[Relato de parto #17] Ana Patrocínio Relatos

Esta gravidez não foi planeada… aliás foi um choque grande para mim descobrir que estava grávida de um quarto filho (com uma bebé de apenas sete meses e meio). O meu marido, então, coitado, ia surtando. Mas o tempo passa e vamo-nos habituando a ideia de termos mais um bebé. Os dias foram passando e a barriga crescendo, numa gravidez super tranquila, até sem enjoos (apenas uma infecção urinária que me levou a um internamento mas nada de especial).

Em mim crescia um desejo que já tinha há cinco anos, o desejo de parir em casa.

Até então não me havia sido possível, mas desta vez tinha de ser, estava mesmo firme nesta vontade, porém financeiramente não me era de todo possível e aceitei a ideia de um parto desassistido.

Já estava a preparar tudo para isso, quando o universo me prepara uma surpresa que nem eu nem ninguém estava à espera, alguém quem eu só conhecia através da internet, uma doula, passou-me o contacto de uma pessoa que… bem, nem tenho adjetivos para descreve-la. Sabem aquelas pessoas que nós pensamos já não existirem no mundo? Existe sim… não irei mencionar o seu nome por motivos pessoais, mas eu só pedia que me beliscassem… como é possível um ser humano com tanto amor e dedicação ao próximo, cuidado, carinho… sem nunca me ter conhecido sequer, sem intenções financeiras nada… um anjo… não sei se consigo descreve-la melhor, é difícil. Ela disse que foi o meu bebé que a havia chamado… e senti um arrepio… o meu coração parecia que ia saltar pela boca… já não iria mais ser um parto desassistido e assim podia relaxar e entregar-me totalmente ao momento, e tranquilizar os meus receios… ufff respirei de alívio. Com ela veio uma pessoa fantástica super querida, que mesmo não sendo mãe ainda, cuidou de mim de uma maneira como se soubesse exatamente do que eu precisava… um carinho infinito, fez-me massagens, fazia o meu chá todos os dias, dava-me o suplemento de ferro a boca (risos), dava-me abraços… trazia-me flores, ajudava nas lides da casa, com os meus filhos… estará para sempre no meu coração… E não foram só elas! Tantas pessoas me vieram ajudar, sem pedir nada em troca.

… Bem… começo a acreditar que este serzinho que carreguei dentro de mim 40 semanas e 1 dia é um ser muito especial, pois ele moveu pessoas mega especiais até mim, que nem sequer me conheciam… mágico não é…?

Nós vimos filmes, conversamos imenso sobre a importância do parto na água, vantagens etc, e… depois como é?

Primeiro foi dose montar a piscina (risos), primeiro que se acertasse com uma bomba que desse para enche-la (no fim usámos um compressor enorme! Risos…) ok, piscina pronta, tudo a postos. “Ervas” compradas, só faltava a oxitocina dar sinal.
Eu estava super tranquila, sem ansiedade absolutamente nenhuma, e, no dia 18 de Fevereiro, acordo perto das quatro da manhã com uma forte contração, que pensava eu ser um sonho (risos)!
Levantei, fiz xixi, e voltei a deitar… e sinto outra igualmente forte que me obriga a respirar mais fundo. Penso em acordar o meu marido e ele já estava acordado! já se tinha apercebido da minha agitação. Decido ligar à parteira, ela tinha passado as últimas 24h acordada, a acompanhar o parto da filha via skype, e estava super cansada e sonolenta, disse para eu voltar para a cama e tentar descansar…. Bem, eu tentei… mas era impossível… a ansiedade tomou conta de mim, o sono já se tinha ido há muito e fui para sala. O meu marido veio atrás e começou a preparar as coisas, enquanto eu tentava contactar as pessoas que iriam estar presentes (no meio das contrações que se faziam sentir numa intensidade jeitosa, era tal que já nem conseguia raciocinar, o neo córtex estava prestes a entrar em stand by) nisto a parteira e a doula vieram e eu fui para o chuveiro, pensei “deve ser cedo para vir para o duche, mas eu não aguento as dores”, eram muito intensas já, e com um curto espaço entre elas (cerca de 3 minutos, talvez menos), a cada contração eu sentia-me a abrir cada vez mais, era tão notório isso.
Entretanto precisavam da água quente para encher a piscina, tive de sair do duche, ai que difícil que foi! Creio que foi nessa altura que chegou a fotógrafa e a filha… eu estava de gatas na cama a tentar respirar como a parteira me havia indicado, mas estava difícil controlar… vocalizar não conseguia, estava com uma tosse horrível, e estava sem voz… a partir daqui o que me lembro são flashes:

Lembro-me de me agarrar a fotógrafa e apertar-lhe a blusa com as contrações… (sentia-a respirar junto comigo! Risos); lembro-me da parteira tentar ouvir o coração do Theo mas eu não conseguia deitar-me… (estava quase na fase de transição, com muito custo ela lá conseguiu).

