[Relato de parto #20] Patrícia Calixto Relatos

No dia 11 de julho de 2013, às 18h, começo a sentir as primeiras contracções, ainda no conforto do meu sofá. Pela 1h30m da manhã as contracções aumentam e eu e o meu namorado decidimos pôr-nos à estrada.

Levamos connosco a esperança de que a bolsa de águas não rebente e o meu bebé aguente os mais de 120 km que temos de percorrer para cumprir um sonho: o nosso bebé vai nascer na água.

Chegamos às urgências do Hospital de São Bernardo às 3h da manhã e levam-me de imediato para a obstetrícia, sem o meu namorado. Nesse espaço sou atendida por uma enfermeira simpática que mede a dilatação e faz o registo das contracções e do batimento cardíaco do nosso bebé. Nessa altura já me sentia sozinha e perguntei à enfermeira se ia ficar internada. Ela diz-me que estou em trabalho de parto e que vai chamar o obstetra.
Quando o senhor chega (agora não me lembro do nome dele mas a verdade é que na altura quis tomar nota, para fazer reclamação, felizmente o atendimento posterior foi tão compensador que me esqueci completamente deste episódio com o Obstetra) – lembro-me apenas que era um senhor de meia-idade e com cabelo grisalho – e que em nada se comportou com um “Senhor”. Informou-me de que ia ficar internada e no bloco de partos. De imediato digo que quero o meu namorado comigo, ao que o obstetra me diz que ele só pode entrar quando o bebé estiver para nascer. Mostro-lhe o meu plano de partos e digo-lhe que quero o meu namorado ali (!).

Espanta-me que um Obstetra, sabendo que as contracções já eram fortes (palavras da enfermeira simpática que as mediu), e que ocorriam de 3 em 3 minutos, não tenha a sensibilidade para perceber que eu precisava de concentração e de alguém que me desse conforto. A única pessoa que o poderia fazer era o meu namorado.

Mas o “senhor” continuava a insistir, viu a última ecografia, onde constava a informação de “feto grande” e pergunta:
– Sabe que tem um bebé grande? – Ao que respondo,
– Sim, sei. – E ele acrescenta,
– Sabe que pode correr riscos com um bebé grande se realizar esse tipo de parto?

Eu respondo-lhe que tenho uma gravidez normal, que a minha obstetra assinou a confirmar isso, e que por esse motivo nada nem ninguém me faria mudar de ideias. Insisti que chamasse o meu namorado o que ele aceitou, finalmente. Quando o meu namorado chega, este médico, que é tudo menos bom profissional, pressiona o meu namorado, na esperança de que ele me fizesse mudar de ideias, exactamente com as mesmas perguntas que me fez a mim.
Pressão que só o cansou a ele, pois nós estávamos preparados, tínhamos sido informados que muito provavelmente iríamos encontrar um obstetra manipulador. Estávamos preparados!

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Entramos finalmente no Bloco de partos, e aí… só tenho a dizer maravilhas dos profissionais que nos receberam!
A equipa do Enfermeiro Chefe Vitor Varela realizou um atendimento e acompanhamento exemplares, com dedicação a mim e ao meu bebé.
Ali senti que tinha uma nova família.

Ao meu redor tinha seis enfermeiras, e não me lembro do nome de todas, porque o momento é vivido com tanta concentração que não é possível decorar nomes. Mas todas foram maravilhosas.
Tinha a enfermeira Inês, que estava grávida nessa altura e que me acompanhou sempre, ajudou-me a ultrapassar as contrações mais fortes, dentro e fora de água, foi ela que agarrou o Gabriel (meu filho) para mo entregar, e que o ia molhando quando estava ao meu colo, e até foi ela que ajudou a dar os poucos pontos que tive de levar. A enfermeira Nídia Nunes também esteve nesse dia presente e fez o registo do Gabriel.

A todas as enfermeiras que me ajudaram a entrar e sair da piscina, a respirar, a sorrir nos momentos mais difíceis, muito obrigada!
Obrigada pela confiança em nós, enquanto casal e bebé, por acreditarem que éramos capazes, por me darem carinho e conforto, por me respeitarem enquanto pessoa e mulher, por vigiarem atentamente o meu menino, pelo profissionalismo.
Cumpriram o nosso sonho como se só existíssemos nós naquele momento, tiraram as fotografias, colocaram a música que levámos – tudo o que planeámos foi pormenorizadamente realizado.

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O Gabriel só nasceu às 12h23m desse dia, pelo que apanhamos a mudança de turnos e o Enfermeiro Chefe Vitor Varela acabou por assistir ao parto e por ser, também ele, uma peça fundamental, quando disse:

“Patrícia, agora o seu filho nasce quando a Patrícia quiser.”

E quando senti a próxima contracção, o meu bebé nasceu.
E no final tivemos espaço para brincar! Nós não sabíamos o sexo do
bebé, mas todas as enfermeiras já sabiam que eu desejava muito um menino, (o “meu menino”). E quando me disseram, a brincar que era uma menina, fiquei sem palavras, mas a enfermeira Inês disse tudo o que queria ouvir:
“Não é nada, é um menino!”
Foi o momento mais feliz da minha vida. Não mais me esquecerei do rosto da enfermeira Inês.

Hoje, se voltasse a engravidar, só poderia pensar em ser mãe naquele bloco de partos, com aquela equipa fantástica.
Os mais de 120 km valeram a pena, por tudo o que vivemos!

~ Patrícia Calixto


Um coletivo de mães que fomentam o Parto na Água em Portugal.