[Relato de parto #13] Mariana Falcato Simões Relatos / Semana Pelo Parto Respeitado

~ De mulher a mãe ~

Com a minha filhota pendurada na mama, e só com uma mão, vou tentar contar-vos o nosso parto…
Mas não há palavras.

Foi lindo, muito melhor do que alguma vez eu teria conseguido imaginar.
A verdade é que eu nunca tinha conseguido imaginar grande coisa, nem nas meditações, nem na sofrologia. Racionalmente pensava que podia ser assim, ou assado, mas a Ada (a minha filha), escolheu um parto maravilhoso.

Bem… passando aos factos:
Às 04h da madrugada acordei um bocadinho desconfortável. Com vontade de ir à casa-de-banho, com a impressão de estar mal dos intestinos. Percebi que algo se passava, mas julguei que era o primeiro sinal, que algures ao longo dessa semana a Ada havia de nascer.
Fui à casa-de-banho várias vezes, “reboli” na cama, acabei por tomar um banho porque sabia que se ligasse à doula era esse o conselho que ela daria. Com o banho a coisa havia de se definir.
Nada… continuava a sentir algo diferente, mas nem tinha contrações muito definidas. Só pensava, “isto não é nada, ainda nem me saiu o rolhão, nem tive muitas contracções”.

Às 06h sim, a coisa lá se definiu. De repente, e tudo ao mesmo tempo, saiu-me o rolhão, romperam-se as águas e comecei a ter contracções fortes e muito juntas. Já tinha a minha doula do outro lado do telefone e aqui percebemos que estava mesmo a começar, liguei à Mary (a parteira), que só de me ouvir pelo telefone disse logo para chamar a equipa toda.
E assim foi, ligámos a uma amiga aqui de Vila Real, ligámos à minha sogra, a doula e a parteira já vinham a caminho.

A partir daqui foi a loucura total! Eu que pensava estar em trabalho de parto umas 12h, comecei logo com contracções de 1min30 em 1min30 e vontade de fazer força, e pensei, “eu não aguento 12h disto”. Além disso a única certeza que tinha era que queria que a Ada nascesse em casa, por isso estava muito preocupada por estar com tanta vontade de fazer força, porque podia levar a inchar o colo do útero e aí tínhamos mesmo de ir para o hospital. Mas era uma vontade incontrolável de fazer força… (sabem do que falo, mamãs? ;-))

Quando a Ana (a nossa amiga) chegou, o Eduardo (meu marido), já pôde tratar de encher a banheira de água. Nós até tínhamos piscina insuflável, mas não havia tempo de a encher de ar e muito menos de água, por isso a nossa banheira cor-de-rosa serviu perfeitamente. E lá conseguímos chegar à banheira, com uma contracção a meio caminho que nos ia deitando ao chão aos dois.
Já à beira da banheira eles tentaram segurar-me porque a água estava muito quente, mas ninguém segura uma mulher a parir, e eu atirei-me literalmente lá para dentro. E que alívio… que delícia… que sensação…

Não sei quanto tempo ali estive…
Lembro-me do Eduardo;
Lembro-me de estar a “espremer” ora a mão da Ana, ora a mão do Eduardo;
Lembro-me de gritar ou gemer nas contracções e de dizer “não, não, não” a tentar não fazer força.
Mas era impossível, percebo agora que estava em pleno período expulsivo.

A certa altura a Ana pôs-me “Rescue”, e aí tive a clarividência de perceber, “se o meu corpo está a fazer força, desta maneira e com esta intensidade, não pode estar errado”. E aí deixei de lutar tanto com as contracções. Sempre a tentar não fazer toda a força que me apetecia, afinal a parteira ainda não tinha chegado, mas menos angustiada por estar com tanta vontade de o fazer.

Quando a parteira chegou, vinha a subir as escadas e eu já a ouvia a dizer qualquer coisa tipo, “estou a chegar!!” e assim que entrou na casa-de-banho eu só lhe perguntei “posso fazer força?”…
“Claro que podes!” – e foi o alívio.
Ufa! Fiquei tão serena que me pareceu que tinha ficado sem contracções. Até aí por mais que respirasse assim ou assado, parecia que cada respiração despoletava uma contracção.

Em 10min a Ada estava cá fora. Já ninguém me conseguiu tirar da banheira, ela já estava a coroar. A parteira ainda disse, “mais três contrações e ela sai”, mas eu lembro-me de pensar “sei lá quando é a próxima e agora se eu fizer uma forcinha se calhar ela já nasce”.

Nasceu. Ás 09h56m caiu a nossa fada nas mãos do pai.
Eu estava de quatro, exausta, lembro-me que ela fez uns sonzinhos e eu fiquei descansada, “está tudo bem”, disse para mim, “há ali quem tome conta dela, deixem-me só recuperar o fôlego…”
Lá me consegui virar, e vi a minha filhota, peguei nela, e dei-lhe muitos beijinhos, e cheirei-a.

Foi mágico, único, poderoso, confuso… sei lá! Afinal não há palavras para descrever e ao mesmo tempo há tantas palavras que surgem.
Eu e o Eduardo ficámos em êxtase, sem saber se rir ou chorar, e a rir e chorar, tudo ao mesmo tempo.

A placenta também nasceu sem problema.

Eu tomei um duchezito (já estava na banheira), e já fui para o quarto, para a minha caminha.
Ao entrar no quarto tive a maravilhosa surpresa de o meu amor ter preparado tudo melhor ainda que nos meus sonhos. As velas acesas, uma musiquinha da Loreena McKennitt a tocar, a cama feita, hmmmm, uma delícia.

E depois tivemos direito a tudo o que merecemos! Um belo pequeno almoço de cházinho e pão com manteiga de amendoim! E a seguir foram chegando uma a uma as pessoas que a Ada não deu tempo de chegarem a tempo. A minha mãe, a minha doula e as suas princesas filhotas, a minha avó… e durante o resto do dia foi um desfilar de família e amigos pela beira da minha cama, tal como eu tinha desejado.
Uma casa cheia, como o nosso coração: de alegria, de felicidade, de amigos.

~ Mariana ~ Parir com Alma