Entrevista com Celeste Varela Entrevista

 

A Celeste Varela nasceu em Évora, e talvez tenha sido também o Alentejo e as suas distâncias que a ensinaram a valorizar o tempo… A Celeste mostra serenidade, e parece ter todo o tempo do mundo para dar a uma mulher em trabalho de parto. 

Academicamente terminou o curso de licenciatura em Enfermagem na Escola Superior de Enfermagem Calouste Gulbenkian de Lisboa, em 2000. Começou ainda em 1999, após concluir o Bacharelato, a trabalhar com bebés nos Cuidados Intensivos Neonatais e Pediátricos do Hospital Garcia de Orta. Manteve-se no mesmo serviço mas mudou para o Hospital D. Estefânia em 2000. Em 2003 “experimentou” a Sala de Partos, e em 2005 decidiu fazer a Especialidade em Saúde Materna e Obstetrícia. Com o primeiro filho nos braços, de apenas três meses, fez uma formação sobre fisiologia do parto e parto em casa à procura de respostas que a cesariana que viveu no seu primeiro parto lhe trouxe. (Quem ainda não acredita que a experiência de parto transforma uma mulher?) 

Será que encontrou as respostas que procurava? 

Será que importa? 

Não! Interessa mais a jornada que fez até agora como Mulher, Mãe e Parteira.

 

Marina – Explica-me uma coisa… quando trabalhaste no Garcia de Orta, ainda não tinhas a especialidade em Saúde Materna e Obstetrícia, pois não?

Celeste – Ainda não. Mas durante a minha licenciatura fiz o meu estágio na Sala de Partos em Santa Maria e detestei… depois de três dias a assistir partos disse que nunca ia ter filhos na vida.

M – Foram três dias pesados…?

C – Foram! Eu gostava era da parte da Pediatria, daí os Cuidados Intensivos. Primeiro no Garcia de Orta e depois no Hospital D. Estefânia. Só em 2003 é que mudei para a Sala de partos, na Estefânia. Em 2005 decidi ir tirar a Especialidade em Saúde Materna e Obstetrícia. Tive os meus dois filhos na Estefânia, o Bernardo em 2008, de cesariana, e a Laura em 2009 de parto natural. Em 2010 fui para Setúbal, para o Hospital S. Bernardo.

M – Onde os nossos caminhos se cruzaram. Pessoalmente e ao nível do Movimento Mães d’Água.

Porquê a mudança de Lisboa para Setúbal?

C – Eu sempre morei na zona de Palmela. Foram dez anos a ir todos os dias para Lisboa. Depois da Laura nascer achei que tinha que estar mais perto. Sabia que Setúbal tinha o Bloco de partos motivado para o parto natural e essa opção agradou-me.

M – Como é que o parto natural se torna um foco de interesse tão grande na tua vida? Experiência pessoal do parto dos teus filhos?

C – Durante o curso de Especialidade foi dado muito ênfase às recomendações da Organização Mundial de Saúde… Mas acontecia chegar ao bloco de partos e a realidade ser outra. O meu Estágio foi feito com uma pessoa que era muito sensível também a estas recomendações, e aprendi muito com ele, foi meu tutor. Foi o Enfermeiro Fernando Prada, tive com ele a experiência de permitir mobilidade à mulher durante o trabalho de parto, promover a ingestão oral, o conforto, a privacidade, evitar a episiotomia, etc. Já ele tinha aprendido com uma Enfermeira com muita experiência, ainda do tempo em que os partos não eram tão medicalizados.

Para te dar um exemplo, de uns 50 partos que eu assisti em estágio, devo ter feito umas três episiotomias, porque apesar de eu estar em formação, só aplicava a técnica quando era realmente necessário.

M – Que faz todo o sentido!

C – Pois faz!  Mas durante o meu estágio não percebi a real influência da epidural no trabalho de parto, porque na maioria dos casos acabavam por evoluir de forma positiva, sem necessidade de recorrer a ventosas, fórceps ou cesarianas.

