Entrevista com Naoli Vinaver Entrevista

~ A Naoli Vinaver é uma antropóloga que se fez parteira. Certa altura começou a sonhar com partos, dia atrás de dia, começou a ler e a aprender. Quando deu conta estava a aprender a arte de ser parteira.
Activista do parto domiciliar.
Cuidadora do parto respeitado.
Uma inspiradora de mulheres, que nos chama a voltar à nossa inteireza. ~

 

O parto domiciliar.
Do ponto de vista do processo da mulher e trabalho de parto, quais são as vantagens de um parto em casa?

É bem simples. A mulher sempre vai reagir, vai expandir corporal e emocionalmente muito melhor quando ela está-se sentido à vontade, em confiança, na intimidade dela. E como o parto é um processo absolutamente dependente do instinto da mulher, no nível hormonal e no nível fisiológico, então a casa dela vai geralmente dar aquele espaço onde ela vai evoluir melhor. Agora, vai ter algumas excepções, de mulheres que culturalmente já estão programadas para se sentir mais à vontade no hospital, só que são mais raras. A maioria das mulheres, especialmente já em processo de parto, vai entrar nesse caminho fisiológico que depende muito da emoção dela, e a emoção em casa sempre vai ser muito mais relaxada, muito mais orgânica e natural. E para um parto se desenvolver naturalmente a premissa será que ela se sinta bem à vontade. Então nesse sentido a casa tem essas vantagens fisiológicas.

 

 

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A Arte da Parteira.
Como é juntar o tradicional e o contemporâneo? A ciência e as antigas tradições de parteira?

Eu acho que é impossível separar o moderno do antigo, porque nós fazemos parte de uma linhagem, a humanidade tem ancestrais, nós somos filhos da mãe e do pai, que são filhos das nossas avós, enfim, a linha familiar, ela não é quebrada, porque se não nós não estaríamos aqui.
E a tradição ela vem de um espaço de actuação onde ela funcionava bem, por isso é que sobreviveu. Eu sou antropóloga também, então eu conheço muito bem os aspectos tradicionais das culturas que sobrevivem, que se mantêm. E eles se mantêm porque eles são práticos, funcionam, têm um efeito positivo para a sociedade, para a humanidade, para a comunidade e para o ser humano.
Nas questões de parto, a tradição do parto vem das nossas ancestrais que são parteiras, que usavam ervas e certas técnicas de conforto e de saúde para a gestação e parto, elas ainda se aplicam muito bem hoje, porque nós não mudámos.

Nós só mudámos na parte cultural, na parte biológica, na parte fisiológica, continuamos sendo as mesmas mulheres.

Ao mesmo tempo eu acho importante a gente honrar o facto que existem vantagens na tecnologia e na ciência – enfim, na saúde – mas que nós temos que ter uma inteligência muito mais fina do que o que se está usando ultimamente. Acho que a inteligência fina vem para distinguir onde esse tecnologia é aplicável às vantagens fisiológicas de saúde emocional e física para a mulher e para o bebé no parto. Saber ver quando há vantagens. Mas quando ficam atrapalhando o processo, dando desconforto, e fazendo a mulher se sentir desvalorizada e doente no processo de parto, aí é que a tecnologia e a modernidade já não estão a funcionar, aplicadas ao ser humano. Daí eu digo, “antigo e moderno ao mesmo tempo”.

Mas, fisiologicamente, nós somos antigos.

A mulher que pare é antiga, não é uma parte tecnológica na mulher que vai parir, é a parte antiga. É a carne, o osso, os hormonas, é o instinto da mulher que vai parir.

Então, faz muito mais sentido que as técnicas tradicionais tragam muito mais vantagem para uma mulher que vai parir do que a tecnologia (salvo em caso extraordinários, aqueles raros, realmente raros, que precisam de uma ajuda tecnológica para a mulher e o bebé sobreviverem).

Só que é bem difícil nesta época, as pessoas já se acostumaram ao uso e o abuso da tecnologia, e não é fácil distinguir bem onde não é preciso usar. Quando nós não abusamos é mais fácil ver de fora e identificar esse abuso, a pessoa que está abusando já está muito acostumada a abusar e não vê.

