Prazeres de Sereia Mãe Água / WaterLove

Há qualquer coisa que me fascina no cheiro a maresia, no picar salgado das gotas esbranquiçadas de água do mar, na pele. Enfeitiçam-me as conchas, os seixos, o brilho da madrepérola. E não há algo mágico assim, nos cabelos enrolados de sal, os lábios avermelhados pelo sol?

Basta isso, areia nos pés e sal nos cabelos, para me fazer feliz.
Não acontece nunca que a visão de mar me deixe indiferente.
Não acontece nunca, chegar a um bar na praia, vinda do mar, sem me sentir sereia, acabada de sair de um universo paralelo.

Os bares na praia e as esplanadas à beira mar, têm muito de espaço intermédio, espaço de magia entre o reino do oceano e o dos Homens.
Nos bares da praia há muito pouco que podemos controlar: o som das ondas a espumar na areia é ruído de fundo e altera qualquer música que se escolha ouvir; o cheiro do mar adiciona tempero a todos os pratos; e a brisa…! A brisa faz colorir as faces e despenteia até os cabelos mais aprumados.

Não tenho provas, mas acredito profundamente que relaxa todos os músculos, mesmo os que se escondem dentro dos casacos de inverno.
Não há estudos, acho, mas tenho a certeza que desfaz a expressão mais carrancuda; dá leveza, mesmo ao luto mais pesado… ajuda os amantes a perdoar, e as mães a amamentar.

O Mar cura!

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Adoro o modo como o mar toma conta dos que têm coragem de viver perto dele. A maneira como esculpe a Costa, em ondulações imprevisíveis. A determinação com que, suavemente, um pouco de cada dia, transforma as estruturas corroendo as madeiras, mesmo as mais fortes; comendo as cores, mesmo as vibrantes.

O mar aceita-nos. Mas traz-nos sempre de volta. Mesmo os que perderam a casa têm no mar um abraço…

Desde que pude ser eu a decidir onde vivo, que escolho o mar como vizinho. Senão puder ser o mar pelo menos a água!

“Vista de mar” é coisa para mim atractiva em qualquer descrição de imóvel.

Perco-me em passeios à beira da água, e aviso já que é aí que me apaixono. (Do mesmo modo que o sabor da pele salgada é para mim das coisas mais excitantes!)
Encontro-me cá dentro, em zonas que eu própria esqueço, quando estou em contacto com o mar, e passar muito tempo longe dele é em si próprio razão para inexplicável tristeza.

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E fascinam-me os surfistas, os pescadores, os salva-vidas…
Acho linda aquela marca de biquini na pele bronzeada. Um biquini que se revela, como uma lingerie inusitada, naquelas que planeiam um mergulho, mesmo a meio de um dia de trabalho, fascina-me.
Quando trabalhava no teatro troquei muitas vezes uma hora de jantar por um mergulho rápido na praia mais próxima. E aquele voltar ao trabalho com este segredo… – a areia nos pés a ranger a cada passo no palco, o cabelo molhado, e a leve comichão nas costas – faziam-me sentir tão… Sereia. Sereia ou baleia, mas um ser marinho! Apenas temporariamente apanhada em mundo dos Homens…

Adoro os mergulhos de inverno, nas ondas geladas e espumosas do atlântico, e as tardes preguiçosas, de sumo na mão, a “ver o mar”.

Vamos ver o Mar?” – mesmo a minha mãe, que é um ser de “pés bem assentes na terra!”, com medo de mergulhos de cabeça ou até de aprender a nadar, gosta de ver o mar. Uma daquelas pessoas que pode passar a época balnear inteira sem sal no cabelo, “só me molho até aos ombros! O que é que queres? tenho medo!” – Mesmo ela, desde que me lembro, nos convidava regularmente: “vamos ver o mar?

Quando era pequena íamos às praias inevoadas, do Pedrogao; às praias ventosas de São Pedro de Moel; e cheias de gente, na Nazaré.
Víamos o mar, comíamos um gelado, e voltávamos para casa. Era um dia cheio, ocupado com uma actividade importante, inspiradora, que nos enchia de prazer, nos dava calma, nos “recarregava as baterias”.

Ir à praia sempre foi uma das minhas coisas favoritas.
A minha irmã sempre chamou “foleiros” aos colares de conchas que eu improvisava (ainda o faço!), e a minha mãe perdia muitas vezes a paciência com a coleção de “pedras” que trazia comigo em baldinhos coloridos.
Nunca me importei!
Elas viam pedras, objectos sem uso, mas eu via brilhos, e nesses brilhos… Imagens de outros mundos. Levar as pedras para casa, usar as conchas, era o meu modo de me manter ligada a esta “Água Mãe”.

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Agora vejo assim, vejo que são coisas de Yemanjá talvez! Coisas de Outras vidas, quem sabe?

Lembro-me de, depois de um mês inteiro sem ver o mar, ir a uma praia, no sul da Índia, e, de mãos em oração, levar uma mão cheia de água ao coração (sem medo de manchar o sari de seda), lembro-me de quem estava comigo me perguntar:
– “Estavas a rezar?“, e de me sair um apressado,
– “Eu não rezo! Não sou religiosa.”

Mas estava… A verdade é que eu estava “a rezar”. É mais que um gostar, um prazer, uma paixão – é uma devoção.
Eu na altura não sabia, mas esta paixão pela água é a minha fé, a minha deusa, a minha prática espiritual.

Há quem me diga que são coisas estranhas estas práticas de “seres terrestres” quererem parir na água. Mas água é vida, quem o pode negar?

Sim, estou sentada na areia da praia, num desses bares que assim honram a paixão pelo mar.
Está a ficar escuro, e as formas que vejo caminhar ao longe, que aos poucos se aproximam, de passo ondulado pela areia, não me espantam na sua visita de outros reinos. Procuro sempre neles, nos que chegam aos bares da praia, as caudas escamosas.

Não somos todos assim? Feitos de tanta água, filhos de tanto mar – todas sereias, todas mães D’ água?

E tu? Como vives tu o Mar?


Joana é Mãe D' água, já foi actriz e está preparada para ser Deusa. A Joana é mãe, yogui, viajante, escritora, activista pelos direitos da mulher... Uma "inspiradora de mães", como ela gosta de dizer. E porque Sereia não escreve só na areia a Joana é a editora oficial das mães D' água. Doce e salgada, escreve sobre tudo e sobre nada. Sobre amor, sobre magia, sobre viagens interiores e sobre os acordares da maternidade. (terminou colaboração com o blogue em Junho 2017)