pai da Catharina esteve sempre presente ao longo de todo o processo. Quando a Catharina nasceu foi imediatamente colocada em cima da minha barriga e só depois se cortou o cordão umbilical e depois foi levada para ser lavada. Senti-me apoiada e respeitada. O parto teve um aspeto interessante, pois teve muitos alunos a assistir, assim como uma funcionária que tinha uns seis filhos e que tinha pedido para poder observar este parto. Ia quase desmaiando, contou-me depois.

Lembro-me da minha mãe contar várias vezes que, apesar de ter sido um parto perfeitamente normal, e estar tudo bem tanto com ela como comigo, ficámos 12 dias no Hospital. Se, por um lado ela já estava farta de estar no Hospital e queria muito ir para a sua casa e seu espaço, ter tipo apoio com o bebé, a amamentação, poder descansar, etc, ajudou-a bastante naquela fase inicial.

Regressámos a Portugal passados três anos.

Quando tinha 15 anos, nasceu o meu irmão, o Pedro. A minha mãe tinha quase 40 anos, e era considerado “uma gravidez de risco”. Lembro-me que teve de fazer amniocentese e de eu me arrepiar toda com a descrição do tamanho da agulha. Mas entre a serenidade do Dudu (parceiro da minha mãe) e racionalidade da minha mãe, acho que eu era a que estava mais impressionado com a história.

Em relação ao Pedro foi tudo muito diferente. A minha obstreta que trabalhava na Maternidade Alfredo da Costa perguntou-me candidamente como é que eu queria o parto. Fiquei a olhar para ela, e a princípio não percebi bem a pergunta. Ela então explicou-me que poderia escolher parto induzido, cesariana ou epidural. Respondi-lhe muito admirada que queria um parto o mais natural possível. Respondeu-me admirada que isso já não se usava. De qualquer maneira fiquei à espera que a Natureza tomasse as suas medidas.
Cheguei à Maternidade Alfredo da Costa e fui para a sala de parto. De cada vez que vinha uma equipa médica, penso que houve duas, fui observada de forma agressiva, magoaram-me imenso. Costumo dizer que me senti uma “vaca”. As enfermeiras, que estavam com pouca paciência, evitaram ao máximo a entrada do pai, Eduardo. Como eu sabia que ele tinha direito, fui insistindo, e lá mais para o fim ele entrou, e ajudou-me na respiração. Tecnicamente elas foram perfeitas, porque tudo correu bem, e o Pedro nasceu com o cordão umbilical enrolado à volta do pescoço, mas humanamente foram terrivelmente cruéis. Quando o Pedro nasceu, ele primeiro foi limpo e só depois veio um pouco para o pé de nós. Aliás, logo a seguir ele foi para uma incubadora gigante, onde esteve uma hora aos gritos, sem poder estar ao pé de mim. A estadia no hospital também seria digna de uma referência, mas isso se calhar são outras núpcias..
.”

Perguntei à minha mãe se, caso tivesse tido acesso, optaria por um parto na água:

Finalmente, em relação ao parto na água, se gostaria de ter feito um, a minha sincera resposta, de uma pessoa muito “terrena”, é não. Não me imagino a fazer um parto na água. Gostaria de ter tido uma doula, isso acho muito interessante, por tudo o que tenho vindo a saber, mas parto na água não me parece. Talvez a doula me convencesse.

Nasci no pico do calor no Sul de França, em Agosto. O Pedro nasceu num dia frio, com chuvas torrenciais, em Janeiro. Ambos nascemos precisamente às 11h55.
Sempre achei este detalhe delicioso.

~ Catharina Didelet