É como quem depende muito do café ou do açúcar, essa pessoa não acha que é de mais, só que quem vê de fora nota, uma pessoa nervosa, que não consegue relaxar, por exemplo. A pessoa de fora sabe que se acalmasse um pouco, se deixasse passar uma semana sem abusar, aí ia começar o processo fisiológico normal, o estado nervoso ia passar e ia conseguir ter uma qualidade de vida talvez melhor. Mas a pessoa que já se acostumou não consegue nem imaginar a vida sem essa “intervenção”.

Eu acho que agora nós precisamos olhar com novos olhos tudo o que fazemos.
Tudo.
Inclusive quem se considera “humanista”, no parto, que faz parte do movimento do parto humanizado, tem que se policiar muito, se avaliar muito, se questionar muito sobre tudo o que nós fazemos no parto, se é mesmo necessário ou se é só um hábito. Se é uma vantagem para a mãe e para o bebé, ou é uma vantagem para você se sentir tranquila como profissional.

Então é aí onde nós temos que nos questionar e olhar para o ser humano com muito mais respeito e valorizando muito mais o potencial biológico, fisiológico que a mulher tem para parir.

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Como nutre a relação parteira – grávida? Sente que essa relação influencia o desenrolar do trabalho de parto?

Sim, absolutamente! Pela mesma questão que a mulher quando ela vai engravidando, gestando e começa o trabalho de parto, ela vai entrar nesse espaço intenso físico e emocional de parir, muito do que vai acontecer no parto depende do estado emocional, e esse é um aspecto que a maioria das pessoas não contempla.

Já com a ciência, com o desenvolvimento da ciência, tem-se separado o corpo, da alma e coração. Essa coisa de corpo e mente separado – nem se fala de alma e coração! – mas mente e corpo já se separou há muito tempo atrás pela medicina.
A medicina, basicamente – falo especialmente pela medicina que cuida ou tenta cuidar da gestação e do parto – não toma em conta a parte emocional, e é um absurdo.
Como nós, que somos parteiras e acompanhamos mulheres – uma, outra e mais outra – nos damos conta que a mulher quando confia e se sente à vontade, se sente respeitada, sentindo que a intimidade dela não vai ser violentada, o desenvolvimento do parto é absolutamente tocado por esse facto. Tanto positivamente, quando o respeito e o calor humano está presente; quanto menos positivamente, quando existe uma frieza, uma violência, uma falta de respeito.

Essa relação entre parteira e mulher é básica para a mulher poder se entregar.

Parecido com uma entrega entre amantes, no sentido em que a mulher que vai parir vai desenvolver dentro dela um processo do parto parecido com o clímax sexual.
A parteira, não é que ela vai ser amante, não! Mas ela tem que se prover desse espaço de confiança, de calor e de respeito que qualquer ser humano precisa para um evento sexual acontecer positivamente.
É assim que nós contemplamos cultivar uma relação de respeito e de segurança. Mesmo! Eu não estou falando só de luxo, mas de que o processo fisiológico vai ser mais seguro e mais saudável se a relação entre o cuidador e a pessoa cuidada for respeitosa e calorosa. Não é “só emocional”, já que o corpo, a mente, a alma e o coração são Um.

– Quais os factores que ajudam a que o parto se revele num clímax sexual, de prazer?

– Tem que ter exactamente os mesmo factores que você escolheria para um encontro romântico.

Tudo o que pode te desagradar, sexualmente, tem que ser evitado no parto. Tudo o que é brochante, tudo o que vai tirar o tesão. No parto é exactamente isso! Aqui já tens a resposta – tudo o que seria positivo para um encontro romântico, sexual, de sensualidade será positivo para o parto – porque nós temos que parar de pensar na sexualidade como uma questão genital, nós temos que tomar em conta a parte sexual emocional.
Quando nós pensamos num encontro sexual com velas, talvez uma lareira com fogo quentinho, talvez uns cobertores suaves para encostar e relaxar – a mesma coisa para o parto.