Eu, no meu primeiro parto, levei epidural, apesar de andar e continuar a fazer todas as recomendações para tornar o trabalho de parto mais activo. O meu filho Bernardo “não gostava” da anestesia, ressentia-se sempre… nos reforços, via-se pelo CTG. Até o meu marido, sem ser da área da saúde, reparou nisso. O CTG mostrava diferenças no batimento cardíaco. O problema foi que aos 8 cm o trabalho de parto estagnou… com ou sem oxitocina, não havia meio de avançar. Estive cerca de seis horas assim, até que se optou pela cesariana.

M – Mas ao todo quantas horas estiveste em trabalho de parto?

C – Cerca de 12 horas, em fase activa, mais 12 de fase latente perfeitamente suportável, até porque me sentia radiante por estar em trabalho de Parto.

M – Mas isso não é muito para primeiro filho…

C – Pois não! E esta cesariana, sem razão aparente, deixou-me a pensar. O trabalho de parto tinha começado espontaneamente… a gravidez tinha decorrido sem qualquer intercorrência e não me foi diagnosticada incompatibilidade feto-pélvica… Tinha curiosamente feito inscrição para um curso com a Parteira Verena Schmid sobre a fisiologia da gravidez/ parto e parto em casa. Esta parteira tinha já 25 anos de experiência apenas em partos domiciliares, totalmente fisiológicos. Então, com o Bernardo, de três meses, ao colo, lá fui.

M – E como foi?

C – Foi muito importante para perceber que tinha que realmente continuar a investir na minha formação no que respeitava ao conhecimento do processo fisiológico, para poder prestar cuidados de forma distinta do modelo médico que vigora no nosso país. Este curso mudou ainda mais a minha forma de encarar a maternidade, como um processo normal e não de risco.

 

(pode ler uma entrevista que a Pais & Filhos fez a Verena Schmid aqui)

 

C –  Entretanto, 18 meses depois, tenho a Laura. Toda a gente dizia que o mais provável era de ser cesariana…

M – Por causa da cicatrização da cesariana anterior? Por ser menos de dois anos, certo?

C – Sim, pelo risco de ruptura uterina, e pelo “mito da bacia estreita”. Eu conhecia o risco, mas também sabia que seria baixo se o trabalho de parto fosse totalmente espontâneo e fisiológico, que era o que eu queria. Por isso, com a ajuda do Enfermeiro Fernando Prada e da Obstetra Alice Cabugueira, que sempre apoiou a minha opção, a Laura chegou ao mundo de parto natural.

M – O poder da informação… No fundo, o parto dos teus filhos trouxe à superfície a verdadeira parteira que há em ti.

C – Sim.

M – Como foi integrar uma equipa pioneira em parto na água no Sistema Nacional de Saúde?

C – Foi um privilégio integrar esta equipa e poder pôr em prática o modelo assistencial em que acredito, centrado na mulher/ casal com o mínimo de intervenção possível.

 

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M –  O que é que o parto na água te ensinou?

C – Ensinou-me a ter mais segurança na vigilância do trabalho de parto “Hands off”, a prestar mais atenção aos sinais externos de bem-estar da mãe e do bebé e a confirmar que é preciso ter essa segurança primeiro em partos terrestres e só depois dentro de água.

M – Quando o parto na água estava em risco de terminar, em Setúbal, tu chamaste um grupo de mulheres. Essas mulheres a quem recorreste, para defender aquilo em que acreditas, são as que formam este movimento, e que agora te entrevistam. Foi esta tua chamada geral que fez nascer este Movimento. Como foi para ti?

C – Foi difícil para mim entender a decisão que acabou por ser tomada de suspender o projecto de parto na água, e mais ainda a impotência, de nada poder fazer ou dizer, aos casais que apareciam e que tinham essa opção em mente.

M – Mas sabemos que há mulheres que continuam graças a ti a parir com água, no chuveiro!

C – Sim, eu deixo a mulher escolher. A mulher deve sentir-se apoiada e segura para seguir o seu instinto, perceber o que precisa, como é que se sente bem… Mas o profissional de saúde que a assiste também tem de sentir-se seguro, e isso será condicionado pelo tipo de experiência que tem.

M – Tu deixas a mulher escolher…

C – Sim!

M – É uma presença “ausente”, de muita observação e o mínimo de intervenção possível, não é?

C – Sim!

