Entrevista com Brenda Pinto e Daniel Ponce Entrevista

A Brenda e o Daniel são um jovem casal que viveu o parto na água em Portugal, a 3.07.15 nasceu o seu bebé, em casa, com a assistência de enfermeiro parteiro e doula.

Quem são a Brenda e o Daniel? Contem um pouco da vossa história pessoal.

Brenda: Sou brasileira, do interior de Fortaleza, tenho 24 anos, nascida e crescida lá. Quando decidi estudar fui para a capital, mas percebi que não era a vida que queria para mim e voltei a Fortaleza.

Daniel: Tenho 24 anos, nasci em S. Paulo, no Brasil, e vim para Portugal quando os meus pais decidiram abrir aqui um negócio. Voltei a reconectar-me com as minhas raízes brasileiras quando voltei e decidi, juntamente com outras pessoas, formar uma ONG. Foi lá que conheci a Brenda.

Em que momento tiveram conhecimento do Parto na água? Aqui em Portugal foi fácil encontrar esta opção de parto?

Brenda: Enquanto casal ganhámos uma consciência muito maior do tipo de vida e da forma que queríamos viver.
Casámos, e quando engravidámos, naturalmente a vontade foi de ter um parto mais humanizado. Isto porque o parto no Brasil, no sistema hospitalar público e também um pouco no privado, é um tema polémico. Praticamente não é dada a opção de parir de forma natural. A cesariana é quase obrigatória, devido a determinados lobbies com interesses financeiros, e no fundo tornou-se um negócio. O parto em casa já não é visto como “natural”. Depois, na minha família, os trabalhos de parto são associados a um conceito de dor e sofrimento que eu não queria ter.
Eu cresci com esse conceito da dor, tanto que não queria ter filhos, porque vivia assustada com esse momento. Só que eu acreditei ser capaz de parir com uma noção de dor diferente, eu sentia isso em mim, eu pensava…

“Eu sou uma mulher, eu vou ser capaz de parir da forma como eu sei ser melhor para mim. E sem dor.”

… e sabia que queria ter um parto natural, só ainda não sabia que ia ser na água! (risos)

Daniel: Quando a Brenda estava grávida de um mês e meio viemos a Portugal em lua-de-mel e já sabíamos que queríamos ter um parto natural, mas que para já seria no hospital. Entretanto tivemos de voltar ao Brasil e começámos a procurar doulas no site da Associação, e as pessoas começaram a enviar-nos imensa informação, o que foi muito bom! Fizemos algumas entrevistas por skype… Até que um dia no facebook, “tropeçámos” num post de uma amiga sobre partos na água, nesse momento sentimos que era o que procurávamos.
Sem dúvida que a Internet nos ajudo bastante. Mas ainda víamos o parto na água como um sonho distante, porque isso implicaria encontrar uma casa para ter o parto, e conseguir apoio financeiro, que naquele momento não tínhamos. Felizmente confiámos, os apoios surgiram e tudo aconteceu como tinha de ser.
Aos sete meses de gravidez estávamos de volta a Portugal e sabendo que o parto na água ia ser possível.
Começámos por procurar uma parteira, a informação foi muito fácil graças às redes sociais, e depois de algumas tentativas encontrámos a equipa que queríamos!

Esta decisão do parto na água influenciou de alguma forma a vivência da gravidez?

Brenda: Aos sete meses, já em Portugal, encontrámos a doula Márcia Sampaio, e sabíamos que era ela, foi como amor à primeira vista! E foi também com ela que a nossa consciência sobre o parto se alargou mais ainda. Foi aí que começámos por mudar a alimentação, a utilizar remédios naturais… No Brasil eu já estaria com a cesariana marcada, e já estaria tudo formatado como “tinha que ser”, e eu sabia que não era essa a forma natural de ter o bebé.

Acham necessário o acompanhamento de uma Doula?

Daniel: Sem dúvida! E de parteira também!

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Brenda: Quando voltei ao Brasil, deixei de ir ao meu médico de família que me tinha marcado a cesariana, e fui apenas acompanhada por uma ginecologista em Fortaleza, uma mulher linda e maravilhosa, e a única que faz partos na água no Nordeste brasileiro inteiro. Ela nos ajudou muito e recomendou o parteiro António Ferreira, do Hospital de Coimbra. Eu, pessoalmente tinha preferência por uma mulher, mas quando conhecemos o António também soubemos que “tinha” de ser ele!

