Quando eu nasci ~ Lúcia Fernandes Especiais / Ser Mãe

Quando eu nasci, a minha irmã tinha 15 meses. Não era suposto ter vindo logo a seguir, apanhei os meus pais de surpresa. Ainda tinham na memória a primeira vez que mudaram uma fralda, e que demorou perto de uma hora. A família só ficou a saber que vinha a caminho quando já não era possível esconder os factos.

O acompanhamento médico foi bastante conturbado: a obstetra ficou de baixa logo após a primeira consulta, e o substituto deixou muito a desejar. De tal maneira que no último mês de gestação, quando a minha mãe passou a ser seguida nas consultas da Maternidade Alfredo da Costa, ficaram estupefactos por nunca lhe ter sido pedida uma ecografia. No final da gravidez, a minha mãe tinha um edema nas pernas, tinha as pernas de tal forma inchadas, que isso foi considerado preocupante. Aparentemente estava tudo bem, mas acharam que não valia a pena carregar tanto peso, e decidiram interna-la, e provocar o parto.

“Tinha ido na véspera a uma consulta e disseram-me, ‘Não vale a pena continuar assim, já está em final de tempo… Portanto amanhã de manhã vem cá a uma urgência, e preparada para ficar internada, vamos colocá-la a soro e vamos ver como correm as coisas’. Não fiz qualquer ecografia em todo o tempo.”

Não tendo sido planeada a gravidez, o dia em que nasci foi. A minha mãe não sabia se ia ter um menino ou menina, ou até que nome teria.

No dia em que eu nasci, a minha mãe partilhou o quarto com outra parturiente, bastante nova, que logo que começou a sentir dores passou a gritar de tal maneira que deixou tudo e todos em alvoroço. Descontrolada, arrancou a faixa que a ligava ao CTG, e não conseguiu conter as fezes. Em poucos minutos a enfermaria virou um pandemónio e acabaram por a levar para outra sala.

Por volta das 19 horas senti que estava a chegar a hora do meu bebé, mas não adiantava chamar por alguém, pois aquele quarto já tinha sido tão visitado que já ninguém prestava atenção. O tempo continuava a correr. Em determinada altura era eu a desesperar, e gritei com quanta força consegui. Uma enfermeira entrou no quarto com ar de ‘outra com o chilique das dores, olhe que isto é mesmo assim!’, mas quando verificou que a situação já estava muito adiantada, saiu a correr para chamar um médico. Agora o problema é que eram horas de jantar, e a maioria do pessoal tinha debandado para o refeitório, médicos inclusive. Mas temos pena, o meu bebé tinha marcado essa hora para nascer… A médica chegou passados alguns minutos e tentando inteirar-se da minha situação perguntou quantos filhos tinha, de que idades… Quando lhe respondi ela perguntou: ‘Mas então, isso agora é um todos os anos?’ Despachada como era, poucos minutos depois já tinha comigo aquele pedacinho de gente com 3, 350 Kg, a nossa surpresa de vida, a nossa Lúcia.

O meu pai esteve a trabalhar e chegou momentos depois de eu ter nascido e só aí que ficou a saber que era pai de outra menina.

Parece que nem tudo foi fácil, com duas meninas pequenas, e há este episódio registado:

O meu maior susto foi contigo, no dia a seguir a tu nasceres. Estava a dar-te de mamar e a determinada altura deixas-te de reagir. Assustei-me! Chamei a enfermeira e quando esta se abeirou de nós, retirou-te abruptamente dos meus braços e saiu a correr contigo sem me dizer nada. Levantei-me como pude, para saber o que se estava a passar, mas já não encontrei o caminho por onde ela tinha ido. Fiquei em pânico! Fartei-me de chamar por alguém até que vieram ter comigo dizendo que estava tudo bem. Tinham-te levado para o recobro ou coisa parecida, para te aspirar, pois tinhas algum líquido amniótico. Fiquei desconfiada, mas passados alguns minutos trouxeram-te de volta sã e salva.

Não prometo deixar de pregar sustos como estes à minha mãe, mesmo com quase 30 anos, mas prometo guardar esta memória bonita do papel da maternidade e do dia em que nasci (e prometo deixar de refilar por não ter livro do bebé!).

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Gosto muito de ti, Mãe.

~ Lúcia Fernandes


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.