[Relato de parto #16] Ana Sofia Reis Relatos

 

O nosso parto – Nascimento da Beatriz

Este relato é extenso, muito extenso. Conta a história do nascimento da nossa pequena Beatriz. Como eu sei que nem toda a gente tem paciência para ler tudo até ao fim eu facilito já a vida:

Tudo aconteceu no dia 4 de Outubro, em Londres, parto na água domiciliar.

* 1 :00 – Início das contrações
* 8:00 – Chegou a nossa querida midwife (enfermeira parteira) Annabel
* 16:30 – Entrei na piscina
* 18:00 – Saí da piscina e a Annabel rompeu a minha bolsa amniótica
* 20:00 – Entrei de novo na piscina
* 20h50 – A Beatriz nasceu na água e a Annabel passou-a para os meus braços! Foi uma felicidade imensurável!
Fim.

Agora sim, começa o relato detalhado!

OS SINAIS

Tudo começou no Sábado dia 26 de Setembro… bom na realidade tudo começou muito antes, em Janeiro… mas isso é outra história.

Desde as 36 semanas que senti que algo no meu corpo mudava. Entrávamos no nono mês de gravidez, achei que realmente era um marco importante. Tanto que achei, que o meu corpo aumentou a frequência das contracções que sempre senti a gravidez toda, sendo que uma ou outra vinham acompanhadas de uma pequena “moinha” assim muito levezinha. Esta mudança juntamente com o facto de o primeiro casal do nosso curso do NCT ter tido a sua bebé nessa mesma semana foi um reality check, “Ok pessoal, isto está mesmo a acontecer!!! O vosso bebé pode nascer a QUALQUER MOMENTO!!!!!!” *PÂNICO*

Às 37 semanas senti-me diferente, pensei que o bebé iria nascer nessa semana. As contracções eram frequentes, muitas tipo moinha, outras mal as sentia. Comecei a sentir a minha cabeça nas nuvens. Só que não, não foi essa semana.
Às 38 semanas o bebé continuava a encaixar e às 39 semanas pareceu-me que as contracções tinham acalmado. O bebé, por outro lado, todos os dias parecia que fazia uma espécie de river dance aqui dentro.
Já pensava quando é que iria ver o rolhão mucoso a sair ou sequer se o iria ver… Não tive qualquer toque durante toda a gravidez, que maravilha!! Certamente que ninguém me iria descolar as membranas, muito menos sem o meu consentimento (e já por causa disso se morasse em Portugal não iria deixar que me fizessem toques a partir das 37 semanas), o que permitiu que o meu corpo fizesse o seu trabalho à sua maneira e ao seu ritmo. No meu caso, nunca tive esta preocupação uma vez que a Annabel (a nossa parteira) também não é fã de descolamentos de membranas e nunca me pressionou com datas, tempo, induções… nada!
Contudo, no Domingo, dia 26 de Setembro, vi um pedacinho muito pequenino de rolhão. Era amarelo e espesso com risquinhas castanhas. Fiquei a sentir que afinal algo estava a acontecer! No Domingo saiu de novo mais um pouco agora esbranquiçado e mais tipo uma espécie de ranhoca.

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“My body is not broken” – Sim, eu vou entrar em TP espontâneo nem que seja às 43 semanas!!!! “Me + my baby are SAFE” – Está tudo bem connosco! “My baby will fit” – Sim, esta foi graças a quem mandava boquitas foleiras em relação ao peso/tamanho do meu bebé e à minha capacidade de o parir……

Senti que era importante preparar-me mentalmente para o parto e para ajudar imprimi umas afirmações que retirei do site trustbreathbirth e espalhei pelos locais da casa que achei mais importantes: o quarto, onde dormia (ou algo parecido com dormir) todos os dias e a sala, onde iria nascer o meu bebé!

