Entrevista com Lurdes Rodeia Entrevista

Sou a Lurdes, uma mulher que ama, tem três filhas, e está casada há 33 anos. Que ao longo da vida tenta se descobrir a si mesma. Ao longo desta minha descoberta percebi a importância da forma como se nasce. Aquilo que eu trago em tudo o que faço, seja numa conversa de café, numa conversa com as minhas filhas, com os meus amigos, enfim, em tudo, é a tomada de consciência cada vez maior, da importância destes momentos.

Vamos conhecer esta mulher cheia de ALMA e a sua paixão pelo parto respeitado (e também pelo parto na água)!

Qual a importância da água em cada uma das fases do trabalho de parto?

As orientações têm divergido um pouco nos últimos anos. Há uns tempos atrás Michel Odent considerava que era importante a imersão na água acontecer na fase ativa do trabalho de parto. Hoje em dia sabendo como o relaxamento é importante na primeira e na segunda fases de TP, considera-se também importante mesmo antes da fase ativa, na fase latente. Se a mãe assim o entender, e se sentir que a vai relaxar, usa-se a água mesmo na fase latente. O relaxamento é uma condição que vai aumentar a ocitocina. Daí que, nos últimos tempos, se considere o seu uso na fase latente do Trabalho de Parto.

Uma das coisas que me recordo da minha gravidez é o bem-estar que a água e o banho de imersão me provocava. Acho que nunca me soube tão bem tomar banho!

É mesmo isso. Quando a mulher engravida (a gravidez é uma situação muito física) é que consegue perceber o que é bom para ela, o que lhe dá mais satisfação e prazer, o que ela precisa. Há mulheres que numa gravidez querem uma coisa e na outra uma coisa totalmente diferente. Há umas que numa gravidez querem água e na outra não. É muito interesante, por isso, perceber que a própria gravidez em si vai mostrar o que é mais importante para a mulher.

Isto também tem que ver com o próprio bebé e as suas necessidades, não concorda?

Exatamente. É um interveniente muitas vezes esquecido e nem sempre considerado com o devido respeito. Até há pouco tempo havia muito desconhecimento em relação à importância do bebé e à consciência que o bebé tem, muito precocemente, e o impacto que tem o ambiente à volta da gravidez, do nascimento e mesmo depois, da amamentação… Estes momentos têm um impacto tão grande na vida desta criança e na construção da sua personalidade! Até há bem pouco tempo este facto não era muito claro. Hoje em dia várias pesquisas já o mostram e, realmente, tem-se mesmo que considerar o que a criança quer. A ligação dela com a mãe e a sua comunicação mesmo a nível hormonal é muito importante; os dois estão muito unidos não só fisicamente mas, também, emocionalmente. E a criança é um indivíduo, não é? Portanto, deve ser sempre considerado, sem dúvida alguma!
Voltando à questão inicial, enquanto que até há pouco tempo atrás se considerava que a imersão na água deveria acontecer na fase ativa, agora a fase latente e a vontade da mulher são também consideradas. Sempre que a mulher o entender, sempre que for bom para se sentir mais relaxada, se a ajudar a central o foco em si própria, pode ser usada água mais cedo.

A água como meio de nascimento/ transição adequado ao nascimento. Comente.

Já existe muita informação acerca deste assunto. Muitos depoimentos de milhares e milhares de mulheres que referem que esse meio  facilita, em muitos aspetos: é mais fácil para a mulher se movimentar, para mudar de posição, e a transição para o bebé é mais suave no seu nascimento. Isto porque ele sai de um meio aquático para outro meio semelhante, e todo o impacto da mudança de temperatura, das luzes muito fortes, daquela sensação de desproteção que ele até pode sentir por ter tido uma saída muito brusca e, às vezes, um pouco rude, é suavizado. E a água continua esse aconchego, e a criança sai do útero materno – que é um local seguro para ela – para um meio de transição que depois se completa com o colo da mãe, com o contacto pele com pele. Portanto, acaba por ser uma transição mais suave, sem dúvida, tal como é referido, em muitos estudos, pela maioria das mulheres. Se for confortável para os intervenientes, traz bastante conforto, sem dúvida!

