Entrevista com Mikaela Övén Entrevista

Conhecemos hoje a Mikaela Övén, uma mulher que nos deixa a sonhar…
A sonhar que o mundo pode ser um pouco melhor, e que, parte de nós essa mudança.
Uma mulher de coração cheio.

Mikaela Övén, conhecida por Mia, nasceu na Suécia, está em Portugal desde 2001 e é mãe de três filhos (em um dos partos tornou-se também… mãe d’água).
É autora do livro “Educar com Mindfulnes“.
Fundou a “Academia de Parentalidade Consciente” é uma das pioneiras do trabalho com Mindfulness em Portugal.
A Mia dedica muito tempo ao estudo e a transformar teorias em práticas.

Começava por te pedir se poderias fazer uma explicação sucinta do que é a Mindfulness e a Parentalidade Consciente.

Para mim quando praticamos parentalidade consciente procuramos ser aquela pessoa que gostávamos que os nossos filhos fossem. E isso quer dizer que estamos constantemente a questionar as nossas próprias crenças, aquilo que nós fazemos, e se isso está alinhado com as nossas intenções. Eu diria que isso é a chave na parentalidade consciente, nós sabermos o que queremos e se o que estamos a fazer está alinhado com isso.

Eu acho que na parentalidade há muitas dicas, o que não faltam são dicas, só que poucas são as pessoas que realmente questionam aquilo que lhes é proposto, e quais são os efeitos daquilo que é proposto. Então, se eu tenho as minhas intenções bem claras, eu sei se o que estou a fazer está alinhado com isso ou não.

Quando as pessoas vêm ter comigo e perguntam: “estou a fazer bem nesta situação?”, a minha resposta é sempre a mesma, “eu não sei”. Como é que eu posso saber? Se não sei quais são as intenções, não posso dizer se acho alinhado ou não!
Então esse é o primeiro passo, definirmos as nossas intenções em relação à pessoa que eu quero ser, para então poder proporcionar um desenvolvimento do meu filho que acho adequado.

O processo Mindfulness entra nisto porque me permite fazer uma observação mais isenta, uma observação mais verdadeira, mais genuína. Uma observação não só a partir da cabeça, nós estamos todos muito na cabeça, mas a partir do coração.
Não sei se chega resumir assim, mas acho que é esse questionar constante, o auto-questionar. Questiono-me muito mais a mim do que ao meu filho.

Depois a outra parte, em relação ao meu filho, tem a ver com o estar sempre a perceber todo o tipo de comunicação que ele faz, não só a comunicação verbal (quando ele depois tem essa capacidade), mas manter o olhar que eu tenho quando ele é bebé, aquele olhar que procura perceber o porquê do recém-nascido estar a chorar, “será que é a fralda?”, “será que precisa de mais colo?”, “será que precisa de mamar?”, seja o que for. No início o meu chip é esse, de perceber.
Depois chega a uma altura que parece que esse chip avaria e tenho que começar a educar, não sei quando, por volta dos 18 meses mais ou menos. De repente a criança “não tem razão para chorar” em algumas situações, e a criança tem sempre razão quando chora. Pode não ser a melhor forma de exprimir o que ela quer, mas a razão ela tem. E eu como mãe, o meu programa é: “como é que eu posso descobrir a verdadeira necessidade aqui por trás?”. Portanto, não me foco tanto no comportamento, mas procuro interpretar o comportamento. Às vezes digo que o comportamento até é uma solução, não é o problema.
O comportamento é a solução que o inconsciente da criança arranjou para resolver o problema. E a minha tarefa como mãe é perceber qual é o verdadeiro problema, e isso depois vai-se rever obviamente no “bom comportamento” do meu filho.

A terceira parte diria que é o foco em criar uma boa relação. Se eu tenho intenções claras, se eu tenho o meu “detective” activado em relação ao comportamento do meu filho, vejo que cresce uma boa relação com o meu filho, e nas relações também existem soluções. Portanto o meu foco é muito querer ter uma boa relação, onde há espaço para Verdade, onde há espaço para cada um Ser quem é, onde há espaço para exprimirmos as emoções, necessidades, desejos e opiniões, sem julgamentos. Não há espaço para fazermos tudo o que queremos, mas há sempre esse espaço de expressão de Quem Sou Eu e do Meu Interior.

Estava a pensar que no princípio, quando começamos essa prática da parentalidade consciente, acaba por ser um pouco cansativo esse foco de atenção, não?