No dia anterior a fazer 40 semanas tive a minha última aula de Maternity Yoga.
Em todas as aulas havia uma altura em que partilhávamos com as restantes barrigudas o nosso nome, de quantas semanas estávamos e onde íamos ter o bebé. Eu dizia sempre a semana em que ia estar já que todas as aulas ficavam a um dia de eu mudar de semana de gravidez. Sempre que alguém dizia estar nas 40 semanas, ouvia-se um burburinho, havia trocas de olhares surpreendidos, um misto de excitação e admiração que todas sentíamos quando sabíamos que uma colega grávida estava quase, quase a ter o(s) seu(s) bebé(s) nos braços. Nessa aula foi a minha vez de dizer “Ana, 40 weeks, at home!”. Estávamos quase!!!
Às 40 semanas tinha finalmente chegado ao termo! Nada parecia alterar-se grandemente até que dia 30, mesmo antes de uma consulta com a Annabel, perdi imenso rolhão e agora era rosinha! <Quando contei à Annabel ela ficou feliz com esta notícia, em especial por ser de coloração rosa, o que significava que estaria a acontecer algum apagamento e/ou dilatação do colo do útero, o que é óptimo! Significa que o corpo está a fazer o seu trabalho de forma indolor e imperceptível.
Nesse dia tive algumas contracções mais incómodas, mas nada de especial. Sem dúvida que eu e o Bernardo tivemos a perfeita noção de que as coisas estavam em marcha. No dia seguinte, voltei a perder mais pedaços do rolhão.

Na sexta-feira dia 2 de Outubro tive imensa vontade de ir passear. Estava um dia lindo de sol (e vivendo em Londres há que aproveitar)! “Peguei” no barrigão e fomos até a Regents Park. Claro que com o meu peso extra e com a minha enooorme barriga eu caminhava devagar e volta e meia sentava-me num dos bancos do jardim para descansar um pouco. Devido à minha fome animalesca, aproveitei para comer o lanchinho que tinha levado. Caminhando devagarinho ainda fiz 3,5km! No final tive de me despachar a andar até ao autocarro… (vontade de fazer chichi combinada com contracções não é agradável!) Fui a caminhar sempre com ar de “está tudo bem comigo”, já que com aquele barrigão se fizesse um ar aflito o mais certo era alguém chamar logo uma ambulância.
No sábado, dia 3, perdi imenso rolhão com sangue durante o dia todo. Imensa quantidade mesmo. (Não pensei que pudesse existir tanto rolhão!) Comecei também com algumas contracções mais dolorosas. Ao final do dia esmoreceu um pouco… (mal eu sabia que estava tudo a começar).
Queria ir dar um passeio, mas o Bernardo não estava para ali virado. Foi nessa altura que pensámos que se calhar, talvez fosse boa ideia preparar a sala, afastar a mesa, insuflar a piscina, forrar o chão… assim na loucura! Sei lá, é que o bebé pode decidir nascer… afinal faço 41 semanas amanhã!!!!! (sim, ainda não tínhamos a casa preparada para o nascimento em si).

Durante a tarde ainda tive assim um pensamento de que se aquilo ia começar naquele dia então devia ir dormir uma sesta… Infelizmente não ouvi este sábio conselho do meu instinto.

A FASE LATENTE

À meia-noite decidimos ir dormir, e era 1h da manhã quando tive a primeira contracção dolorosa. Muitas outras se seguiram.
Desde a primeira contracção que já não conseguia ficar deitada (ou sentada, que naquela altura há muito que não dormia deitada). Vinham irregulares, 10 minutos, 5 minutos, 2 minutos, 6 minutos…. A dada altura começaram a ficar mais intensas e comecei a vocalizar e eram 4 da manhã quando me apercebi que tinha acordado os vizinhos de cima (ficou como vingança daquela vez em que me acordaram com música em altos berros e quando fui bater à porta nem se dignaram a abrir… mas ao menos baixaram a música). Como queria estar à vontade decidi ir para a sala e o Bernardo veio comigo.
As contracções continuavam a vir sem ritmo definido e nós conseguíamos dormir nos intervalos mais longos. Continuava a perder rolhão com sangue.
Não queria chamar a Annabel cedo demais para ela poder descansar, já que não sabia quanto tempo o trabalho de parto ia durar, mas às 7h20 da manhã senti que era boa altura para a chamar. O Bernardo ligou-lhe, mas ela quis falar comigo ao telefone, provavelmente para avaliar se eu conseguia falar entre contracções. Já não dava para ter grandes conversas.

