[Relato de parto #19] Ana e Claudio Relatos

O dia em que eu pari os meus dois filhos

No início do mês de março de 2016 dei à luz os meus dois filhos de madrugada, num parto «expresso» natural na água com a ajuda e o apoio incondicionais da enf. Sónia Rocha e enf. Joana Varela. Contudo, só dei à luz fisicamente a minha filha nessa madrugada. Emocionalmente, porém, tenho a sensação que pari os dois ao mesmo tempo neste parto.

Esta história começa há quase quatro anos… O meu filho, o meu primeiro filho, nasceu há três anos e meio através de uma cesariana em trabalho de parto não desejada e não programada, conduzida de forma autoritária e fria pelo corpo médico de um hospital público.

O motivo? Incompatibilidade feto-pélvica. Por outras palavras, acharam que o meu filho era demasiado grande para passar. Quando contestei a decisão, a médica respondeu peremptoriamente que eu não seria CAPAZ de o fazer nem que estivéssemos ali horas.

Essas palavras, como todas as palavras, gestos e atos que se dirigem às mulheres em trabalho de parto, marcaram-me profundamente, assim como uma série de procedimentos invasivos e pouco respeitadores durante todo o trabalho de parto.

Coincidência ou não, tive um pós-parto difícil, agravado pelo facto de ter um bebé exigente, de difícil conciliação de sono e períodos de choro inconsolável que se prolongaram durante meses.

Olhando para trás, sei que o problema principal foi a ausência de vinculação para com o meu filho, agravado pelo facto de eu ser mãe pela primeira vez, com todas as inseguranças e medos que isso acarreta. Com a amamentação e ajuda a nível emocional, o processo de vinculação (que é como quem diz o amor) estabeleceu-se e os dias e noites tornaram-se mais fáceis. Contudo ficou sempre a sensação de raiva, impotência e incompetência perante aquilo que se passara.

Quando engravidei pela segunda vez, desta vez, de uma menina, passados três anos, a decisão quase imediata foi procurar uma enfermeira-obstetra que me acompanhasse durante a gravidez e parto natural com a qual me identificasse e sentisse segura.

Decidi que não ia voltar a deixar ao acaso a pessoa que estaria comigo na altura do parto. Tinha conhecido brevemente a enf. Sónia Rocha na altura do nascimento do X. e gostei muito da postura e da calma que transmitia. Entrei em contacto com ela e ao longo dos meses e dos encontros que tivemos durante a gestação, sentia sempre muita empatia e segurança.

Olhando para trás, considero que a minha segunda gravidez foi muito mais fisiológica do que a primeira, o que atribuo, em parte, ao facto de já ser mãe, e por outro lado, ao acompanhamento que promove a saúde e não a patologia da enf. Sónia Rocha.

Por exemplo, sentia que, encontro após encontro, o foco era na criação de uma relação entre as duas e no interesse em conhecer as minhas expectativas, medos e motivações mais do que propriamente na avaliação de parâmetros físicos. Vem sempre tudo dar à relação… Em consequência, sentia-me “mais grávida”, mais conectada com a minha bebé, mais recolhida, com uma paz interior e tranquilidade grandes, sem grande necessidade de procurar informação e/ ou validação de que tudo estaria bem ao mundo exterior. Eu sabia que estava bem. Prova disso foi quando a enf. Sónia me perguntou quando é que eu achava que ia entrar em trabalho de parto. Eu respondi sem hesitar que seria entre as 39 e as 40 semanas… que sentia a bebé muito descida e a fazer muita pressão. Estava mesmo convicta disso.
E às 39 semanas e dois dias entrei em trabalho de parto. Já sabia que, por ser um segundo filho, as coisas podiam avançar muito depressa, mas fui apanhada de surpresa pela rapidez do processo. Às nove da noite, saiu o rolhão mucoso e comecei a sentir aquilo que descrevi à enf. Sónia como umas «colicazinhas». Fui tomar um banho longo e uma hora e meia a duas horas depois, já identificava o que sentia como contrações que passaram rapidamente de dez em dez minutos para cinco em cinco minutos. Comecei a sentir-me desconfortável e decidi sair rumo ao hospital que ficava a uma hora de distância.