Tens razão, e acho que às vezes também nos culpabilizamos muito: “Eu deveria saber”, “eu devia saber o que fazer”, “agora fiz mal”, “eu sei que não deveria fazer assim” e “ele está comunicar alguma coisa, eu sei isso mas já não aguento este comportamento”. E aí também entra outra vez o mindfulness, para nós podermos lidar com essas emoções de imperfeição e percebermos que somos perfeitas na nossa imperfeição, e que não há necessidade nenhuma de nós fazermos de conta que somos perfeitas perante os nossos filhos. Pelo contrario, se nós conseguirmos mostrar vulnerabilidade, se nós estamos bem com a nossa imperfeição, isso é um grande convite para os nossos filhos, eles assim também se sentem mais aceites. Essa perfeição é sempre um grande ilusão. E acho que o mindfulness ajuda-nos muito aí.

É claro que ao termos consciência às vezes escavamos um grande buraco e ficamos lá dentro e ficamos parados e não fazemos nada. E dói muito ser consciente, às vezes. Já ouvi mães a dizer, e eu também já senti: “mais valia ser uma ignorante a acreditar nessas coisas muito clássicas, de pôr de castigo, de dar uma palmada na hora certa e etc”. Só que ao mesmo tempo há sempre aquela sensação aqui dentro de que sei que estou no caminho certo. E como eu tenho as minhas intenções – não são objectivos, são intenções – sei que às vezes me vou desviar, mas pelo menos sei sempre para onde voltar. Um objectivo tem um início e um fim, e aqui não há nenhum início nem um fim.
Eu estou aqui para ajudar os meus filhos a crescerem. Não estou a “educar crianças”, estou a educar futuros adultos. E quero educar futuros adultos que saibam colaborar, que saibam estar, que saibam respeitar. E isso eu sei que consigo fazer tendo isso presente na nossa relação, esse respeito, esse eu “saber estar”, e também por eu poder ser imperfeita. E acho que isso é mesmo muito importante, essa vulnerabilidade, essa imperfeição, são mesmo palavras chave nisto.

Os pais quando te procuram trazem questões estruturadas?

Sim, muitas vezes são questões muito específicas. O último que me lembro era uma questão que o filho não fica sentado à mesa. Claro que eu podia apresentar estratégias muito concretas, mas para mim isso não faz sentido nenhum. Primeiro porque não conheço aquela relação, não conheço as razões por detrás do filho não querer ficar sentado à mesa.

Eu faço sempre muitas perguntas de volta, em primeiro lugar. E uma das principais perguntas claro que é: “qual é a tua intenção?”. Mas também aqui, neste caso específico do sentar direito à mesa (acho que a criança tinha três ou quatro anos), importante perguntar se a mãe (normalmente são mães) tem uma verdadeira preocupação de que o filho daqui a 10 ou 15 anos não vai saber sentar à mesa se ela não fizer alguma coisa agora. Porque muitas vezes achamos que uma coisa é um problema agora, quando na verdade é só uma fase, faz parte do desenvolvimento da criança, ou da fase onde se encontra. Esta criança não gasta a energia toda durante o dia e vai gastando também à hora do jantar por exemplo.
E depois escondemo-nos atrás destas estratégias e “dicas dos especialistas”, que não são nada especialistas na relação que eu tenho com o meu filho.
Depois vamos falando sobre as necessidades que poderão estar por trás. Neste caso específico chegámos a essa conclusão, que tinha a ver com as necessidades de “experiência”, de novidade, de gastar energia. E aí sim podemos passar para as eventuais estratégias. Só que muitas vezes o tomar consciência de que o meu filho está a agir de uma certa forma porque tem uma necessidade por satisfazer parece que chega, as pessoas relaxam e pensam: “ok, vou dizer ao meu filho nesta situação específica: olha eu gostava que estivesses aqui sentado na mesa comigo porque isso é importante para mim” e não, “não se faz isso à hora do jantar”. Nós temos muito essa tendência de dizer o que “se faz” ou o que “não se faz”, e escondemo-nos atrás dessas regras (que são de outras pessoas e que talvez nem sejam válidas na relação que nós temos), e não nos damos a conhecer.
Isso acho que é uma das principais vantagens da parentalidade consciente, é que eu dou-me a conhecer ao meu filho, eu falo sobre o que é importante para Mim, o que é que Eu sinto, de que forma é que o comportamento dele Me influencia a mim, de que forma é que ele me ajuda, de que forma é que ele contribui para a minha vida, e daquilo que eu quero e não quero. Ele está-se a relacionar comigo, nós estamos a criar uma relação, não nos escondemos atrás de regras e de “isso faz-se” e “isso não se faz”.
Fala-se tanto disso, que” as regras são importantes”. Os pais também vêm ter comigo a falar disso, “como é que eu coloco mais limites?”, e eu acho que os limites são importantes se TU os tens. Se tu sentes que tens um limite, então é esse limite que devias colocar, não é um limite qualquer porque o pediatra diz que a criança precisa de um limite.
As pessoas dizem que “precisa de limites”, mas quais limites? Isso não se fala! Diz-se só “precisam de limites”.
“As crianças hoje em dia precisam de mais limites e mais regras” – Sim, mas quais?
E aí sim podemo-nos tornar mais práticos: Sim, precisam de saber o que é que é importante para os membros dessa família.
E para saberem respeitar os limites dos adultos da família os adultos também precisam de saber respeitar os limites das crianças. Uma criança que sente que os seus limites estão sempre a ser ultrapassados como é que vai aprender a respeitar limites? Não vai! Só com castigos, com palmadas, assim talvez sim, porque vai-se resignar. Mas não é porque respeita os limites, é porque tem medo das consequências.