Como profissional, o que pensa deste tipo de iniciativa (projecto Mães d’Água – pelo parto na água em Portugal)?

Eu acho que, como profissional, sempre disse que as mudanças a nível social e a nível do atendimento no parto precisam de ser feitas pelas protagonistas deste trabalho, que são as famílias e as mulheres. Portanto, estas iniciativas dos cidadãos, que são iniciativas em que as pessoas estão conscientes, estão informadas, têm experiência, abraçam uma causa que é legal, abraçam uma causa que, cientificamente, está provada como uma opção muito válida e deve ser respeitada, deve ser tida em conta. É muito importante, sem dúvida alguma! E deve ser apoiada por todos os profissionais. É importante esta sensação de que trabalhamos todos para o mesmo.

Isso recorda-nos a nós, profissionais, da importância da decisão das pessoas e o respeito pela decisão das pessoas (desde que ela seja uma decisão informada). Então, é tão fundamental as pessoas estarem conscientes como cidadãs ou como cidadãos, como é importante os profissionais de saúde estarem informados e zelarem com atitudes e práticas e competências baseadas em evidências científicas. É de apoiar obviamente estas iniciativas, até porque são elas que podem fazer a diferença junto de quem faz a legislação e junto de quem tem poder a nível das Instituições. Faz todo o sentido e têm todo o meu apoio, desde que estejam baseadas em evidências científicas – como é o caso – e em práticas que são recomendadas do ponto de vista internacional!

Qual o papel da parte emocional da mãe neste tipo de parto?

É uma das questões que deve ser considerada, cada vez mais. E que iniciativas e organizações como estas associações trazem ao lume é, sem dúvida, uma dimensão mais global da experiência de ser mãe e de ser pai. Não é só a mãe que está a parir, embora seja a mãe a protagonista, mas toda a família deve apoiar, e todos os profissionais de saúde. Cada vez mais se deve considerar que o parto não tem só uma dimensão física. A dimensão da experiência da maternidade, que está muito presente no parto, é muito mais do que isso! Ela tem uma dimensão emocional muito grande e é uma experiência muito transformadora para a mãe. A mãe, em termos inclusive siderais, ela não volta a ser a mesma. Há partes do cérebro que mudam e que se transformam com a gravidez e com a maternidade e que não voltam atrás. Não é mesmo uma experiência só física!

E, como há pouco estávamos a falar, Cátia, da sua experiência que não imaginava que o banho fosse uma coisa tão importante para si na gravidez, cada gravidez traz muita fragilidade emocional também, porque é um processo de mudanças profundas: mudança de estatuto, mudança de papéis… se socialmente há coisas que se tornam diferentes, emocionalmente também. E, sobretudo, a mulher vivencia muitas vezes – ou traz para a sua experiência de maternidade – a sua própria gravidez ou situações que se passaram na sua própria gravidez.

Hoje em dia sabe-se que, o impacto que se tem com a vivência da gravidez numa criança, no bebé e no útero e, depois, no momento do nascimento, é muito grande e muito profunda. Ela deixa memórias mesmo a nível celular. Há algumas técnicas como o rebirthing do nascimento, hipnoterapia e outras, que fazem muitos processos regressivos e passam muito essa consciência e essa noção de que o que é vivido no parto é memorizado pelas células do corpo; por todo o corpo. Na última corporização do bebé há uma aprendizagem através do corpo da mãe, das emoções para o bebé. Sabemos que se a mãe tiver emoções mais agradáveis – de bem-estar, de prazer – a nível sanguíneo essas substâncias são diferentes do que se a mãe experienciar sensações mais desagradáveis – medo, angústia, receio, rejeição, sensações de abandono…

A mãe traz para a sua experiência de parto, muitas vezes, a sua própria experiência. Portanto os seus medos e bloqueios são levados para o seu próprio parto. A parte emocional, para que a mulher num parto se possa entregar mais profundamente e vivenciar essa experiência de um modo mais completo, tem que ser sempre considerado. Porque ela é um peso muito importante! O reconhecer da importância; o reconhecer da importância e do respeito por si própria; a comunicação com o bebé… vai ajudar muito a mãe no trabalho de parto. Porque, na realidade, os dois estão a ajudar-se mutuamente a nascer e a renascer: a mãe está a renascer e o bebé a nascer. E esta ajuda, para que a mãe se sinta segura e se sinta confiante com o seu corpo – o seu corpo é capaz! – e sinta confiança de que se pode entregar ao processo e que este processo pressupõe um estado alterado de consciência. 

