Entrevista com Marta Gabriela Oliveira Entrevista

“Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce.” (Fernando Pessoa)

PENSE ANTES DE IMPRIMIR

 

Marta, para começar, gostava que me falasses um pouco de ti.

(Sorriso) O que posso dizer? Sou uma rapariga normal, activa, que tenta ver o lado positivo das situações, sempre. Foco-me no que gosto, e amo a minha família e amigos. Sou Mãe e, de profissão, sou enfermeira. Sonho em ser parteira e cuidar das pessoas numa perspectiva integral e holística, por isso me interesso por temas relacionados com saúde integral, terapia energética, yoga, alimentação natural e macrobiótica, saúde e desenvolvimento infantil. Gosto ainda de ler, estudar, dançar, viajar e socializar. (Sorriso)

Queres falar- me um pouco da tua experiência na área do parto humanizado?

A nível pessoal a minha experiência começou quando fiquei grávida. Lembro-me de no curso base de enfermagem ter ficado interessada nesta área, de saúde materna, mas foi mais tarde que comecei a pesquisar mais sobre o assunto.
Quando fiquei grávida comecei a procurar o mundo do parto humanizado, e a querer saber mais sobre as práticas recomendadas, o parto fisiológico, métodos não farmacológicos de alívio da dor… Conheci a doula, e o seu trabalho, e como o trabalho das parteiras pode ser desenvolvido de acordo com o modelo de assistência próprio (Midwifery Models of care), modelo este onde a figura central é a Mulher. O papel activo e central da Mulher, que tem os seus direitos respeitados, é o que, para mim, melhor define a humanização do parto e cuidados relacionados. Qualquer tipo de parto pode ser humanizado desde que a mulher e bebé tenham um parto/ nascimento digno e respeitado. Onde as intervenções realizadas são apenas as necessárias. Onde o tempo, as preferências, e a liberdade da mãe e do bebé são os principais motivos de todo o processo, seguindo as recomendações baseadas na evidência científica mais actualizada e difundida pela OMS.
Na minha experiência enquanto mulher considero ter tido essa sorte. Enquanto profissional, sou generalista e por isso, acompanho algumas grávidas dentro do meu contexto de trabalho e da minha competência funcional, e aí o meu papel é de informar e sensibilizar para este tema.
Considero que para além disso a minha experiência de parto humanizado também tem sido em colaboração com as Mães d’Água e com a APDMGP na difusão da mensagem de que uma parto humanizado deve ser possível para todas as mulheres, sem excepção.

Como tem sido esta experiência com a APDMGP (Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto)?

Tem sido uma experiência muito gratificante, de aprendizagem e de responsabilidade social.

O que te levou a participar neste projecto?

O que me levou a participar neste projecto foi a vontade de poder fazer alguma coisa em conjunto com outras pessoas, no sentido de mudar o paradigma social que vivemos relativamente à forma como se nasce em Portugal e aos direitos da mulher na gravidez e parto.
Depois da suspensão do uso da água como metodologia de promoção ao parto normal no Hospital S. Bernardo em Setúbal, senti que é frágil e estrutura que mantém um serviço em actividade ou não. E no contexto dos direitos das mulheres e utentes do Serviço Nacional de Saúde, senti que, enquanto sociedade civil, temos mesmo de fazer ouvir a nossa voz, pois ela está silenciada.
Quando surgiu a APDMGP descobri que essa é uma das formas de poder realizar este propósito. E aqui estou eu integrada na equipa da APDMGP com quem tenho a honra e prazer de trabalhar!

Quais os principais meios de intervenção desta associação?

A APDMGP tem utilizado como meios de intervenção: sensibilizar, através da comunicação/ redes sociais e eventos públicos (Campanha pelo Parto Digno e Respeitado e a Exposição Desejos para o Parto); a informar, através do site e página de facebook e eventos públicos (Nascer em Amor e participação em palestras, como foi por exemplo a da Escola Superior de Saúde de Leiria, e no Congresso Internacional da APEO); advogar, os direitos das mulheres na gravidez e parto em diversos contextos, sociais e políticos, ao nível nacional e internacional, junto de entidades responsáveis (por exemplo em instituições de saúde interessadas, representante portuguesa da HRiC, associação que reportou os problemas identificados nesta área para o Comité CEDAW.
Todos os meios são necessários. É preciso intervir nas mais diversas esferas para a mudança de paradigma: junto da sociedade civil, mulheres e casais – para aumentar a informação, consciencialização e capacitação para os seus direitos. Junto dos profissionais de saúde – para aumento da consciencialização e sensibilização para os problemas vividos pelas mulheres neste âmbito. Junto das organizações (saúde e educação) e poder político – para que garantam a defesa e respeito pelos direitos das mulheres na gravidez e parto, e também as condições e ferramentas necessárias aos profissionais para que estes possam prestar cuidados de qualidade às mulheres e bebés em Portugal. Como eu já li em algum lado: ” para problemas sistémicos é necessária uma resposta sistémica”.

