Fases Holísticas do Parto (primeira) Artigos

~ Texto original (primeira parte de quatro) por The Matrona,
tradução livre de Catharina Didelet e Joana Fartaria ~ Maes d’Agua ~

Nos primeiros anos da minha carreira dei comigo a ser chamada para dar assistência a mulheres que estavam a construir famílias grandes. A família da minha terceira cliente ia receber o seu sétimo filho, a seguinte ia ter o seu oitavo. Percebi rapidamente que a minha experiência pessoal de parir duas crianças e os meus três anos de formação como parteira eram uma sombra em comparação com o conhecimento destas mulheres parideiras. Percebi que, como sua parteira, me sentaria a seus pés para aprender com elas. A partir destas muitas experiências de Parto que tive a benção de testemunhar nasceu “As Fases Holísticas do Parto”.
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EMBARCAR

Parir é uma Viagem. A preparação é muitas vezes complexa, consciente e desgastante. Há normalmente um ritual de Preparação de tudo-o-que-é-importante que precede o evento. Chamamos-lhe “fazer o ninho” e a Mãe multiplica-se numa agitação final, tratando de todos os últimos detalhes… as roupas são lavadas, enche-se o congelador de comida, a casa é organizada ao detalhe… tudo está em ordem. “Fazer o ninho” faz parte do Embarque. A Mãe sente que o parto está próximo. Talvez contracções e a perda de um pouco de muco cervical dão o sinal de que a viagem está prestes a começar.
O Embarque começa realmente quando a mulher se apercebe que o parto está mesmo a chegar. A Mãe está excitada, talvez um pouco nervosa, preocupada com o bem-estar dos seus, tendo garantido que serão bem tratados enquanto ela está ausente. Quando a Viagem se inicia, ela pode ligar a toda a família para se despedirem dela ou, dependendo dos seus costumes e tradições, pode sair discretamente com o seu parceiro ou acompanhantes. Normalmente, nesta altura ela avisa a equipa de apoio ao parto que escolheu. Se o parto vai ser em casa, avisa a sua parteira, que pode ou não vir imediatamente consoante a preferência da Mãe. Se planeia o parto num hospital ou Casa de Partos, pode avisar os profissionais que escolheu e ficar em casa até que ocorram mais alterações. Geralmente, as Mães desejam ter tempo para se acostumarem às sensações que o corpo oferece, antes de falarem com os seus acompanhantes de parto. A maioria das Mães tem noção de que o parto está numa fase inicial, estão excitadas e gerem a sua energia muito bem.
Durante esta altura a Mãe sente muitas vezes a necessidade de falar e partilhar sensações à medida que vai sendo afastada da realidade quotidiana. Pode estar faladora e partilhar informação sobre cada contracção e cada sensação. Fica normalmente concentrada à medida que é esticada e moldada; as suas sensações tornam-se mais fortes, mais intensas, poderosas. A maioria das Mães experiencia isto como diversos graus de dor. As ondas de contracções repetem-se com mais intensidade e frequência e a Mãe é levada em direcção ao Desconhecido.
Em linguagem moderna esta fase pode ser considerada o pré-parto e o estado latente da Primeira Fase do Parto. Em termos físicos, o colo do útero começa a apagar-se e dilatar e esta fase dura até a Mãe alcançar 4 a 5 cm de dilatação. As contracções duram normalmente 30 a 45 segundos separadas por 5 a 10 minutos. À medida que a Mãe se aproxima mais do abismo que a separa da realidade, as contracções crescem em intensidade e tornam-se coordenadas e rítmicas. Torna-se aparente que a Mãe está a ser chamada – ela está cada vez menos presente na realidade com cada sucessiva contracção. A sua personagem faladora desaparece, substituída por uma crescente solenidade.
À medida que ela se sente puxada em direcção ao Véu (desconhecido) vai provavelmente querer falar com a sua equipa de apoio ao parto. Pode sentir a necessidade de ter a presença da sua parteira ou médico, porque percebe que vai desligar-se da realidade, tomando um passo definitivo em direcção ao Desconhecido, e quer que a sua equipa de apoio esteja consciente e pronta a presenciar esse momento.