Na primeira fase, a mãe tem as contrações, mas ainda anda com uma consciência muito atenta àquilo que a rodeia. Chegando a determinada altura, geralmente nos 5 cm de dilatação – início da fase ativa num parto natural – a mãe começa a sentir a necessidade de entrar, aprofundar e de mergulhar para dentro de si; de ficar de olhos fechados; de se entregar ao processo. E como ela consegue fazer isso? É necessário ela sentir-se segura, sentir-se confiante e que as pessoas à sua volta estão lá para a apoiar. Esta dimensão emocional é extremamente importante. E é muito importante que ela seja respeitada, para que as mães possam perceber que aquilo que muitas parteiras reconhecidas internacionalmente – como a Barbara Harper – reconhecem como rituais de passagem. Podem ser um pouco duras para a Mulher mas, se ela sentir que está a ser apoiada, ela vai-se entregar ao processo e isso é muito bonito de se ver e é esse trabalho de confiança que vai passar ao bebé. Este trabalho conjunto da mãe e do bebé deve ser apoiado. Por isso a parte emocional é muito importante! E o trabalho que se faz antes, para que o trabalho de parto possa ser vivido com mais entrega e com mais confiança, também é muito importante. Porque, muitas vezes, há coisas que ficam e que a mulher percebe que acontecem durante a gravidez – como coisas que ela precisa de perdoar à mãe; situações em que se precisa reconciliar com o pai; às vezes questões que têm que ver com o próprio companheiro ou com o marido – são coisas que precisam ser olhadas. Por vezes é preciso um trabalho emocional anterior, um trabalho de reconciliação, um trabalho de perdão, de tomada de consciência daquilo que se está a passar com ela.

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(na imagem Vidya Moreira e bebe Daniel)

A Lurdes trabalha esse lado emocional com o casal, antes do parto?

Sempre referi isso, mesmo com os meus alunos. Sempre que alguém me pede ajuda é dessa forma que eu o vou fazer. Porque considero que a mãe deve estar o mais centrada possível nela própria e com muita confiança. Por vezes há coisas que não se resolvem, porque não surgem, e percebe-se que houve ali qualquer coisa a que não se conseguiu aceder naquele parto ou naquela gravidez. A mulher precisa confiar e quem a apoia precisa de sentir confiança. Este é um processo tão transformador e sagrado e tão bonito! O nascimento é sempre algo muito sagrado e especial! E cada vez mais precisamos de encarar isso. Como diz o Michel Odent, precisamos respeitar a forma como se nasce, porque precisamos muito de respeito.

Há muitos casos de partos que começam na água e que acabam por sofrer intervenção?

Da pesquisa que tenho feito não é muito frequente. Às vezes pode ser necessário sair da água. Quando a mãe sente necessidade, ou quando o trabalho de parto pode, por qualquer razão, parar ou estar mais ou menos parado. Por a dilatação ter abrandado, ou até em qualquer circunstância que se sinta que a mãe está a perder alguma energia, ou nalgumas circunstâncias em que, por qualquer razão, se precisa cortar o cordão. Nessa circunstância não é de todo recomendável que se faça dentro da água, portanto temos sempre que retirar a mãe da água para que se possa intervir. Mas, numa maneira geral, são poucas as situações em que é necessário a mãe sair da banheira.

Por vezes até é mesmo para mudar um pouco a energia, quando se sente que a energia está um pouco estagnada. Por vezes é a mãe que tem necessidade de sair para urinar ou defecar. Mas, em termos de intervenção, da minha experiência e do que pesquisei, não é necessário a saída.

Como é feita a monitorização dos bebés nos partos na água?

