Entrevista com Bárbara Rocha Entrevista

Antes de mais, diz-nos: Quem é a Bárbara?

Sou uma mulher que sempre quis ser mãe desde muito cedo. Sempre fui e sou uma profissional muito dedicada. Com a maternidade o “tilt” aconteceu no sentido em que a vida deixa de ter as mesmas prioridades e passa a ter outras. Passa a existir um conflito muito grande entre a mulher independente e proactiva e a mulher que se quer dedicar ao bebé.

Como “tropeçaste” no parto na água?

Em trabalho conheci a Mariana Falcato Simões, que já tinha parido na Água (foi a minha madrinha d’agua, e esta foto foi ela que tirou). Ela estava grávida pela segunda vez e partilhou a experiência dela sobre o parto na água e nesse momento fez-se-me uma luz (risos)! Nesse fim de semana eu fazia exactamente 35 anos, e quando cheguei a casa disse ao meu companheiro, “é agora que vamos engravidar!”

Até então eu tinha algum receio na forma como poderia parir. Sempre pensei que teria de ser num meio hospitalar por ter medo do “desconhecido”. Ainda para mais aos 25 anos foi-me diagnosticada uma fibromialgia (doença crónica que provoca dores constantese intensas por todo o corpo) e confesso que preocupava-me o parto e o pós-parto…
Na gravidez o teu corpo passa por processos que não imaginas… é um mundo completamente desconhecido… é incrivel como um ser nasce, cresce aqui dentro, e de repente criam-se todas as mudanças químicas e físicas necessárias para que tudo aconteça… é um processo de mudança e quando tens uma condição física como a fibromialgia, eu perguntava-me como ia ser capaz…?
No entanto, com a partilha da experiência da Mariana, pesquisei mais sobre o parto na água e percebi que para mim era o tipo de parto ideal.
O mais irónico de tudo, foi que não tive uma única dor! Podia estar grávida a vida inteira! Sentia-me num perfeito estado de graça! (risos)

O facto de ter sido diagnosticada uma doença que te poderia limitar na qualidade gravidez/ parto e ao teres descoberto uma solução, fez-te repensar a forma como vemos a vida relativamente à “doença”? Como se costuma dizer “no problema está a solução”?

Sim. Interiormente sinto que até já o tinha feito de certa forma, e esta foi a prova de que a mutação é constante. Ha 14 anos atrás foi-me dito que não ia ser capaz de fazer muitas coisas, e hoje isso não me vale de nada. Porque entretanto eu sei mais, muito mais coisas, e uma delas é que é possivel parir sem dor, mesmo na minha condição. Com a fibromialgia eu já tinha iniciado esse processo, até pela profissão que tenho, e já tinha descoberto que é possível.
De todo, concordo, no problema está a solução!

Vindo de um meio profissional de certa forma distante – produção artística – do tipo de movimento de que fazes parte, achas que consegues criar oportunidades para contagiar as pessoas que te rodeiam, sobre temas como este do parto humanizado?

Sim, muitas! Porque o meio pode parecer distante, mas não é assim tanto… O mundo artístico cria nas pessoas que trabalham nele uma sensibilidade e abertura que se calhar outras pessoas noutros meios não têm. As sensações, as emoções com que trabalhamos, o cuidado com os outros… tenho muitas oportunidades no meu dia-a-dia, para os “contagiar” com o mundo que é o parto na água, e acho que não passa um único dia sequer que eu não fale sobre as Mães d’Água, e isso é maravilhoso.

Consideras que a tua área profissional é também uma grande ferramenta para o movimento certo?

Sim, sem dúvida!
Acontece que neste momento presente, na fase em que me encontro profissionalmente, não estou a conseguir dedicar-me como gostaria a área de produção das Mães de Água… O trabalho em produção artística implica uma logística de uma dimensão enorme, com muitos detalhes, e depende de todos esses factores (e outros mais) para ser bem sucedido.

De certeza que há mais mulheres na tua situação, acreditando que o factor “doença” pode impedir uma gravidez/ parto prazeroso, que mensagem gostava de lhes dar com a tua experiência?

Eu gostava que as mulheres se conhecessem (e acho que estamos nesse caminho) melhor a elas próprias, e conhecessem melhor os seus processos – a gravidez é só uma das melhores alturas em que isso pode acontecer… Para poder também ter uma gravidez mais feliz, para matar os receios, as dúvidas, a ignorância! Quando tu sabes o que estás a sentir e percebes o processo pelo qual estás a passar, é muito mais fácil fazer esse caminho e ultrapassá-lo… e é muito engraçado chegares ao ponto de perceber que a tua “cria” está a dar-te as soluções, dentro de ti!