A mulher é sensorial.
Quem vai parir vai sentir o cheiro, vai sentir as texturas das roupas, ela vai sentir o calor ou frio do ambiente, vai querer comer alguma coisa que esteja acessível.

Que o ambiente não seja frio, não seja hostil, não seja pasteurizado, nesse sentido neutro e rígido. Tem que ter os elementos contrários, redondos, suaves. Ali, a mulher, vai conseguir sentir essa capacidade de entrega e de expansão que se requer para o parto acontecer bem. E eu estou falando de um parto não só fisicamente bem sucedido, mas emocionalmente satisfatório, onde a mulher consegue se entregar para sentir tudo o que vai acontecer dentro dela.

Porque a experiência de parto não é uma experiência só do colo a abrir, do bebé encaixar e sair pela vagina – é um evento onde a mulher vai sentir muita coisa intensamente, vai elaborar processos desconhecidos para ela. Ela vai de uma forma bem tangível renascer.

Para nós renascermos nós temos que entregar muita coisa que não precisamos mais: medos, inseguranças. Temos que conseguir morrer, e para morrer temos que nos entregar, confiar. Morrer no sentido de renascer com mais força como mulher. Então vai morrer a menininha medrosa, mas vai renascer a mulher desse bebé, que é poderosa, que é capaz de criar um ser humano.

Então o ambiente tem que ser aquele bem confortável, bem gostoso, onde ela não sinta hostilidade nenhuma.

 

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O parto faz parte do processo de empoderamento da mulher?

Claro! Sim, absolutamente! Qualquer parto. Acho que mesmo os partos mais rápidos, aqueles que não tem desafio aparente nenhum.
Tem mulher que fala que pariu muito fácil, muito bem, muito rápido, mesmo assim é um processo de se desafiar. Ganhar um bebé implica uma nova responsabilidade, grande, então é necessariamente um processo de empoderamento.

Porque, o homem olha para uma mulher com um bebé no colo e pensa: “ah que lindo, que bonitinho”, mas é uma entrega muito grande amamentar o tempo todo, cuidar das fraldas, se o bebé não está confortável achar o motivo desse desconforto, como vamos fazer para uma outra pessoa estar feliz, estar saudável, estar quentinha, estar com tudo o que precisa para se desenvolver física e emocionalmente, é uma enorme responsabilidade. E para essa responsabilidade poder ser encarada a mulher tem que se sentir poderosa.
Eu acho que aquela situação, a depressão pós-parto, ser encarada como um processo normal é absurdo. Um processo de depressão pós-parto está a mostrar que teve alguma coisa que não permitiu a mulher se sentir empoderada, então nós temos que nos questionar e olhar o que é que não estava certo para a mulher. Tentar mudar, para que as mulheres que vão parir no futuro estejam bem acompanhadas para poderem se sentir empoderadas.

O parto é um processo intuitivo?

Sim. Intuitivo. Mesmo se a mulher vai ler livros, guias de maternidade, talvez métodos para encarar o trabalho de parto, respiração… Tem muita mulher que faz aulas de preparação para o parto. Tudo bem, é bem interessante, eu acho que alimenta o intelecto, alimenta a confiança da mulher. Alimenta, especialmente numa época que as mulheres não partilham necessariamente entre si as suas intimidades e as sabedorias ancestrais, as sabedorias de ser mãe e de ser mulher.
Aquela intuição e aquele instinto necessários para qualquer mulher poder parir funcionam quando a mente está tranquila. Se a mente está tranquila, se ela está em paz, ela vai conseguir sentir, ela vai conseguir Entregar para o resto do Ser dela o tomar conta do processo do parto. As tais aulas, eu acho que funcionam muito bem para acalmar a mente, para nutrir de conhecimento, para a mulher saber que na hora H ela vai parir através do instinto dela, através da intuição do que ela vai precisar fazer, se ela estiver com uma equipa sensível, que permita e colabore para que ela possa seguir as próprias vozes internas dela.
Mas é importante saber que mesmo que ela não tivesse uma pessoa a acompanhar o parto… – imagina uma mulher parindo na floresta, ou no táxi! Tem mulheres que parem muito rápido – ela vai saber o que fazer, ela vai ter uma voz interna bem forte, instintiva, mas também intuitiva, que vai levar ela para o caminho do Bem, em termos de saúde e também de preservação da integridade dela. É isso, é bem animal mesmo.