O inquérito “Experiências de parto em Portugal” realizado pela APDMGP (2015) indica que existem situações com necessidade de intervenção para a melhoria dos serviços de saúde prestado às mulheres no contexto dos direitos humanos no nascimento.

Qual ou quais as maiores dificuldades que enfrentam com as instituições?

As instituições têm sido bastante colaborativas no contato connosco, e talvez por isso tenhamos muitos profissionais de saúde na nossa equipa. O que sentimos no contacto são as dificuldades que as próprias instituições enfrentam, o que nos faz pensar em como esta mudança de paradigma tem de ser feita também a pensar nos profissionais, suas dificuldades, medos, limitações… A Associação pretende ser uma plataforma de diálogo entre todos aqueles ligados à gravidez e ao parto, classes profissionais, poder politico, sociedade civil. Sendo que o nosso foco é e sempre serão as mulheres, a mudança não se pode fazer sem reconhecer as dificuldades e vontades do lado dos profissionais.

Qual o feedback das instituições relativo ao plano de parto?

Do nosso Plano de Parto? Quando foi enviado para a Secretária de Estado da Cidadania e Igualdade, foi o que serviu de base para o despacho sobre o plano protocolo de partos nos hospitais, e que abriu o debate entre as classes profissionais (a ser anunciado em breve). Julgo que isso demonstra o reconhecimento da necessidade de um Plano de Parto e do seu papel preponderante, e que estava na hora das instituições abraçarem isso.
O feedback dos casais tem sido muito positivo, pelo facto de explicar cada ponto, e mostrar as várias opções. Mais do que  um “menu pré-feito”, é um documento em que estes podem verdadeiramente debruçar-se sobre as várias opções e discutirem (com as pessoas e profissionais mais adequados) assuntos que, quem sabe? nem sabiam que existiam.

Qual a frequência de contactos/ pedidos de ajuda?

Todos os dias nos chegam bastantes emails, mas nem sempre são pedidos de ajuda. Muitas vezes são pedidos de informação, esclarecimento de dúvidas, etc. Os picos de pedido de ajuda chegaram na altura do lançamento da nossa campanha Sombras do Parto (sombrasdoparto.wordpress.com), sobre violência obstétrica, ou quando se anunciou o relatório do questionário. O dia mais trabalhoso foi quando a Mafalda foi à SIC falar da Campanha. “Choveram” emails durante dias. Mas ainda acontece. Todas as semanas.

Surgem muitas mulheres com histórias traumáticas?

Sim. Mais do que seria possível imaginar. Mulheres que têm uma generosidade e coragem imensas, em reviver os acontecimentos, e partilhá-los connosco. Muitas delas, por telefone, choram, confessam que nunca falaram a ninguém. Sentem-se consoladas por, algumas pela primeira vez, alguém lhes dizer que “não, não é certo o que lhes foi feito”.  Há um caminho a percorrer na recuperação psicológica, há formas de as ajudarmos com reclamações, se essa for a sua vontade. Alguém que ouve a história delas sem rematar “mas pelo menos tens um bebé saudável”. Esse tipo de comentários, se bem que muitas vezes bem intencionados, silenciam a mulher e quase que lhe tiram a permissão e a validação que de facto a culpa não foi sua, e que ninguém tinha o direito de as magoar assim.

No mundo em que vivemos, ser-se activista é ser-se rebelde, como é lutar por uma causa?

Rebelde? (Sorriso aberto) depende da perspectiva. Por vezes, as pessoas que querem promover mudança quando vêem que esta é necessária, por algum motivo, podem ser consideradas rebeldes. Quando a mudança é para melhor, sou de opinião que sim, devemos sempre mudar! O período de transição pode ser mais difícil para outros… nesse sentido conheço alguns “rebeldes” e eu posso ser considerada uma delas (risos). só espero que sejamos cada vez mais! Lutar por uma causa é alimento para a acção, é ter uma paixão e trazer o seu melhor ao mundo! Todos nós temos uma: os direitos, a saúde, a ecologia, a educação, a alimentação, a família, a arte, a evolução, a tecnologia, o desporto, a agricultura, os animais… existem tantas… só temos de descobrir qual será a nossa!

 

A Marta Gabriela Oliveira é enfermeira com sonhos de parteira, e nós mal podemos esperar por ter mais parteiras assim!
Para conhecer melhor esta visão inspiradora vem ouvir a intervenção dela no nosso

Primeiro Encontro sobre Parto na Agua ~ Escolhas no trabalho de parto e Parto ~ o parto na agua