Sentiste alguma mudança em ti desde que pariste na água? Como mulher, como Ser, como profissional, como companheira, como amiga, como filha? Como, de que forma, onde?

Completamente!
Não só em mim, como nos outros, e em especial no meu companheiro. Sinto uma grande admiração e respeito dele para comigo. O parto na água foi muito gratificante e estabeleceu um elo de ligação muito forte entre nós. O que esta experiência nos fez enquanto casal, e a admiração que ele tem para comigo pelo que viveu e assitiu, provocou uma mudança muito grande nas nossas vidas. Veres um Ser a nascer de dentro de ti, abrir os olhos para nós, a respirar pela primeira vez, e termos os dois pais essa mesma imagem gravada na nossa memória, torna-se num momento de revelação da vida, que a altera totalmente!
O facto de o momento do parto ser calmo, tranquilo, sem pressões, respeitando o teu ritmo… É assencial. Claro que há dor, mas nem me lembro dela, e sei que dois minutos depois da minha filha sair, disse “estou pronta para outra!”

Quando tens um parto assim, é-te oferecida uma outra consciência deste momento de revelação da vida… estás a sentir e a ter tempo para assimilar o que acontece.

Quando é uma situação dramática, de gritos, de ofensa, de procedimentos, não tens tempo para isto, e pode traumatizar…

O que para ti significa o contacto com a água e o elemento água ?

É muito emotivo. Eu tenho uma ligação muito forte com o mar, tenho origens algarvias, e o mar é o elemento que me acalma, é o único que me dá paz de espírito. A água é efectivamente onde eu me sinto melhor, mesmo fisicamente. De forma geral o teu corpo deixa de ter o peso que tem, e na minha condição tenho menos dores, e mexo-me melhor. O mar é onde me sinto Eu, muito mais Eu.

Depois de teres parido na água, e te juntares a este movimento cívico sentiste algumas consequências no teu meio social ou familiar?

Eu sempre fui muito diferente no meio dos meus amigos, e sempre tive reacções positivas a isso, da parte deles. Sempre foram preocupados, assim como alguns familiares, e todos eles estão habituadas a que a Bárbara tenha umas ideias “um bocadinho diferentes”. Sou a mais nova de cinco e a que dizem ter mais experiência de vida. (risos). Os familiares mais próximos ficaram mais descansados quando souberam que queria parir na água mas em regime hospitalar, pois isso dava a esta opção credibilidade.
O que sinto, enquanto Mãe d’Água, é que as pessoas me olham com respeito, creio que a minha escolha e experiência é motivo de respeito, se calhar por me sentir tão feliz!

Já antes tinhas feito parte de algum movimento “activista”?

Na escola fazia sempre parte de alguma lista, normalmente era a da “oposição”! (risos) Nunca fiz parte das listas populares que ganhavam!
Mais ou menos ao mesmo tempo que me envolvi com as Mães d’Água, fiz parte (e ainda faço, de alguma forma) de um movimento cívico para os refugiados da Síria. Participei em várias campanhas de angariação de fundos, assim como para a Grécia e Macedónia. É uma questão que também me diz muito e que poderia dizer a todos.

O que é para ti ser um agente de acção na sociedade ?

Eu não penso muito na “coisa” assim… eu acho até que o trabalho de voluntariado é uma questão de egoísmo… isto porque se eu não o fizer aí é que eu me sinto mal. Com a questão da Síria, por exemplo, eu sentia-me melhor, e consegui viver melhor com essa realidade, a partir do momento em que comecei a ajudar de alguma maneira. Ou seja, ser voluntário, ou agente activista, faz-me bem primeiro a mim. Mesmo a milhares de quilométros de distância, a partir do momento em que vi as primeiras imagens, e percebi o que se estava a passar do outro lado do mundo, eu não dormia, e não pensava noutra coisa… chegou até a mexer com a dinâmica familiar, e a partir do momento em que me decidi a tentar ajudar (mesmo que não resolvesse de todo a situação, mas a ajudar), comecei a viver muito melhor. No fundo é um acto egoísta, no bom sentido, por nos fazer sentir tão bem, por isso quem o faz continua a fazê-lo de forma tão presente. Se calhar não é tão altruísta como se costuma pensar…

O que te motivou para te juntares às Mães d’Água ?

A questão democrática. O meu sentido de democracia, ou seja, toda a gente tem de ter esta opção por direito. O parto na água tem de fazer parte da constituição de uma democracia. Essa opçao é viável, é maravilhosa, é segura, tem de ser uma opção, não há outra hipótese!

O que mais te apaixona nas mães d’ água?