Considera o parto um momento espiritual?

Absolutamente. Eu acho que os animais são os seres mais espirituais que tem na terra, e as plantas também, mesmo que a gente não veja eles mexendo muito agilmente.
O ser humano esquece que nós somos animais, que nós fazemos parte da perfeição da natureza.

A perfeição da natureza é um evento que conecta uma coisa com outra, e o mundo espiritual não é nada mais complexo do que isso, é tudo se conectando, uma coisa com a outra, ligada por linhas invisíveis, que nós por vezes temos uma tendência a esquecer, e é quando nós nos lembramos e reconhecemos os vínculos e a conexão que sentimos que vivemos uma espiritualidade completa.

O parto é um evento que conecta muitas coisas simultaneamente. É um evento intenso, de energia vital em ebulição, que dá para sentir com clareza e que vai conectar a Mulher com o resto da Terra, com os elementos. Vai conectar ela com as gerações anteriores mas também com as futuras. Vai conectar ela com o universo inteiro, com as águas do planeta, com os rios, com os mares, com a lua. Nós conectamo-nos no processo de parto com a confiança universal.
Nós temos que apreciar também o parto em níveis muito diferentes, os medos acumulados durante a vida, e como eles chegam a um ponto de ter que desaparecer. Quando nós parimos, quando o bebé nasce e nós renascemos como mulher é muito espiritual esse evento, onde conseguimos evaporar medos, substituí-los por coragem, por fé, por uma alegria pelo que vem, e receber o bebé.

O parto – quem não conhece e quem não reconhece a espiritualidade implícita no processo de parto não sabe nada de parto.

Não quer dizer que as pessoas profissionais que acompanham o parto não vão descobrir essa espiritualidade implícita, mas isso vai-se descobrindo com a experiência e com a observação. Qualquer um que acompanha partos, seja médico, pediatra, parteira, doula, se ficar quietinho e observar a mulher no processo de parto dela vai conseguir assistir e apreciar esses processos de conexão espiritual, se for sensível e se for humilde o suficiente.

 

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O parto é rito de passagem, de iniciação, para “onde”? Que mudanças nota na mulher?

Acho que de alguma forma falei já um pouco disso. A mulher renasce como mãe, mesmo se ela já é mãe ela vai renascer como mãe dessa pessoa, dessa criança que nasceu. É um rito de passagem, de deixar para trás egoísmos, inseguranças, medos que atrapalham na vida.
Então, quando você vai parir, você não está só parindo um ser humano novo, você está parindo junto com esse ser humano uma confiança muito grande para vida dessa pessoa ser acompanhada de uma melhor forma, de uma forma muito específica que apoia ESSE ser, da forma específica que ele precisa.
Então é um rito de passagem em todos os níveis… físico, você tem às vezes que aguentar sem dormir muitas horas, sem descanso, sem achar uma posição confortável. É um rito de passagem que coloca a mulher em desafio.
Ela tem que encarar aqueles medos, aquelas inseguranças que ela talvez herdou das mulheres da família dela, ou das mulheres da comunidade. Nesta época vivemos uma cultura do medo, muitas mulheres que engravidam não têm o conhecimento que parir é natural, que parir é gostoso. Elas já têm uma herança de insegurança e de medo. Então o rito de passagem é encarar com coragem aquele passo que tem fama de ser muito dolorido, muito perigoso e muito desafiante.

As boas notícias são que uma mulher que engravida já tem tudo o que ela precisa dentro dela, é só esperar pelo bebé se desenvolver, para a placenta se estabelecer, nutrir o bebé, o líquido amniótico aumentar, o bebé afinar os movimentos, os pulmões, o cérebro, tudo.
E simultaneamente a mulher vai desenvolvendo uma sensibilidade muito grande (acho que toda a mulher que já engravidou sabe do que estou falando), da sensibilidade extrema a tudo. Ao contexto onde ela mora, as pessoas, aos bichinhos, e especialmente ao bebé que ela tem.