Ainda consegui ir fazer o chá de parto da Naoli (podes ver a receita AQUI), parando durante as contracções.

Não foi fácil mas consegui!!

Como não dormi a noite toda, de manhã estava toda rota!

A partir daqui a ordem dos eventos fica confusa, por isso vou basear-me nos registos da Annabel.

A FASE ACTIVA

Os meus vocalizos iam-se tornando mais altos à medida que a intensidade da dor aumentava. Confesso que agora não consigo lembrar-me de onde sentia a dor, mas penso que era no fundo da barriga tipo dor menstrual. Para lidar com as contracções ia-me focando somente em cada uma, que vinham como uma onda, eu sabia que tinham um princípio, um pico e um fim. No final de cada contracção tremia por todos os lados, era uma mistura de frio com… nem sei bem o quê.

Eram 9h40 quando achei que era boa ideia “sugerir” (leia-se “ordenar”) ao Bernardo que fosse dormir. Ele tinha ficado acordado a noite toda comigo e eu ia precisar do apoio dele, por isso queria-o descansado. Dormiu 2 horas que só lhe fizeram bem!

Pouco tempo depois de ele ter ido dormir comecei a sentir umas dores dos lados do útero, principalmente do lado esquerdo, que apareciam entre as contracções. Eram muito incómodas mas nesta altura ainda me deixavam dormir entre as contracções. Apesar disso comecei a ficar perturbada e isso não me deixava lidar tão bem com as contracções como eu gostaria. A Annabel não conseguia encontrar uma explicação para a dor e tanto eu como o bebé estávamos óptimos, por isso fui aguentando.
Experimentei usar uma botija de água quente, que parecia distrair-me da dor e ainda tomei 1mg de paracetamol, mas não notei diferença.

A primeira montanha a escalar – O cansaço/sono

À medida que o tempo foi passando a dor estranha começou a aumentar de intensidade e aí já estava a ser mesmo difícil de lidar com ela. Nesta altura a Annabel sugeriu que eu usasse o TENS. Colocou-me os eléctrodos nas costas e à primeira contracção detestei!! Ela relembrou-me que o TENS funcionava com a continuação da utilização e dei mais uma oportunidade. E não é que funciona mesmo??! Aliviava o pico das contracções tornando-as mais suportáveis e já conseguia lidar com a dor entre contracções e até dormir.
Apesar disto, comecei a ficar mal disposta entre as contracções, por isso uma das vezes que fui ao WC vomitei imenso. Foi aí que deixei de conseguir beber o chá de parto da Naoli, foi tudo fora!!…

Como consegui ir dormindo entre contracções acabei por conseguir recuperar parte do sono que não dormi de noite, o que me deu um boost de energia e nova motivação. Foi nesta altura que o Bernardo acordou, já eram 11h30. Quando chegou à sala reparou que eu tinha outro ar, com mais força e ânimo, “parecia uma pessoa diferente” disse ele.

