[Relato de parto #11] Rute Ferreira Relatos

Nunca tive medo do parto. Sempre confiei. Sempre encarei o parto como o momento de transformação, meio ritualistico, onde a mulher que está em trabalho de parto atravessa passagens entre mundos.

Ainda bem que confiei. Ainda bem que quando ouvi, da médica que me seguia, “mas quer um parto humanizado ou quer que fiquem todos bem?”, não deixei que o medo se entranhasse em mim. Ainda bem que tive suporte e que procurámos opções. Ainda bem que encontrei a Clínica da Mulher e a Dra. Radmila…
Naquela noite cheguei à Clínica enrolada em toalhas, tinha tido uma rotura de membranas, escorria água. Tudo era entusiasmo e emoção. Ele ia nascer! Era agora! Esperava-me a Dra. Radmila e a querida Luísa. Fizemos um CTG, confirmámos que estava tudo bem, havia contracções mas nada dolorosas. Fomos para o quarto, a ideia era descansar (sim, pois, como se fosse possível com tanto entusiasmo!), dormir um pouco.
As contracções foram surgindo, aumentando a sua intensidade, dormir continuava difícil, agora já não era só o entusiasmo que me mantinha acordada, a cada contracção precisava de me ajustar, de me mexer. Começava a dar grito ao que sentia no corpo.
Algures entre contracções lembrei-me de tentar relaxar num duche quente. Não sei se relaxamento foi propriamente o que aconteceu… mas algo se modificou, o processo começou a ganhar outra forma… a viagem era agora mais intensa…
Ao nascer do dia, parecia que as minhas forças acabavam, que não era capaz, acho que perdi um pouco a noção da realidade do tempo. Só queria sair dali, só queria sair de mim. A Dra. Radmila ajudava-me a voltar ao corpo, a dar-me foco, a navegar nas contracções. Era difícil. Às vezes conseguia, às vezes chorava.
Chorei muito no parto. Chorei um choro da minha criança que ficou calado algures no tempo. Sei que precisei de o chorar para (me) parir. Sei que se tivesse estado num hospital e tivesse recebido epidural o meu processo de crescimento teria ficado meio incompleto.
Entrei na água ainda num registo desfocado, às vezes gritava que queria ir para o hospital e que só queria uma epidural, outras – sempre que conseguia usar a respiração e voltar ao corpo – percebia que era ali que queria estar. Ia mordendo a borda da piscina, gritando tudo o que tinha na alma.
Gritei. Gritei muito. Vários gritos. Gritos de várias emoções. Muitos gritos diferentes. Às vezes gritos de medo. Mas houve gritos especiais. Gritos que vinham de dentro, da alma, que canalizavam toda a força do meu ser. Gritos que me faziam passagem entre a terra e o céu.

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Quando me pendurei pelo pano, colocando-o de baixo dos braços, juntamente com a sensação da água, tirando-me pressão, ajudando-me a respirar, isso alivou-me imenso. A respiração passou a ser mais profunda. O ar chegava mais fundo.
No momento em que o meu companheiro se começou a preparar para entrar comigo na água a minha sensação do momento alterou-se. Percebi que estava quase e aquela sensação de que não ia aguentar foi-se desvanescendo.
A Dra. usava um espelho e eu ia vendo em que ponto estava a cabeça do Teo, isso ajudava-me. Dava-me força para continuar. Apesar de as contracções do período expulsivo serem mais intensas eram muito mais fáceis de gerir. Estava quase. Ele estava quase a chegar!
Outra coisa que me dava força era ouvir o coração do Teo. Cada vez que a Dra. vinha com o “aparelhómetro” para ouvir o coração eu tinha noção de que ele estava ali, que estava tão perto!
O momento da chegada do Teo foi lindíssimo. Lindíssimo. O mergulho dele. Ele a aparecer com um olho aberto o outro fechado, como quem acorda de uma sesta, a olhar para nós de dentro de água. Eu a pegar nele ao colo. Nós os três, abraçados, num momento sem tempo. Ele não chorou, olhou para nós, ali ficou tranquilo a (re)conhecer-nos, pousado nos nossos braços.
Recebeu todo o sangue do cordão até este deixar de pulsar. Tudo com calma, tudo com respeito.
Na minha ingenuidade achava que ia ser fácil. Que não ia ter dores, que iria levar a coisa meio a meditar. Não foi. Tive que lidar com os meus medos mais escondidos e que escolher que caminho interior queria percorrer nesta travessia.
Hoje não recordo a dor, por mais que me esforce não em lembro nada dela. Mas recordo sim o poder que senti. Recordo a força, recordo aqueles gritos vindos do coração da terra.
Nunca estive sozinha. Fiz o processo todo da gravidez de mão dada. Fui eu que pari, mas o parto foi nosso. O meu companheiro esteve sempre comigo, não só em idas a consultas e exames mas em todas as dúvidas e experiências.

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Pari o Teo, pari-me a mim.

Renascemos os três.

Nascemos como família.

~ Rute Ferreira


Apaixonada pelo processo de desenvolvimento humano. Apaixonada pelo Yoga. Apaixonada pelo parto. Apaixonada pela Vida. Sou Mulher. Sou Mãe. Sou Alma.