Nos partos na água, a monitorização é feita como em qualquer parto de menor risco fora da água. Tem que ver com as recomendações internacionais. Portanto aquilo que se usa em vez de ser um doppler normal é um com uma sonda aquática. A monitorização faz-se. Num parto de baixo risco, não é recomendável a monitorização contínua. Não é necessária. Na água também. A monitorização faz-se exactamente como se faria num parto “a seco”, só que utilizando uma sonda aquática.

Nos partos domiciliares é fácil ter comunicação com o hospital em caso de necessidade de transferir a parturiente?
Tem que haver alguma comunicação prévia?

Daquilo que me é dado a entender com conversas com outras pessoas da área e que trabalham em partos nos domicílios, não é muito fácil. Até porque, hoje em dia, ainda há – apesar do parto em casa ser uma situação legal em Portugal – na maioria dos casos, alguns “anticorpos”, algumas resistências em relação a isso. Há alguma dificuldade de aceitação, não sei porquê, e alguma resistência por parte das pessoas a nível institucional e a nível hospitalar, em aceitarem de forma natural, alguma situação que precise ser encaminhada para um hospital.

Muitas mulheres referem atitudes de menor respeito quando, por qualquer razão, elas precisam ou querem ir para o hospital. Porque nem sempre se faz uma transferência da parturiente de casa para o hospital porque é uma situação de risco. Por vezes são situações de paragem de trabalho de parto ou da própria mãe que, a dada altura, deseja ir para o hospital.

E isso acontecerá porquê?
Os profissionais de saúde não estão preparados para agir nestas situações?
Haverá medo da parte deles em deixar ser a Mulher quem conduz o parto?

Pode ter que ver com isso. Pode ser difícil para os profissionais de saúde aceitarem uma decisão da mulher. Os profissionais de saúde, em qualquer circunstância de acção, consideram, com toda a certeza, que estão a fazer o melhor. E nós, técnicos de saúde, somos preparados para salvar vidas a todo o custo, de alguma forma. Muitas vezes sentimos isto como uma missão. E estamos muito preparados para isto e para responder com sucesso face ao que quer que seja. E temos alguma dificuldade em aceitar, algumas vezes, as opiniões das pessoas. Porque elas fogem àquilo que nós estamos habituados. Isto não é que seja ilegal, não é uma coisa do século passado – como já têm referido – não é! O nascimento de forma natural tem a ver com a raça humana, em qualquer circunstância, com mais ou menos civilização, ela é feita da mesma forma e deve ser encarada como tal. Contudo, com toda a tecnologia e todo o avanço da ciência que está ao dispor e que deve ser considerado. Mas, também deve ser respeitada a opinião das pessoas que, informadamente, decidam ter um parto natural. E, quando decidem ter um parto natural, as pessoas decidem que os outros estão ali para apoiar. E é muito importante que nós consideremos que apoio é este que devemos dar nestas circunstâncias. Eu penso que, melhor do que ninguém, as parteiras estão preparadas para o fazer em partos de baixo risco. E penso que, ainda assim, a dificuldade surge, por vezes, quando precisamos e devemos respeitar as opiniões das mulheres. Devemos encarar isso com muito respeito!

Hoje em dia não é qualquer mulher que decide fazer um parto natural, porque nem todas estão preparadas para o fazer. E, independentemente da pessoa que decide fazer um parto natural e depois escolhe uma epidural ou o que quer que seja, o nosso papel enquanto assistentes é apoiar a mulher de forma a que ela possa fazer todo esse processo, da forma como ela gostaria de fazer – com segurança e confiança. Aquilo que nós temos muito a nível celular são as memórias do “pedido do parto”, sobretudo nas últimas gerações. É importante perceber que o parto tem algum risco, sem dúvida alguma, mas, a maioria dos partos não necessita de intervenções. Se a mulher estiver preparada para o fazer, emponderada, cerca de 90% não necessitam de assistência. Nos dia que correm considera-se que a dor deve ser retirada à mulher, pois não se entende o papel da mesma no trabalho de parto. Há muita dificuldade por parte dos profissionais de saúde em lidar com a dor e com algum sofrimento característicos desse momento. Para conseguir apoiar uma mulher que está com algum sofrimento, a fazer a sua transformação – há uma transformação profunda de corpo, de emoção e de espírito, porque é um trabalho espiritual, o parto tem uma dimensão espiritual – nós temos de estar com muito amor a atender e a assistir a este processo de transformação, tão sagrado para todos os intervenientes. E nem sempre isso e muito fácil. Os técnicos de saúde têm alguma dificuldade em lidar com a dor, queremos rapidamente terminar com o sofrimento. Quando se assiste a um parto é preciso estar muito presente, acolhendo de forma amorosa o que está a acontecer e, obviamente, se for necessário intervir, tem de se avançar. Pode acontecer a mulher ter uma ideia e um plano inicial e alterar a meio do processo. O respeito tem de se manter e que as suas decisões sejam respeitadas.

