Ser Doula cura Ser Doula

O que me levou a fazer a formação de Doula

“Mãe, porque é que as mulheres têm filhos deitadas? Não sabem que custa mais?”

“Quando eu for grande e estiver grávida, não quero ter o meu filho no hospital. Está muita gente a ver e a incomodar.”

Estas e outras perguntas e afirmações foram feitas quando era pequena, talvez com uns seis, sete anos de idade.
Sempre me fascinei com grávidas e bebés. Adorava bebés, crianças, mesmo eu sendo ainda uma criança.
Como sempre fui muito curiosa e adorava estar perto de pessoas mais velhas, ia ouvindo os seus relatos de gravidez e parto.
O normal era ouvir lamentações. Gravidez cansativa, horas infinitas a fazer exames, partos altamente dolorosos e traumáticos.
Na família os casos que vi de mais perto formam das minhas tias.
Três tias, quatro gravidezes. Engravidaram e tiverem os seus partos na maternidade.
A primeira teve uma gravidez muito complicada ao ponto dos útlimos meses, ter de ficar de cama e um parto longo e doloroso que acabou em cesariana.
As outras duas tiveram gravidezes tranquilas, mas partos bastante dolorosos que acabaram em fórceps e ventosas.
A segunda tia a ter, devido ao trauma do parto, desenvolveu uma depressão gravíssima, que me impressionou bastante, pelos actos que tinha.
O tempo foi passando e nem me passava pela cabeça o momento em que iria engravidar e ser mãe. Sentia que ainda era muito nova e tinha de viver o presente.
Por vezes pensava como iria ser, mas não me demorava nesses pensamentos.
Por volta dos meus 29 anos foi quando me apercebi e admiti que tinha um trauma da maternidade.
Engravidar, parir e educar um filho era algo que me provocava terror, apesar de ser um dos meus grandes sonhos.
Procurei ajuda da hipnose e piorei substancialmente.
O facto de pensar que nunca iria conseguir concretizar esse desejo, deixava-me morta por dentro.
Como não conseguia lidar com essa dor, comecei a afastar-me das pessoas que tinham filhos pequenos. Comecei, até a acreditar que nem sequer gostava de crianças. Era mais fácil pensar dessa forma.
Com o tempo a passar e enquanto terapeuta, fui percebendo que não podia continuar a desresponsabilizar-me dessa maneira, e tinha de agir.
Numa terapia, disseram-me que daria uma excelente doula. Nem queria acreditar nisso. “Mas será que ela não sabe que tenho este trauma?” “Deve ter-se enganado, de certeza!”
A verdade é que comecei, mais tarde, a sentir algum interesse por essa actividade, e fui pesquisando.
Em breve ia começar uma formação em Évora com a Doula Luísa Condeço e estive quase para me inscrever, mas o medo falou mais alto.
Decidi então começar a ver vídeos de partos, tinha de encarar isso. Esse medo não podia ser mais forte.
Sempre que via os vídeos, e foram vários, a dor tornava-se maior. Era desesperante e incapacitante. Insistia, e a dor rasgava mais um pouco.
Fui lendo e me mantendo mais informada. Aos poucos fui ficando mais forte até que ao fim de dois anos surgiu uma nova formação, desta vez no norte.
Respirei fundo, fechei os olhos, e enviei email com a inscrição.
Logo a seguir senti uma espiral de emoções, desde pânico, a orgulho por conseguir dar esse passo, a revolta, a ansiedade…
A formação começou e lembro-me de no primeiro dia estar com grande vontade de me libertar ainda mais, mas a sentir-me altamente frágil e confusa.

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Os meses foram passando e mais uma vez o que fui sentindo foram todas essas emoções, mas de forma ainda mais intensa.
Chegou a haver alturas em que pensei em desistir.
No final da formação, com toda a informação, terapia, convívio que fomos tendo, e acima de toda devido à minha determinação, posso dizer que sou uma mulher diferente. Assistir aos partos da minha gata também foi muito, muito importante.
Posso ter ainda alguns receios, mas nada que neste momento me impeça de realizar o que quero.
Vejo neste momento a maternidade da mesma forma que via quando era criança: Maternidade é magia, é amor.
Encarar o medo poder ser terrível, mas a compensação é enorme.

Luta pelo que queres e te faz bem. O Amor é a única coisa que é verdadeira!

~ Filipa Ferreira
(Porto Terapias)

Foto do curso de Doulas da Rede Portuguesa de Doulas
Foto de capa de Camila Albano