A minha parteira ensinou-me Especiais / Ser Parteira

Quando eu engravidei, e mesmo enquanto me preparava para o parto, não sabia bem o que é isso de “Ser parteira”. “Parteira” soava para mim a palavra antiga, de práticas obsoletas. Também não percebia bem o papel da mulher no momento do parto… No modelo que me foi apresentado havia um médico Obstetra a fazer o parto (sim, a fazer!) e uma equipe de enfermagem a assisti-lo. Simples não é?
Não via aqui onde entrava a “parteira”. E achava sempre que quando usavam a palavra se equivocavam, “queriam dizer enfermeira, provavelmente”, pensava.

Não.
Quando eu engravidei não sabia. Mas a “minha parteira” ensinou-me.

Eu não tinha (ainda) lido nos artigos, nem visto nos vídeos inspiradores. Ainda não conhecia a eficácia das técnicas tradicionais e a mistura de ciência e magia… (magia sim!) das mulheres que desde sempre assistem as que dão à luz. Sabia lá eu o que era uma EESMO! Mas ela ensinou-me.

Nunca nos vimos antes do meu parto. Não tive entrevista com ela nem me passou bibliografia recomendada para eu me educar. Não falámos no café, nem éramos amigas.
Para dizer a verdade tive de perguntar o nome dela no dia a seguir ao parto.
Mas ela ensinou-me muito.

Fui para o Meu Parto com algumas destas confusões ainda presentes. Não sabia. Mas foi sem dúvida ela que me ensinou.

Não trocámos uma palavra antes de eu parir (ela foi uma das parteiras que veio no segundo turno), e não sei mesmo se a olhei nos olhos (nessa altura pouco via do que se passava na sala à minha volta). Mas ela ensinou-me.

Uma parteira que chega sem se impor, não tem necessidade de se apresentar com pompa, nem fazer ouvir a sua voz durante o parto, para mim ou para a sua equipe. Uma parteira que trabalha baixinho, e intervém “de fininho”, respeitando o teu espaço, o teu tempo, o teu processo.

Uma parteira que consegue fazer-te sentir protegida, sem saber por quem.
Sentires-te como uma estrela, única protagonista no teu parto, mas nunca observada.
E acredita que não estou a exagerar quando digo que tem sabedoria de anciã em rosto de menina, mãos de fada em corpo de humana.

Eu não sabia. Antes de parir não sabia que a melhor qualidade que uma parteira pode ter é a de não se sentir a presença dela. Ser invisível.
Ela é.
Tenho orgulho de dizer, é um elogio para ela, que no final do meu parto eu não sabia quem tinha sido a “responsável”, porque para mim tinha sido EU.
Sim, chegaram a estar mais de cinco profissionais na sala (parece que vieram porque eu cantava!), mas o parto foi meu. Meu.
Não me perguntem sobre os factos, disso continuo a não saber nada, uma mulher em trabalho de parto viaja para outros mundos, mergulha em outras zonas, e vive uma realidade só dela onde a minha parteira fez questão de não entrar. Ficou à porta. Esperou por mim.

Diz o provérbio africano que parir é como atravessar uma ponte, podes ser acompanhada até ao início da travessia, e mesmo recebida do outro lado, mas a caminhada é tua, e tem de ser feita sozinha. Agora sei, ela ensinou-me.

Não sei como foi contigo, como e com quem aprendeste sobre as magias do parto, mas a mim foi a Celeste Varela, ensinou-me assim.


Joana é Mãe D' água, já foi actriz e está preparada para ser Deusa. A Joana é mãe, yogui, viajante, escritora, activista pelos direitos da mulher... Uma "inspiradora de mães", como ela gosta de dizer. E porque Sereia não escreve só na areia a Joana é a editora oficial das mães D' água. Doce e salgada, escreve sobre tudo e sobre nada. Sobre amor, sobre magia, sobre viagens interiores e sobre os acordares da maternidade. (terminou colaboração com o blogue em Junho 2017)