Quando chegar o dia de ela parir, vai ser aquele dia que ela vai ao mesmo tempo sentir muita vontade desse dia chegar e ao mesmo tempo vai sentir um certo receio porque está carregado de muito mito… e de um facto verdadeiro, sim, porque o parto É um desafio, tanto físico como emocional para qualquer mulher, mesmo quem já pariu em casa, quem já tem filho, a gente sabe que parir não é uma brincadeirinha, é bem forte! É uma experiência grandiosa, imensa! E através dessa experiência a mulher se sente ao mesmo tempo muito poderosa, como uma energia vital, mas também muito pequena e humilde porque é uma energia que passa através de si. É uma energia… você não é quem gera essa energia directamente, porque é a Energia da Vida que passa através. Mas ao mesmo tempo você é como se fosse uma Deusa parindo. É muita coisa junto, e no dia do parto vai-se concretizar esse momento. E qualquer mulher que engravida fica na expectativa. E é um rito de passagem mesmo.

Numa conferência disse:

“Uma mulher que vai parir em 2005 vai parir a original, a que pariu mil gerações antes”.

Quase como se uma mulher tivesse acesso a um inconsciente colectivo de parideira…

Sim, porque qualquer mulher, inclusive uma bebé que nasce hoje, uma bebé recém-nascida ela já tem tudo dentro dela, não só fisicamente – os ovários, os óvulos, o sistema reprodutivo completo – mas cada célula do nosso organismo carrega história, não só a capacidade biológica de se reproduzir, mas também a memória do viver, de como sobreviver. Não só no básico, mas com espiritualidade, com dignidade, com grandeza!

O arquétipo está activo em cada mulher que vive hoje. Não precisa nem ser no plano consciente, mas quando nós somos conscientes é ainda mais gostoso porque nós reconhecemos essa voz.

Quando você de repente têm um bebé as vezes sai uma frase da tua boca que você não reconhece como própria, você reconhece de alguma avó, de alguma ancestral antiga, as vezes você nem concorda com o que falou e já fica tentando ajeitar, mas é que nós somos história, nós somos memória.

Nós somos provavelmente uma percentagem bem pequena do que reconhecemos e outra percentagem bem grande nós temos que descobrir no dia a dia.

E o parto é aquele evento grandioso que nos capacita a nós descobrirmos, a nos conhecermos. Tem muita mulher que fala que antes do dia do parto dela ela não se conhecia, ela nunca tinha tirado a máscara até ao dia do parto. Acho que a cada filho que nós temos, nós nos descobrimos de novo. E aí nós temos que um dia falar… bom…

não vou necessariamente ter mais filhos para conseguir me descobrir mais, tem outras formas também, mas para uma mulher a mais poderosa é o parto.

A água no parto, como a sente?

A água é um elemento feminino, porque é fluído, porque é quentinho e porque nos permite reconhecer-nos.

O processo da gestação e do parto é absolutamente aquático. Eu digo que a profissão de parteira coloca-nos em contacto com todos os líquidos do corpo, é sangue, é sémen, é fluídos vaginais, é lágrimas, é saliva, é suor, é urina, líquido amniótico.

É muito natural para uma mulher que está parindo querer entrar na água, querer se colocar em baixo da força do chuveiro para sentir a batida da água quente. Entrar numa banheira de água faz para a mulher sentir quase como se o parto tivesse acalmado. É aquele lugar onde nós podemos relaxar e nos entregar de uma forma diferente do que encostadas num lugar mais rígido, como seria uma cama, um sofá ou uma cadeira, isso tem uma rigidez que pode às vezes também ser interessante… Mas é bem notável que mulher que está em trabalho de parto, quando entra na água sente um alívio, uma sensação de: “finalmente cheguei onde posso relaxar”.

