O útero é o nosso segundo coração Ser Mulher

~ Alma Mater ~
Radmila Jovanovic, ginecologista e obstetra, fala dos ciclos da mulher

no Alma Mater da ALAGAMARES TV

(episódio 4)

Bem-vindos ao 4.º episódio da “Alma Mater”, na rúbrica “Ser Mulher por Inteiro”.

Nós falámos, até agora, sobre o ciclo; nós falámos sobre o aqui e agora representados pela vulva, vagina; nós falámos sobre o passado. E deixámos para fora o órgão que é mais central, o órgão que diz: “Isto é! Isto é o nosso órgão!”: o útero. O útero é chamado de coração; o segundo coração pequeno. Porque deste útero também começa a vibrar um coração. Mas já antes disto, ele tem esta vibração: vibração de amor, que é a base daquilo que desenvolve lá dentro.
É muito bonito ver um bocadinho como é que os outros povos chamam este órgão. O útero é muito activo. Na Alemanha chama-se “Gebärmutter”, a mãe que pare; a mãe que dá à luz. Na Jugoslávia – eu gosto muito disto -, na língua Sérvia, diz-se “материца”, mãe pequena. Isto significa que o útero é o determinado órgão onde acontece a transformação da “Deusa Virgem” em nós, para “Deusa Mãe”. Biologicamente podemos experimentar esta transformação. Biologicamente podemos sair do tempo real, do espaço real e criar o Universo; e criar algo que vai ser uma energia para uma vida íntegra.
É um tempo de alta conexão com energias mãe, com energias pai, com a energia do nosso próprio útero, dentro do Ser. Significa que é um órgão muito muito importante e contém por isso, também, uma boa base de protecção. Porque o útero contém músculo à volta, como se fossem as paredes da casa. O músculo do útero, quando a gente observa, é bem grande e a casa, quando não há gravidez, é pequenita. Mas tem capacidade de desenvolvimento. Estas paredes podem esticar, podem aumentar.
O útero em si tem uma base forte, masculina, musculosa e tem uma outra parte que é aquela que cria ninho, faz ninho, aceita se não acontecer, espera pela outra vez, não há problema nenhum. E tem depois uma outra parte, que é o colo do útero. O colo do útero é um órgão muito especial, porque é a única parte do útero que se conecta com o fora; que se conecta com o nosso dentro, que tem abertura para fora e que se conecta com energia masculina, que entra dentro. É o sítio onde se tem que encontrar a chave certa para se poder começar a entrar numa criação profunda; numa comunicação profunda entre homem e mulher.
E é o órgão que nós mulheres, ao nível de doenças, andamos mais preocupadas, porque fala sobre o parceiro sexual, fala sobre o futuro pai. É muito giro! Quem é uma mãe, no fim? Uma mãe é uma mulher que pelo menos uma vez na vida dela confiou num homem; confiou que ele pode ser protector; confiou que ele pode ser o seu território; confiou que ele vai estar lá. E, neste momento, quando existe esta protecção masculina, porque depois da fecundação o que é que é necessário do masculino? Desaparece? Não! É precisa esta protecção para que a gravidez possa desenvolver-se como deve ser.
Esta protecção mostra-se de variadíssimas maneiras e não é dependente dele; é dependente daquilo que eu sou capaz de ver nele. E ele vai crescer em tudo o que eu sou capaz de ver nele. Ver, não só com os olhos; ver com o meu coração! É muito importante percebermos que, quem cria o campo, fica sempre também na responsabilidade daquilo que vai acontecendo. E vai ter sempre que se rever outra vez e reajustar outra vez, para deixar este campo ser mais limpo, mais pleno, mais transparente possível, para que as coisas possam acontecer de maneira bonita.
E depois o que é que é necessário? Para a nossa criatividade acontecer? Nada. Giro, não é? Do nada acontecem as coisas; do nada cresce o Universo; parece que “do nada” é muito mais do que “naquilo que está preenchido”. No nosso bem-estar, na nossa consciência durante este tempo, na nossa conexão connosco podemos inclusive criar um testemunho para que a energia que existe/existiu dentro deste primeiro tempo de criação, que é um tempo crucial na nossa vida, porque é um tempo que traz a primeira música “background” da nossa vida e no bem profundo inconsciente nosso.
Imagine só que você vê um filme de amor e ouve uma música de horror atrás; imagine que isto é a sua vida. Isto significa que as informações gravadas dentro deste tempo de 9 meses são informações guardadas que são importantíssimas dentro do seu inconsciente; quer dizer que nunca mais serão esquecidas – estão sempre presentes -, que são escolhidas serem essas; não “aconteceram-me”, são escolhidas, porque naquele momento é necessário mexer mesmo com esta energia. Transformar estes assuntos. Então é a primeira informação recebida dentro do nosso sistema, gravada no sistema, recriado, inconsciente e esquecido. Significa que é o tempo fora do tempo. São 9 meses, mas não são 9 meses; é um tempo de início até o fim. É o tempo que começa, cria, chega a um período que acabou, uma fase, e vai para outra.
Por exemplo, se eu nasci aqui e ganhei a minha autonomia aos 26 anos, os meus ciclos repetitivos são: 26, 52 e seguinte. Significa que eu vou, em princípio, toda a minha vida viver o período do conhecimento da família até eu sair (0 – 26); depois vou ver a minha vida com as mesmas energias de “eu crio a minha família” (26-52); depois vejo “a minha família cria a sua família”; é um ciclo repetitivo. Nós não vivemos uma linha e isto é esquecido, acabou. Não. Nós sempre temos uma nova oportunidade de olhar 30º mais para a esquerda.
Significa que podemos ver aquilo que existe de várias maneiras para completar uma imagem, porque o nosso sistema é muito incompleto: os nossos olhos, os nossos ouvidos, o nosso sentimento. Nós somos capazes de coisas curtas, muito parciais. Onde se encontra a gravidez aqui? Estes 26 anos, energeticamente, correspondem aos 9 meses de gravidez. Quer dizer o quê? Aquilo que é a base, a matrix (estamos na “Alma Mater”) da informação é colocada ali. E dali, como ela depois está fora do tempo – como é um tempo de início até ao fim -, contém toda a informação dada. E a partir dali entramos na vida e começamos a viver a transformação.
Começamos a viver outras situações, muitas coisas inconscientes (mas não tão profundo inconsciente como na fase da gravidez); é um nível muito mais acessível. A partir dali, nós começamos a ganhar as nossas próprias aptidões, as nossas próprias possibilidades, capacidades e começamos a movimentar e a mexer o assunto que foi-nos dado e a alcançar sempre mais e mais deste assunto. Significa que o tempo de 9 meses, a criação energética, aquilo que acontece no útero é algo que nos dá a base para a vida; algo que nos dá a possibilidade, a informação “o que é que é o nosso trabalho? O que é que nós precisamos de fazer na vida”. E isto tudo acontece no tempo e espaço sem fazer; isto tudo acontece num espaço passivo onde apenas é necessário estar presente e estar consciente.

Radmila Jovanovic

 

Mais sobre Radmila Jovanovic:

Sou médica especialista em ginecologia e obstetrícia que usa visão holística no trabalho com as mulheres. Faço leitura do corpo feminino usando técnicas da medicina convencional em combinação com, entre outras, biologia da saúde, e experiência somática. O desenvolvimento do parto natural e humanizado, bem como a introdução do parto na água no meio hospitalar foram e são os meus focos principais enquanto médica obstetra. A auto-consciencialização e enpoderamento da mulher para a sabedoria do corpo feminino tem prioridade neste caminho.

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(imagem de capa de Chanel Baran)


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.