Fases Holísticas do Parto (segunda) Artigos

~ Texto original (segunda parte de quatro) por The Matrona,
tradução livre de Catharina Didelet e Joana Fartaria ~ Maes d’Agua ~

A CALMARIA
(A FASE DE DESCANSO)

Este é o período de grande quietude e paz que acontece depois da transição. Tudo fica calmo e sossegado e a Mãe sabe que já aconteceu. Ela sabe que encontrou o que estava à procura… o seu porto de abrigo na tempestade e o acesso à alma do seu bebé. Ambos Mãe e bebé estão tranquilos e serenos, deixando-se levar em direcção às margens, a casa. Ela pode escolher descansar nos braços do seu Parceiro ou criar um espaço sossegado para recuperar energia. Ela não terminou as suas viagens – tem de gerir as vagas que aí vêm – mas por agora ela está em paz. Esta é uma das partes mais importantes do parto.
Durante muitos anos não havia reconhecimento desta fase do parto na nossa cultura. Quando a Mãe atinge a dilatação completa é normalmente encorajada a começar a fazer força para a expulsão do bebé. Mas no paradigma holístico, esta fase, que normalmente dura 20 a 30 minutos (mas pode ser tão pequena como cinco minutos ou pode durar horas), é o tempo da Mãe se readaptar e reunir energias para a fase final do parto. O parto parece parar; as contracções literalmente param ou abrandam e a Mãe pode adormecer ou entrar num transe silencioso, meditativo. Toda a gente espera em silêncio até que as contracções recomecem.
O que acontece durante a Calmaria é mais do que descansar e readaptar. Depois de subires a montanha mais alta e finalmente chegares ao Cume, o que fazes?… desces logo a seguir, do outro lado? Claro que não. Descansas simplesmente para a descida? Claro que não. Podes abrir os olhos e ver! Verias o quão longe chegaste. Possivelmente terias um momento sagrado e abençoado, diferente de qualquer outro momento na tua vida. Poderias apenas receber.
Este poderá ser o auge do estado alterado. As ondas cerebrais podem mudar para Delta, o padrão mais lento e profundo que é conhecido, que nos dá acesso ao reino do inconsciente… o reino do conhecimento profundo, da compreensão meditativa e de experiências extremas. Este é o reino da transformação.
Neste caso, a Mãe recebe informação pertinente que lhe permite compreender e conhecer este novo ser humano que ela está a parir. Ela recebe sabedoria a que é fácil de aceder nesta “grande altitude” e neste estado alterado temporário. Lamentamos não nos ter sido dado um manual para educar a nossa criança, mas isso não é inteiramente verdade. Pode haver um verdadeiro download de informação sobre a nossa criança aqui… esse tal manual. Este é um elemento chave da viagem e as mães desejam ser respeitadas e que lhes seja proporcionado sossego para experienciar esta fase do parto.
Esta fase é diferente para cada mulher e em cada parto, mas num parto em que não é exigido à Mãe agir de acordo com quaisquer expectativas ou em que não existe um forte programa de como o parto deve decorrer, tenho reparado que este intervalo dura entre 20 a 30 minutos. No final deste período, as contracções começam e muitas vezes a Mãe é acordada de surpresa. Agora está preparada para descer a montanha, carregando esta preciosa informação. Ela caminha para a costa com o encher da maré.

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AS ONDAS E AS VAGAS
(SEGUNDA PARTE DA SEGUNDA FASE – O PERIODO EXPULSIVO)