O respeito para mim e uma palavra chave num parto, seja cesariana, com uso de fórceps, ou natural. É muito importante o respeito estar presente na ação, na palavra, na atitude. Se um bebé nasce de cesariana ou ventosa, a forma como vão pegar nele é muito importante. Ser pegado com carinho, respeitado, e tratado com toda a competência por parte do técnico de saúde. Sabe- se que hoje em dia o DNA tem muito pouco peso no que a pessoa se vai tornar. O fundamental na construção do indivíduo, mesmo antes do momento da concepção, é o ambiente onde a criança é gerada, nasce e onde vive nos primeiros anos. O próprio ambiente modifica os genes. Assim, é importante o apoio durante a gravidez, durante o parto e o pós parto, tal como na amamentação, no cansaço, tristeza, sensação de vazio que muitas mulheres sentem. O melhor apoio que se pode dar a uma mãe para que ela esteja bem, para que o bebé possa estar bem não é dizer à mãe “eu agora fico com o bebé e tu vai ao café, vai sair” (até pode ser importante ir ao café) mas, apoiar a mãe para que ela possa ir ao café com o seu filho é o ideal. Nos primeiros tempos é de extrema importância a fusão emocional entre a mãe e o bebé. O pai aqui também é muito importante. O pai deve agir como pai e não como filho (por vezes os pais tendem a tornarem-se filhos, quando os seus filhos nascem). Devem ser pais de uma forma muito madura para ajudarem a mãe a dar todo o apoio ao bebé. O nosso papel aqui é ter consciência da importância do bem estar da família porque estamos a ajudar a construir uma família e a desenvolver no indivíduo valores que a sociedade tanto precisa (o respeito, o amor, a assertividade, empoderamento). Estamos a construir as gerações futuras. O nosso papel enquanto profissionais de saúde que apoiam as famílias na gravidez, e sobretudo no parto, é extremamente importante. Fazemos muito mais do que aquilo que e visível. São aspetos que transcendem o momento.

Que mitos urbanos sente que existem sobre o parto na água?

O mais comum é o medo de afogamento. A ideia de que se o bebé não for retirado muito rapidamente ele afoga-se ou aspira água. Sabemos que isso não é verdade. O reflexo de respirar do bebé não funciona dentro de água..

Quem é a Lurdes? O que a apaixona?

(risos) Essa para mim é a questão mais difícil. Porque a resposta que eu quero dar é muito importante.

Eu sou uma mulher que há 56 anos nasceu em casa, num parto rápido e fácil, com a parteira Emilia, algumas amigas da minha mãe, e também o meu pai (este estava noutra sala). Cresci num ambiente rural e vivendo muito no campo, rodeada de mulheres que sabiam como cuidar e que o faziam de forma natural. A maternidade para mim foi um ponto de viragem grande e trouxe-me muitas alegrias e desafios. Hoje sou o resultado de muita procura sobre exactamente quem sou, e nessa descoberta com recurso a muitas terapias, nomeadamente, a terapia de renascimento. Aqui encontrei algumas respostas para entender também mais profundamente o meu trabalho e respeitar cada vez mais o processo de nascer do bebé e do renascer dos pais. Reconheço hoje que acompanhar as famílias grávidas é ajuda-las a ir às suas histórias, e dar-lhes a possibilidade de curarem as suas próprias feridas de gravidez e parto.