Como reagiu a família? Houve resistências?

Os meus pais de início ficaram muito hesitantes com esta nossa decisão, achando que era uma loucura e que parto é para acontecer no hospital! Mas o parteiro foi a nossa casa, e explicou o processo aos meus pais, e à medida que a informação nos ia chegando conseguimos que eles compreendessem que esta nossa escolha, além de ser um desejo nosso muito forte, era segura. Eles acabaram por confiar em nós. (Daniel)

Podem descrever de uma forma resumida como foi o parto para vocês ?

Brenda: Quase não há palavras, sabemos que tudo deu certo como tinha de dar. E até foi um pouco atribulado! (risos)

O trabalho de parto começou era perto da meia noite, mas ficámos tranquilos, pois achávamos que ainda ia faltar muito tempo. Eu fui tomar duche e fazer os exercícios na bola para ver se passavam as dores, mas nada… Até que o António veio a meio da noite de Coimbra e a Márcia também… As dores a certa altura eram muitas, e percebemos que o bebé estava de cabeça para baixo.

Mas quando a piscina chegou, as dores acalmaram e foi mais tranquilo.

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Eu tinha dito ao António que não queria o teste do “toque”, no entanto ele achou que as dores eram muitas e perguntou-me se eu queria que verificasse como estava a dilatação. Nesse momento eu disse que sim, e já estava com dez dedos de dilatação!

A minha irmã, que tinha ficado encarregue da piscina, teve de vir também a meio da noite…
Entretanto percebemos que a torneira não encaixava na mangueira, e tínhamos a irmã e a mãe a encherem a banheira com panelas de água à temperatura certa… foi um parto bem colectivo! – risos – (Daniel)

Durante todo o parto, à medida que tudo foi acontecendo sentimos que ainda estávamos a aprender muito sobre o processo.

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Brenda: A partir da piscina foi tudo muito rápido, apesar de eu me ter sentido completamente “fora” daquela realidade, na tal zona que eu chamo de “Partolândia”. Quando senti o Pedro (o meu filho) a sair foi como se tivesse uma sensação de fogo no meu corpo. Eram 8e45 da manhã quando o Pedro nasceu, e assim que saiu começou logo a nadar, foi lindo!

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Daniel: Foi como um sonho, como se fosse outra realidade.

Expectativas vossas de parto que não foram cumpridas?

Daniel: Houve expectativas sim, e como tudo houve imprevistos! Achávamos que o bébé ia sair numa determinada posição, e que os exercícios que tínhamos treinado iam dar certo e evitar as dores…

Brenda: Sim, houve uma expectativa, que espero alcançar no próximo parto, que é poder ver a minha placenta!
Apesar disso tudo, sabemos que tudo aconteceu como tinha de ser. Nós acreditamos que as dores que uma mulher sente no parto, são as dores de todas as mulheres pertencentes ao seu passado.

Quais acharam ser as maiores dificuldades?

Daniel: Convencer” os pais! Mas mesmo com todas as dificuldades, acreditamos que quando decidimos colocar tudo nas mãos de Deus, tudo corre da forma que tem de correr.

Tu, Daniel, estiveste na banheira com a Brenda?

Daniel: Não. Nós queríamos, mas no meio do processo, com as dores, e com a intensidade, a Brenda quis ficar sozinha dentro da piscina… é muito engraçado ver como planeamos as coisas de uma forma, mas termina saindo de outra.

Um momento forte que tenha ficado marcado na vossa memória?

Brenda: Houve um momento em que o Pedro começou a sair e de repente “parou”, e ficou com meia cabeça de fora! Nesse momento, eu fiquei do género: “E agora o que é que eu faço?” Fazia-lhe festinhas na cabeça e sentia o cabelo dele, foi muito bom! (risos)
Mas sem dúvida o momento mais marcante foi quando ele saiu, nadou e quando peguei nele e ele veio directo para a mama. Foi esse O momento!

Daniel: Foi ter percebido que tinha o meu filho ali, naquele momento de fora da barriga da mãe… aí começou a cair-me a ficha…(risos) e de repente comecei a pensar em como tudo aconteceu, todo o processo, e que de repente o meu filho estava ali! Foi esse momento que me impactou muito mesmo!

E para ti Brenda, como foi teres o Daniel tão próximo de ti, e tão presente, no momento do nascimento do vosso primeiro filho?

