Quando eu nasci ~ Celeste Varela Especiais / Ser Mãe

A minha mãe já é meu anjo da guarda no céu, não a posso entrevistar… Posso apenas partilhar o que me contou do seu parto.

Depois de várias idas à maternidade, em que era cedo demais para ficar internada, a minha mãe estava determinada a ir mesmo só quando não aguentasse mais, e assim foi. Era noite de baile na aldeia e foi um tio da minha mãe que a levou de carro para o hospital de Évora, já com contrações muito regulares e dolorosas. No caminho atropelou uma lebre! Meu pai e meu avô queriam parar para apanhá-la, a minha mãe já não deixou, ou eu ainda nascia no carro! Quando chegou ao hospital, o meu pai e avô ficaram a porta, enquanto a minha mãe subiu no elevador onde teve mais uma forte contracção, e lhe rebentaram as águas! O porteiro, bastante antipático, nem ajudou a minha mãe com a mala, e mandou o meu pai embora, pois era tarde e já não iam ter notícias aquela hora! Afinal, pouco depois a parteira ligou a dizer que eu já tinha nascido, mas eles já tinham ido embora e só souberam no dia seguinte.
A minha mãe chegou à sala de partos e só teve tempo de subir o vestido, nem deu para vestir a bata do hospital. Deitou-se e eu nasci às 2,30h do dia 10 de setembro de 1978. Incrivelmente, neste curtíssimo espaço de tempo, conseguiram fazer-lhe uma episiotomia BILATERAL (ainda hoje me arrepio só de pensar). Puseram-me em cima dela mal nasci, e depois esperou até de manhã para ser suturada, pois o obstetra estava muito cansado… Conta que sofreu mais aqui do que com o próprio parto. A amamentação não foi fácil, e aos 28 dias teve que suspender, pois fez uma mastite grave.

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No meu primeiro parto a minha mãe estava internada… Fui para o hospital e liguei-lhe já no jardim da Estefânia, triste, mas no espaço entre duas contracções, para que não percebesse que eu já estava em trabalho de parto. Só conheceu o primeiro neto no dia seguinte, mal teve alta do hospital. E a sua alegria a ver-me amamentar, como ela não tinha conseguido, era imensa!

No meu segundo parto, não avisei ninguém que ia para o hospital, e foi o pai novamente a acompanhar-me. Mas, duas horas antes da Laura nascer, estava eu na fase em que… não cheguei a dizer que não aguentava, mas… as lágrimas escorreram-me pela face… Nesse momento entrou no quarto a minha chefe que só me disse: “A tua mãe aguentou, não aguentou? Então tu também aguentas!” E assim foi… a força da minha mãe veio ajudar-me.

E assim é, com todas as que acreditam na sua força.

Grata mãe por continuares a olhar por mim!

~ Celeste Varela


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.