A convicção que une estas mulheres!
Eu confesso que nunca tinha presenciado um movimento tão forte. E acho que isso está relacionado com este facto: uma mulher quando se torna mãe sente-se efetivamente uma super mulher. Porque o parto é uma experiência tão modificadora e forte, que te altera completamente a visão da vida. Porque de repente há um ser que é mais importante que tudo o resto. O que é prioritário deixa de o ser, uma mulher, se por si só já tem de ser capaz de fazer uma série de coisas no seu dia a dia, uma mulher mãe tem de fazer três vezes mais! E quando percebes que és capaz, é assustador! (risos). As Mães d’Água só têm mães assim – Guerreiras. E mesmo as que não pariram na água defendem a mesma visão, porque temos em comum esta convicção de que o que acreditamos tem de ser possível para toda a gente, e sabemos o que podemos fazer! Logo temos todas muita força. E é um movimento onde se sente uma espiritualidade muito boa, porque é um movimento que me faz sempre sorrir. As pessoas que fazem parte dele são muito especiais, existe aqui uma força muito boa.

Sentes que existem consequências para a tua filha, sendo ela uma “filha de água”?

Completamente! Começa por ser o primeiro momento em que nós (mães) sentimos um enorme respeito pelos filhos. Respeito, admiração, amor… foi naquele momento… Além disso ela sabe, do alto dos seus dois anos e meio, como nasceu… a maneira como ela fala, o brilho nos olhos com que ela diz que nasceu dentro de água… Entre nós – pais – o parto dela é falado com muito carinho e sensibilidade, logo de certeza que lhe vai ficar como uma boa memória, e isso só pode ser bom, para a vida futura dela.
Se ela vê um parto na água num vídeo, diz que é ela!

O que te choca mais na forma como se efectuam os partos ditos “comuns” hoje em dia?

Em relação a questões médicas não falo, porque não é uma questão que domine… Além disso, o que me choca mais é a forma como as mulheres se entregam ao desconhecido, não se informando… quando vivemos na “era do conhecimento” isso é desnecessário!  Se as mulheres fossem mais informadas nas relações que têm com os médicos, eles próprios agiriam de forma diferente. É dizer à sociedade que a informação existe, leiam e depois façam a vossa opção. Por nós mulheres, e pelos profissionais que lidam connosco.

Quais são para ti os maiores desafios para que o parto na água seja realmente aprovado em regime público hospitalar?

Neste momento é uma questão política. Vai-lhes dar algum trabalho…

Achas que as crenças que nos foram incutidas, já desde algumas gerações atrás, são as que mais nos limitam em desconstruir para construir de novo, quebrar padrões e alargar zonas de conforto? Onde achas que é essencial “partir pedra”, para mudar o paradigma do parto humanizado de uma vez por todas ?

Claro! E é nas mulheres, sem dúvida! Até porque em alguns profissionais isso já está a ser feito. É muito gratificante perceber, e só através do movimento é que se percebe isso, porque a informação não te chega muito facilmente, mas já existem profissionais interessados em querer fazer mais, à procura da informação, e estão todos no bom caminho. Depois faltam os políticos perceberem e interiorizarem essa vontade, mas acima de tudo – as mulheres quererem! As mulheres têm que se unir e juntar mais, mais Mães d’Água!

Sentes que o parto na água pode fazer uma mulher (re)conectar-se com ela própria, como Mulher Por Inteiro?

Completamente!

Para as futuras mulheres, pais que estejam interessados em parir na água, mas por motivos de “crenças” estejam ainda reticentes quanto a avançar mais neste tema, que sugestões queres dar para os encorajar?

O meu lema, ou a mensagem que eu gostava de passar, é o que eu digo a toda a gente: procurem informação! Saibam mais, queiram saber mais!
Eu conto a minha história para que as pessoas se sintam mais à vontade sobre o parto na água, ou até para desmistificar, porque claro que isto pode não ser para toda a gente… haverá pessoas para quem o parto na água pode não ser a a melhor opção (não que seja má, mas pode não servir), mas mais do que isso, é importante que exista esta outra opção no parto humanizado. O que é bom para mim, pode não ser bom para o outro da mesma forma… (Tal como o gelado de chocolate, eu gosto, mas tu podes não gostar! (Risos).

~ Foi um prazer enorme entrevistar a Bárbara, temos muita, muita sorte de a ter connosco!! ~


Mulher, Amiga, Filha, Companheira, Cozinheira. Acredita que o Universo está dentro de cada um de nós, e que resgatando os rituais dos nossos ancestrais, seremos mais Unos com a nossa Grande Mãe Terra. A Joana , faz por isso um bocadinho todos os dias.