Quando eu nasci ~ Mariana Falcato Simões Especiais / Ser Mãe

Como foi quando eu nasci Mãe?

Foi lindo, um dia que nunca esqueci. Eu estava em casa da avó Lena, e senti umas moínhas. Fui à Clínica onde ias nascer, mas disseram que ainda não era a altura e mandaram-me para casa. Como era muito perto, uns dois quarteirões abaixo, lá voltámos para casa, eu e a tua avó. Avisámos o papá para se meter a caminho, que não havia de faltar muito tempo para nascer o nosso bebé.
As moínhas não passavam, e decidi voltar de novo à Clínica. Era perto, mas o desconforto já não me deixava ir a pé, por isso fomos de táxi.
Quando lá cheguei a dilatação tinha avançado, e lá se confirmou, estava mesmo em trabalho de parto. Devem ter sido os três andares, sem elevador, da casa da avó 😉
Foi maravilhoso, as enfermeiras receberam-me cheias de amor, levaram-me para o quarto e deixaram-me completamente à vontade. Lembro-me que o quarto estava a meia luz, era meio do dia, mas as persianas estavam meio fechadas, o que dava uma luz linda. À medida que surgia uma nova contracção eu sentia o aperto, mas sentia-me cada vez mais ligada a ti, como se nós as duas soubéssemos exactamente o que tínhamos a fazer. A certa altura chegou o pai, e aí lembro-me de sentir que sim, estava pronta para o que desse e viesse.
Não me lembro muito bem, com pormenores, das horas seguintes, lembro-me que comecei a ter vontade de fazer força, e uma ou duas contracções depois tu saíste, linda, luminosa, a cheirar a flores 🙂
Puseram-te no meu peito, e entre lágrimas e risos, e espanto, ficámos os três a olhar uns para os outros. Tu tinhas uns olhinhos tão atentos, tão sábios, como eu nunca tinha visto noutros bebés. Foi incrível, nunca tinha imaginado que seria assim.

A minha mãe já não está deste lado do véu. Nem a minha avó, que nas suas histórias também ia preenchendo os “espaços em branco”. Esta não foi a entrevista que lhe fiz, nem foi a história do meu parto. Mas acho que já ganhei o direito de reescrever essa história, no parto dos meus filhos e no trabalho diário que faço para que nascer em Portugal seja diferente de há 38 anos atrás. Quando eu nasci a minha mãe estava sedada, tanto quanto sei com uma droga “das más”, e esteve assim o dia todo à espera que o Sr. Dr. chegasse para lhe “fazer” o parto. Nasci com fórceps, “a ferros”, como se dizia, e a minha mãe costumava dizer que apesar do olho negro, eu era o bebé mais lindo que ela alguma vez tinha visto.
Pari os meus filhos em casa, em partos de três e quatro horas, sem qualquer intervenção, tive apoio, respeito, água e muita oxitocina! E espero que quando as nossas crianças nos perguntarem como foi quando elas nasceram, possamos inspirá-los e contar-lhes histórias de amor.

~ Mariana Falcato Simões