Apesar da intensidade e de durarem 1 minuto as contracções continuavam a vir com muita distância entre elas. Foi bom para me deixar descansar, mas havia ali um trabalho de parto a fazer e uma criança que tinha de nascer! Decidi então ir subir e descer escadas e fazer lunges (exercícios das aulas de maternity yoga) e rodar a anca com os pés em degraus diferentes, a ver se o bebé descia mais e se “chamava” mais contracções. O meu foco era sempre “cada contracção traz o meu bebé para mais próximo de mim”, algo que era repetido pela professora de maternity yoga em todas as aulas e que ficou gravado na minha memória. Por isso mesmo eu queria mais contracções!!
A Annabel mencionou qualquer coisa nesta altura sobre se eu queria saber quanto estava dilatada, mas eu preferi não saber para o caso de ter pouca dilatação e não desmoralizar (a mim e ao resto do pessoal). Sugeriu então que fôssemos ao jardim dar uma volta.

Estava um dia de sol lindo!! Que dia maravilhoso que o nosso bebé fofi tinha escolhido para nascer! Caminhámos, demos beijos, fiquei de cócoras enquanto o Bernardo me segurava os braços, aqueci com o calor do sol na pele… foi óptimo!
Depois disto, era já hora de almoço quando a Annabel saiu para ir almoçar.

Nós continuámos no nosso trabalho!

Nunca estive em jejum durante todo o trabalho de parto. Algures pelo meio do dia comi ovos mexidos, a meio da tarde comi “pulled pork” feito pelo meu chef cá de casa e ao final da tarde lembro-me de ter comido uma banana.

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Para além do chá da Naoli, que entretanto tinha deixado de conseguir beber, tinha comprado 2L de água de coco raw, um isotónico natural. Comprei da marca Chi, extraído de cocos jovens, que não é feito a partir de concentrado, nem é pasteurizado e por isso está cheio de coisas boas!! O Bernardo era o meu menino da água, dando-me a beber a seguir a cada contracção. Para além disso ajudava-me sempre com massagens, festinhas, pressão, suporte, o que quer que eu precisasse na altura, mesmo correndo o risco de ouvir um rosno cheio de palavrões, seguido de um “desculpa” no final da contracção!

Nesta altura, já a dor estranha tinha mudado dos lados do útero para ser supra-púbica, a sua origem continuava um mistério.

Às 16h30 a Annabel sugeriu que eu fosse para a piscina, o que achei uma excelente ideia. Depois de aquecerem a água até aos 37 graus e de me tirarem o TENS lá fui eu!

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Que maravilha meus amigos!!!!! A dor estranha desapareceu e as contracções eram para meninos!! E lá fiquei até às 18h…

A segunda montanha a escalar – As contracções que não vinham.

Na piscina as contracções espaçaram e nem um momento privado a dois, com beijões apaixonados, estímulo dos mamilos e outras coisas que nos fomos lembrando (não vou entrar em descrições!) faziam a oxitocina subir e mais contracções.
Para além disso, pouco tempo depois de entrar na água a Annabel mediu-me a temperatura e tinha 37ºC com pulso normal. Passada meia-hora tinha 37,8ºC e pulso acelerado. Sentia-me bem, mas aquilo era ligeiramente preocupante.
Às 18h a Annabel veio ter “a conversa” comigo. Sugeria um toque para avaliar o meu estado e, caso estivesse já com boa dilatação, a ruptura artificial das membranas a ver se aquilo acelerava. Se não estivesse dilatada então talvez eu tivesse mesmo de usar a mala do hospital (que tinha feito, pelo sim, pelo não) e ser transferida, coisa que eu não queria de todo!!

Fizemos então as perguntas da mnemónica BRAIN para fazer a nossa escolha:
* Benefits – What are the benefits of this procedure? How will this help me/my baby/my labor?
* Risks – What are the risks of this procedure? How might this negatively affect me/baby/labor?
* Alternatives – Are there alternatives to this procedure? Are there other options?
* Intuition – What is my gut feeling about this?
* Need Time, or Nothing – Can I delay this procedure and take some time to think about it/ Discuss it with my partner? What will happen if I choose to do nothing for now?