Lembro-me de ir para a piscina – lembro-me da luz das velas… de olhar para o altar de bênçãos preparado pelo Nuno; lembro de ouvir a música muito longeeeeeeeeee, como se estivesse noutro planeta (e estava! Risos).
A água soube bem, mas as contrações vinham muito fortes, estava a testar posições e numa delas de barriga para cima, senti uma contração fortíssima que me fez fazer força…

… coisa que “não era suposto” fazer, a parteira imediatamente me “chamou para ela”, e me orientou com a respiração para não fazer força – Segundo ela nós não precisamos de fazer força, isso faz com que o bebé nasça com trauma e tem o risco de rasgar o períneo, não há necessidade disso – eu fiquei virada para ela, olhos nos olhos, não sei explicar, mas foi como se ela entrasse dentro de mim naquele momento e comecei a respirar junto com ela, senti o carinho que fazia na minha cabeça o que me transmitiu segurança e paz, e comecei a controlar tudo o que estava a sentir.
Joguei os dedos dentro da minha vagina e senti a cabecinha do meu bebé a descer devagarinho… e o círculo de fogo… e a cabeça descia mais e “ppc” – nasceu a cabecinha!
Fiz festinhas e só dizia “a cabeça, estou a sentir a cabeça!”, o meu estado nesse momento… não sei bem explicar, era um misto de euforia, com ansiedade, com curiosidade. E senti dentro de mim os pezinhos mexer, senti-o virar… foi então que saíram os ombros, muito lentamente… e instintivamente (nem sei bem como, nem porquê) levei a mão ao pescoço dele e tirei uma circular do cordão umbilical, e depois saiu o resto do corpo…

wowwww! foi… aiiiiiiiii!

Como diria a Nana fodasticooooooooooooooo!!! (desculpem o palavrão, mas foi bem isso!).

Comecei a rir, sentei-me para trás, e esperei pelos reflexos dele, como a parteira me havia orientado.
Primeiro abriu os olhinhos, depois mexeu os pezinhos, como se quisesse nadar e puxei a sua cabecinha para fora de água… mágico!… A sua transição para este mundo foi muito serena e respeitada, ainda nadou um pouco dentro de água… e nisto sou surpreendida pela chegada de uma amiga (que não esperava que viesse pois iria trabalhar nessa manhã) e foi tão bom te-la ali, mesmo que por um só instante! (Obrigada pelo apoio, pelo carinho, pela paz… obrigada!) E logo depois chegou a minha irmãzinha do coração e família, e de repente, começo a ouvir uma música, que não vinha do computador, e olho para trás… tinha uma fada a tocar a sua harpa!!

Oooooh as minhas amigas! Não estava mesmo à espera, mas foi assim! Foi tão mágico poder ouvir harpa nos primeiros minutos de vida do Theo… que presentaoooo!

Os manos entraram na piscina e contemplaram aquele cenário lindo… puderam tocar no maninho nos primeiros minutos de vida, aliás eles viram-no nascer! (à excepção do Gabriel que estava a dormir, mas que logo que acordou ficou fascinado com o que se passava na sala).
A Camila estava deliciada, o pai brilhava com este momento – tão lindo e tão diferente dos partos comuns em meio hospitalar frio, este foi quentinho, no nosso aconchego, no nosso ninho com as nossas coisas e cheiros, com a nossa família reunida.
Entretanto chegou a minha mãe, foi maravilhoso!

A placenta nasceu 1h e uns minutos depois e logo o cordão foi cortado pelo pai, fomos para a nossa caminha, no nosso quarto, enquanto um banho de ervas estava a ser preparado para mim…
Chegaram mais irmãs, algumas de longe… que mal ouviram a minha chamada se puseram a caminho do Algarve… (uma das Caldas da Rainha! Só uma irmã de verdade para fazer uma coisa destas!).
Estiveram comigo a contemplar aquele momento delicioso (e fizeram-me uma sopa deliciosa! Obrigada… adoro-vos!), e fui então para o meu banho de ervas preparado pela parteira e doula.

Ahhh, que delíciaaaaaaa! E logo o Theo também entrou, e desfrutou junto com a mamã daquele banho delicioso.

E pronto, foi assim o meu tão sonhado parto domiciliar, um muito obrigada a todos os que fizeram este momento possível, jamais irei esquecer!
Grata universo por me surpreenderes, grata a quem torceu por este momento, quem me apoiou nas minhas decisões, (mesmo não as achando as mais corretas) mas que estiveram lá, de back up, caso eu precisasse, muito obrigada!

O Theo  veio ao mundo  com 3950g 51cm no dia 18 de Fevereiro 2015, rodeado de muito amor!

E agora posso dizer “CONSEGUIMOSSSSSSSSS O NOSSO PARTO DOMICILIAR!”

~ Ana Patrocínio

(Imagem de Sandra e Raquel Lobo)


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.