Brenda: Sentia-me muito segura mesmo! Ele esteve sempre lá! Esteve o tempo todo a segurar-me na mão, a dar-me festinhas e carinho na cabeça, e a dizer:

“Vai dar tudo certo.”
“Vai correr tudo bem!”

Sabendo que a monitorização é diferente (descontínua) neste tipo de parto como é que geriram a vossa confiança e segurança relativamente à mãe e ao bebé?

Daniel: Nós tínhamos o plano B que era o Hospital de Cascais que fica a cerca de dez minutos de casa. No caso de haver alguma dúvida o plano B seria posto em acção. No entanto, o António deu-nos imensa segurança porque parecia que trazia o hospital dentro do carro! Apesar disso estávamos confiantes, que tudo ia dar certo, e é um pouco assim que vivemos a nossa vida, e tudo resulta!

Gostávamos muito que houvesse casas de parto associadas ao sistema hospitalar público, como existe em Inglaterra e na Holanda (que parecem autênticos SPA), para haver uma opção intermédia, para quem não quer parir em casa, nem no hospital. (Daniel)

Têm no vosso círculo de amigos alguém que tenha passado pela mesma experiência? Como reagem os amigos quando partilham o que viveram? Existe informação e conhecimento deste tipo de parto natural/ na água/ humanizado?

Daniel: Não temos amigos nenhuns com a mesma experiência. O que foi incrível, foi quando, aos três meses de idade do Pedro, voltámos a Fortaleza e vimos como o nosso parto impactou muito as pessoas lá, quase que saiu no jornal! Houve até mulheres com cesarianas marcadas, que depois de ouvir o nosso testemunho desmarcaram e conseguiram ter um parto natural!

Brenda: Quando estivemos lá tentei falar com amigas minhas que pensam ser mães e tentei passar-lhes a mensagem desta minha experiência, e assim conseguir ajudar outras mulheres a sair de um possível trauma e sofrimento. Talvez daí a minha vontade de ser Doula para poder passar esta mensagem.

De que forma o parto na água vos influenciou o processo pós-parto? Na amamentação por exemplo, ou nas necessidades do bebé?

Nós acreditamos que a forma como o Pedro nasceu está muito ligada aos nossos ancestrais, sendo uma forma mais orgânica, mais natural, mais pura de vir ao mundo. Logo queremos estender essa energia e vibração na forma como o estamos a educar. (Brenda)

Brenda: Na amamentação sem dúvida! Eu amamento o meu filho, esteja de pé ou sentada na rua, é meu filho, e eu vou dar-lhe de comer quando ele precisa, vejo isso como um processo muito natural.

Em algum momento da vossa decisão hesitaram ou se sentiram inseguros nesta opção?

Brenda: Eu não me lembro muito bem dessa hesitação, porque estava a sentir-me muito fora da realidade. (risos) Mas sei, e até a Márcia confirmou, que houve um momento que eu lhe disse que sentia que não ia conseguir. Mas ela incentivou-me muito, dizendo-me que sim, que eu era uma guerreira! E eu apercebi-me que toda aquela equipa que tinha do meu lado, e o facto de estar em casa, me acalmou muito e me trouxe muita segurança!

Daniel: Sim, para mim houve, sem dúvida, e faz parte!

E tu Daniel, enquanto homem, como vês esse papel de Pai durante o trabalho de parto, estando “de fora”? Qual achas ser a melhor forma de chegar à mulher num momento destes?

Daniel: Achei engraçado que, com todo este processo do parto natural, fiquei a perceber o papel activo que o homem tem no parto. Que para mim até há pouco tempo era zero, ou seja, eu achava o homem é que coloca a semente e a mulher é que tem de ter o parto, e fazer tudo (e acredito que mais pessoas tenham essa ideia). No Brasil por exemplo, não é permitida a entrada do homem na sala de parto, mas não faz sentido, é um trabalho em equipa! E sabendo que eu sou quem dá o reforço da oxitocina à mulher, logo também estou completamente envolvido, e foi muito lindo participar disso, e hoje digo que o homem é uma peça importantíssima no trabalho de parto!

– O que mudavam no vosso parto na água?
– Nada!

E a nível pessoal, o que sentem que o parto na água possa ter mudado em vocês?