Perante o que a Annabel nos disse, decidimos aceitar.
Saí da piscina e fui para o quarto. Nesta altura comecei a duvidar se conseguiria o meu tão desejado parto em casa… Disse-o ao Bernardo, que imediatamente eliminou esse pensamento da minha cabeça.

Na minha caminha a Annabel lá me fez o toque. Confesso que estava receosa que me dissesse que tinha pouca dilatação (e se assim fosse queria então transferência e duas epidurais se faz favor!!!), mas a boa notícia era que estava de 7/8 cm!! Que felicidade!!! As membranas estavam intactas e a cabeça do bebé fofi estava mesmo ali. A Annabel entretanto tinha ido buscar o instrumento para romper as membranas que faz lembrar uma agulha de tricot. Perguntei se ia doer ao que ela disse que não. Eu comecei a dizer “que não seja verde, que não seja verde!!” (líquido amniótico verde significa que o bebé fez mecónio no útero e poderá significar que algo não está bem). Não doeu nada e era transparente! Mais um desafio superado! Assim um quentinho a escorrer, foi tudo o que senti. A Annabel disse que sentia imenso cabelo, informação que transmiti ao Bernardo que entretanto tinha ido à porta… (sim, que o fantástico timing foi vir um senhor da Amazon recolher uma encomenda precisamente naquela altura!!).

Voltámos para a sala, agora eu com uma indumentária extremamente sexy: cueca Tena pants para não encher tudo de líquido amniótico.
A Annabel disse-nos para dançar! Queremos contracções!! E aí eu disse, “Ai é?? Hit it DJ!!!” e então pedi ao Bernardo para ir ao youtube pôr “Let’s get the party started” – Pink, “Let’s get it started” – Black Eyed Peas, “Wherever, whenever” – Shakira, outras da Shakira para abanar a anca e dancei, dancei, dancei com o Bernardo e o nosso bebé, usando os restos de energia que me sobravam.

E foi então que elas, as contrações, voltaram e em força!!! Uma a seguir à outra, puxadiiiiinhas! UI! Parecia que tinham descido para o rabo, o que a Annabel disse ser bom e eu pensei “Bom para quem???!!!”. E a dor entre contracções horrivelmente forte, tão forte que eu pedi desesperadamente que me colocassem de novo o TENS. Não é que o TENS pouco fazia às contracções e o raio da dor entre contracções mantinha-se inalterada?! Era como se me queimassem por cima do osso púbico!

Comecei a ficar nauseada e numa ida ao WC vomitei de novo. Nessa altura questionei-me se ia ter força para empurrar a criança para fora, já estava exausta!

A TRANSIÇÃO (a terceira e derradeira montanha)

Nesta altura, sentei-me na sanita agarrada à barriga e disse “Assim não aguento, assim não dá mais!!”. A minha vontade era dizer “Matem-me já aqui!!”, mas vi a cara preocupada do Bernardo a aparecer na porta do WC e achei que era melhor não o assustar ainda mais. Mal eu sabia que aquilo era a famosa transição!!

A Annabel que estava ao meu lado disse então a palavra mágica, “Queres tentar ir para a piscina de novo?” ao que eu respondi logo “SIIIIIM!!!!!!”.

Foram então encher com mais água quente e eu só não me atirei de cabeça porque o meu estado de enormidade, peso e a altura das bordas da piscina não o pemitiam!! Que alíiiivio! Até a p#$@ da dor parva tinha diminuído!

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O PERÍODO EXPULSIVO

Nesta altura a Annabel, que já estava a ver o filme todo, sugeriu o entonox (gas and air) que eu aceitei. Confesso que tinha algum receio daquilo, não sabia como ia reagir, mas já estava tão rota que acho que aceitava qualquer coisa!
A Annabel foi então ao carro com o Bernardo buscar a botija.
Lembro-me que assim que eles voltaram tive uma contracção igual às outras, mas perfeitamente suportável (santa água!!!), eram nessa altura 20h.