Se calhar na nossa sociedade não vemos as crianças como uma pessoa inteira…

E aí entra o que eu falo muito de “igual valor”. Igual valor quer dizer que as tuas opiniões, as tuas necessidades, emoções e desejos têm exactamente o mesmo valor que os meus.
Isso é muito difícil, mesmo numa relação entre adultos isso é difícil, de respeitarmos o outro a esse ponto. Queremos sempre ter razão. Então na relação com os filhos as pessoas em geral querem mesmo ter razão.
Eu acho que a intenção é sempre boa, a intenção base dos pais, mesmo um pai que bate, a intenção é boa, só que esse pai não se tornou consciente das consequências desse comportamento e nem sabe muito bem o que quer a longo prazo.
E sim, é um grande passo vermos as crianças com igual valor, não são iguais a nós, mas têm igual valor. E acho que isso é a chave.
Eu continuo a ter mais responsabilidade, eu sou adulta, eu tenho mais experiência de vida, eu tenho a intenção e a obrigação de proteger o meu filho.
Mas tenho também que contemplar o que é esse “proteger”, se estou a utilizar uma força punitiva ou uma força protectora.
Muitas vezes a nossa força é punitiva porque não vemos as crianças com esse igual valor.

Às vezes, quando as pessoas entram na parentalidade consciente esquecem-se, principalmente mães que são muito dedicadas aos filhos encontram-se às vezes em situações difíceis, porque se esquecem delas próprias. Uma relação são duas pessoas, e a criança tem limites mas a mãe também limites, e ela pode comunica-los de uma forma respeitadora, ao filho. E acho que para muitas mães que são mães a 100% às vezes esquecem-se de que não são só mães, que também têm igual valor ao filho. Torna-se ao contrário, tratam o filho como se tivessem mais valor do que ela própria.
Portanto também há o problema invertido, e acho que aí é que as pessoas de fora olham e consideram a mãe permissiva. E talvez seja, não sei, mas o que eu acho que essa mãe tem de treinar é a auto-valorização.

Consegues imaginar uma sociedade onde haveria maiores noções de parentalidade consciente?

Sim, consigo. Sonho com isso todos os dias.
Podemos aqui falar só de “igual valor”.
Imagina se todos nós fôssemos educados acreditando e praticando igual valor. Não havia refugiados da Síria, não havia! Ou imagina se pelo menos na Europa praticássemos igual valor, então não havia esses problemas ao receber os refugiados da Síria.
Ninguém questionava. Recebíamo-los com os braços abertos!

Parentalidade consciente é uma parentalidade que age a partir de um sítio de Amor, e eu acho que muitas ideias da parentalidade vêm de um sítio de medo, um sítio de necessidade de controlo, um sítio de separação. E nós estamos num sítio de… não precisamos de nos tornar muito espirituais e dizer que todos somos Um, mas no fundo é isso.
Vimos de um sítio de união. Somos todos o mesmo. Somos todos o mesmo pó de estrelas, sendo da Síria, África, Austrália América ou Portugal. Mas esse igual valor permite-nos praticar essa união, e esquecer essa separação.