Nesta fase a cabeça do bebé chega ao períneo. A mãe consegue senti-la, pode ser visível para o parceiro se a posição da mãe assim o permitir. A Mãe sabe que o seu bebé está mesmo ali. Sentir o bebé no períneo vai por vezes levar a mãe a ter vontade de “fazer força”. Normalmente as mães parecem estar em sintonia com o poder destas contrações que chegam como ondas, e fazem força com elas, mas já testemunhei algumas mulheres que nunca “fizeram força” activa durante o seu parto. O útero trata de tudo. As mães conjugam estas contracções de final de parto com a canção que começou no início do trabalho de parto, crescendo como uma magnífica ária de ópera. Na realidade, a voz da mãe pode guiar o bebé para o fim do túnel. Estes sons universais podem estimular o bebé na sua viagem e criar a emoção e tensão natural que sentimos quando atingimos um objectivo.
Neste ponto, quando o bebé está quase a coroar, a Mãe experiencia uma descarga de adrenalina. À velocidade da luz, ela está em dois mundos. O trance de oxitocina do seu parto ainda é palpável e ela está consciente da realidade terrena. Ela está de regresso e pronta a trazer o seu bebé para terra firme.
Tenho reparado que quase todas as mulheres adoptam a mesma posição para parir. As mulheres que são deixadas em paz e sem lhes ser dito o que fazer… universalmente e naturalmente tendem a fazer isto….
AJOELHAR-SE num joelho.
Durante o tempo que passam Entre os Mundos, a maioria das mulheres está vertical e a fluir com o parto. Muitas mulheres balançam o corpo com as contracções e inclinam-se para a frente durante a maioria das contracções. Isto é sabedoria natural. No parto, o útero move-se para cima e para a frente e as mulheres movem-se naturalmente com o útero, facilitando o processo. Algumas mulheres até apertam o seu útero para cima e para a frente com as contrações… Nunca tendo sido guiadas ou encorajadas a fazer isso. Durante a Calmaria, as mulheres parecem relaxar. Podem flutuar na banheira ou sentar-se. Podem mesmo deitar-se de lado. Quando as contracções recomeçam em força durante as Ondas e Vagas fortes de final do Parto, as mulheres estão normalmente verticais de novo… a andar, balançar, a inclinar-se. Nesta altura em que tudo fica mais intenso e as contrações são em Ondas e Vagas, a mulher sabe instintivamente que o seu bebé está próximo e começa a debruçar-se e a ficar mais próxima do chão. Finalmente, quando as Vagas estão no seu pico máximo de oscilação, as mulheres invariavelmente adoptam uma posição de joelhos, com um joelho no chão, e o outro dobrado. A mulher nunca vai deixar o ser bebé cair no chão. Vai agachar-se com um joelho em baixo e o outro dobrado, e facilitar o nascimento do seu filho. O seu parceiro normalmente agacha-se em frente e por cima dela, como um Arcanjo, protegendo e testemunhando, tomando conta da sua família. O profissional médico está próximo… esperando ser chamado para mais perto se necessário. A maioria das mães dão à luz sozinhas. O bebé não “sai a correr” do útero, quando a mãe está presente e instintivamente activa no seu parto, portanto ninguém precisa de o “apanhar”. As mãos da Mãe sabem o que fazer… como sempre… e raramente é necessária ajuda. O bebé é recebido pelas mãos da Mãe e ela pousa-o cuidadosamente na área que estiver preparada para o bebé, no chão.

Uma nota sobre outras posições…
Durante as Ondas, ou Vagas, as mulheres por vezes mudam de uma posição ajoelhada para uma posição de gatas. Esta é uma posição comum porque a mãe pode aliviar o peso do bebé nas suas costas e tem os seus braços como suporte enquanto ela se debruça. A mãe só fará isto se o profissional de apoio ao parto ou parceiro ajudarem na expulsão, porque a mãe sabe instintivamente que assim o seu bebé está atrás dela, e ela não o poderá receber. Muitas vezes as mães confessam depois do parto que a posição de gatas fez sentido na altura, mas têm pena de ter perdido o nascimento do seu filho. Acabou por ser outra pessoa a receber o bebé e conheço muitas mães que dizem não voltar a escolher esta posição.
As mulheres parecem não gostar da posição de cócoras com apoios. Estão completamente dependentes de outra pessoa para as segurar durante o parto, normalmente o parceiro, e o parceiro não consegue facilmente ver o seu filho nascer. Por outro lado, põe a mãe muitas vezes numa posição embaraçosa… ter de depender de alguém para a segurar durante o parto quando elas instintivamente sabem que isto não é na verdade necessário. Tenho-me apercebido que a posição de cócoras com apoios é a posição adoptada pelo profissional de apoio ao parto, em vez de ser a posição que a mãe escolheria naturalmente. Para além disso, de cócoras, tenho vistos mulheres com dificuldade no curvar das costas para a reflexo de expulsão do bebé de que fala Michel Odent.
Meio-deitada, a posição mais popular em termos culturais para o parto, é a posição mais difícil para parir um bebé. É mesmo uma questão de geometria sagrada. Quando a mulher está sentada no seu cóccix, que é exactamente onde está sentada quando está deitada, inclinada para trás, ela está a obstruir o canal de parto. No parto, o cóccix irá naturalmente “sair da frente”, para que o bebé consiga passar. Quando a mãe está apoiada em cima dele, é necessária uma força enorme para mover o bebé através do cóccix. Isso traduz-se numa fase expulsiva guiada, com uma expulsão difícil e pesada, com as pernas levantadas até às orelhas e muitas vezes muitos gritos e demasiadas instruções. Apesar de psicologicamente ser preferível deitar-se totalmente de costas a estar meio deitada, nunca vi uma mãe escolher esta posição, ou precisar de escolher esta posição. Aliás, mesmo do ponto de vista fisiológico, deitar-se de costas é mesmo assim preferível a estar meio deitada, apoiada no cóccix, porque deitada para trás ele pode “sair da frente” com menos esforço, do que se a mãe estiver sentada nele. As mães não gostam de se deitar no parto porque instintivamente sabem que não é natural e é mais difícil para o útero que se move para a frente e para cima.
As mulheres que escolham um parto na água podem por vezes permanecer semi-deitadas. Isto funciona na água porque quando o bebé está a nascer, a mãe pode facilmente levantar-se e deixar o cóccix mover-se para o bebé coroar.
Deitar-se do lado esquerdo é uma posição escolhida por mães que querem estar nas suas camas ou que estão limitadas à sua cama por alguma razão. Parece funcionar bem já que alivia a pressão da zona lombar da mãe, mas as mulheres relatam que há algo de muito estranho e embaraçoso em precisar que alguém segure a sua perna para cima durante o teu parto.
O que aprendi com as mulheres em trabalho de parto é que elas vão instintivamente encontrar a posição que funciona melhor para o seu parto… normalmente de joelhos. Qualquer posição que a mulher escolha… semi-deitada, ou de gatas, ou de joelhos… é a posição natural no momento. Não há uma posição correcta para o parto. É tão individual quanto cada mulher e cada parto. A minha experiência é que a mulheres muitas vezes escolhem a posição de joelhos quando não existe pressão cultural contra isso.
A distinção entre as duas partes da Segunda Fase do trabalho de parto Parto: na medicina convencional, reconhecemos apenas um aspecto da segunda fase. Neste modelo holístico notamos que as mães normalmente não fazem força até a cabeça estar no períneo e delineámos duas partes desta fase do trabalho de parto. A primeira parte da Segunda fase – as Marés – ocorre depois da transição e inclui o tempo entre a dilatação completa e a chegada da cabeça ao períneo. Esta parte abrange o tempo em que o útero traz naturalmente o bebé através do canal de parto. A outra fase – As Ondas/Vagas – caracteriza o tempo em que o bebé é visível, e a mãe tem uma vontade compulsiva e involuntária de fazer força. Por vezes ela vai sentir o útero a empurrar suavemente durante as Ondas de Parto. Ela não empurra em conjunto com o útero… não é necessário. Na realidade, encorajar ou conseguir que uma mãe faça força neste tempo, antes da cabeça estar no períneo, pode causar danos desnecessários no tecido vaginal, rebentar vasos capilares ou desorientar a mãe que sabe instintivamente que o seu bebé sairá com privacidade, tempo e capacidade de encontrar a posição correcta. Durante as Ondas e Vagas ela vai usar o seu esforço em conjunto com o útero para parir o bebé. Tenho sido ensinada por mulheres que não é necessário dizer a uma mãe quando começar a fazer força ou guiá-la, ou gerir uma mãe que faz a força. Isto anula os seus instintos e a não ser que haja algo de incrivelmente errado, os seus instintos serão sempre o seu melhor guia. Fazer força antes da cabeça ser visível… conhecido como guiar o período expulsivo… é uma façanha no mínimo uma duvidosa. Pode ser humilhante colocar uma mulher deitada de costas, levantar-lhe as pernas até às orelhas, e incitá-la a empurrar o seu bebé para fora. É instintivamente incorrecto, autoritário e geralmente, segundo a minha experiência, desnecessário.
(Algumas variáveis, tais como mães com os bebés em posição posterior, muitas vezes precisam de assistência para aliviar a dor e técnicas para “fazer força”… mais sobre este assunto à frente)