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A segunda contracção já foi com o entonox em acção. O bocal deve usar-se durante as contracções a respirar pela boca e parar no fim de cada contracção. Veio mais uma contracção e nesta, de forma totalmente involuntária e inesperada fiz força!!!
Vinha aí o nosso bebé!!
Ora bem, tenho várias coisas a dizer nesta altura:
Primeiro, força?? Já?? Eh lá, não sabia que estava nesta fase!
Segundo, ninguém precisa mandar uma mulher em expulsivo fazer força meus amigos, o corpo faz força sozinho!!! É incontrolável!!
Terceiro, a dor parva desapareceu por completo, finalmente!
Quarto, ai xaaaaau o entonox dá uma moooca! Que maravilha!! Quando essa contracção terminou eu estava high as a kite!! Adorei aquilo!!! (a minha cara na foto parece de sofrimento mas não é de todo, é de “estou com uma moca tãaaao grande!”)

Voltando ao relato…

A partir daqui comecei a ter contracções apenas de expulsivo. À segunda contracção perguntei à Annabel se a cabeça já estaria a descer, ao que ela respondeu que sim e que se colocasse os dedos ia conseguir senti-la. Bem, quando coloco os dedos e sinto aquela cabecinha fofinha e cheeeeia de cabelo foi uma sensação maravilhosa!! Eu só dizia ao Bernardo, que estava à minha frente a segurar o bocal do entonox, “Eu sinto cabelo!!! Tem imenso cabelo!!! Tão booooom!!!!!!” (que grande, grande moca!), seguido de um furioso “Dá cá essa m€rd@!!!!!!”, referindo-me ao bocal do entonox, que vinha aí mais uma contracção!…
À medida que ia tendo contracções sentia a cabeça a descer e a voltar a subir um pouco, a descer mais e a voltar a subir, sempre a sentir com os dedos! Eu ouvia-me rugir a fazer força com a contracção e na minha cabeça parecia um som altíssimo, tipo dragão (e era assim poderosa que me estava a sentir!), mas pelos vistos nem fiz muito barulho.

Foi então que a cabeça deu a volta ao osso púbico e já não voltou mais para trás!

Até aqui não me lembro de sentir muita dor, mas a partir daqui comecei a sentir esticar!! Lembro-me que disse algo tipo “My vagina hurts!!”. A sensação da cabeça a descer aos poucos para sair e destas contracções poderosíssimas era como se a cada contracção fosse atropelada por um comboio e depois sentia-me a partir-me ao meio!! Uma dor de esticar realmente… intensa!
A Annabel ia dizendo “Pant, pant!” e depois “Little pushes!”, mas eu toda narsa do entonox e no meio da comoção já nem sabia quando é que ela estava a dizer para eu fazer força ou não. Ainda perguntei ao Bernardo “Mas faço força ou não??”, mas ele também não conseguia ajudar, era tudo demasiado “overwhelming” naquele momento.

Até que a cabeça saiu! Ao início do expulsivo estava numa posição entre o ajoelhado e de cócoras, mas no final já tinha as pernas para trás, meias abertas a flutuar. Na contracção seguinte o corpo não estava a deslizar para fora e então a Annabel deu uma ajuda e o nosso bebé lindo nasceu às 20h45m.

Aqui a minha sensação foi tipo “Ah, já está, OMG, consegui!”, até que a Annabel diz “Ana, reach down and grab your baby”, e eu assim meia surpreendida, como se não estivesse nada à espera daquilo (acho que ainda era do entonox), vejo aquela coisinha linda, de bracinhos abertos e olhinhos arregalados, a vir debaixo de água na minha direcção.
Agarro-a e puxo-a para fora de água e para cima do meu peito. E foi aí, cara a cara, que nos vimos pela primeira vez e eu tive das sensações de maior êxtase da minha vida. Foi como se subitamente fosse envolvida num vórtex de amor. Indescritível, inexplicável, inolvidável.

