Placenta Sagrada Inspirações / Mãe Terra

 

Um órgão que deixa de ser vital ao primeiro sopro de vida do bebé.
Um órgão que nutre o bebé durante toda a gravidez.
A placenta, por a podermos considerar como a raíz do bebé no terreno materno, é tratada em muitas culturas com um imenso respeito e dotada de significado espiritual.
O significado simbólico da placenta, e o ritual que a rodeia, varia de cultura para cultura.

Por exemplo no Sudão, a placenta é considerada o “segundo espírito” da criança e pode ser enterrado num local que represente as expectativas que os pais tem em relação ao filho.

Na Malásia a placenta é vista como o “irmão mais velho” do bebé e acreditam que ambos se reencontrarão após a morte. Para cuidar dela a parteira lava-a cuidadosamente e envolve-a num tecido branco para posteriormente ser enterrada.

As parteiras Masai, no Quénia, mastigam o cordão para separar bebé e placenta, anunciando depois que o bebé passa a ser responsável pela sua vida a partir daquele instante.

Na cultura Maori, na Nova Zelândia, a placenta é chamada de “whenua” que significa “terra”. Nesta cultura a placenta é tradicionalmente queimada na terra da tribo do bebé como símbolo deste tomar o seu lugar dentro da identidade colectiva da nação tribal.

No Uganda, os Baganda acreditam que a placenta é um “segundo filho” cujo espírito reside no cordão umbilical. A parte do cordão ligado ao bebe é cuidadosamente guardada para garantir a boa saúde da criança.
Também através da história encontramos indícios da relevância da placenta, como é o caso dos antigos egípcios que acreditavam na dualidade das almas. Uma alma habitava o corpo e outra a placenta. Existe mesmo um hieróglifo para a designar, que se parece com um corte transversal da placenta humana.

A placenta é tratada com reverência em muitas culturas. Na nossa cultura ocidental, muito possivelmente devido à forma clínica como passamos a encarar o parto, a placenta, na grande maioria das vezes, é considerada como um “resíduo hospitalar”, sem qualquer valor.

Mas mesmo na cultura ocidental temos excepções, como é o caso do Parto Lótus. Aqui, o cordão não é cortado, permanecendo a união entre placenta e bebé, até este mumificar e cair naturalmente. Neste tipo de parto o tempo sagrado do nascimento estende-se para os dias que o seguem, permitindo ao bebé, mãe, pai e família próxima fazer uma pausa e conectarem-se com os ritmos da natureza, dando ênfase ao Ser em vez de ao “fazer”. Este contacto que se prolonga entre o bebé e a placenta faz com que o bebé se vá libertando da sua ligação física ao corpo da mãe de forma lenta e suave.
Este tipo de parto surge em 1974, na Califórnia, quando Clair Lotus Day, grávida na altura, começou a questionar o corte rotineiro do cordão umbilical. Clair consegue achar um obstetra receptivo aos seus desejos, o que permitiu que o teu filho Trimurti tivesse saído do hospital ainda ligado com a sua placenta.

A placenta está também repleta de propriedades terapêuticas, há por isso mães que optam por a consumir no puerpério, quer crua, cozinhada, em batidos ou transformada em cápsulas. O seu consumo pode facilitar o aleitamento, diminuir a probabilidade da depressão pós-parto, permitir a cicatrizacão mais rápida e diminuir o risco de anemia.

Apesar de na grande maioria dos casos não se levantar questão quanto ao destino da placenta de um parto ocorrido em meio hospitalar, no nosso pais estão a surgir cada vez mais casais a pedirem para ficar com este órgão em sua posse. Após o pedido de esclarecimento sobre esta questão por parte de um profissional de saúde ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida surgiu um Parecer que recomenda que Portugal avance com uma legislação que regulamente quando deve ou não a placenta ser entregue. Este parecer lembra-nos que a Organização Mundial de Saúde determina que

“as instituições de saúde devem preservar o direito das mulheres a parir em instituições, de decidir sobre a sua roupa e o bebé, sobre a alimentação, o destino da placenta, e outras práticas culturalmente significantes”.

Eu quis honrar de forma simbólica a nossa placenta. Começámos por no parto fazer uma curiosa obra de arte, usando-a como carimbo e ficando com a sua marca em papel, guardado assim a marca da “árvore da vida” do nosso filho.

Mais tarde devolvemos a placenta à Terra, fechando um ciclo, deixando-a continuar a nutrir outras vidas. Plantámos uma árvore com ela, que seria a “sua” árvore. Infelizmente a árvore não vingou, foi arrancada, possivelmente pelos guardas do parque (curioso que tudo se pode fazer à Mãe Terra, plantar árvores não…) Resolvi então fazer um jardim, e naquele local plantei flores.
Aquele local passou a ser muito especial para mim, e sempre que quero Respirar, e renovar a minha energia caminho até lá. Qual foi a minha surpresa quando um dia cheguei ao pequeno jardim e um metro ao lado tinham plantado uma bonita Oliveira! Levantei os olhos, e toda a colina está plantada com muitas oliveirinhas.

A árvore que escolhemos inicialmente para ficar guardiã da placenta não prosperou, mas agora temos uma floresta de oliveiras nutrida por ela!

(imagem de Angela Gallo)

Fontes:

Anthro DoulaWe.News; Placenta Sagrada; LotusBirth; Mamã Inata; Mashable Asia; Sarah Buckley; ezinearticles.


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