Dei entrada à 1h30 e a minha F. nasceu às 3h30 num parto natural na água.

Posso afirmar, sem vergonha, que até ao final, até sentir a cabeça da minha filha a sair dentro de mim, não acreditei que era CAPAZ.
As enf. Parteiras acreditavam que a minha bebé ia nascer, a minha bebé acreditava que ia nascer, mas eu não acreditei.

Depois de um período de dilatação muito rápido – cerca de meia hora depois de ter chegado ao hospital a minha bolsa de águas rebentou de forma espetacular e eu já estava com a dilatação completa – o período expulsivo foi o período mais desafiante para mim. Sentia um exacerbar violento da dor e repetia muitas vezes que não conseguia, não era CAPAZ, que ela não saía.
Sinto-me grata pelo espaço, carinho e abraços que a enf. Sónia me proporcionou para esse descontrolo e considero que ele foi necessário para o processo.

Quando finalmente entrei na banheira, a água quente amorteceu o impacto das contrações, mas elas continuavam, implacáveis e demolidoras…

Num momento de grande desespero, pedi a epidural e o anestesista, mas já não foi a tempo… A minha bebé queria mesmo nascer, ela vinha aí! Numa das contrações, senti algo diferente, uma ardência, uma pressão diferente. E na próxima, dei tudo por tudo e soltei o grito mais prolongado e forte de que tenho memória. A ardência aumentou e a pressão diminuiu. A cabeça da minha bebé saiu.
Saiu! Eu tinha sido CAPAZ! Depois disso, fiquei tranquila e serena.

Tinha conseguido, já não tinha dúvidas.

As pessoas à minha volta mantiveram-se calmas, falando em voz baixa e com palavras doces. A próxima contração demorou um pouco mais, mas eu sabia que tudo ia correr bem. O corpo da minha bebé saiu quase, pareceu-me, sem esforço, e ela veio para os meus braços, de olhos abertos, atenta, vital. Uma sensação indescritível.

Sei que tornei a repetir, entre o atónita e o extasiada: «Eu pensava que não era CAPAZ», mas só depois de ver a gravação desse momento, me apercebi de que o disse não uma, nem duas, mas três vezes. Esse é o poder das palavras que nos dizem em trabalho de parto. Quando uma mulher se sente segura, acarinhada e tem asseguradas as condições de privacidade e respeito, ela é CAPAZ.
A sensação maravilhosa de plenitude e amor que senti naquele momento acompanhou-me no pós-parto, que decorre de forma tranquila e serena. A minha bebé é tranquila e doce, atenta. A subida do leite foi pacífica, o processo de amamentação também. Não há medo nem dúvidas entre nós, a minha bebé e eu. O amor apaga isso tudo. Eu sei que sou a mãe dela e ela sabe quem eu sou. Um parto fisiológico suave e natural proporcionou-nos isto tudo.

Uns dias depois do parto, uma amiga muito querida perguntou-me: «Mudavas alguma coisa?» Eu fiquei em silêncio durante largos momentos. A memória da dor ainda estava bem presente e eu, qual animal ferido, retraí-me com essa recordação. Mas respondi: «Não vejo de que outra forma podia ser, para ter este resultado final…» Só sei que a memória da dor se desvanece todos os dias, e fica apenas o bem-estar, a plenitude, a sensação de que a natureza funciona e é poderosa, a sensação de empoderamento… ao passo que durante muitos meses amargos, quiçá anos, a memória do sofrimento pelo qual passei no meu primeiro parto roubado, me acompanhou e não diminuiu. Ele ainda está lá, mas apaziguado pelo amor.
Sinto que a palavra obrigada não mede o quanto estou grata à enf. Sónia por todo o acompanhamento prestado e pelo grande serviço que prestou à nossa família.
Muita gratidão por me fazer descobrir que era CAPAZ!
Com muito amor,
~ Ana, Cláudio, X. e F.


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.