Gritei, chorei, o meu bebé estava aqui! Nós tínhamos conseguido! O Bernardo olhava para nós emocionado, a sorrir, o nosso bebé chorava e estava rosadinho (apgar 10/10!), barradinho de manteiginha de bebé (vérnix) e juro que o mundo parou de girar e o tempo parou naquele momento.
A emoção foi tal que nem nos lembrámos de ver o sexo, até que a Annabel nos perguntou e lá espreitámos… Era MENINA!! Os nossos sonhos eram mesmo verdade!

A PLACENTA

Ficámos a namorar-nos ali até que voltei a sentir uma contracção. Perguntei à Annabel se podia ser a placenta e ela disse para eu colocar a mão a ver se sentia alguma coisa. Realmente sentia, algo molinho, quente e viscoso. Disse-me para tossir, para fazer força e lá veio ela, 10 minutos depois da nossa pipoca. O Bernardo cortou o cordão – o que não foi fácil, era curto, eu nem a consegui puxar bem para cima, mas muito grosso – mas ele safou-se muito bem!

DE VOLTA AO NINHO

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Nesta altura eu já queria sair da piscina.
Sentia ardor “down under” (lá embaixo), por isso tinha quase a certeza que tinha rasgado, o que confirmei quando senti com os dedos. Perguntei se fosse grau 1 ou 2 a Annabel poderia coser, ao que ela disse que sim, só de grau 3 ou 4 é que não.
Lá pedi eu ao universo que não tivesse de ser transferida por causa de uma porcaria de um rasgo.

O Bernardo segurou na princesa, e a Annabel ajudou-me a sair da piscina. Quando ia a contornar a piscina sai um bocado de sangue. Foi aqui a única vez que vi a Annabel preocupada. Disse-me que se não parasse de sangrar tinha de me dar uma injecção de ocitocina, ao que eu respondi “Tudo bem.”, mas pensei para mim, em jeito de afirmação: “Pára de sangrar! Pára de sangrar!”.
A Annabel ajudou-me a caminhar até à cama cheia de pensos e fraldas entre as pernas, para não pingar e quando me deitei apercebemo-nos de que a hemorragia tinha parado.

A princesa veio para o meu colo. Já estava doida para mamar, a chuchar o pescoço do pai e agarrou na mama com uma força!!!! Eu não estava preparada para aquele poder de sucção! Ui! Dor!! E lá ficou no meu peito com uma toalha por cima para a manter quentinha, a mamar o seu colostro das maminhas.

O Bernardo passou então a menino da lanterna, enquanto segurava a luz para a Annabel me concertar os “estragos”.

Laceração de grau 2, pequenita, 3 pontitos em músculo e pele. A única coisa que doeu foi a injectar a lidocaína (anestésico), os pontos nem os senti!

A seguir fomos pesar, medir e observar a pipoca. Tudo isto foi feito na nossa cama ou no móvel, tudo à minha frente! A nossa princesa tinha 55cm de comprimento, 34,5cm de perímetro cefálico (au!!) e 3,560kg de refegos!! Tudo normal e saudável! Tinha uma marca no pulso de chuchar dentro da minha barriga! Uma mamona portanto!

Às 23h, depois de mãe e filha observadas e confortáveis na cama a Annabel foi para casa descansar e deixou-nos a namorar a princesa.

Não preguei olho essa noite… Toda a noite a namorar a princesa, a dar maminha, a estudar cada pormenor, o narizinho, os olhinhos, as mãozinhas e os pézinhos… Completamente arrebatada por aquele pequeno ser, aquele pequeno humano tão perfeito que tínhamos criado e que acabara de sair de dentro de mim.

 

Podes ver mais inspirações do trabalho da Ana também como Doula aqui: One Heart Full of Love
Parto, doulas, amamentação, bebés e muito mais!

 


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.