[Relato de parto #18] Isabel Loureiro Relatos

Our underwater love!

É só ver nos vários blogs de mamãs que há pela net, na sua maioria ingleses ou norte-americanos, para ler histórias de partos. Há para todos os gostos: os holísticos; os “orgásmicos”; os naturais; os planeados; os em casa; os nos hospitais “amigos” e não tão “amigos”; os não assistidos e os assistidos em directo no YouTube… É escolher, senhores e senhoras, é escolher!

Os relatos dos partos são como histórias de guerra: cada “soldado” quer partilhar aquilo pelo que passou, descrito ao mais ínfimo pormenor, quanto mais sangrento e fantástico melhor. E quem está grávida, ao ler estes relatos, seja qual for o “tipo de parto”, tem um de dois pensamentos: quem me dera que o meu seja assim OU espero bem que o meu não seja assim.

Acredito, no entanto, que os relatos servem, se para mais nada, para uma coisa importante: para que as mulheres percebam que os partos não têm de necessariamente ser como aparecem nos filmes/ séries/ novelas e que, sim, nós podemos fazer escolhas e tomar decisões acerca do nosso parto, do nosso corpo e do do nosso filho. Cada vez mais há que respeitar o que nós, enquanto mães e mulheres queremos, nem que para isso seja necessário mudar de obstetra várias vezes até encontrar o que nos aceita, acolhe e compreende, ou mandar os “especialistas” às urtigas e ficar pelo nosso médico de família, que é para isso que ele serve. Já agora, sabem que é obrigatório o Centro de Saúde onde estamos inscritos nos arranjar médico de família quando estamos grávidas? Pois é. Se não têm médico de família, por norma passam a ter, a não ser que o Centro funcione mesmo, mesmo, mesmo mal!

Posto isto, esta é a história do início da vida extra-uterina do Gil. Depois de um primeiro parto, enfim, “o melhor que se pôde arranjar” no Hospital do Barreiro, queríamos muito que este bebé nascesse de forma… melhor, a nosso ver. Preparamo-nos para o ter em Setúbal, de preferência na água. Não era essencial, não era obrigatório e estávamos prontos a aceitar o que fosse necessário para que ele nascesse em segurança… Mas se pudesse ser na água…

Preparámos um Plano de Parto para o que desse e viesse e aguardámos, pacientemente, que o dia chegasse.

Tinha 40 semanas e 3 dias. No feriado do 25 de Abril, mesmo com o tempo cinzento que estava, resolvemos ir dar um passeio até à praia da Lagoa de Albufeira. Estava um vento fortíssimo mas isso não impediu o Gabriel, o Bruno e nós os dois de caminhar pelo areal todo, desde a Lagoa até ao mar, ver o pessoal do surf, do Kitesurf e da amêijoa a curtir o “dia da Liberdade”.

Terá sido da caminhada? Terá sido simplesmente porque chegou a hora e pronto? Não sei nem nunca vou saber e, sinceramente, interessa??

Por volta das 3:30 da manhã acordei com contracções um “bocadinho” mais dolorosas que o normal. Esperei deitadita para ver se era só uma ou se havia algum ritmo na coisa. Havia. Deitada era impossível, por isso levantei-me e andei pela casa a fazer isto e aquilo. Só pensava que era óptimo ter começado, que finalmente iria ver o novo “rebento”, mas que, por favor, tinha de dar tempo para despachar o Gabriel e ele ir para a escola! E deu!

Pelas 6:30 estava sentada na cama, respirando quando as contracções vinham (de 4 em 4 min) e imaginando que eram ondas do mar que cada vez que vinham traziam mais para perto o meu bebé que estava ali mesmo, na linha do horizonte.

Entre uma e outra, ia dormitando. Nunca pensei que desse para dormir de 4 minutos intercalados com contracções, mas dá até para sonhar!
O despertador do Bruno tocou e antes que ele voltasse a adormecer, atirei-lhe a frase: “Amor, boas notícias! Hoje não vais trabalhar!”. Ele quase ficou sentado na cama! Perguntou quando tinham rebentado as águas (não tinham) e de quanto em quanto tempo estavam. “Relaxa”, disse eu. Dá tempo para tudo!

Não sei como eu sabia, mas sabia que dava. Ele despachou o Gabriel e levou-o para a escola; acabou de tratar das malas, ajudou-me a vestir e calçar (como 4 minutos passam tão depressa quando queremos calçar meias e descer escadas) e fomos para o carro.

– Dá tempo para chegar a Setúbal?” perguntou ele.
– Dá sim – respondo eu – Descansa que não vou parir o miúdo no carro.

Quando chegámos a Setúbal, a urgência de obstetrícia está um caos. Tudo porque os Srs Drs acham por bem mandar as grávidas àquele serviço fazer CTG (eles só têm um aparelho disponível). Claro que passei à frente mas, horror dos horrores, a médica que me admite e examina diz que tenho o colo do útero permeável mas fechado!