São aqueles mistérios… porque é que as pessoas quando vão de férias sempre escolhem algum lugar que tem água? Cachoeira, rio, mar… A água tem uma capacidade de nos ajudar a relaxar. E uma mulher que está em trabalho de parto precisa relaxar, fisicamente, corporalmente, para os músculos, os tecidos, os ligamentos, os ossos, poderem amolecer e abrirem espaço para o bebé passar.
Não é através de uma tensão muscular que o bebé vai nascer. Às vezes é uma combinação com o movimento da mulher fazendo força para o bebé ser empurrado para fora, mas não pode ser feito se a mulher simultaneamente não relaxar a musculatura. É uma abertura, também interna, para permitir a passagem do bebé. Não é todo o dia que a gente deixa passar 3,500 Kg ou 4kg de pessoa entre os nossos ossos e tecidos vaginais! Então a água vai automaticamente nos permitir esse relaxamento que ajuda tanto no parto.

Tomara que toda a mulher pudesse ter essa possibilidade, de uma boa banheira de água quente. Tão simples de ter e tão pouco reconhecido.

Como foi ser parteira de si mesma?

Eu na verdade, nos meus três partos escolhi ter uma parteira junto. Eu tive uma parteira, só que eu pedi para a minha parteira, especialmente no meu terceiro parto( e no segundo também, que foi a mesma parteira), pedi para não fazer nada que não precisasse ser feito.
Então apareceu como se não tivesse parteira, e eu acho que é a melhor parteira que se pode ter, aquela que não fica tentando aparecer e sendo protagonista do parto. A protagonista é a mãe e o bebé.
Eu tive uma parteira, e a minha decisão de ter foi principalmente porque eu não queria ter que ser parteira do meu próprio parto se tivesse algum acontecimento de urgência. Se tivesse alguma emergência eu queria poder saber que a minha anja guardiã, que era a parteira, podia agir e socorrer se precisasse. Mas nessa confiança e nessa sensação de cuidado que sabe que a mulher, a maioria das vezes não precisa, porque tudo vai fluindo bem, confiando de que está à disposição tudo o que precisa, se houver necessidade.
Eu não saberia dizer realmente como teriam sido os meus partos se essa “anjo da guarda” não estivesse lá. Eu sei que teria corrido bem, porque eu acho que era meu destino também os partos serem bons e meus filhos nascerem com saúde, mas eu acho que o elemento de confiança de ter uma parteira ali foi bem grande, bem gostoso. É como quando você vai fazer uma caminhada de grande aventura numa paisagem que você não conhece, às vezes é legal ter um guia que fala: “olha esse rio tem aqui uma curva que dá para cruzar melhor se você cruzar lá”. Enfim, eu já era parteira, aí a minha parteira não teve que explicar nada realmente, mas se tivesse eu sabia que ela ia colaborar e nós íamos fazer o necessário juntas, sem eu me sentir violentada de forma alguma.
Isso é o ideal, ter uma parteira bem parceira que possa colaborar do teu jeito, sem impor nada, mas se precisar possa agir rapidamente para a mãe e o bebé ficarem bem, sempre que possível. Que a vida às vezes tem surpresas, e nós também não somos Deus, mas se cada um presente fizer a sua melhor parte tem uma grandíssima tendência a tudo sair bem.

A força feminina enfraquecida revela-se numa sociedade doente?

É uma pergunta complexa porque quando nós falamos em doença parece que já é um estado final, mas a doença tem como voltar para a saúde, e a saúde também tem como voltar para a doença, acho que são fluxos de energia. E uma sociedade onde a mulher não está sendo permitida a contactar a sua força, com o seu poder como género feminino, está demonstrando uma fase de doença sim, no sentido em que qualquer sociedade saudável precisa tanto do feminino como do masculino saudável.

No meu olhar, uma sociedade saudável seria aquela onde o homem ficasse muito feliz de compartilhar o poder com a mulher. Não necessariamente que a mulher fosse a dona do planeta, isso também não seria a mostra de saúde.
Acho que faz já muitos anos que nós estamos vivendo em sociedades patriarcais, onde o homem já tem conquistado economicamente, politicamente, em muitos âmbitos, socialmente, um poder que não está muito à vontade de devolver para a mulher.

