Quando eu nasci ~ Joana Martins Especiais / Ser Mãe

Quando eu nasci as ruas de Lisboa, essa menina e moça, estava em festa, coloridas e alegres para receber o seu tão bem amado e querido Santo António!

Sempre que pergunto à minha Mãe sobre o meu nascimento, ela responde imediatamente: “Ai que horror! Foram umas dores que não me aguentava!”
Como devem imaginar, não é propriamente agradável para uma filha ouvir estas palavras da sua mãe, sobre um dos acontecimentos mais importante da vida de ambas. Mas verdade é que há 32 anos esta era a realidade de muitas mulheres que pariam fora de casa. Uma realidade que lamentavelmente ainda existe até aos dias de hoje, mas, que acredito, está a mudar!

Eu, como mulher e futura mãe, não quero nos meus partos passar pelo mesmo. Quero, do fundo do meu coração e com um sorriso nos lábios, poder dizer aos meus filhos: “o teu parto foi um dos acontecimentos mais lindos da minha vida, repetiria as vezes que fossem necessárias!”

Segundo consta fui concebida durante umas lindas férias nos Açores, e ao que parece na Ilha do Faial, entre montes e hortênsias. Nove meses depois, justamente no prazo que o médico tinha previsto, mais propriamente na véspera de Santo António, em Lisboa, resolvi sair do quentinho da mãe para este mundo. No entanto, o processo não foi tão fácil como escrever esta minha história.

Palavras da Mãe:

“Às 5e30 da manhã do dia 11 de Junho de 1983 começaram as minhas primeiras contracções. Durante a manhã fiz a minha vida normal, fui ao cabeleireiro, almocei dois deliciosos morangos (o tamanho da barriga não permitia mais!), e às 14horas telefonei ao pai para me levar à maternidade. Ele ficou muito atrapalhado, não sabia se havia de ir de táxi ou de carro. E foi na Estefânea que tudo começou.
Cheguei às urgência, e tendo sido bem atendida, estava muito calma. Logo a seguir fui encaminhada para o médico de serviço. Colocaram-me o soro e fomos esperando até que a dilatação se fizesse. Comecei com dois dedos de dilatação.
Enquanto a dilatação se dava, eu fiquei sozinha no quarto, com uma enfermeira que vinha de vez em quando verificar o nível do soro. A certa altura e já ao cair da noite, percebi que ninguém me vinha ver. Entretanto vim a saber que havia uma celebração de aniversário de um médico da equipa… Além disso estava tudo muito interessado a ver a série norte americana “da Berra” – o Dallas. Mais os fogos de artificio dos Santos Populares… por momentos só me apetecia rogar pragas a todos!!
Já sem paciência, num dia de Verão quente, sem ventilação nenhuma, com a dilatação ainda lenta e com receio que o bebé entrasse em sofrimento, toquei à campainha e disse à chefe de equipa que queria uma cesariana. Passadas oito horas continuava com os mesmos dois dedos de dilatação! Ela recusa, alegando que todas as mulheres devem ser corajosas até ao final, eu tentei-lhe explicar que não me sentia com forças para ter um parto natural…”

Neste momento eu pergunto à minha mãe:
– Porque é que não tocaste a campainha antes, e esperaste oito horas ?
– Não “podia” tocar antes porque os médicos diziam que desde as primeiras contracções temos que esperar oito horas para nascer o bebé, e porque queria que a minha filha nascesse de parto natural. – Eu, a filha, a bebé que estava para nascer, a Joana, revolto-me com esta e outras ideias preconcebidas que o SNS parece impôr às mulheres, como se fôssemos todas iguais!
– Só depois de muito insistir com a médica que não estava capaz de parir de forma natural, ela me rebentou as águas. Senti-me muito mais aliviada, mas mesmo assim o bebé não conseguia sair, porque não tinha espaço, e só aí se decidiram a fazer uma cesariana.

“Levaram-me para o bloco operatório: cirurgião, médico, anestesia geral (porque na altura não havia epidural), e quando acordei por volta das 3h30 da manhã do dia 12 de Junho de 1983, o maqueiro que me leva para a enfermaria diz-me “A menina nasceu muito bem”. Pedi para ver a minha filha, e a enfermeira disse que não podia porque estava a ser vista pelo pediatra. Eu aí assustei-me e perguntei se havia algum problema de saúde, ao qual me responderam que não, apenas estavam a respeitar os procedimentos normais.

Uma meia hora depois trazem-me a minha filha. Senti-me tranquila ao vê-la e saber que era saudável. Tive-a nos braços apenas alguns minutos, porque como tinha feito uma cesariana não podia amamentá-la, e por isso levaram-na para o berçário. Confesso que não foi fácil para mim, ver levarem-na. O que eu mais queria era desfrutar do tempo com ela.
No dia seguinte de manhã, com alguma dificuldade, consegui-me levantar, entrei no berçário e vi-a dormir. Continuou lá até ao dia seguinte e só 48 horas depois é que fui capaz de a amamentar. Estivemos 10 dias no hospital porque a Joana contraiu icterícia neonatal, e fiquei até que terminasse a fototerapia. Nesses dias, algumas dores persistiram, dos pontos, do parto, de todo o processo. Acrescento que não tenho razão de queixa da equipa hospitalar relativamente ao meu tratamento, tirando o médico que me tirou os agrafos, que não foi gentil comigo…”

Assim que terminei de ouvir a minha mãe, perguntei-lhe:
– O que é que mudarias no teu parto?
– Transformaria as maternidades em centros acolhedores de partos. Toda a equipa hospitalar deveria ter uma formação especial – em termos de relação social, afectiva, no trato com mulheres e recém-nascidos – deveria haver psicólogos disponíveis, e o próprio centro ter outra estrutura, arquitectura e decoração, ou seja, tornar todo o ambiente mais familiar.
– Porque mudarias estas condições nos hospitais ?
– Para nós mulheres nos sentirmo protegidas, seguras, confiantes, acarinhadas, com vontade, e em consequência, mais felizes de dar á luz.
– Sendo assim, se hoje tivesses que parir de novo e se tivesses a opção de fazê-lo em casa, desde que acompanhada por doulas, parteiras, etc., farias?
– Sim.
– Gostarias de ter tido um parto na água?
– Sim!
– Acreditas que um parto na água, com condições ideais, é o ambiente mais acolhedor e propício para uma mãe e um bébé no momento do seu nascimento?
– Sim!

A bebé cresceu, a Joana hoje, enquanto pessoa, tem consciência das consequências da forma como ela nasceu na sua vida…
Mesmo assim, agradeço a essa “forma” porque sem ela, eu não teria construído a pessoa que sou.

Grata à Mãe que a pariu com Amor e a todas as mãos que lá estiveram.

O meu parto, o modo como nasci é parte da minha história, mas acredito que hoje podemos transformar a forma como nascemos, e como parimos. Para que todos os seres vindos a este mundo venham mais plenos, mais completos, mais saudáveis, mais conscientes, canalizando a sua energia para outros desafios, é preciso mudar o modo de Nascer. Para que todos possam contribuir para uma maior evolução da raça humana, e de uma vez por todas vivermos juntos na nossa verdadeira dimensão – de Seres Perfeitos e Extensões da Natureza, é preciso mudar o modo de nascer.

~ Joana Martins


Mulher, Amiga, Filha, Companheira, Cozinheira. Acredita que o Universo está dentro de cada um de nós, e que resgatando os rituais dos nossos ancestrais, seremos mais Unos com a nossa Grande Mãe Terra. A Joana , faz por isso um bocadinho todos os dias.