Todas merecemos um parto na água Parto na Água

A Mariana Torres tem-nos inspirado a todas com as suas partilhas sobre a sua experiência de estágio no Hospital Sofia Feldman, no Brasil. Quisemos saber mais da sua visão sobre o parto na água, claro! E estamos muito gratas por esta preciosa partilha. Ela acredita em partos respeitados, e tu?

 

Todas merecemos um parto na água.

A minha primeira experiência com parto na água foi logo no início do internato (em Portugal), quando, num dia de Urgência, uma médica especialista me mostrou um vídeo no seu telemóvel de um parto que tinha acontecido no hospital onde ela trabalhava habitualmente.
Só me lembro do recém-nascido debaixo de água, com os olhos a piscar e os seus bracinhos abertos prontos a receber este mundo tão diferente do útero.
Nesse momento percebi que o parto podia ser muito diferente do que eu estava habituada a assistir no meu dia-a-dia.
Percebi que o parto não tem que ser sinónimo de sofrimento e maldição na vida das mulheres.
Percebi que o parto não é o procedimento de alto risco que tem que sofrer obrigatoriamente intervenções a cada passo.
Percebi que parir é natural e que a maioria das mulheres apenas precisa de vigilância e apoio contínuo durante o processo. Contemplação.

A partir daí comecei a investigar mais sobre o parto, li estudos sobre a sua segurança e fisiologia, vi dezenas de vídeos que me puseram com a lágrima no canto do olho e, neste percurso, voltava sempre a surgir a água, como meio tão facilmente acessível de relaxamento e privacidade.

Mas, no dia-a-dia, mantinha-se geralmente a imagem do parto horizontal, ligado às máquinas, e com uma equipa médica e de enfermagem com alto nível de ansiedade, o que me fazia terminar cada turno com um aperto no peito.

Para mostrar que o atendimento fisiológico e respeitoso ao parto pode ser real e não é uma ilusão ou doideira da minha cabeça (como já me disseram), este ano tive a oportunidade de estagiar no Hospital Sofia Feldman em Belo Horizonte, Brasil.

Neste hospital todos os quartos da Sala de Partos têm um chuveiro que pode ser usado livremente pela mulher e, metade deles, têm uma banheira. Aqui a água é essencial para a condução do parto e duvido que conseguissem sobreviver sem ela.

Logo nos primeiros dias tive o privilégio de assistir ao vivo ao primeiro parto na água.

Tudo é mágico, desde o encher da banheira ao ajudar uma mãe a sair da água com o seu recém-nascido ao colo, ainda ligado pelo cordão umbilical.

A água permite à mulher flutuar entre as contrações.
Permite mudar de posição sem grande esforço.
A água quente relaxa, acalma, protege do mundo exterior.
Com a água é mais fácil viver um parto sem intervenções. Mas, mesmo quando estas se tornam necessárias (como a aceleração do parto por paragem (real) da progressão do trabalho de parto), a água ajuda a evitar a cascata habitual de outros procedimentos, como por exemplo, a analgesia epidural.

Não há nenhum motivo para não se dar oportunidade a todas as mulheres de recorrer ao chuveiro quando as contrações começam a intensificar ou de entrar numa banheira de água quente quando lhes parece que não aguentam mais.
É apenas água. Ainda bem mais barata e segura que as drogas usadas para alívio da dor em trabalho de parto.

Já vivi vários partos na água e muitas mais imersões em trabalho de parto. Nenhuma mulher que acompanhei durante o trabalho de parto recusou ou não gostou da experiência com a água. Aliás, tornou-se já um hábito para mim a sugestão de um duche quente ou o uso da banheira, e vou sentir muito a falta destas opções quando sair daqui.

Quando chegar o meu dia de parir não tenho dúvida que a água vai ser uma aliada e tenho confiança total em receber o meu filho dentro de água.

Estou quase no final do estágio e a adorar trabalhar num ambiente de calma e pleno respeito e empatia pelos casais e seus bebés. Em que cada parto é acompanhado com um sorriso nos lábios e palavras de apoio sussurradas. Em que se aceita que cada mulher desenhe o seu parto. Em que é respeitado o tempo e são dadas opções. Aguardo com expectativa o dia em que poderei viver o mesmo em Portugal.

~ Mariana Torres
Interna de Ginecologia e Obstetrícia
Sócia da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto

 

(imagem de Belle Verdiglione)


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.