 

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EMERGINDO
(NASCIMENTO)

No momento em que o bebé está a coroar, a parte mais larga da cabeça já passou pelo canal de parto e chegou à entrada vaginal. A Mãe está muitas vezes em êxtase e cheia de energia. Ela pode gritar como que anunciando que está de volta. Ocorre uma descarga de adrenalina e a mãe eleva-se ligeiramente da sua posição de joelhos e arqueia as costas. Isto foi chamado, por Michael Odent, de reflexo de expulsão fetal e esta elevação permite à mãe facilitar o coroamento e a passagem do bebé pela última parte do canal de parto. Esta descarga de adrenalina, que coexiste com o fluxo de oxitocina, é responsável pelo estado de alerta da mãe e do bebé durante este período. A Mãe pode sentir-se um pouco confusa, fora de si, enquanto é transportada de uma dimensão para outra, mas sabe sempre o que tem de fazer. Ela simplesmente dá à luz o bebé. Enquanto se ajoelha para parir, o seu parceiro pode estar de frente para ela, pronto a receber o seu filho. Talvez mais um par de mãos, da parteira ou outro profissional de saúde, estejam prontas para dar apoio, ou quem sabe, talvez não. Não é normalmente necessário dar assistência. A Mãe não está fora de controlo, o parto não é caótico, não há histeria ou confusão. Parir acontece, e a mulher faz o que é natural.
É um facto absoluto que a mulher não precisa de ninguém em particular para apanhar o bebé. Ela pode querer mais um par de mãos por perto ou pode querer que alguém apanhe o seu bebé, mas as mulheres não PRECISAM propriamente de ninguém para apanhar os seus bebés. O mito de que alguém tem de verificar o cordão ou puxar a cabeça para libertar o bebé é pura e simplesmente mentira. Os cordões tendem a resolver-se por si mesmos… aliás um terço dos bebés que vi nascer tinham o cordão à volta do pescoço e geralmente não era preciso fazer nada. Puxar a cabeça ou ajudar o bebé também não é normalmente necessário e pode, na realidade, causar problemas ou atrasos.

(CONTINUA…)

Foi um enorme prazer traduzir este texto e ele foi apresentado em quatro partes para facilitar a leitura, podes ler aqui a Primeira Fase, Terceira Fase, Quarta Fase.

Carinho nosso.


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.