Fechado?! Como fechado?? Com ESTAS contracções?? A mulher está xéxé, só pode.

Isto, claro, são palavras ditas na minha cabeça, porque para fora só respondo às perguntas que me fazem, e respiro, respiro, respiro (olha as aulas de Yoga a render aqui!!). A Enf. Margarida traça um quadro desanimador: parto na água, com cesariana anterior, bebé no percentil 75-90 às 32 semanas e colo fechado?? “Querida, prepare-se para desistir dessa ideia!”. Sim, claro, estamos preparados para tudo, respondo eu. E estava! Mas também sou pessoa de ideias fixas.

CTG durante 20 min para ver a contractabilidade (forte) e o ritmo cardiaco fetal (óptimo). A Enf. Margarida passa-me para a Enf. Sofia me fazer a “entrevista de internamento” a qual eu suporto (respirando, onda que vai e que vem, bebé quase na rebentação) até que uma contracção me faz sentir vontade de fazer força. Bolas! JÁ?? Digo-lhe que com estas contracções, quando foi do Gabriel, estava com 7 cm de dilatação. É impossível ter o colo fechado ainda! Ela (uma super querida) diz que já vamos ver isso, que estou a fazer tudo muito bem e que a papelada está quase a terminar.

Termina, passo para a “sala de dilatação” (enquanto o Bruno sua cá fora ao pé das outras grávidas todas). Novo toque: bolsa intacta e proeminente, cabeça encaixada e 7 cm de dilatação! A Enf. Sofia faz um sorriso de orelha a orelha e pergunta à Margarida “Posso dizer-lhes para começar a encher a banheira???”. Ela responde “Podes, mais que não seja para o resto da dilatação!”. Pouco crente, a Enf. Margarida. 🙂

Cadeira de rodas? Não obrigada, vou devagar mas vou a caminhar. Afinal é só um corredor… e muitas contracções! “Você é um exemplo para estas grávidas” diz a enfermeira, alto e em bom som, “quase com a dilatação completa e está aqui a portar-se lindamente! Vejam bem, senhoras! Aprendam!”. De facto, o que eu mais queria era servir de “exemplo” naquela altura… Certo! 😛

Bloco de partos. Instalada na Sala de parto “natural”: WC com duche, bola de partos e marquesa que se transforma em “cadeira de partos”. Bruno sai para pôr moedas no parquímetro. “Despacha-te ou já não chegas a tempo!!” A fase de transição é mesmo lixada, coitado dele! Mas chegou a tempo.

Enf. Vitor vem verificar a situação. Ok, a banheira está a encher, por isso CTG para confirmar se tá tudo ok e se temos tempo. “Quer a bola?”. Oh, SIM!! Maravilhosa bola!! Ossos da bacia gritam de alívio, articulações das pernas relaxam, onda vai, onda vem… bebé na rebentação.

Começo a sentir vontade de fazer força a cada “onda” que vem. Embora conscientemente não faça força, controlando com respiração, o próprio corpo age sozinho. Enf. Celeste (a “minha” enf. para o parto) diz que é o corpo a ajudar o bebé a descer, a encaixar. Diz que a banheira está quase cheia de água (eu ouço-a a correr na sala ao lado e soube mais tarde que até baldes usaram para conseguir encher o mínimo para nós entrarmos). Será também o som da água a cair que faz com que as coisas acelerem? Não sei. Sinto que as Enfs Sofia e Celeste estão um pouco aflitas com a questão da água, querem que a banheira encha e depressa. Quero dizer-lhes que não faz mal, que há tempo, mas a verdade é que as contracções estão cada vez mais próximas e a vontade de fazer força é cada vez maior. Já não consigo resistir a gritar quando a vontade vem e é mesmo com muita força mental que me obrigo a relaxar e não fazer força JÁ!

Finalmente o Enf. Vitor entra e diz que está tudo pronto. Pergunta se me pode tocar para perceber como estão as coisas e, vendo que está tudo ok, vamos para a banheira, já não para fazer a dilatação mas para o parto. Percebo isso quando ele diz às enfermeiras para trazerem tudo o que é necessário. Acho que elas ainda estavam a pensar que a dilatação não estava completa.

Entrar dentro de água… como descrever a sensação?? Água quente faz com que tudo derreta e evapore: as articulações, a bacia, o cóccix, os músculos.
Bliss, pure bliss!
Relaxo, e no segundo seguinte a bolsa rompe num jacto de água amarelada que se mistura com a outra. Só me lembro de pensar “não há mecónio. Boa!”

Dou-me conta que alguém fala em fotos e vídeo, mas eu estou na “partolândia”, só estou segura da presença do Bruno atrás de mim (fora de água), das contracções (vagas de 5 m, bebé quase na areia) e do chato do enfermeiro que me vai dando indicações, do tipo “Relaxa. Respira fundo agora. Usa a força lá em baixo. Queres mudar de posição?”. Mudo. Fico de joelhos com os braços apoiados no Bruno, mas não dá. Dói mais, é mais desconfortável, o bebé não quer. Mais duas contracções volto a sentar com as pernas esticadas e sinto o “anel de fogo”. A cabeça chegou “à porta”; entrámos na reta final.