Brenda: É como se eu sentisse mais amor pelo meu filho. Sim, o facto de o ter tido com esse conceito de dor diferente, como eu queria, e vê-lo a sair de dentro de mim daquela forma, parece que nos aproximou mais ainda! E a forma como o estamos a educar também, sim. Mudou-me totalmente enquanto ser humano, e sinto que estamos a caminhar para o que éramos enquanto seres humanos, de volta às origens. Enquanto casal, a nossa relação está muito melhor desde que o Pedro nasceu, gerou-se uma grande cumplicidade.

Daniel: Deu-nos sem dúvida uma abertura maior. O eco do que se gerou depois do parto continua a ressoar entre nós, temos uma consciência mais aberta sobre a vida, é incrível! Tem muita coisa que começa a fazer sentido agora, uma auto-descoberta, sempre a aprender!
A mim, ensinou-me muito sobre os meus limites. A capacidade de cansaço, algum stress… Descobri quem eu realmente sou, e até onde aguento. Até as decisões que tomámos relativamente à educação dele, decidimos não lhe dar a chucha, nem biberão, nem doces, por exemplo… são decisões que pesam para nós, que podem complicar por um lado, mas sentimos que estamos no nosso caminho verdadeiro, e o Pedro está a colher mais frutos com essa educação.

Brenda: São decisões por vezes desgastantes, porque nós não vimos com um manual de instruções, não é? São decisões que nos testam a nós, aos nossos limites. E depois tem também os palpites das pessoas, díficeis de gerir.

Ficou o bichinho para ter mais um filho na água?

Brenda: Ficou sim! Numa próxima queremos só tentar ficar mais tempo na água com o bebé e podermos ver a placenta. Agora também ainda somos novos, e com o tempo ganharemos mais experiência.

Depois da vossa experiência, quais são para vocês os obstáculos em ver o parto na água no sistema público hospitalar português?

Brenda: Comparando com o Brasil em Portugal está tudo óptimo! (risos).
Penso que de forma geral, perdemos todos muito a essência nesta era da evolução e do capitalismo, esse é o maior obstáculo.

Daniel: Seria muito importante que Portugal pudesse se inspirar noutros países da Europa, no que toca ao parto humanizado, e na água. No Brasil ainda existe muita alienação, e aqui os portugueses afastaram-se muito das suas origens, porque até há relativamente pouco tempo havia partos em casa, mesmo no interior de Portugal. Mas sem dúvida que foi o povo que se afastou das suas origens. Hoje em dia, por exemplo, a taxa de mulheres que amamenta em público é baixíssima, quando é uma necessidade do bebé, e uma resposta da mãe completamente natural.

Brenda: Cada vez mais tem mulheres que não podem amamentar ou não querem. As mudanças estão a acontecer, mas o povo e a política têm de mudar!

Uma mensagem que possam passar a futuros pais sobre o parto na água?

Para as mulheres que estão grávidas e as que querem engravidar – esta é a melhor experiência para a mulher! A mulher é como uma “leoa”, está dentro da sua essência, do gene dela, parir e ver um bebé sair dentro da sua vagina. É necessário para o bebé, para nós mulheres, para conseguirmos curar as nossas dores.
Dizem que as dores que sentimos são as dores do nosso passado. (Brenda)

É necessária a presença do homem, de poder estar presente, de dar amor, carinho, de ter a capacidade de dar a oxitocina à mulher. Qualquer homem que não se permita passar por isso está a perder muito! E a mulher deve entender que ela é capaz e consegue!
Enquanto pai eu quero passar a mensagem aos homens para que tenham a consciência de quão é importante que eles estejam envolvidos neste processo, que tem tudo para dar certo!
E a importância da presença do pai é igual que a mãe. Desde o momento da gravidez ao resto da vida! Ser pai é como ser mãe! (Daniel)

Nós estamos de lágrimas nos olhos com o testemunho deste casal, com a lição de vida, com a inspiração de consciência na dimensão da parentalidade; com a segurança nas suas palavras; com a capacidade de visão do que é o parto, para que serve, todo o seu poder e toda a sua dimensão – empoderadora, transformadora, sagrada!

Muito gratas à Brenda e ao Daniel, muito gratas ao bebé Pedro!
Já disse hoje que AMAMOS relatos de parto?! UAU! De coração cheio!


Mulher, Amiga, Filha, Companheira, Cozinheira. Acredita que o Universo está dentro de cada um de nós, e que resgatando os rituais dos nossos ancestrais, seremos mais Unos com a nossa Grande Mãe Terra. A Joana , faz por isso um bocadinho todos os dias.