Na sociedade portuguesa vê-se isso muito. É uma sociedade muito hierárquica, onde se dá muito valor ao título, e só porque alguém tem “Dr.” antes do nome merece mais respeito do que a menina que nos serve à mesa.
Isso não é verdade! Isso não é verdade, temos todos igual valor! Temos é diferentes responsabilidades, diferentes tarefas, diferentes propósitos de vida, mas temos o mesmo valor. Mas como nós não educamos os nossos filhos para o igual valor, a nossa sociedade depois reflecte isso, obviamente.
As crianças percebem que os mais velhos podem tratar os mais frágeis de uma certa forma, e isso reproduz-se nas empresas, no chefe que abusa verbalmente os trabalhadores. Isso é tudo uma reflexão da forma como somos educados.

Eu digo que praticando parentalidade consciente nós estamos a mudar o mundo.

Nem sempre esteve ligada à parentalidade consciente, qual foi o grande “click” para a mudança de vida?

A minha filha mais velha tem 12 anos, quando ela nasceu eu trabalhava numa multi-nacional, nos recursos humanos. E eu na altura li imenso e estava muito focada em encontrar a “forma certa” de agir. Estava muito metida nisto do “certo e errado”. E pensei que tinha encontrado uma forma certa de agir com uma criança.
Quando ela nasceu eu já sabia como é que se fazia. Depois ela era um “Bebé muito fácil”, ela comia, dormia, estava sempre bem disposta, e eu achava que era muito graças à minha forma de agir com o bebé.

Até ter o segundo filho, eu organizava o dia da mesma forma e ele não comia e não dormia…
Então eu percebi que aquilo que eu estava a fazer estava adequado àquele outro bebé mas a este não.
Ainda por cima o segundo começou a apresentar grandes desafios. Eu nessa altura já estava ligada ao mindfulness e isso ajudou-me muito com os desafios do que acabou por ser o meu filho do meio.

O meu filho do meio começou-me a questionar muito através do seu comportamento.
Ele não falava assim tanto, ele tinha dois anos, dizia algumas coisas, mas principalmente através do seu comportamento estava sempre a questionar-me. E eu comecei a ver isso como perguntas, a ver que ele me estava a perguntar coisas, a questionar coisas.
E aí descobri o terapeuta familiar dinamarquês Jasper Juul que me fez sentir muita culpa, porque percebi que a minha busca do “certo ou errado” tinha feito com que eu fizesse muitos erros, com a minha filha, principalmente. E comecei a perceber a importância destes valores – igual valor, de responsabilidade, de integridade, autenticidade – e de eu ter de ser a mãe que os meus filhos precisavam, cada um deles, e não a mãe que eu achava que tinha de ser. Não aquela mãe perfeita que tinha relações distantes com os filhos. Ser a mãe imperfeita que tinha boas relações com cada um deles, que conseguia ver cada um deles exactamente como ele é.

Foi um bocadinho um acordar através do comportamento do meu filho do meio que muitas pessoas certamente iriam chamar “birras” e “mau comportamento”. Mas para mim foi o wake up call, foi um: “oh mãe, quais são as tuas necessidades?”
E aí comecei a tomar mais conta de mim, através do mindfulness, comecei a perceber quais eram as minhas necessidades, e nessa descoberta de me entender melhor a mim também consigo entender melhor os meus filhos, porque em muito, obviamente, eles são o meu espelho.
Comecei a ser a mãe que tinha intenções, que cada estratégia escolhida era muito consciente.
Larguei a necessidade de acabar com o comportamento naquela hora. Pensava muito além.
Dá-se uma atenção diferente às crianças, e vê-se que elas responde.
Deixei de resistir a comportamentos desafiantes. Percebi que resistência só gera mais resistência.

Quando o meu terceiro filho nasceu larguei a vida executiva.
Só que percebi também que tudo tem a ver com relações. Se nós queremos as coisas a funcionar, se queremos uma empresa a funcionar, temos que ter boas relações naquela empresa.
Se nós queremos uma família em harmonia, uma família onde todos se sentem bem nós temos que saber criar boas relações.
E boas relações criam-se como? É quando todos fazem parte do todo, todos se sentem incluídos, ninguém se sente julgado, e toda a gente sente que há espaço para a satisfação das necessidades uns dos outros. E que somos uma equipa, uma família também é uma equipa.
Senti que o que eu comecei a mudar em mim fez uma diferença tão grande na minha família, no meu bem estar e no bem estar dos meus filhos, que eu senti que fazia todo o sentido partilhar com mais pessoas.
Comecei a partilhar através de artigos no blog, depois fui tirar formação com o Jasper Juul, tornei-me facilitadora da organização dele, e depois as coisas continuaram a desenrolar-se. E cada vez mais pessoas me procuravam.