M – Explica-me melhor… Quando entrevistámos a Lieve Tobback ela mencionou a diferença de postura enquanto doula e enquanto fotógrafa num trabalho de parto. Referiu muito a invisibilidade, enquanto fotógrafa… e pelo que tu contas, a parteira também se quer discreta. Como é que é esse equilíbrio intervir versus observar?

C – Olha… o ano passado estive na Conferência Parteiras Midwifery Today e alguém dizia que o lugar da parteira, quando assiste partos em casa, é num cantinho da sala a beber chá. O que a mulher precisa é que a parteira esteja atenta à evolução do trabalho de parto, ou seja… estar invisível e intervir apenas se for mesmo necessário. Eu na brincadeira até costumo dizer aos casais que me propõem fazer parto em casa que eles vão-me pagar para eu beber chá. (risos)

M – Pois é! Começaste, entretanto, a acompanhar partos em casa. Desde quando?

C – 2011. Incentivada pela Doula Sandra Oliveira da Bionascimento.

M – Qual é o maior risco de um parto em casa?

C – Numa gravidez sem risco, cujo trabalho de parto comece e termine espontaneamente, há 97% de probabilidade de correr bem e 3% de risco, seja em casa ou em hospital. Infelizmente o parto em casa é mal visto, porque também só são divulgados os  casos que correm mal.

M – Qual é afinal o maior risco de um parto em casa?

C – O maior risco, quanto a mim é não haver estabelecido um protocolo de transferência de casa para o hospital, se essa eventualidade for necessária.

M – Sei que alguns casais tentam precaver esta situação falando antecipadamente com os Bombeiros, por exemplo.

C – Sim, é um bom exemplo! Ter uma conversa prévia com Bombeiros da zona de residência. Combinar quando o trabalho de parto começar, que serão avisados em caso de necessidade, e para estarem alerta e prontos a efectuar o transporte, se for necessário, para chegar rapidamente ao hospital.

M – Sei que recentemente acompanhaste em casa maravilhoso… queres contar?

C – Um parto na água em que durante o trabalho de parto não se ouviu um “ai” que transmitisse sofrimento, uma mulher que se sentiu uma verdadeira Deusa… o que é muito difícil num contexto hospitalar. A Avó do bebé, que noutra divisão da casa sentiu a dor da filha no momento do nascimento, e um bebé que não chorou nem uma vez…

No dia a seguir a um parto assim ninguém me consegue aborrecer. Fico nas nuvens.

M – Que bonito… percebo! Também acompanhaste recentemente uma Mãe d’Água do nosso grupo, neste caso no Hospital de Setúbal. A bebé nasceu no chuveiro…

C – Sim! A Inês Sobral… um desafio, ainda foram algumas horas.

A Celeste Varela estava a fazer o turno da tarde nesse dia e prolongou pela noite fora, para estar com a nossa Mamã. É realmente um privilégio conhecer alguém assim…

M – No entanto, apesar de tudo foi maravilhoso!

C – Sim! Nasceu de bolsa intacta…! A Inês estava no “chão”, de gatas, e quando a bebé saiu, o Pedro (o pai), que estava com o chuveiro a banhar a Inês, não percebeu que a água estava a ir directamente para a cara da menina, mas como estava na bolsa fez um efeito cascata. Foi muito bonito!

 

Eram 4:30 da manhã. As Mães d’Água torciam pela Inês… faziam-se perto mesmo estando longe. (Vantagens da tecnologia!) Alguém lançou o apelo: “Dizem que durante o parto as mulheres que pariram antes de nós nos visitam e se sentam connosco.. Vamos sentar-nos juntas? A Inês Sobral precisa da nossa boa energia!!!” E assim foi.

Os dias a trabalhar com o nosso movimento são feitos desta magia! Somos gratas? Muito!!

 


Mulher dos 7 ofícios, divido o meu tempo entre a Educação, o Teatro, o Associativismo e 1001 ideias sempre em processamento. A minha "actividade" principal é, no entanto, ser Mãe. (Re)descobrir o mundo novamente pelas mãos do meu filho e despertar novas sensibilidades em ambos. Tenho como lema "falhar, falhar mais, falhar melhor". (não sigo o acordo ortográfico)