“Ok, this is it.”
Penso que está quase a acabar, vou ver o meu puto mesmo em breve, que tenho de fazer força mas não muita para não rasgar, que tenho de fazer forcinha forcinha e respirar e ele faz o resto, que foi para isto que nos preparámos, eu e ele.
Aqui vamos nós!!!

A cabeça sai! Sensação gloriosa!!! Toco no cabelito dele, sinto-o a mexer dentro de mim, a virar, a preparar-se para sair todo. Sei que não há circulares, tudo está bem com o ritmo cardíaco dele. É agora! Mais uma! Só mais uma com toda a força!

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Soube depois que entrámos na banheira por volta das 12h. Ele nasceu às 12:39. Tinha o cordão muito curto: não podia subir mais que o nível do meu estômago ou sentia-o puxar “lá dentro”.
Mal chorou. Tinha os olhos muito abertos, umas bochechas deliciosas e um cheiro fantástico, indescritível. De todas as sensações acho que é o cheiro que mais me fica na memória. O cheiro do meu filho nascido na água. Decidimos o nome: bonacheirão, bem disposto e chegado através da água. Gil.

Só quando foi altura de cortar o cordão (pelo Bruno) é que “acordei” e vi quem estava à minha volta. Ficámos dentro de água mais uns minutos, mas eu queria pô-lo à mama e decidimos sair. Regressei à cadeira de parto para sair a placenta e fazer a verificação “lá em baixo”. 4 pontos. Depois dos 30 agrafos da cesariana do Gabriel, 4 pontitos?? É na boa!

O Bruno vestiu-o. Foi quando chorou a sério pela primeira vez. Por mim tinha ficado só com a fraldita, mas há coisas que nem nos partos naturais o pessoal médico ainda aceita. Mesmo com ele a receber o meu calor corporal, não deixam de insistir para que os bebés sejam vestidos. Há coisas piores.

Foram ter comigo e pesaram-no. 4,460kg. Ficou toda a gente de boca aberta. Um bebé de termo, com quase 4,5kg, parto normal, natural, depois de uma cesariana e com trabalho de parto de 9 horas?? Acho que ninguém estava à espera que assim fosse.

A não ser nós.

O Gil mamou pela primeira vez talvez com meia hora de vida, ainda meio húmido e com a pele coberta de vérnix. Desde então ainda não meteu mais nada no estômago a não ser o meu leite.

Correu tudo como nós queríamos? Acho que podemos dizer que em 90% sim. Haveria sempre coisas que eu, à distância de 15 dias como agora, procuraria mudar, mas nada que alterasse o resultado final: um parto que me deixou a sentir realizada, satisfeita e muito, muito contente. Claro que, nos bastidores, há sempre coisas que podiam ser melhores ou que se não nos tivéssemos dado conta da sua existência, ficaríamos mais felizes. Mas os bastidores fazem parte dos partos hospitalares e temos de aceitar isso, principalmente quando tudo o resto é tão do nosso agrado.

Como foi possível um trabalho de parto que, de uma hora para a outra, passamos de colo do útero fechado para 7 cm de dilatação? Terá sido má interpretação da médica que me observou primeiro? Terá sido do chá de folha de framboeseira que fui tomando no fim da gravidez que tornou as contracções mais eficazes? Terá sido, como o Bruno diz, pura força de vontade mental? Ou terá sido da quantidade de gente a desejar-me “uma hora pequenina”? Não sei. Sei que não estava à espera que fosse tão rápido mas fiquei contente por ter sido exatamente como foi.

Obrigada às enfermeiras Sofia e Celeste que nos acompanharam e apoiaram e ao enf Vitor Varela por ter sido o mentor deste projeto no Hospital de Setúbal e pelas palavras precisas que foi dizendo e que ajudaram num ou noutro momento.
Aliás, a equipa de enfermagem foi toda cinco estrelas, mais uma vez demonstrando que bastam eles para assistir a partos de baixo risco.
Porque este parto foi mesmo e apenas isso: assistido. Todas as intervenções que não estavam previstas no nosso Plano de Parto foram autorizadas por nós (nós pedimos que assim fosse.
Chama-se consentimento informado) e não fizeram mais que “dar uma mão” quando foi necessário.

Uma nota final para dizer que a Enf. Margarida me veio pedir desculpa no recobro por ter tido um prognostico tão negativista e dar os parabéns pelo parto que tive. Acho que o nosso parto veio reforçar a ideia de que é possível parir bebés grandes com o mínimo de trauma, de forma natural, quer se use ou não a água.

Por mim, depois deste, fico com a ideia que não me importo nada que venha o próximo! Desde que haja água! 😀

~ Isabel Martins Loureiro

A Isabel tem um blogue de Partilhas de quem não quer ser “hiper-pais”, podes ver este relato e mais inspirações aqui: Pais Sem Stress


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.