E tem sido assim um fluir. Com uma intenção mas sem esforço.

Quando lançamos uma intenção às vezes as coisas seguem pela força da intenção que lançamos…

Eu acho que sim.
Às vezes basta lançar uma intenção para o universo, e se for uma intenção mesmo congruente, com a vibração certa – que não é só “eu quero” alguma coisa, é também “eu quero oferecer ao universo” alguma coisa – parece que tudo se encaixa sem nenhum esforço.
E acho que é por isso que funciona, isto da Academia da Parentalidade Consciente, tem tudo acontecido de uma forma muito fluída e sem esforço. E isso para mim é importantíssimo.
Se sinto que estou em esforço, que estou a encontrar muita resistência é porque não está certo. E é a mesma coisa na relação com as crianças.
Se aquilo que eu estou a fazer com o meu filho só o torna mais resistente e eu estou a ter que fazer muito esforço, então é porque não estou a ir para o caminho certo.
Tenho que mudar.
Tenho que parar, mindfulness, respirar e perceber o que é que eu não estou a ver aqui. Que mais caminhos é que há.
E isto é mesmo assim, mesmo nos grandes desafios.
Eu continuo a ter conflitos barulhentos com os meus filhos, obviamente. A minha intenção não é ter uma família toda zen onde não há voz a levantar-se. Eu não acredito nisso, eu não sou assim.
Mas há sempre o respeito pelo outro.

Qual consideras ser a importância do tipo de parto no início da vida de uma criança, segundo a parentalidade consciente?

Nós temos uma pessoa que trabalha connosco que está mais ligada ao que nós começámos a chamar de “Parentalidade Consciente in útero”, durante o parto e primeiros meses de vida.
O que sei dizer é que nós podemos aplicar o “ser pais conscientes” desde a concepção. E há cada vez mais estudos que demonstram que isso tem impacto, que só o facto de não pensarmos só que é um feto dentro da barriga mas que é um Ser que nós podemos tratar com igual valor, isso depois cria um imprinting, cria algo nessa criança. E é igual no parto.
O Michel Oden é que disse que se queremos mudar o mundo temos que mudar a forma como nascemos, e eu acredito profundamente nisso.

Eu tive três partos muito diferentes. Tive um primeiro parto no hospital privado, induzido, que quase acabou em cesariana, com episiotomia, sem contacto pele com pele no início.

E eu posso tirar as minhas conclusões, mas são só as minhas conclusões… e eu acho que há tantas coisas que influenciam, e quanto mais conscientes nós formos em todos os passinhos melhor.
Mas não é porque eu tive um parto que não foi o parto que eu desejei que me arrependo. Não me arrependendo de nada, porque esse parto em que tive, essa experiência, depois permitiu-me ter as outras experiências.

O segundo foi um parto natural, no hospital, mas sem ser medicalizado, sem intervenção médica, (felizmente, porque tinha uma parteira lá que fechou as portas). Mas depois ele teve icterícia e tivemos que ficar cinco dias no hospital, e eu estava devastada, era um horror. Mas isso também me permitiu aprender coisas.

A terceira experiência, que foi em água, em casa, aqui nesta minha cozinha, foi uma experiência completamente diferente.

O impacto que isso teve nos nossos filhos especificamente eu não sei dizer.
Mas o que eu acredito mesmo é que quanto mais consciente for cada escolha nossa em relação ao nosso filho, melhor.

Eu acredito profundamente que o parto que tivemos tem algum impacto, não sei é qual.
Mas acho que se foi um parto muito traumático depois há coisas que podemos fazer a seguir, que vão suavizar esse impacto.

Eu acho que parto em casa não é para toda a gente, acho que parto em água não é para toda a gente, mas acho que os profissionais de saúde e quem trabalha nesta área deviam incentivar as mulheres a procurarem muita informação.
Se eu comparar o meu primeiro parto com o terceiro eu era uma mãe milhões de vezes mais informada no terceiro parto, foi por isso que fiz aquela escolha. Mas não se toma uma decisão de ter um parto em casa e em água só porque “é fixe”, é uma decisão muito mais informada e consciente do que a mulher que escolhe a indução porque o médico disse que podíamos induzir na semana 38. É uma decisão muito mais informada.
E para mim isso é que é parentalidade conscientente, eu posso escolher um parto induzido num hospital privado como consequência de um processo de escolha muito consciente (provavelmente não acontece, mas podia).
Para mim é isso a consciência das nossas escolhas, a pergunta a fazer é: será que está alinhado com a minha intenção, para o meu bebé e para mim?