A vivência não só da gravidez e do parto mas para além disso, da importância de ser mãe e pai hoje em dia – algo que se tem esquecido e que e tão importante resgatar. É fundamental perceber-se que ser mãe e ser pai é muito mais do que ter um filho, é perceber o impacto que tem cada mãe e cada pai no seu filho. Há uma coisa que eu cada vez mais tento fazer que é estar muito presente nas situações e nos lugares. Tento ajudar a uma tomada de consciência cada vez maior, quer como voluntária, quer como terapeuta, quer como professora, mãe, amiga, esposa. É importante ter consciência de que aquilo que nós somos tem muito que ver com as nossas primeiras vivências. Eu sou uma mulher que tento ajudar as pessoas a terem cada vez mais consciência daquilo que são, sobretudo como pais, e na consciência da gravidez e do parto. Foi até aqui que a vida me levou. Sinto que vou para onde a vida me leva mas sabendo para onde vou! E o meu caminho é mesmo esse: ajudar as pessoas a sentirem que são valiosas naquilo que fazem e naquilo que são. Então, tento cada vez mais ser uma pessoa melhor e ajudar os outros a serem melhores, também.

Qual é que é o seu percurso profissional?

O meu percurso profissional é muito simples: fui para enfermagem sem saber exatamente se era isso que eu queria ser. Depois, acabei por gostar muito do curso e comecei a trabalhar em várias áreas e fui leccionar para a escola. Lá tive a oportunidade de fazer uma especialização. Inicialmente, queria a pediatria e no ano em que era a minha vez de ir fazer a especialidade, a pediatria fechou e a mais próxima era a da obstetrícia. Eu não queria ir para nenhuma. E o meu marido disse-me, como muitas vezes acontece na vida, ele disse-me ali duas palavrinhas muito oportunas: “Oh, Lurdes, experimenta, porque também tens ali muito de bebés naquela especialidade”.

E eu acabei por tirar a especialidade em obstetrícia e, para mim, foi um encanto. Foi uma boa opção e comecei logo a gostar muito. Foi uma paixão! Este trabalho tão bonito da parteira, da oportunidade que temos de estar presentes em momentos tão especiais na vida de todos os intervenientes.

Na escola, como professora, senti-me muito realizada! Na escola há uma coisa que é muito importante e que é a missão das escolas, seja qual ela for: estar sempre à frente da prática no sentido de responsabilidade, de mostrar aquilo que é novo, aquilo que é cientificamente correto e aquilo que está cientificamente provado da prática e da importância da prática baseada em evidências científicas.

Então, como profissional, o meu papel tem sido sempre – no ensino e fora do ensino – levar esta atualização da informação. E penso que isso deve ser o papel das escolas; todas elas. E o meu interesse pela importância do parto natural aconteceu na escola. Na minha formação esta questão não esteve muito presente, então eu fui aprendendo.


 Como Mulher e como Profissional de saúde o que é que sente quando assiste a um parto na água?

Como mulher, acho que é uma oportunidade de apoiar aquela mulher e a família num momento tão importante e tão sagrado. Em primeiro lugar para aquela família, naquele contexto. Como mulher é isso! É sentir uma bênção muito grande por poder estar presente num momento tão especial, sobretudo muito abençoado. Sinto que um parto na água é um parto muito abençoado.
Como profissional por poder apoiar uma decisão que normalmente é consciente, uma decisão informada e uma decisão que tem implicações muito profundas.
Hoje em dia está preconizado que se deve apoiar, respeitando os momentos, os tempos, a família e respeitando a segurança. Para mim o sentir-me abençoada é não
 só como mulher mas também como profissional – na competência técnica e no respeito pela decisão legal e pela segurança.

Como mulher optaria por um parto na água?

Optaria sim. Na altura não sei o que é que iria acontecer.
É importante as pessoas terem a noção de que pode mudar.
Mas, a minha afinidade com água é muito grande. Então optaria sim!
Como lhe disse, eu tenho três filhas: a primeira nasceu com fórceps, a segunda com uma indução e a terceira foi uma cesariana. Todas estas três formas de ser mãe tiveram um impacto em mim e, sabendo aquilo que sei hoje, com certeza que escolheria um parto na água. Com segurança, com pessoas competentes, com uma assistência que respeitasse as minhas decisões, caso tivesse que ser transferida para um hospital, mas sem dúvida o parto na água, sim!