Então o parto, e a capacidade de decisão sobre o corpo da mulher, sobre os eventos do corpo – mas também a questão política dos países do mundo inteiro – acho que se viam muito favorecidos se a mulher pudesse parir como ela escolhe, com muita dignidade.

Conhecer e reconhecer o imenso poder que a Mulher carrega, o potencial poderoso que ela carrega, e que iria provavelmente se desmanchar e se evidenciar nas decisões políticas e económicas dos nossos países, das nossas sociedades – eu acho que isso seria muito benéfico para o mundo.

Eu acho que o género masculino deveria olhar com mais atenção, eu falo sobre o género masculino em referência ao sistema médico que é maioritariamente masculino, e que é aquele sistema que se sente mais ameaçado em questão de permitir a mulher parir do jeito que ela quer. Se o género masculino do sistema médico pudesse entender que uma mulher satisfeita, empoderada, vai ser uma mãe muito mais alegre, segura e a passar para as gerações seguintes uma confiança na vida, um olhar de trabalho em conjunto, de procurar que todo o mundo esteja com saúde e força, a sociedade ia beneficiar muito.

Eu acho que realmente existe uma luta de poder muito grande e esse poder é poder económico, não é a toa que a renda mensal do mundo vai em 90% para o género masculino, sendo que muito do trabalho pesado está sendo feito pelo género feminino, é um absurdo!
Existe um desequilíbrio muito doente entre os poderes feminino e masculino nas sociedades modernas, muito doente… e eu acho que tem que ser trabalhado com muita paciência e com muita amorosidade (mas também sem perder o foco), que a mulher possa recuperar a capacidade de decisão, de poder sobre ela própria, sobre as questões que tocam a vida dela. E com certeza começa pelo acto de parir, pela reprodução, pela dignidade sexual, tanto sexual geral como sexual no parto.
E eu tenho esperança, sou uma pessoa idealista, gosto de avançar e direccionar a minha energia em caminhos de mudança positiva, que não é, mesmo eu sendo feminista, não é só para a mulher, porque quando é bom para um é bom para todos, então tem que ser bom para a mulher para também ser bom para todos. Essa força feminina tem que parar de ameaçar o homem, porque o homem só vai ficar mais feliz se a mulher ficar mais feliz também.

 

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Sente que ficou alguma coisa por dizer?

Sempre fica… (risos) É só cutucar que aparecem coisas por dizer. Mas acho que nós temos bastante alimento para reflexão. Inclusive acho importante nós simultaneamente trabalharmos para fora e não pararmos de trabalhar para dentro. É fácil falar “os outros não fazem; nós somos vítimas” mas isso não ajuda. Acho que temos que parar de ficar na posição de vítima e começar a movimentar. Para onde é que eu gostaria que fosse a minha vida? Então vai! Como é que eu gostaria de me relacionar com o meu companheiro? Então vai! Começa a movimentar, com muito amor, tudo tem que ser com amor, porque o Amor é a maior força do universo, sem ser espiritualista de mais. É um facto que quando você vai com um sorriso e um carinho tentando que a outra pessoa abra o coração para entender, aí os movimentos realmente começam a aparecer.

Mas acho importante nós questionarmos a própria vida, não só os outros. Tudo começa a partir do lugar onde nós estamos. E aí é também uma combinação entre paciência e perseverança – não parar. Não parar e também não ficar com raiva, que a raiva é fria. Eu acredito que cada vez que uma mulher vai parindo, com essa força e dignidade que nós mulheres temos, ela vai contagiando, vai contando, vai sendo mais feliz, mais capaz de viver plenamente, e isso necessariamente vai já ter um efeito nas pessoas que a rodeiam. É uma questão de continuar nesse caminho. É isso.

 

~ UAU, foi um prazer para nós encontrar a Naoli assim no nosso caminho.

Seguimos juntas, gratas, de coração cheio. ~

(Imagens de Patrícia Manhão)


Apaixonada pelo processo de desenvolvimento humano. Apaixonada pelo Yoga. Apaixonada pelo parto. Apaixonada pela Vida. Sou Mulher. Sou Mãe. Sou Alma.