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O VEU
(PRIMEIRA FASE, TRABALHO DE PARTO ACTIVO)

A Mãe chega a um ponto na sua viagem em que deve seguir sozinha. As endorfinas libertadas pelo seu corpo durante o Embarque começam a mudar o seu consciente e ela entra, mais profundamente, num reino de estado alterado. Ela viaja até aos limites da sua realidade normal, deixa o Véu e vai mais além. O Véu é a minha nomenclatura para a cortina que separa a realidade palpável do estado de alteração profundo.
O padrão de ondas cerebrais começou a diminuir e a mudar de Beta (realidade palpável) para Alfa (a ponte até ao subconsciente) na fase do Embarque. Agora, na próxima fase do parto, o padrão de ondas cerebrais acalma ainda mais e a Mãe tem acesso ao Teta (o subconsciente). A solidão reflecte o facto da mulher se encaminhar por si própria para um espaço alterado, mas que parece emanar dum lugar interior enraizado nela.
O Véu é aquela fase do parto que anuncia a mudança para este novo lugar. Isto não significa que a mãe queira estar sozinha ou que os outros não são importantes. Pelo contrário, assinala a mudança para um reino mais auto-direccionado. As mães podem aproximar-se do Véu várias vezes antes de decidir atravessá-lo. As circunstâncias podem também impedir que a mãe o atravesse. Perguntas constantes, especialmente sobre assuntos mundanos, e interrupções no ritmo da mãe servem para a trazer de volta à realidade.
No Véu, a Mãe já não se sente faladora e muitas vezes surge algo mais sério e profundo. Ela começa o processo de separação e apesar de estar ciente de detalhes e pormenores que ocorrem na sala, a Mãe torna-se menos interessada neles.
Há geralmente no ar um cheiro palpável ou uma subtil, mas perceptível, mudança de cor na sala que marca a presença da Mãe no Véu.
Muitos profissionais médicos podem calcular a evolução do parto através destes sinais, fazendo com que exames à Yoni (vaginais) sejam redundantes nesta fase. Tenho experienciado a mudança de cor e considero ser muito fiável e útil para mim enquanto testemunho a viagem da mãe.
Em termos convencionais, a Mãe alcançou 4 ou 5 cms de dilatação e o carácter do parto muda. As contracções começam a durar cerca de 60 segundos e são separadas por 5 minutos. A Mãe, em “modo” beta, pode parecer um pouco mais aérea e desconcentrada para a equipa de apoio ao parto.

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NA MONTANHA
(PRIMEIRA FASE, TRABALHO DE PARTO ACTIVO)

Nesta altura a Mãe deseja privacidade, silêncio, calor e a intimidade do escuro. Ela olha para o seu Guardião para saber que está em segurança e que ninguém vai interromper a sacralidade das suas viagens com distracções ou projecção de quaisquer expectativas nela. Mas acima de tudo, ela olha para o seu Parceiro para ver se ele (*) está com ela. Ela procura-o para o trazer para o vórtice e juntos falam uma linguagem silenciosa enquanto as sensações entre eles se tornam mais poderosas e intensas. Ninguém os deve perturbar; eles estão Entre os Mundos. Ficam sintonizados ao ritmo deste processo e talvez ao espírito e alma do seu filho. Podem ter visões, ver cores, ouvir a voz do seu filho. Qualquer que seja a experiência, é única e importante para eles como parceiros, como pais e como família. Este sítio Entre os Mundos é como um estado alterado de transe onde eciste a oportunidade de aceder a estados místicos de transformação. Podem acontecer profundas tomadas de consciência, e novas verdades tornarem-se evidentes. A realidade não-palpável pode trazer nova informação e novas perspectivas que irão alterar para sempre a consciência do indivíduo e da família. A Mãe já não está em Beta, está muito para além de Alfa e atravessando os mais profundos estados de consciência… Teta e Delta (para além do subconsciente até ao inconsciente).
É importante não interferir com o casal em trabalho de parto e raramente é necessário. A Mãe fica direita, movendo-se com o seu parto, movendo-se com as suas contrações. Estas tornam-se mais longas e mais fortes – de 60 segundos para 75 segundos, quase 90 segundos. Nesta altura a dilatação passa de 5 cm para 8 ou 9 cm. Aqui o parto é considerado difícil e muitas vezes doloroso… pelo menos, forte e intenso. A Mãe tem estratégias para lidar com isso. Não está perdida. Ela tem o que é preciso para encontrar o seu caminho. Normalmente não precisa de palavras… simplesmente tranquilizá-la estando presente como uma companhia que lhe dá privacidade e lhe oferece segurança, embora algumas vezes sussurrar palavras de respeito e reconhecimento possa também dar à mãe a noção de que se for necessário estás ali. Por vezes trautear ou cantar suavemente, no quarto ao lado, pode ser o suficiente para deixar a mãe tranquila. A Mãe pode desejar ser tocada, olhada nos olhos, sentir os poderes de cura da água… Ou nada disto. Aprendi a não fazer suposições. Agora, sigo a mãe e a viagem. Mais uma vez, é inerente à Arte de ser Parteira a capacidade de ajudar nas necessidades de qualquer mulher, quer ela deseje companhia ou sossego, contacto olhos nos olhos ou alguém no quarto ao lado. A Arte está em ser capaz de individualizar a tua presença de acordo com as preferências de cada mulher. Muitas vezes vou para um canto, testemunhando em silêncio, e sem olhar ou perturbar a privacidade do casal em trabalho de parto. Aliás, qual seria o problema, se o profissional de apoio ao parto estivesse a fazer tricot no canto da sala.