Já me referiu que dá aulas na escola de enfermagem.
O tema parto na água é abordado em alguma unidade curricular?

Neste momento, o parto na água bem como o parto respeitado e a fisiologia do parto é dada com pormenor. Há uma área submaterna e o parto na água é falado sim. É falado, é falado no parto natural, no parto normal, no parto intervencionado, na importância de se respeitar a fisiologia do parto e as decisões das mulheres independentemente do contexto. Todos nós devemos, enquanto sociedade, respeitar as decisões das pessoas. É nosso dever, enquanto sociedade, responder aos direitos do cidadão. Portanto, se essa decisão for um parto na água, ela deve ser respeitada e deve ser acolhida.
Todas as decisões do parto são abordadas, tal como os benefícios, as condições que são necessárias ter. Tudo isso é referido! O parto na água é legal e é praticado pelo Mundo fora em muitas clínicas, e em casa. Há muitos estudos científicos; há investigação sobre o parto na água; há muita evidência científica. E tudo o que é evidência científica é passado na escola.

E chegamos ao fim da entrevista. Quer acrescentar mais alguma coisa?

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Quero agradecer a oportunidade que me deram de poder falar daquilo que me apaixona.
Sou uma apaixonada por esta temática do parto respeitado.
Agora vou estar no Algarve, a vosso pedido no vosso Primeiro Encontro Sobre Parto na Água. É uma honra para mim estar ali e falar, mais uma vez, para quem lá estiver a ouvir. Honra de partilhar experiências, de falar da minha experiência não só como parteira, mas também como terapeuta. Estudo muito e tenho aprofundado muitas questões acerca do impacto dos primeiros tempos da vida de uma pessoa, e o meu trabalho com o “renascimento” também me trouxe essa clareza e consciência. Isto levou-me a ler alguns
autores como o Bruce Lipton, que fala da questão do DNA e do ambiente e da importância do ambiente no desenvolvimento das células, e no impacto que isso tem no recém-nascido, mais do que o próprio DNA. Estas são questões que nos permitem compreender a profundidade que precisa ser trazida à consciência de todos nós – de quem assiste e de quem passa por isso – do que é o nascimento. O nascimento da mãe, o nascimento do bebé…

Então vai ser um prazer estar nesse evento do Algarve e estar com pessoas, não só da área da enfermagem, mas também da área da obstetrícia médica. A presença das doulas… Vai ser um ambiente bastante agradável e de muita partilha e complementaridade. É importante percebermos que as doulas por exemplo, têm um papel muito importante – apesar de, às vezes, haver “anticorpos” em relação às doulas. Elas não substituem a parteira, mas complementam o trabalho de assistência à família. Então, ter doulas, parteiras, obstetras juntas, é muito interessante! E é muito útil para a população perceber que estas coisas são assim. E são importantes! E acordar e olhar para as coisas com outro olhar. O parto na água não é nenhuma desgraça, muito pelo contrário! Ele deve ser fomentado para quem assim o deseje e deve estar à disposição de quem quer que seja que o escolha..

Hoje em dia não há nada que diga que o parto na água não deve ser utilizado. (Salvo obviamente as excepções que estão documentadas.) E deve ser uma coisa que deve estar à disposição, por causa dos seus benefícios, para quem quiser.

Vai ser muito bom estarmos todos juntos outra vez e encher aquela sala de ocitocina!

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(imagem de Chanel Baran)

E foi assim uma linda jornada. Uma mulher com muita sabedoria e amor nas suas palavras e naquilo que faz.
Muito grata por ter a oportunidade de a conhecer assim.


Cátia é mãe, mãe d´água de coração! Adora o conhecimento acerca do funcionamento do corpo humano, desenhar e brincar com a sua princesa. A Cátia é AO, terapeuta de Shiatsu e de Chi Kung, Naturopata e amante das medicinas complementares. Ela defende que devemos aprender a conhecer o nosso corpo e viver em harmonia com ele e com a natureza.