Mulheres sabem parir e bebés sabem nascer Coluna Humaniza-te

Nesta segunda feira (20/ 6) o Conselho Federal de Medicina, no Brasil, anunciou uma nova resolução que determina que a cirurgia cesariana só pode ser realizada a partir de 39 semanas (em caso de gestação normal obviamente). Antes era considerado, sem evidências, que era segura até antes, nas 37 semanas. Esta notícia é um ótimo sinal, estamos caminhando para uma prática médica mais baseada em evidências, e consequentemente para maior segurança.

Logo que passamos as 37 semanas de gestação ouvimos muitas vezes, “O bebé já pode sair, agora já só está a ganhar peso”.
Será verdade?

Afinal quais são os sinais de maturação fetal?

Não se sabe exactamente o que provoca o início do parto, as evidências que tínhamos até há pouco indicavam que o processo é iniciado quando o hipotálamo do feto alcança um certo grau de maturação, o que estimula a hipófise fetal e liberta hormonas que estimulam a placenta da mãe a secretar mais prostaglandinas (hormona que promove a contração da musculatura lisa do útero).
Estudos ainda mais recentes indicam que são os pulmões do bebé que logo que atingem a maturação ideal enviam a mensagem para o corpo da mãe, “estou pronto”. Em qualquer um dos casos é sempre o bebé que comunica com o corpo da mãe, que então cria um verdadeiro cocktail hormonal que desencadeia as contrações, a dilatação, e o trabalho de parto em si, e depois do parto a lactação. Verdadeiro trabalho de equipa não é?

Porque devemos esperar estes “sinais”?

Toda a interferência que for feita no fluxo natural do desenrolar de uma gravidez e/ ou parto vai trazer uma consequência. Uma consequência não necessariamente desejada e na verdade de implicações que não são conhecidas em profundidade.
O que temos a certeza hoje, é que quanto menos interferência houver, melhor; quanto mais natural for, melhor.

Sabemos que hormonas como a oxitocina e o cortisol, libertadas no trabalho de parto, asseguram a maturidade fetal e facilitam a saída do bebé.

Tudo no processo de parto tem o seu papel e a mestria com que a Mãe Natureza ligou todas as fases é mesmo insubstituível!

No parto vaginal, a compressão que acontece naturalmente na passagem do bebé pelo canal de parto, por exemplo, auxilia na eliminação do líquido amniótico, e ativa o seu sistema respiratório, além de trazer também diversos benefícios para a mãe. O parto vaginal permite ao bebé um início de vida com um sistema imunitário forte, dado que as secreções naturais da vagina da mãe oferecem uma colonização bacteriana saudável dos seus tecidos (está provado que a primeira bactéria com que o organismo do bebé entra em contacto é determinante na sua saúde futura. Sugerimos sobre o tema o documentário Microbirth).

Porquê é tão importante considerarmos o mínimo de interferência no nascimento?

Parafraseando a palestra que Dr. Michel Odent proferiu no Seminário BH pelo Parto Normal, em 2008:

Graças a um braço da epidemiologia, temos suficientes dados seguros que sugerem que a forma como nós nascemos tem consequências duradouras por toda a vida. Essa perspectiva sugere que precisamos aprender a pensar a longo prazo, pois até agora nós só pensamos a curto prazo. Os resultados nos fazem pensar que a forma como a mulher deu à luz pode influenciar a qualidade e a duração da amamentação, por exemplo. (Michel Odent)

E podemos pensar que este tema não é fulcral, afinal é “só leite”, dizem muitos, mas será assim?
Quanto do processo de amamentação é muito mais do que nutrição simples, mas antes um processo de amor, de colo, de afectividade, de sensação de segurança, de transmissão de carinho e criação de laços? E que implicações tem isso no futuro dessa bebé, e da sua relação com a sua mãe?

No contexto científico atual pode dizer-se que a mulher foi programada para libertar um cocktail de “hormonas do amor” quando está em trabalho de parto, e que estas são necessárias. Mas hoje a maioria das mulheres tem seus bebés sem depender da libertação destas hormonas, muitas por fazerem cesariana, e outras, entre as que dão à luz por parto vaginal, por estarem limitadas a parir em ambientes desapropriados para o parto (está provado que luz forte, ruído, falta de privacidade, de conforto ou apoio emocional, entre outros factores, são inibidores de um progresso e desenvolvimento de trabalho de parto natural).
Quando esta libertação natural de hormonas de parto não acontece é necessária a administração de medicamentos que as substituem: oxitocina sintética no soro; analgesia peridural para substituir as endorfinas; medicamentos para eliminar a placenta… entre outros. Há muitos desenvolvimentos possíveis, mas são quase sempre uma catadupa de intervenções.
Todos estes procedimentos bloqueiam a liberação das hormonas naturais, e estas são insubstituíveis.

As “hormonas do amor” são chamadas assim não por acaso, e esse “cocktail” talvez deva o seu nome a esse estado embriagado de amor que a mãe atinge logo que vê, que toca, que cheira o seu bebé. É não só prazeiroso mas natural, e necessário para a sobrevivência da espécie, esse apaixonar imediato, mútuo, entre a mãe e o bebé. A criação de laços, tão necessária para o nosso equilíbrio emocional como seres humanos, e que nos acompanha por toda a nossa vida, depende disso!

Estamos a viver um tempo, hoje, em que o número de mulheres que dão à luz sem estes “auxiliadores” hormonais sintéticos é quase nulo.
Isso é uma situação sem precedentes. Precisamos questionar-nos sobre isso mesmo em termos da nossa civilização, não agora, não para esse bebé, ou essa mulher, mas pensando…

O que vai acontecer daqui a três ou quatro gerações se continuarmos nessa direção?

Boa semana!

 

(imagem de Angela Gallo)


Mãe de Lenin e Manuella, Doula, Terapeuta Corporal, Instrutora de Yoga com foco em Gestantes e Crianças, da Associação Internacional de Ecologia Feminina,desenvolve e aplica projetos na área, workshops e atendimentos individuais desde 2008.