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O CHAMAMENTO
(FINAL DA PRIMEIRA FASE – TRANSIÇÃO)

A Mãe apercebe-se que se aproxima do pico. Ela está num vórtex profundo, para além de tudo o que já experienciou. Ela tem estado continuamente a abrir-se ao conhecimento, abrir-se à revelação e agora está cara a cara com o auge do seu parto. Ela veio para isto – aceder ao novo espírito, à nova pessoa que é o seu filho e o filho do seu parceiro, e trazer esta alma para a Terra. Ela ouve os Chamamentos, ela chama o seu filho, e juntos fazem o seu caminho de volta.
Esta é muitas vezes a parte mais delicada do parto. A Mãe invoca todas as suas dúvidas e quer ter a certeza de que o seu Parceiro está completamente presente e que a apoia. Ela pressupõe que a sua equipa de apoio ao parto está a acompanhar o percurso deles e que são um porto seguro do outro lado da tempestade. A Mãe é mais destemida e corajosa do que alguma vez foi na sua vida. A fase de Transição é considerada a altura mais intensa para a Mãe. As contrações são longas e difíceis – mais de 90 segundos e a cada 3 ou 4 minutos. Ela está a chegar a 100% de dilatação, ou 10 cm. Isto é o mais aberto que uma mulher pode estar. Claro que a situação pode parecer caótica e a Mãe por momentos pode hesitar durante esta abertura Suprema. Ela pode dizer que não aguenta mais ou que quer ir para casa. Pode ter um olhar esbugalhado e procurar a presença dos outros. Pode pedir ajuda, mas já notei que isto não é realmente um pedido para que alguém faça alguma coisa, mas sim um chamar de atenção para que seja vista, apoiada, na fase mais difícil até agora. Por vezes a presença de outra pessoa, especialmente de alguém que ela ama e confia, pode trazer de volta a calma. E por vezes a presença do outro permite-lhe sentir-se segura e enfurecer-se até ao fim do mundo. A sua tempestade pessoal pode afastá-la da realidade palpável. Ela vai tornar-se a tempestade, vai tornar-se selvagem e incrivelmente poderosa. A equipa de apoio ao parto e parceiros podem ficar espantados, até intimidados. A Mãe vai encontrar o seu caminho custe o que custar.
É importante referir que o parto não acontece de uma forma específica. Algumas mães estão calmas, outras selvagens. Alguns partos são cheios de dor, outros são completamente suportáveis, alguns até são orgásmicos. Não estou a sugerir que um tipo de parto é melhor ou mais consciente que outro. O que quero dizer é que quando a mãe está na sua zona de poder autêntico, independentemente de como isso possa parecer, o seu parto é normal, natural e perfeito para ela. Digo também que quando uma mãe é pressionada pelos hábitos culturais ou de profissionais médicos e privada de aceder à sua sabedoria instintiva, a sua experiência de parto pode ser insuportável, agonizante, fora de controlo, humilhante e embaraçosa.
Neste momento, a mulher precisa muitas vezes de encontrar o seu próprio caminho. Ela precisa de ouvir os Chamamentos na sua própria linguagem e à sua maneira. Quando consegue, pode começar a viagem em direcção a casa. Qualquer distracção neste ponto pode criar confusão e ser e perigosa, mas tenho testemunhado, com regularidade surpreendente, mulheres serem flexíveis e poderosas e conseguirem ultrapassar até perigos e distrações nesta fase. Durante este momento de abertura, as mulheres encontram o seu caminho, encontram-se a si próprias, encontram o seu poder e a sua vontade e comunicam com forças maiores do que aquelas que alguma vez viveram.

(*) Apesar de usar o pronome “ele” ao referir-me ao parceiro, não quero de forma alguma marginalizar casais do mesmo sexo. Nem quero minimizar mães sozinhas, que fizeram mais pela liberdade das mulheres do que qualquer outro grupo que conheço. A minha experiência tem sido sobretudo com casais de sexo diferente, casados, portanto uso aquilo com que estou mais familiar.

(CONTINUA…)

Foi um enorme prazer traduzir este texto e ele foi apresentado em quatro partes para facilitar a leitura, podes ler aqui a Segunda Fase, Terceira Fase, Quarta Fase.

Carinho nosso.


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.