Portanto se eu tivesse outro parto, que não vai acontecer (não me importava, mas não quero outro filho, eu costumo dizer que não me importava de estar grávida, não me importava de ter outro parto, mas não quero mais filhos) seria em casa de certeza absoluta.

Em casa, na água?

Não te consigo dizer se seria na água, mas seria mesmo em casa.

Este parto que fizeste na água sentiste diferença com a água? Sentiste importante na presença da água?

Sim…
Olha vou-te ser muito sincera, a piscina era muito grande e eu flutuava muito. Eu teria escolhido uma piscina mais pequenina onde me poderia segurar melhor. Mas eu não sabia isso na altura.

O que eu senti de diferente foi antes de mais a participação do meu marido, ele estava lá dentro comigo, sentado atrás de mim.
O que mais senti diferente… parece que nós somos Um com a água. E a água ajuda-nos naquele processo.
Acho que é muito mais suave, é mais calmo.
Imagino que para o bebé deve ser uma experiência muito diferente também, em relação a todo o impacto, em todos os sentidos, tem uma adaptação muito mais suave também.

É bom para relaxar, para se centrar. É bom ter essa sensação de estar acolhida na água. Foi esta a experiência que eu tive.

Eu não tinha planeado, não era assim um desejo de ter na água, mas a parteira é que disse: “vamos alugar a piscina, e está lá, se tu quiseres”, e acabei por utilizar.
Mas acho que uma segunda experiência seria mais ou menos igual. Teria a piscina, não te sei dizer se usaria, o momento teria de me dizer isso.
E acho que mais do que a água, acho que o parto em casa nos permite estar mais próximas da nossa intuição.

Pareceu-me por esta tua última descrição que gostas do poder, da sensação de parir…

Sim, muito.
Muito.
Eu tive epidural no primeiro parto… E aprendi tanto sobre mim nos meus partos e sobre a minha necessidade de controle, e o que eu senti no primeiro parto era que não estava em controle nenhum. Eu não sabia o que fazer.
Com a epidural eu estava completamente dependente das indicações da médica e da parteira. Eu senti-me violada, porque… saltaram em cima da barriga, foi episiotomia… e eu já trabalhei isso! Aceitei, e depois pude ter partos completamente diferentes a partir daí.

Acho que é uma conexão. Se nós nos permitirmos, se nós confiarmos em nós mesmas e nas nossas capacidades inatas, se tivermos ali um momento mindfulness, é quase como se fôssemos uma observadora, observar este corpo, o que é que ele sabe fazer, o que é que ele faz sem eu me esforçar. Eu não preciso de fazer nada, só preciso é de estar atenta, naquele momento e o meu corpo sabe exactamente o que fazer. Isso é uma aprendizagem absolutamente incrível para a vida.

Eu já falei sobre isto com uma senhora que é spiritual teacher, também mãe, ela diz isso, “o momento do parto é quase um convite à iluminação”. É um momento que te permite sentir o que é a iluminação, se te entregares mesmo a esse momento. É por isso que existe uma vontade em mim de ter um quarto parto.
É incrível essa força. Não és tu, não sou eu, não sei, é uma conexão com todas as almas de todas as mulheres do mundo que estão ali naquele momento, não sei o que é, mas é poderosíssimo.
E eu procuro não julgar quem escolhe conscientemente um parto muito medicalizado, mas admito que tenho pena… tenho pena que nem todas as mulheres possam ter esta experiência que é absolutamente transformadora.

Sentes que há algo que queiras dizer para finalizar?

Como posso finalizar? Bem, há uma expressão que eu digo muito, uma espécie de mantra. ”Está tudo bem!”
Independentemente do que aconteceu, o que está a acontecer ou o que acontecerá, está tudo bem. As coisas só podem estar como estão a cada momento, e a cada momento eu e tu fazemos o melhor que podemos com os recursos que temos disponíveis (e quanto mais consciência, mais recursos), isso não quer dizer que vai correr sempre tudo como queremos, mas na verdade está sempre Tudo Bem.

 

~ Foi um prazer conhecer melhor a Mia, e saber mais sobre um parto, e uma vivência de Parentalidade Mindful. ~


Apaixonada pelo processo de desenvolvimento humano. Apaixonada pelo Yoga. Apaixonada pelo parto. Apaixonada pela Vida. Sou Mulher. Sou Mãe. Sou Alma.